POR CLARA PRETUS | Ler na fonte
Como decide o nosso cérebro se partilhamos ou não desinformação? Uma investigação recente permitiu-nos identificar uma grande mobilização dos circuitos neuronais relacionados com a cognição social, o que sugere que a desinformação cumpre uma função social, e que partilhá-la nos reafirma como membros de um grupo.
Em 2025, a desinformação continua a ser um grande desafio social, com graves consequências para a saúde, o bem-estar e os direitos democráticos das pessoas. Desde a interferência eleitoral nos Estados Unidos ao negacionismo científico durante a pandemia, ou à procura de culpados após a DANA em Espanha, as campanhas de desinformação são continuamente utilizadas para enviesar a opinião pública, polarizar o eleitorado e destruir qualquer noção de realidade partilhada.
Nem toda a gente é afetada da mesma forma. Por exemplo, segundo estudos realizados nos Estados Unidos, os eleitores de extrema-direita são os mais suscetíveis à desinformação: estão várias vezes mais expostos a ela e são mais propensos a partilhá-la nas suas redes sociais do que os eleitores de centro ou de esquerda.
Perante este cenário, é urgente compreender porque partilhamos desinformação. Só assim poderemos encontrar soluções para um fenómeno que continua a crescer.
Incapacidade de analisar a veracidade da informação
No âmbito psicológico, foram propostas várias teorias para tentar compreender a nossa suscetibilidade à desinformação. Por um lado, o modelo cognitivo defende que acreditamos na desinformação porque não temos capacidade ou motivação suficiente para analisar se uma informação é verdadeira. Esta perspetiva implica que sensibilizar a população para a importância de verificar ou avaliar a veracidade da informação pode ser suficiente para mitigar os seus efeitos.
Por outro lado, o modelo sociocognitivo propõe que tendemos a acreditar cegamente em qualquer informação que reforce as nossas posições ideológicas, sobretudo quando beneficia os grupos com os quais nos identificamos. Se assim for, cultivar o espírito crítico pode não ser suficiente para atenuar os efeitos da desinformação.
Uma experiência com mensagens políticas
Para examinar estas duas propostas teóricas, a minha equipa de investigação e eu decidimos estudar as bases psicológicas e neurobiológicas da nossa suscetibilidade à desinformação. Fizemo-lo focando-nos na população que atualmente parece mais suscetível: os eleitores de extrema-direita em Espanha e nos Estados Unidos. Para isso, desenhámos uma coleção de publicações falsas para a rede social X (anteriormente Twitter), onde diferentes líderes políticos lançavam críticas ao governo com base em vários temas da atualidade, como imigração, direitos das mulheres e unidade nacional. As publicações incluíam dados falsos sobre todos estes temas. Por exemplo, numa das publicações, um líder de extrema-direita afirmava:
“Só este ano, mais de 100.000 imigrantes assaltaram as nossas costas por culpa do governo”.
A nossa intenção era ver se o facto de mencionar valores identitários para o grupo – como atitudes relacionadas com a imigração – fazia com que os eleitores tivessem maior disposição para partilhar as publicações, além de perceber que mecanismos cerebrais estavam subjacentes à decisão de partilhar a publicação com outras pessoas nas suas redes sociais.
Para isso, realizámos uma experiência online com 400 eleitores de extrema-direita e 400 de centro-direita (grupo de controlo) em Espanha, e 800 eleitores Republicanos nos Estados Unidos, dos quais mais de 100 se identificavam plenamente com Donald Trump.
Este primeiro estudo comparativo entre Espanha e Estados Unidos permitiu-nos verificar que a menção de valores identitários nas publicações de Twitter que desenhámos aumentava a disposição para partilhar desinformação em todas as amostras, independentemente de se usar uma linguagem mais ou menos incendiária.
Por outro lado, os republicanos que se identificavam plenamente com Trump, assim como os eleitores de extrema-direita em Espanha, eram mais propensos a partilhar as publicações do que o resto dos indivíduos.
As pessoas mais analíticas são mais resistentes à desinformação?
Outro resultado interessante foi verificar que as pessoas com maior capacidade analítica eram mais resistentes à desinformação. Mas atenção: apenas se esta não mencionasse valores identitários. Em suma, vimos que as menções a valores de grupo, como os relacionados com a imigração, motivavam os eleitores mais extremos a partilhar desinformação, mesmo que tivessem capacidade de análise.
Após estes resultados, quisemos investigar os processos cerebrais que acompanham a tomada de decisão sobre partilhar ou não desinformação. Para isso, recrutámos uma amostra de 36 eleitores de extrema-direita para um estudo de neuroimagem funcional. Esta técnica permite obter imagens da atividade cerebral enquanto os participantes realizam uma tarefa, como resolver um problema. O sinal de atividade cerebral que obtemos reflete o nível de oxigenação do sangue, permitindo-nos avaliar quais as regiões cerebrais metabolicamente mais ativas.
Depois de recrutados, os participantes preenchiam um questionário e completavam uma tarefa dentro de um scanner de ressonância magnética enquanto obtínhamos imagens do seu cérebro. A tarefa era muito semelhante à usada na experiência online: tinham de decidir até que ponto partilhariam nas suas redes sociais uma série de publicações de Twitter que continham desinformação sobre temas-chave para o grupo, como imigração e questões de género.
A análise das imagens cerebrais revelou uma grande atividade neuronal em circuitos relacionados com a cognição social, ou seja, com a capacidade de nos movimentarmos no meio social. Parte desta atividade encontrava-se em circuitos associados à nossa capacidade de atribuir estados mentais a outras pessoas, como intenções ou desejos – uma habilidade conhecida como teoria da mente. Outra parte encontrava-se em regiões do cérebro que nos permitem adaptar às normas.
O mais interessante é que a atividade nestas regiões cerebrais disparava quando nas publicações se mencionavam valores identitários para o grupo, mas não quando apenas apareciam críticas ao governo por outros temas menos relevantes, como o estado das estradas, por exemplo.
Os valores identitários obrigam-nos a tomar posição
Os nossos resultados, e os de outros estudos semelhantes realizados nos Estados Unidos, sugerem que o nosso comportamento online responde a uma necessidade de nos ligarmos à nossa audiência. Além disso, as nossas investigações sugerem que investimos muitos mais recursos cognitivos em tomar decisões que envolvem valores identitários. Talvez porque, ao mencionar estes valores, se cria uma situação crítica que nos obriga a tomar posição contra ou a favor. Nesta conjuntura, é importante saber prever qual é a resposta apropriada para a audiência a que nos dirigimos.
Partilhar uma publicação com uma posição clara sobre a imigração mostra aos outros que estamos totalmente alinhados com o grupo. Portanto, cumpre uma função social: é uma forma de nos reafirmarmos como membros de um grupo.
Mais ainda, qualquer membro de um grupo com valores identitários claros, não apenas com ideologia de extrema-direita, pode sentir-se igualmente impelido a investir recursos em estimar qual é a resposta apropriada perante o seu grupo. Tudo indica que as pessoas têm motivações partidárias para partilhar desinformação. E isso é algo que deve ser tido em conta nas intervenções desenhadas para travar a difusão de desinformação.
Cultivar o espírito crítico e verificar informação pode servir para combater a desinformação em geral, como enfatizam instituições como a Comissão Europeia. Mas, para aqueles com posições ideológicas extremas, é necessário procurar soluções que tenham em conta os laços com o seu grupo e abordar a sua desconfiança na sociedade.
Bibliografia
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