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Vivemos num tempo em que a informação circula mais depressa do que a capacidade humana de a verificar. As redes sociais amplificam conteúdos antes de qualquer avaliação crítica, os algoritmos moldam o que vemos sem que nos apercebamos, e a inteligência artificial generativa é capaz de produzir textos, imagens e vídeos com uma verosimilhança que confunde até os mais atentos. É neste contexto que a obra coletiva Inteligencia artificial e integridad de la información: perspectivas para un uso responsable, coordenada por Jonathan Hernández Pérez e Andrew Cox, e publicada pela Universidade Nacional Autónoma do México em 2025, se revela não apenas oportuna, mas verdadeiramente necessária.
O livro reúne dez capítulos organizados em três grandes eixos temáticos: os desafios fundamentais da inteligência artificial no ecossistema digital, o papel da IA na produção e difusão do conhecimento, e os marcos normativos para uma governação ética da tecnologia. Cada contribuição parte de uma premissa comum — a de que a IA não é neutra e os seus impactos não podem ser ignorados nem pelos profissionais da informação nem pelos educadores.
O lado invisível dos algoritmos
Um dos temas centrais do livro é o chamado viés algorítmico. Quando um sistema de inteligência artificial toma decisões — sobre quem é contratado, qual notícia é amplificada ou que pessoa é sinalizada como suspeita —, ele reproduz os padrões presentes nos dados com que foi treinado. Se esses dados refletem desigualdades históricas, o algoritmo perpetua-as, muitas vezes de forma invisível.
O caso do sistema COMPAS, utilizado nos Estados Unidos para prever a reincidência criminal, é um dos exemplos analisados. Estudos demonstraram que esse sistema penalizava desproporcionalmente pessoas negras, mesmo quando outros fatores eram equivalentes. O mesmo aconteceu com uma ferramenta de recrutamento da Amazon, que aprendeu a desvalorizar candidaturas de mulheres com base nos padrões históricos de contratação da empresa. São exemplos concretos que mostram como o preconceito pode ser embutido num sistema informático sem que nenhum programador o tenha intencionado explicitamente.
A questão não é apenas técnica. É ética, política e social. E é por isso que o livro convoca a teoria crítica — nomeadamente os contributos de Herbert Marcuse, Nancy Fraser e Kimberlé Crenshaw — para examinar de que forma as estruturas de poder se reproduzem nas tecnologias ditas inteligentes.
Desinformação, redes sociais e o papel das bibliotecas
Outro ponto nevrálgico do livro é a relação entre inteligência artificial e desinformação. Vivemos numa era em que a velocidade de produção de conteúdos falsos supera, em larga medida, a capacidade das instituições de os desmentir. A pandemia da covid-19 foi talvez o exemplo mais dramático desta realidade: a infodemia — a circulação massiva de informação falsa ou enganosa sobre saúde — custou vidas.
Os autores distinguem três fenómenos que importa não confundir. A desinformação é a difusão intencional de conteúdo falso com objetivo de causar dano social. A informação errónea é a partilha involuntária de conteúdo inexato, feita muitas vezes de boa-fé. E o discurso de ódio é qualquer comunicação que ataca uma pessoa ou grupo com base na sua identidade — religiosa, étnica, de género ou outra. Estas três formas de contaminação informativa não apenas degradam o espaço público, como ameaçam concretamente os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.
Face a este cenário, o livro recupera um argumento que os profissionais das bibliotecas conhecem bem: as bibliotecas não são depósitos de livros, são infraestruturas democráticas. São espaços onde se aprende a selecionar, avaliar e utilizar informação com sentido crítico. Os autores sublinham que, embora a Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias (IFLA) tenha participado nas consultas que levaram à formulação dos Princípios Globais para a Integridade da Informação da ONU, as bibliotecas continuam a não ser reconhecidas como parceiros estratégicos fundamentais — uma ausência que urge corrigir.
Literacia informacional na era da IA generativa
Um dos capítulos mais estimulantes do livro relata a experiência de um curso de pós-graduação em São Paulo, no qual se integrou o uso do ChatGPT como ferramenta pedagógica — não para substituir o pensamento dos estudantes, mas para desenvolver competências críticas em relação ao que a ferramenta produz.
Os estudantes foram desafiados a reformular conceitos com as suas próprias palavras, a identificar se a informação obtida era uma paráfrase ou uma transcrição direta, a verificar a fiabilidade das fontes e a perceber as limitações éticas e legais do uso de IA na investigação académica. Este exercício mostra que a literacia informacional não perdeu relevância na era da IA — pelo contrário, tornou-se mais urgente do que nunca.
Ferramentas como o Rayyan, o Research Rabbit e o SciSpace foram também exploradas no contexto de revisões sistemáticas e pesquisa académica. O que o curso demonstrou é que a IA pode ser um aliado poderoso na construção do conhecimento, desde que usada com rigor, sentido crítico e responsabilidade ética.
Os princípios globais da ONU e os seus limites
Em junho de 2024, a ONU apresentou formalmente os seus Princípios Globais para a Integridade da Informação, articulados em cinco eixos: confiança e resiliência social, incentivos positivos, capacitação pública, apoio aos meios de comunicação independentes, e transparência e investigação. O livro analisa estes princípios com rigor — reconhecendo os seus méritos, mas também apontando as suas insuficiências.
A principal crítica é de ordem estrutural. Os modelos de negócio das grandes plataformas digitais assentam na economia da atenção: quanto mais tempo uma pessoa passa online, mais publicidade vê. E o que mais capta a atenção não é necessariamente o que é verdadeiro ou útil — é o que é emocionalmente intenso, polarizador, frequentemente desinformativo. Propor princípios éticos sem mudar os incentivos económicos subjacentes é, no mínimo, insuficiente.
Há também o risco oposto. Organizações de direitos humanos como a Article 19 alertam para o perigo de regulações vagas que, sob pretexto de combater a desinformação, possam ser instrumentalizadas para suprimir o jornalismo crítico e silenciar vozes dissidentes. Este equilíbrio delicado entre combater a desinformação e preservar a liberdade de expressão é um dos grandes desafios do nosso tempo.
Um livro para quem trabalha com informação
Esta obra não é leitura de fim de semana, mas é leitura necessária para quem trabalha com informação, comunicação, educação ou bibliotecas. Convida-nos a ser mais rigorosos, mais críticos e mais conscientes dos sistemas que usamos quotidianamente — como profissionais e como cidadãos.
O ecossistema informativo está sob pressão. A inteligência artificial generativa pode ser uma ferramenta extraordinária de democratização do conhecimento, mas também pode ser um instrumento de manipulação em escala sem precedentes. A diferença entre uma coisa e a outra não está na tecnologia em si — está nas escolhas que fazemos ao usá-la, nas políticas que adotamos para regulá-la e nas competências que desenvolvemos para lhe resistir criticamente.
E isso, afinal, é precisamente o que boas bibliotecas e bons educadores fazem todos os dias.
Hernández Pérez, J. & Cox, A. (coord.) (2025). Inteligencia artificial e integridad de la información: perspectivas para un uso responsable. Ciudad de México: UNAM – Instituto de Investigaciones Bibliotecológicas y de la Información. ISBN: 978-607-642-424-7. Acesso aberto.


