por Miquel Flexas | Ler na fonte
No contexto educativo atual, a formação de professores em Inteligência Artificial (IA) é um dos temas mais relevantes. No entanto, é preocupante que, muitas vezes, essas formações se concentrem apenas no uso de ferramentas para facilitar o trabalho docente, deixando de lado uma visão mais abrangente e estratégica. Embora seja claro que o acesso a essas ferramentas pode ser benéfico, é igualmente importante abordar questões básicas antes de implementá-las de forma eficaz. A IA tem um imenso potencial para transformar a aprendizagem, mas para alcançar um impacto significativo e duradouro, é crucial que os professores entendam não apenas como usar as ferramentas, mas também os princípios e a implicações de usá-las. A formação não se deve limitar à técnica, mas abranger a ética, o pensamento crítico e o papel da IA na sociedade.
A importância de um plano estratégico
O primeiro passo deve ser sempre a criação de um plano estratégico em cada escola que sirva de base para qualquer formação em IA. Este plano deve estar alinhado com o contexto, bem como com o seu ecossistema, e as necessidades específicas da instituição, garantindo que todos os professores compreendem claramente os limites, as plataformas aprovadas para uso e os riscos envolvidos, desde a segurança e proteção de dados até aos aspectos éticos de cada decisão. Sem essa base estratégica, a formação em IA torna-se uma “abordagem genérica” que não responde às particularidades de cada instituição, o que, em última análise, prejudica os alunos.
É necessário que as escolas reflitam sobre os seus objetivos e estabeleçam um roteiro claro para a integração da IA. Isso inclui definir quais as competências que os professores devem adquirir, como a IA pode melhorar o processo de ensino-aprendizagem e quais são os recursos necessários para implementar essas mudanças. Da mesma forma, é vital que haja um consenso entre os atores da escola, para que a IA seja implementada de forma coerente e eficaz. Uma formação docente alinhada com um plano estratégico permite que os professores tenham uma orientação clara e possam contextualizar o uso da IA na sua prática diária, beneficiando assim a aprendizagem dos alunos de forma abrangente.
O desafio de integrar a IA na educação
Um dos principais desafios para os professores é ensinar o uso responsável das ferramentas de IA, em vez de tentar restringir ou proibir o seu uso. A realidade é que a IA já faz parte do nosso presente e futuro, e tentar ignorá-la pode ser mais contraproducente do que benéfico. Portanto, o objetivo deve ser ensinar os alunos a usá-la de forma ética e eficaz.
Ensinar o uso responsável da IA não se refere apenas a mostrar como uma ferramenta funciona, mas a incutir um senso crítico sobre quando e por que usá-la. Os alunos devem ser capazes de discernir quando o uso da IA é apropriado e como isso pode ajudá-los a resolver problemas de forma mais eficiente. Isso também envolve discutir os riscos associados, como o viés algorítmico, a privacidade e as implicações éticas das decisões tomadas por uma IA. A sua utilização deve ser um processo de aprendizagem conjunta no qual tanto professores quanto alunos explorem as capacidades e limitações da IA, fomentando uma atitude de curiosidade e responsabilidade.
Nesse contexto, os objetivos da formação de professores em IA devem estar alinhados com os níveis de integração propostos no documento da UNESCO “IA e Educação”. Esses níveis vão desde a consciencialização sobre a importância de investigar a IA numa perspectiva crítica, até à compreensão de como ela funciona e como pode ser integrada na Comunidade Educativa. Essa integração deve incluir não apenas os professores, mas também os diretores, os alunos e, claro, as famílias. Todos esses atores desempenham um papel essencial na garantia de uma implementação ética e eficaz da IA.
A participação das famílias na formação em IA é fundamental, pois permite estender a aprendizagem para além das paredes da sala de aula. Os pais e responsáveis também devem ser informados sobre como a IA está a influenciar a educação dos seus filhos, bem como os benefícios e riscos envolvidos. Desta forma, fomenta-se um ambiente de apoio e compreensão que facilita a integração destas tecnologias no dia-a-dia dos alunos. Além disso, contar com a colaboração dos diretores garante que a implementação da IA não seja um esforço isolado, mas uma parte integrante do projeto educativo da escola ou agrupamento.
Educação contínua e o papel do Observatório de IA
Desde o Observatório de IA, depois de trabalhar com mais de 20 formadores em Espanha e América Latina e formar mais de 2000 professores em diferentes países, identificámos um padrão recorrente: a falta de um processo de formação contínua. Predomina a necessidade individual dos professores de agilizar as suas tarefas por meio de aplicativos que lhes permitam automatizar processos, em vez de seguir um plano estruturado que procure uma transformação educativa real. É essencial ir além e construir as bases a partir dos alicerces, começando com a consciencialização e os fundamentos antes de passar para a aplicação direta das ferramentas. Só assim poderemos evitar erros futuros e garantir que a IA se torne um verdadeiro aliado na educação.
A educação continuada é a chave para que os professores se sintam confiantes e capacitados no uso da IA. É necessário oferecer oportunidades de aprendizagem constantes e de qualidade, que não se limitem a oficinas pontuais ou cursos curtos, mas que permitam um desenvolvimento profissional profundo e sustentado. O Observatório de IA constatou que, quando a formação é superficial ou está orientada apenas para o uso de aplicações específicas, perde-se de vista o potencial transformador da IA na sala de aula. É essencial dar aos professores o espaço e o tempo necessários para refletir sobre como essas ferramentas podem enriquecer a sua prática e como podem contribuir para a aprendizagem significativa dos seus alunos.
Além disso, o acompanhamento e a criação de redes de apoio entre os professores são fundamentais. Os instrutores do Observatório testemunharam como, ao trabalhar em equipa e partilhar experiências, os professores se sentem mais motivados e confiantes para experimentar a IA nas suas salas de aula. A colaboração e a partilha de boas práticas permitem que a aprendizagem seja um processo mais enriquecedor e que os professores possam enfrentar os desafios que surgem durante a implementação da IA em conjunto, apoiando-se mutuamente.
Rumo a uma educação do futuro
Formar professores em IA não se resume a uma questão técnica ou apenas a aprender a usar novas ferramentas. É um processo muito mais profundo que envolve preparar os educadores para formar uma sociedade que já está a experimentar o impacto da IA. Precisamos ensinar hoje para não ter que corrigir erros amanhã. A IA não é apenas outra tecnologia; é uma mudança de paradigma que tem o potencial de transformar radicalmente a aprendizagem dos nossos alunos, desde que a sua adoção seja feita de forma refletida e com fundamentos sólidos.
A adoção da IA na educação requer uma reflexão constante sobre o seu papel e os seus limites. Os professores devem estar cientes de que a IA não substituirá o seu papel, mas o complementá-lo-á, liberando-os de tarefas repetitivas para que possam concentrar-se em aspectos mais criativos e humanos do processo educativo, como o acompanhamento individualizado, o fomento do pensamento crítico e o apoio socioemocional dos alunos. A IA oferece a oportunidade de personalizar a aprendizagem, identificar as necessidades específicas de cada aluno e fornecer feedback em tempo real, mas sempre sob a supervisão e o julgamento profissional do professor.
A pergunta que devemos nos fazer é: Estamos preparados para dar à IA o espaço que ela merece nas nossas salas de aula? E se a resposta for não, o que estamos a fazer para mudar isso? Para responder a essa pergunta, é necessário que todos os atores educativos se comprometam a aprender e entender profundamente a IA. Só assim poderemos aproveitar os seus benefícios e minimizar os seus riscos, construindo um futuro educativo em que a tecnologia esteja a serviço da aprendizagem e não o contrário. É hora de começar a construir esse futuro hoje, com uma formação sólida, estratégica e contínua que permita aos nossos professores serem os líderes desta mudança transformadora.

