Era abril de 2012. Numa pequena cidade serrana do Ceará, encravada na Área de Proteção Ambiental do Maciço de Baturité, a cerca de 110 km de Fortaleza, reuniu-se um grupo de especialistas, académicos, representantes governamentais e técnicos de oito países para discutir um tema que hoje nos parece óbvio — mas que, naquele momento, estava longe de o ser: o futuro da língua portuguesa na internet e no mundo digital.
Guaramiranga, com o seu clima ameno entre os 18 e os 25 graus, as suas serras cobertas de mata atlântica e o seu Convento dos Capuchinhos, foi o cenário improvável — mas absolutamente inspirador — de um encontro que produziu um documento histórico para a lusofonia: a Carta de Guaramiranga.
Estive lá. E guardo essa memória como uma das experiências mais marcantes do meu percurso profissional.

O contexto: A CPLP e o Instituto Internacional da Língua Portuguesa
Para compreender a importância deste colóquio, é preciso recuar um pouco. A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) foi fundada em 1996, reunindo os oito países que partilham o português como língua oficial: Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Timor-Leste.
No seio da CPLP, existe um organismo especificamente dedicado à língua: o Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), cuja criação remonta a 1989, na primeira reunião de chefes de Estado lusófonos, em São Luís do Maranhão, Brasil. A missão do IILP é clara: promover, defender e difundir a língua portuguesa enquanto veículo de cultura, educação, informação e acesso ao conhecimento.
No início dos anos 2010, o IILP lançou um ciclo de colóquios internacionais temáticos, cada um centrado num desafio específico da lusofonia: a diversidade linguística (Carta de Maputo), o português nas diásporas (Carta da Praia, novembro de 2011), o português no mundo digital (Carta de Guaramiranga, abril de 2012) e o português nas organizações internacionais (Carta de Luanda, julho de 2012). Cada encontro terminava com um documento de recomendações dirigido aos Estados-membros da CPLP e ao próprio IILP.
O Colóquio: dois dias, dois espaços, uma língua
O Colóquio Internacional “A Língua Portuguesa na Internet e no Mundo Digital” foi organizado em dois momentos distintos, mas complementares.
A 24 de abril de 2012, a sessão de abertura realizou-se na UNILAB — Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, na cidade de Redenção, no Ceará. A escolha da UNILAB não foi acidental: esta universidade federal brasileira tem uma vocação única, sendo criada precisamente para fortalecer os laços académicos e culturais entre o Brasil e os países africanos de língua portuguesa. Era, portanto, um símbolo perfeito para iniciar um debate sobre a lusofonia digital.
Nos dias 25 e 26 de abril, o colóquio mudou-se para o Convento dos Capuchinhos, em Guaramiranga, onde decorreram as conferências, as mesas temáticas e os debates. Foram dois dias intensos, com seis mesas de trabalho, conferencistas de vários continentes e uma transmissão online que permitiu a participação de grupos credenciados em diferentes partes do mundo — uma ironia simbólica num encontro sobre a língua portuguesa no espaço digital.
O diagnóstico: uma língua grande com presença digital pequena
O ponto de partida do colóquio era um dado preocupante, apresentado logo na sessão de abertura: o português era, em 2012, a quinta língua com mais utilizadores da internet, com cerca de 82 milhões de utilizadores online, mas apresentava um índice de produtividade digital muito baixo — ou seja, a proporção de produtores de conteúdos em relação ao número total de falantes era inferior à de outras línguas comparáveis.
Havia, portanto, um desfasamento significativo entre o peso demográfico e cultural do português — falado por mais de 240 milhões de pessoas em cinco continentes — e a sua presença real no espaço digital. A língua existia, mas os seus conteúdos, recursos, ferramentas e infraestruturas digitais eram insuficientes.
O conferencista principal, Daniel Pimienta, diretor da ONG FUNREDES (Fundação Redes e Desenvolvimento, da República Dominicana) e um dos maiores especialistas mundiais em línguas na internet, deu o mote para os trabalhos: era urgente que a comunidade lusófona assumisse a responsabilidade de produzir mais e melhor conteúdo em português, de desenvolver ferramentas tecnológicas na língua e de criar políticas linguísticas digitais coordenadas entre os oito países.
Os participantes: um mosaico da lusofonia
O colóquio reuniu especialistas, académicos e representantes governamentais dos oito países da CPLP, além de convidados de organizações internacionais. Entre os participantes encontravam-se:
- Daniel Pimienta (FUNREDES, República Dominicana) — conferencista principal e especialista em línguas na internet
- Ana Paula Laborinho (OEI — Organização dos Estados Ibero-americanos, Portugal)
- António Branco (Universidade de Lisboa / ELRA) — linguística computacional
- Margarita Correia (ILTEC — Instituto de Linguística Teórica e Computacional, Portugal)
- Heber Maia (CGI.BR — Comité Gestor da Internet no Brasil)
- Leonilde Tatiana dos Santos (ARME, Cabo Verde)
- Jorge Francisco Borges (Ministério da Educação e Ciência, Portugal) — com apresentação do projeto E-Escolinha
Participei representando o Ministério da Educação e Ciência de Portugal, apresentando o projeto E-Escolinha, uma das iniciativas portuguesas de referência para a democratização do acesso à tecnologia nas escolas. Foi uma oportunidade única de partilhar o que Portugal estava a fazer — e de ouvir o que os outros países da lusofonia faziam, sonhavam ou precisavam.
A carta de Guaramiranga: um documento para a lusofonia digital
O resultado mais visível do colóquio foi a Carta de Guaramiranga, adotada a 26 de abril de 2012 e publicada pelo IILP. Trata-se de um documento de recomendações dirigido aos Estados-membros da CPLP e às instituições internacionais relevantes, estruturado em torno de vários eixos:
1. Maior presença do português na internet, respeitando a diversidade linguística e cultural dos oito países e valorizando as singularidades de cada variante do português.
2. Criação de um vocabulário de convergência, que permitisse melhorar a intercompreensão entre os falantes de português de diferentes países — um desafio tanto linguístico como técnico, especialmente no contexto de ferramentas de busca, processamento de linguagem natural e tradução automática.
3. Desenvolvimento de recursos e ferramentas digitais em português, incluindo dicionários online, corpora linguísticos, ferramentas de processamento automático de linguagem e plataformas educativas.
4. Políticas coordenadas entre os Estados-membros, para que a presença digital do português fosse uma responsabilidade partilhada e não dependesse apenas de iniciativas isoladas de um ou dois países.
5. Incorporação das recomendações no Plano de Ação de Lisboa para a Promoção, Difusão e Projeção da Língua Portuguesa, e na 2.ª Conferência Internacional sobre o Futuro do Português no Sistema Mundial, realizada em Lisboa em outubro de 2012.
A Carta pode ser consultada no site do IILP/CPLP, em: https://iilp.cplp.org/wp-content/uploads/2022/05/Carta-de-Guaramiranga-Final-abril-2012-1.pdf
O legado: o que ficou de Guaramiranga
Catorze anos depois, o que ficou deste encontro?
Algumas das recomendações da Carta de Guaramiranga foram, de facto, incorporadas em políticas e iniciativas concretas. O Vocabulário Ortográfico Comum (VOC) do português, desenvolvido pelo IILP, é um dos frutos mais diretos deste ciclo de colóquios. A crescente atenção ao processamento de linguagem natural em português — nomeadamente no contexto da inteligência artificial — é também um eco das preocupações levantadas em 2012.
Mas talvez o legado mais importante de Guaramiranga seja mais difuso e mais profundo: a consciência de que a língua portuguesa no mundo digital não é apenas uma questão técnica, mas uma questão política, cultural e identitária. Uma língua que não está presente na internet, nas ferramentas de IA, nos motores de busca e nas plataformas digitais corre o risco de se tornar invisível para as gerações mais novas — e invisível significa irrelevante.
Em 2012, falávamos de internet e de conteúdos digitais. Em 2026, falamos de inteligência artificial generativa, de modelos de linguagem de grande escala (LLMs) e da representação do português — com todas as suas variantes — nesses sistemas. O desafio mudou de escala, mas a essência é a mesma: garantir que a língua portuguesa não fica para trás na revolução digital.
Uma nota pessoal
Guaramiranga ficou em mim. Não apenas pelo valor histórico do encontro ou pela beleza singular da serra cearense. Ficou pela sensação de que, naqueles dois dias, estávamos a fazer algo que importava — a tentar construir, coletivamente, um futuro digital para uma língua que é de todos nós.
O trabalho que faço hoje tem, creio eu, raízes nessa convicção que se foi sedimentando em encontros como este: a língua e a tecnologia não são mundos separados. São faces da mesma moeda.
E Guaramiranga, em abril de 2012, ajudou-me a ver isso com mais clareza.

