Procuram-se tecno-otimistas para salvar a Europa na corrida da IA: “Nem tudo está perdido”

Fevereiro 2025

Ler na fonte | Artigo de José M. Rodríguez Silva

O discurso derrotista em matéria tecnológica tem inundado a Europa há meses, mas cada vez mais vozes apelam para que haja uma reação que passe por aproveitar as forças do continente e não cair em erros como o excesso de burocracia.

No último mês e meio, uma das notícias que mais indignação causou entre empresários nas redes sociais foi a criação da agência espanhola de inteligência artificial (IA). Um organismo com cinco milhões de orçamento e capacidade sancionadora que despertou a ira de muitos. “A quem vai sancionar se ninguém faz IA em Espanha?”, dizem uns, “campeões de regulação”, comentam outros com sarcasmo.

Embora a Aesia represente uma parte mínima do orçamento público para IA e a sua dotação seja conhecida desde 2023, há um motivo claro para que a notícia desperte cóleras: os europeus são cada vez mais pessimistas sobre o seu futuro tecnológico e culpam a regulação excessiva. Isto é evidenciado pelo State of European Tech, um relatório que anualmente o fundo de investimento Atomico faz entre fundadores de empresas e investidores europeus. Se em 2021, apenas 8% dos fundadores de startups eram mais pessimistas do que no ano anterior sobre o futuro tecnológico da Europa, em 2024, a percentagem dispara para 40%.

Mudança de mentalidade

Precisamente, o fundador do fundo, Niklas Zennström, que ganhou o direito de ter voz na indústria após fundar o Skype e vendê-lo à Microsoft por 5.300 milhões, tornou-se um dos grandes impulsionadores de uma mudança de tendência rumo a um tecno-otimismo europeu. “Preocupa-me que nos estejamos a render com uma tecnologia que está na sua infância. É como se tivéssemos dado por amortizados os telemóveis quando a Nokia dominava o mercado”, assinalava no LinkedIn.

A visão de Zennström é que os modelos de linguagem de grande escala da OpenAI ou Google são uma parte da cadeia, mas tudo o que se construa com base nesta tecnologia para gerar novas aplicações será ainda mais rentável. Aí a Europa tem muito caminho percorrido com casos de sucesso como o Deepl e só necessita de mais financiamento de risco para ir cobrindo a lacuna que tem com o modelo americano.

É uma linha que também defende Bertin Martens, senior fellow do think tank Bruegel, que sublinha que o foco das políticas europeias deveria afastar-se de copiar a OpenAI e centrar-se, por exemplo, em criar modelos inovadores de menor dimensão. “Podem conseguir-se muitos benefícios económicos construindo sobre os modelos que já existem”, sublinha o especialista.

Precisamente, esta estratégia tem ainda mais sentido para Martens após o nascimento do DeepSeek e a evidência de que construir modelos de linguagem pode ser mais barato do que se pensava anteriormente, embora pela sua forma de treino à base de copiar outros modelos (distillation), seja complicado extrapolá-lo à Europa.

Rede de Campeões Europeus

O impacto final da IA chinesa não chegou ao momento Sputnik a que fazia referência Marc Andreessen, fundador do fundo de investimento a16z, mas sim recarregou de propósito as autoridades europeias num momento-chave com a chegada de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos.

Paradoxalmente, foi um fundo americano (General Catalyst) quem tomou a iniciativa e apresentou há duas semanas a rede de Campeões Europeus da IA, que une 60 empresas do continente com a ideia conjunta de impulsionar uma “agenda ambiciosa” dentro da União Europeia1. Entre as signatárias, estão startups como a própria Mistral ou Eleven Labs ou gigantes como Spotify, Philips, Novo Nordisk e SAP e associações como a espanhola Adigital.

Em resumo, uma rebelião de grande parte do tecido industrial europeu. De acordo com Jeannette zu Fürstenberg, diretora-geral da General Catalyst na Europa, em menos de 15 dias, já há 80 empresas integradas e outras 450 querem seguir-lhes os passos. “Estamos a presenciar uma mudança de mentalidade. Cada vez está mais claro que a força da Europa na IA recairá em aplicar a inovação, sobretudo na indústria, defesa e energia”, sublinha.

A oportunidade não é menor em termos económicos. A McKinsey & Company calcula em 575.100 milhões de dólares o impacto que a IA generativa pode ter na Europa, deles, 56% proviriam de aplicar IA em setores onde existe margem para incrementar a produtividade de setores como a construção e a indústria.

Inovação e talento

“Há muitíssimas oportunidades à frente em matéria digital. Em computação quântica vamos à frente de todo o mundo. Outra coisa é que temos de aprender de outros setores para trasladar essa liderança académica ao setor privado. É nisso que somos piores que os americanos”, assegura o senior fellow da EsadeGeo Juan Moscoso del Prado, que apela a que a Europa aproveite as oportunidades nesses setores onde ainda mantém a sua vantagem, como a aplicação da IA à investigação médica ou à quântica.

A outra chave que se repete em cada conversa é a necessidade de que a Europa tenha as suas próprias empresas inovadoras. “Nem tudo está perdido”, sublinha Nuria Oliver, diretora da Fundação Ellis Alicante e uma das vozes mais respeitadas sobre IA em Espanha quando se lhe pergunta pela sua perspetiva sobre este aspeto. Para ela, um dos elementos-chave que permitirá nivelar a corrida é que a Europa aproveite o talento que está a gerar nas suas universidades1.

“Há que investir mais em talento (…) Talvez se esteja a pôr demasiada ênfase em infraestruturas e não tanto nas pessoas que vão usar esses centros de dados”, assinala Oliver, que pôs como exemplo a génese do DeepSeek: “É uma iniciativa liderada por uma pessoa algo alheia ao mundo da IA. Mas com uma visão clara de que o importante era o talento. O que fez foi recrutar os melhores especialistas das universidades. A IA é uma disciplina que existe desde os anos 50 e não se vai resolver tudo de repente”, aponta.

Infraestruturas e investimento

Nesse sentido, o diretor associado do Barcelona Supercomputing Centre (BSC), Josep Martorell, sublinha que a infraestrutura científica europeia já está ao nível da americana: “Hoje em dia a Europa está a competir em igualdade de condições com o resto dos atores do mundo. Um cientista europeu hoje tem acesso a recursos computacionais para fazer IA ou para aplicá-la na mesma ordem que qualquer colega seu que trabalhe nos Estados Unidos, na China ou no Japão”.

O supercomputador Mare Nostrum, que opera o BSC, é uma das chamadas “fábricas de IA” que se desenvolverão na Europa para dar serviço às empresas. A ideia é abrir a possibilidade de aceder à computação para desenvolver os seus próprios modelos de forma barata e privada.

Neste contexto, a chuva de mais de 300.000 milhões anunciada por Ursula Von der Leyen e Emmanuel Macron em Paris recarregou definitivamente as baterias dos tecno-otimistas. Um dos aspetos celebrados do anúncio é que a maioria destes fundos provirá de empresas privadas, assinalam desde Bruegel: “Não creio que haja necessidade de que se use dinheiro dos contribuintes para pagar isto (infraestruturas) porque são projetos que dão benefícios se estiverem bem geridos”, assinala Martens, que sim acredita que faria sentido que se usassem esses fundos para startups. “Na Europa há capacidade de poupança suficiente para empreender todos os investimentos de que necessitamos”, concorda Moscoso del Prado.

Evitar erros

O diretor do BSC reconhece o seu otimismo, embora peça duas coisas que se repetem noutras conversas. Atuar como europeus e evitar recair nos excessos burocráticos que prejudicaram outras iniciativas e ameaçam a Lei da IA. “A maioria das coisas que diz são tremendamente razoáveis. Não custa tanto cumprir, mas o grande perigo que pode vir é como aplicarmos esta regulação”, sublinha Martorell. “Deve fazer-se um esforço e entender as críticas porque houve um conservadorismo e controlo excessivos. É uma organização pensada para um mundo que já não existe”, concorda por sua parte Moscoso, que recorda a dificuldade que haverá para que todos os membros da UE atuem com unanimidade nestes temas.

Martens põe o foco na necessidade de um quadro legal claro. “Faz falta que haja mais clareza, especialmente no que tem que ver com o Regulamento Europeu de Proteção de Dados e como se vai aplicar aos modelos de IA”, assegura o analista da Bruegel sobre um assunto que preocupa e ocupa ambos os lados do Atlântico, mas que não penaliza o desenvolvimento de outros projetos. “A Europa tem uma oportunidade para mudar as regras do jogo e brilhar”, vaticina Zennström. A chave é não baixar os braços antes de tentar aproveitá-la.

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