Estratégia nacional de inteligência artificial do Canadá: A IA para todos

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Há documentos que se lêem e se esquecem. E há documentos que nos obrigam a parar. A Estratégia Nacional de Inteligência Artificial do Canadá, publicada em 2026 pelo governo federal sob o título «L’IA pour tous» — a IA para todos —, é do segundo tipo. Não porque seja perfeita, nem porque o que o Canadá faz sirva diretamente para Portugal. Mas porque é, até hoje, uma das apostas mais completas e honestas que qualquer democracia ocidental colocou por escrito sobre como quer navegar a era da inteligência artificial — e porque coloca a escola, os professores e os alunos no centro dessa navegação.

Vale a pena ler com atenção o que o Canadá decidiu, e depois perguntar, como acontece sempre neste blogue: e nós, o que fazemos?

Um país que inventou a IA moderna e percebeu que isso não chega

O documento começa com um dado que poucos conhecem fora do mundo académico: a inteligência artificial moderna nasceu no Canadá. Os trabalhos de Geoffrey Hinton — Prémio Nobel —, de Yoshua Bengio e de Richard Sutton — ambos premiados com o Turing Award, frequentemente descrito como o «Nobel da Computação» — são a base conceptual dos sistemas que hoje usamos. O ChatGPT, o Gemini, os modelos de geração de imagem, os sistemas de tradução automática: todos bebem, de forma direta ou indireta, de investigação desenvolvida em universidades canadianas.

Mas o Canadá teve a lucidez de reconhecer que ter inventado algo não garante colher os seus frutos. Os dados que o próprio governo apresenta são incómodos: apenas 12% das empresas canadianas usam IA na sua atividade — contra 29 a 42% nos países nórdicos, 26% na Alemanha e 18% em França. Nas pequenas e médias empresas, a taxa cai para cerca de 8%. E apenas 24% dos cidadãos declaram ter recebido alguma formação em IA.

O problema mais profundo, porém, não é técnico nem económico. É um problema de confiança e de literacia. O Canadá classifica-se em 44.º lugar entre 47 países avaliados em formação e literacia em IA, e em 42.º em confiança nos sistemas de IA — segundo um estudo global da KPMG com a Universidade de Melbourne. Menos de metade dos canadianos acredita conseguir usar ferramentas de IA de forma eficaz. E a população está aproximadamente dividida entre quem vê a IA como benéfica (34%) e quem a considera prejudicial (36%), sendo que metade a vê como uma ameaça à humanidade.

É desta tensão — entre a liderança na investigação e o atraso na adoção, entre a promessa tecnológica e a desconfiança pública — que nasce a estratégia. E é precisamente nesta tensão que a escola entra como elemento central.

Seis pilares, e o segundo é para a escola

A estratégia organiza-se em seis pilares. O primeiro trata da proteção dos cidadãos e da democracia. O terceiro, da adoção da IA nas empresas. O quarto, da soberania tecnológica em infraestrutura e computação. O quinto, do apoio a campeões canadianos no setor da IA. O sexto, das parcerias internacionais.

Mas é o segundo pilar que mais diretamente interpela quem trabalha em educação: «Dar a todos os canadianos os meios para ter sucesso». Este pilar reconhece que um país não prospera na era da IA se a sua população não se sentir capaz de a usar. E estrutura-se em três dimensões que merecem ser lidas devagar.

A primeira é a literacia — compreender o que é a IA, como funciona, onde pode ser útil, e quais os seus riscos e limites. O documento afirma sem rodeios que a literacia em IA é «essencial para uma utilização segura e esclarecida, quer seja na escola, no trabalho, em casa ou na comunidade».

A segunda é a oportunidade — garantir que a IA enriquece a vida profissional e pessoal, em vez de a empobrecer. Aqui o texto é claro: à medida que as funções evoluem, governos, empregadores, instituições de ensino e sindicatos têm de colaborar para alargar o acesso à aprendizagem e criar caminhos para os empregos gerados pela IA.

A terceira é a participação — o princípio de que os cidadãos devem poder moldar ativamente a utilização da IA na sua vida, no seu local de trabalho e na sua comunidade. Incluindo, de forma explícita, que os trabalhadores e os profissionais contribuam para orientar a adoção da IA nas suas organizações.

Não é difícil reconhecer aqui um vocabulário que ressoa com os debates que vão acontecendo nas escolas portuguesas — com maior ou menor formalidade, com maior ou menor urgência.

O que o Canadá vai fazer, concretamente

Os documentos de estratégia valem muito pouco sem medidas concretas. A estratégia canadiana apresenta várias, e algumas são particularmente relevantes para o setor da educação.

Em primeiro lugar, o governo compromete-se a criar uma Iniciativa Nacional de Literacia em IA, com formação de base acessível a todos os cidadãos. Esta iniciativa prevê chegar a um milhão de estudantes do ensino superior em início de percurso e a mais de 3 000 professores, através de kits pedagógicos para uso em sala de aula. A formação é gratuita e inclui módulos práticos e conteúdos setoriais.

Em segundo lugar, o governo prevê investir 30 milhões de dólares no programa CodeCan, que financia organizações sem fins lucrativos para oferecer formação gratuita em competências digitais — incluindo programação, IA e tecnologias emergentes — a jovens desde o pré-escolar até ao 12.º ano e aos seus educadores, com foco particular nos grupos sub-representados.

Em terceiro lugar, o Canadá compromete-se a garantir que todos os estudantes do ensino superior tenham acesso a agentes de IA fiáveis — ferramentas pessoais e funcionais colocadas nas mãos da próxima geração de trabalhadores, investigadores e inovadores.

Em quarto lugar, o documento anuncia a criação de até 90 000 empregos, estágios e colocações ligadas à IA para jovens canadianos, incluindo apoio a pequenas e médias empresas e a organizações sem fins lucrativos, até 2031.

Paralelamente, o texto descreve em pormenor o trabalho já em curso do Alberta Machine Intelligence Institute (Amii), que forma anualmente 125 000 estudantes em conhecimentos e competências ligadas à IA, apoia mais de 1 000 professores do ensino básico e secundário em mais de 400 escolas, e contribuiu para a formação em literacia em IA de mais de 60 000 alunos. A estratégia quer escalar este modelo a nível nacional.

A proteção das crianças não é um apêndice — é um pilar

Algo que merece ser destacado com clareza: a estratégia canadiana não trata a proteção das crianças como uma nota de rodapé nem como uma preocupação secundária. Está inscrita no primeiro pilar, ao lado da proteção da democracia.

O documento reconhece que os deepfakes já são utilizados como forma de violência sexual, em particular contra mulheres e crianças, e que os algoritmos com vieses podem causar danos a comunidades vulneráveis. O governo compromete-se a modernizar a legislação sobre privacidade, a apresentar nova legislação sobre segurança online com foco especial na proteção das crianças, e a criar ferramentas legais para combater a desinformação gerada por IA em contexto eleitoral.

Esta dimensão é incontornável para quem trabalha em escolas. A IA que os alunos já usam — e que continuarão a usar, com ou sem orientação dos adultos — não é neutra. Produz conteúdo, influencia decisões, pode ser usada para manipular ou para proteger. A literacia em IA não pode ser dissociada da literacia mediática e da educação para os direitos digitais.

O que a experiência canadiana diz aos professores portugueses

Seria fácil ler esta estratégia com um certo desânimo comparativo. O Canadá tem recursos que Portugal não tem. O contexto histórico é diferente. A escala é incomparável.

Mas há lições que não dependem da escala.

A primeira é que a confiança precede a adoção. O Canadá percebeu que a resistência dos cidadãos à IA não é irracional — é o resultado natural de uma literacia insuficiente e de experiências negativas. Antes de perguntar «como usamos IA na sala de aula?», talvez valha a pena perguntar «o que sabem os nossos alunos sobre IA?» e «o que sabemos nós, professores?».

A segunda é que a formação de professores não é opcional. A estratégia canadiana não aposta apenas na formação dos alunos. Aposta, com igual determinação, nos educadores. Duplicar o número de professores formados em literacia em IA não é um objetivo de segundo plano — é uma condição para que tudo o resto funcione.

A terceira é que a IA na escola não pode ser apenas uma ferramenta de produtividade. O objetivo não é que os alunos usem IA para escrever melhor ou mais rápido. É que se tornem «atores informados numa sociedade moldada por esta tecnologia» — nas palavras exatas do documento canadiano. Isso implica ensiná-los a identificar vieses, a recontecer desinformação, a compreender os riscos para a privacidade, e a questionar os usos inapropriados.

A quarta é que a soberania tecnológica começa na escola. O Canadá investe na construção de infraestruturas de IA soberanas precisamente porque percebeu que depender de plataformas estrangeiras é uma vulnerabilidade estratégica. Para um país como Portugal, esta lição tem uma dimensão adicional: os jovens que hoje aprendem a usar ferramentas de IA sem espírito crítico tornam-se adultos que delegam decisões em sistemas que não controlam, não compreendem e não podem contestar.

Clicar na imagem para ver a apresentação…

Uma atividade para a sala de aula

A estratégia canadiana pode ser um ponto de partida para uma atividade pedagógica estimulante. Sugestão para o ensino secundário ou para o ensino superior:

Propor aos alunos que, em grupos, respondam à seguinte questão: «Se Portugal quisesse criar uma estratégia nacional de IA para a educação, quais seriam as três medidas mais urgentes?» O exercício exige que os alunos pesquisem o contexto português, comparem com o que outros países estão a fazer, discutam prioridades e justifiquem escolhas — competências que são, em si mesmas, manifestações de literacia em IA. Os resultados podem ser partilhados num fórum escolar ou enviados como contributo a decisores políticos. A participação cívica também se aprende.


Referência

Innovation, Sciences et Développement économique Canada. (2026). Stratégie nationale d’intelligence artificielle du Canada: L’IA pour tous. Gouvernement du Canada. https://ised-isde.canada.ca/site/isde/fr/strategie-nationale-matiere-dintelligence-artificielle-canada-lia-pour-tous [ISBN 978-0-662-35731-5]

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