Não é uma brisa passageira; é um tsunami invisível que está a varrer as fundações da nossa civilização. Vivemos um momento de rutura absoluta, uma metamorfose tão vertiginosa quanto a queda do Império Romano ou o desabrochar do Renascimento. No epicentro desta vaga, surge uma nova criatura, um mutante que Michel Serres batizou de “Pequena Polegar” (Petite Poucette). Ela não é apenas uma jovem com um telemóvel na mão; é o símbolo de uma humanidade cujo cérebro está a mudar fisicamente, cujos neurónios se estão a reafectar porque a memória, outrora biológica, habita agora no silício. Estaremos preparados para reconhecer que o mundo de ontem não é apenas passado, mas um cadáver obsoleto?
A Cabeça na Palma da Mão: A Mutação Cognitiva
A humanidade atravessa a sua terceira grande revolução comunicativa: depois da passagem da oralidade para a escrita e desta para a imprensa, mergulhamos no digital. Serres convoca a imagem de São Dinis, o bispo que caminhou carregando a sua própria cabeça decepada, para ilustrar a nossa condição atual. O telemóvel é essa “cabeça cortada” externa ao corpo, um depósito de saber absoluto acessível a um clique. Ao libertar-nos do fardo da memorização repetitiva, a tecnologia oferece-nos uma oportunidade divina. Como Serres explora na sua obra O Canhoto Coxo, o pensamento exige o “desvio”, a rutura com a norma. Se a máquina armazena, o humano é finalmente livre para a sua função mais nobre: a criação.
“Pensar é inventar, não imitar ou copiar.”
Nesta era de externalização cognitiva, o saber já não nos habita; ele circunda-nos. A educação tradicional agoniza porque o professor já não é o detentor exclusivo da informação, mas sim um guia num oceano de dados onde o cérebro humano deve aprender a ser, antes de tudo, inventivo.
O Abismo das Palavras e a Morte da Tradição Agrária
A nossa língua está a explodir, fragmentando-se sob o peso de um mundo que já não reconhece o arado. O “grande turning point”, que Serres situa entre 1965 e 1975, marcou o fim de uma era milenar: a natureza, que era a nossa “mãe”, tornou-se nossa “filha”. Em 1900, 70% dos franceses trabalhavam a terra; hoje, resta apenas 1%. Esta mutação é visível no léxico: a Academia Francesa regista um aumento de 30.000 palavras entre edições recentes do seu dicionário, comparado com o crescimento de apenas 4.000 ou 5.000 no século anterior.
O desaparecimento do vocabulário agrário não é uma perda académica, mas uma mudança de “ser-no-mundo”. Serres recorda, com ironia, o aluno brilhante da École Normale que desconhecia termos básicos de lavoura e colheita. Para a Pequena Polegar, a natureza é um jardim arcadiano, um espaço de lazer ou uma preocupação ecológica global, e não o local do suor e do trabalho duro. A nossa forma de habitar o planeta mudou para sempre.
Instituições Obsoletas e o Treinador à Frente do seu Tempo
As nossas instituições — a escola, a igreja, o estado — estão “fechadas para inventário”. Serres utiliza a analogia da Grande Biblioteca de Paris, construída no exato momento em que a Internet a tornava redundante, comparando-a ao observatório indiano do século XVII que, obsoleto antes de ser terminado, acabou “cheio de macacos”. Mas o exemplo mais mordaz é o de Raymond Domenech, o selecionador de futebol francês que fracassou no Mundial: para Serres, ele estava à frente do seu tempo porque já nenhum líder — seja ele papa, político ou professor — sabe como “formar uma equipa” nos moldes antigos.
A política atual é um deserto de ideais, uma máquina de eleger presidentes para gerir modelos evaporados. Enquanto isso, a Pequena Polegar define-se por redes globais, transcendendo as pertenças de sangue, nação ou religião. Ela tem amigos em Pequim e em Suresnes com a mesma naturalidade com que respira, tornando os nacionalismos e fundamentalismos meros “dinossauros” condenados à extinção.
O Corpo que Já não Sofre: A Revolução do Bem-Estar
A mutação de Serres atinge a carne. Viemos de uma história de “dolorismo”, onde a moral era uma preparação para o sofrimento inevitável. O filósofo recorda que Luís XIV gritou de dor durante décadas devido a uma fístula anal, enquanto o seu cirurgião praticava a técnica em 100 camponeses antes de operar o Rei Sol. Hoje, o que era um martírio resolve-se com antibióticos e um bisturi preciso.
Esta ausência de dor constante e o facto de sermos filhos “escolhidos” (via planeamento familiar) criaram um corpo novo. Já não estamos cobertos de cicatrizes, pústulas ou marcas de varíola; os camponeses já não são desdentados aos 50 anos. A Pequena Polegar é bela, vive até aos 100 anos e habita uma relação com a nudez e o prazer que os seus antepassados, escondidos na obscuridade de corpos doentes, nunca poderiam imaginar.
A Civilização do Clique e o Primeiro Indivíduo Verdadeiro
O “clique” é o ADN do século XXI, o gesto que tornou o mundo minúsculo. O virtual não é uma novidade — Ulisses e Madame Bovary já eram virtuais — mas a sua aceleração é sem precedentes. Com o GPS e a Wikipédia, a humanidade e a cultura estão ao alcance de um polegar. O telemóvel não é um acessório; é uma extensão do corpo, um escritório portátil que dita o ritmo da nossa existência.
Vivemos o paradoxo da “solidão num mundo superpovoado”, mas é nesta solidão que nasce o “primeiro indivíduo verdadeiro da história”. Liberta das amarras colectivas obrigatórias, a Pequena Polegar interage com a totalidade do conhecimento humano. Aqueles que não têm conta no Facebook são hoje vistos com suspeição, como se escondessem algo, num mundo onde a transparência e a conexão instantânea são as novas normas de oxigénio social.
Conclusão: Ser “Parteiro” do Futuro
Estamos a entrar nas eras da Hominescence e do Antropoceno, onde o ser humano se tornou o ator principal dos ciclos da natureza e do clima. Perante este cenário vertiginoso, Michel Serres recusa o pessimismo fácil. Ele não vê uma catástrofe, mas uma realidade que exige que sejamos “parteiros” de um novo mundo.
O desafio para as gerações anteriores não é julgar com as faculdades cognitivas do passado, mas abraçar esta metamorfose com benevolência. A Pequena Polegar caminha sobre os escombros de sistemas que criaram 150 milhões de mortos no século XX; ela merece um voto de confiança. E você, haverá de continuar a ser um “velho resmungão” apegado a um mundo que já desapareceu, ou está pronto para ajudar a dar à luz o futuro?

