O documento intitulado “La circulación de la información y la verdad: claves para su abordaje”, organizado por Mariano Dagatti e Margoth Mena-Young e publicado pela CLACSO e CALAS, oferece uma análise crítica e multidisciplinar sobre os desafios contemporâneos da circulação de informação e das ameaças à verdade no contexto digital, particularmente na América Latina.
A obra procura compreender como os cidadãos interagem com um ecossistema informativo digital caracterizado por uma abundância de informação, desordem informativa e polarização política, e que consequências isso tem para a democracia e a vida pública.
Estrutura
O livro está organizado em capítulos que exploram nove conceitos-chave:
- Desinformação
- Credibilidade
- Distorção
- Autoridade jornalística
- Polarização
- Verificação
- Algoritmo
- Propaganda
- Educação mediática
Tópicos centrais
1. Desinformação
Silvio Waisbord argumenta que a desinformação, embora não seja nova, ganhou novas proporções no ambiente digital. Está intrinsecamente ligada a dinâmicas de poder, sendo disseminada sobretudo por elites políticas e mediáticas. O impacto do fact-checking é limitado, sendo necessário um enfoque político e estrutural, que vá além das respostas tecnológicas e informativas convencionais.
2. Desinfodemia e credibilidade
Gustavo Araya-Martínez introduz o conceito de desinfodemia, particularmente visível durante a pandemia de COVID-19. Esta representa uma estratégia de ataque à credibilidade de instituições democráticas, científicas e jornalísticas, mobilizada por elites emergentes com fins políticos, especialmente no contexto de democracias em crise.
3. Distorções informativas e gestão de risco
Mena-Young e Tristán Jiménez propõem abordar a desinformação como um risco social, enfatizando que as distorções informativas afetam a capacidade dos cidadãos para tomarem decisões informadas — especialmente em domínios como a saúde e a ciência.
4. Crise da autoridade jornalística
Ximena Orchard analisa a perda de autoridade epistémica do jornalismo contemporâneo, marcada pela desconfiança das audiências, instrumentalização do discurso das fake news e mudança de consumo para plataformas digitais, que minam a ligação entre jornalismo e verdade factual legitimada.
5. Verificação e vida quotidiana
Dagatti e Ahibe estudam as estratégias quotidianas de verificação utilizadas por cidadãos para lidar com a incerta esfera informativa, mostrando que muitos adotam práticas críticas e seletivas no consumo mediático, embora com recursos desiguais.
6. Algoritmos e experiências de verdade
Siles, Gómez-Cruz e Muñoz-González analisam etnograficamente como os algoritmos moldam realidades subjetivas e coletivas, criando o que Latour chamou de factishes — mistura de facto e fetiche — que afetam percepções, emoções e crenças, incluindo visões místicas sobre a verdade algorítmica.
7. Propaganda e construção de mitos
Juan Larrosa-Fuentes investiga como os narcocorridos (canções sobre narcotraficantes) promovem propaganda política, legitimando figuras como “El Chapo” Guzmán, em processos simbólicos que humanizam e mitificam o crime organizado.
8. Educação mediática como resistência
Julio-César Mateus propõe a alfabetização mediática como ferramenta essencial para enfrentar os desórdenes informativos, reconhecendo, no entanto, as limitações de alcance em populações mais vulneráveis e a necessidade de combinar essas ações com outras estratégias como fact-checking e regulação de plataformas digitais.
Considerações transversais
- A desinformação é segmentada e orientada a públicos específicos, reforçando câmaras de eco e afectando grupos com menor literacia digital e mediática.
- Plataformas sociais e algoritmos desempenham um papel central na disseminação de falsidades ao priorizar conteúdos polarizantes.
- Os esforços de checagem e verificação de fatos, embora importantes, apresentaram impacto limitado sobre comportamentos e crenças em contextos reais, sobretudo devido a polarização afectiva e cognitiva dos públicos.
- O livro defende a necessidade de políticas públicas integradas, de regulação de plataformas digitais, e de fortalecimento das instituições epistémicas como o jornalismo e a ciência.
Conclusão
Esta colectânea representa uma contribuição relevante para o debate crítico sobre a crise da verdade nas democracias contemporâneas, com ênfase na América Latina, a partir de uma perspectiva que alia epistemologia, política, media e sociedade. A sua abordagem é prudente: alerta contra soluções simplistas e defende intervenções múltiplas, situadas e fundamentadas em evidência empírica.

