A apatia, o maior risco da cibersegurança

Falar de cibersegurança continua a soar a assunto de técnicos. Kemba Walden, que já liderou a política norte-americana nesta área, defende num vídeo com menos de dois minutos que o problema está noutro lado: a maior parte das pessoas não sente que o tema lhe diz respeito.

Uma frase que incomoda

Na semana passada, o Fórum Económico Mundial publicou no LinkedIn um vídeo curto, legendado em espanhol, que abre com uma frase seca: «El mayor riesgo para la ciberseguridad es que a nadie le importe». Quem fala é Kemba Walden, que em 2023 exerceu, a título interino, as funções de diretora nacional de cibersegurança dos Estados Unidos, e que hoje preside ao Paladin Global Institute, um instituto de investigação e defesa de políticas criado pela Paladin Capital Group.

O inimigo de que ela fala não usa código malicioso. Chama-se apatia. Quando a cibersegurança é vista como algo abstrato, ninguém a liga às coisas de que depende todos os dias, e por isso ninguém lhe dá atenção até ao dia em que algo falha.

Falar de água, de energia e de pagamentos

A proposta de Walden começa por mudar a conversa. Em vez de falar de segurança, fala dos serviços que as pessoas esperam receber: poder fazer operações bancárias sem sobressaltos, ter acesso a água potável, contar com energia fiável. A segurança entra depois, como aquilo que sustenta tudo isto. Uma infraestrutura segura, com meios fiáveis para entregar esses serviços, serve para travar a fraude, reduzir os estragos e tornar mais difícil a vida a quem tem más intenções.

Parece um truque de comunicação, mas tem consequências práticas. Uma pessoa que não percebe porque deve atualizar o telemóvel muda de ideias com facilidade quando percebe que o que está em causa é a conta bancária da família.

O ónus não pode ficar sempre do lado de quem usa

A segunda parte do vídeo é a mais interessante. Walden diz que não se pode esperar que as pessoas saibam exatamente quando devem instalar uma correção de segurança ou atualizar o router. O risco deve ser retirado dos indivíduos e passar para as empresas, em larga escala, e com urgência. Na linguagem da gestão de risco, isso quer dizer conceber os produtos com segurança desde o início.

A ideia não nasceu agora. Em fevereiro de 2023, na Conferência de Segurança Cibernética de Munique, Walden já dizia que a estratégia norte-americana pretendia tirar a responsabilidade dos utilizadores finais e pô-la nos produtores. Semanas depois, no lançamento da Estratégia Nacional de Cibersegurança, voltou a defender que quem tem mais meios e melhor posição para se defender deve assumir uma parte maior do trabalho. Do outro lado do Atlântico, a agência norte-americana de cibersegurança CISA descreve o mesmo princípio com o nome de secure by design: os fornecedores assumem a responsabilidade pelos resultados de segurança dos clientes e entregam produtos seguros por defeito, com a autenticação multifator, por exemplo, sem custos adicionais.

Apatia ou cansaço?

Há uma maneira de ler a apatia que a torna menos injusta para quem a sente. Em 2016, investigadores do NIST (o instituto norte-americano de normalização e tecnologia) entrevistaram utilizadores comuns e identificaram aquilo a que chamaram fadiga de segurança. Quando se pede a alguém que tome decisões de segurança a toda a hora, a pessoa cansa-se, sente que perdeu o controlo e acaba por escolher a opção mais fácil ou por deixar de seguir as regras. Muitos dos entrevistados achavam que não eram alvos interessantes e que proteger os dados era tarefa dos bancos ou das lojas online.

Visto assim, o desinteresse é muitas vezes uma defesa contra o excesso de exigências. E a saída que os investigadores sugerem aponta na mesma direção de Walden: reduzir o número de decisões que o utilizador tem de tomar, facilitar a escolha certa e desenhar sistemas que favoreçam decisões consistentes.

O que isto muda na escola

A escola é um lugar onde se acumulam contas, plataformas, dispositivos e pedidos de atualização. Não temos dados para dizer que há fadiga de segurança nos nossos professores e alunos, mas seria surpreendente que não houvesse, e vale a pena tirar daqui algumas ideias, que são nossas e não de Walden.

A primeira é começar pelos serviços e não pelas ameaças. Em vez de abrir a conversa com vírus e palavras-passe, pode perguntar-se ao grupo o que acontece à escola, ou à família, se a plataforma onde estão as classificações ficar indisponível durante uma semana, ou se alguém aceder a uma conta de correio de um professor. Só depois faz sentido falar de proteção, porque a pergunta já tem um dono.

A segunda é ensinar os alunos a serem utilizadores exigentes e não apenas cuidadosos. Perguntar se um serviço pede mais dados do que precisa, se as atualizações são automáticas, se a autenticação em dois passos está disponível à partida, é uma literacia que inclui direitos e não só precauções.

A terceira é de cultura de escola. Se quem cai num phishing for exposto ou ridicularizado, da próxima vez não diz nada. Uma escola que quer proteger-se precisa de que as pessoas comuniquem depressa os incidentes, sem vergonha. E as direções e os serviços de informática podem fazer a sua parte, simplificando o que está ao seu alcance: atualizações geridas de forma centralizada, menos senhas para memorizar, procedimentos claros.

Há recursos já em curso que mostram caminhos. O Game Over Crime, da Polícia Judiciária, leva a cibersegurança às escolas através de jogos sérios, com debate em sala de aula. O estudo sobre educação para a cibersegurança no ensino básico e secundário mostra que o tema aparece sobretudo em TIC e em Cidadania e Desenvolvimento, e recomenda mais continuidade, formação de professores e acompanhamento. Quem quiser pensar na escola como organização pode ler a proposta australiana para preparar, prevenir e agir, e, sobre a literacia digital dos jovens, deixamos o texto «Nativos digitais ou ingénuos digitais?».

Uma ressalva

Defender que as empresas devem assumir mais risco não dispensa a literacia, e a escola não pode esperar que os fornecedores resolvam tudo por ela. As duas frentes têm de andar juntas. Convém também lembrar que o vídeo é curto e serve uma mensagem, e que a própria Walden dizia, em 2023, que uma estratégia vale o que valer o seu plano de implementação. Não conseguimos confirmar, a partir das fontes consultadas, em que medida a transferência de responsabilidade para os produtores avançou desde então.

Ainda assim, a frase de abertura merece ficar. Se numa escola ninguém se importa, nenhuma ferramenta chega. E se o cansaço é parte do problema, talvez a primeira pergunta útil seja menos «porque é que as pessoas não se importam?» e mais «o que lhes estamos a pedir que decidam, e quantas vezes por dia?».

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Nota editorial e de transparência: este artigo foi elaborado com apoio de inteligência artificial e revisto pelos autores.

Referências

Cybersecurity and Infrastructure Security Agency. (s.d.). Secure by design. https://www.cisa.gov/securebydesign (consultado a 12 de outubro de 2026)

Fórum Económico Mundial. (2026, 7 de outubro). Según Kemba Walden, la ciberseguridad tiene un enemigo supremo: la apatía [Publicação]. LinkedIn. https://www.linkedin.com/posts/seg%C3%BAn-kemba-walden-la-ciberseguridad-tiene-ugcPost-7513599033287057408-iCEx/ (consultado a 12 de outubro de 2026)

Martin, A. (2023, 16 de fevereiro). Biden’s national cyber strategy to move risk from end users to technology producers. The Record. https://therecord.media/bidens-national-cyber-strategy-to-move-risk-from-end-users-to-technology-producers/ (consultado a 12 de outubro de 2026)

National Institute of Standards and Technology. (2016, 4 de outubro; atualizado em 3 de fevereiro de 2025). “Security fatigue” can cause computer users to feel hopeless and act recklessly. https://www.nist.gov/news-events/news/2016/10/security-fatigue-can-cause-computer-users-feel-hopeless-and-act-recklessly (consultado a 12 de outubro de 2026)

Office of the National Cyber Director. (2023, 2 de março). Remarks: National cybersecurity strategy launch remarks, Acting National Cyber Director Kemba Walden. The White House. https://bidenwhitehouse.archives.gov/oncd/briefing-room/2023/03/02/national-cybersecurity-strategy-launch-remarks-acting-national-cyber-director-kemba-walden (consultado a 12 de outubro de 2026)

Smalley, S. (2024, 8 de janeiro). Kemba Walden to helm new Paladin cyber research and advocacy institute. The Record. https://therecord.media/kemba-helms-paladin-cyber-center (consultado a 12 de outubro de 2026)

Para saber mais

No blogue: Game Over Crime: a Polícia Judiciária leva a cibersegurança às escolas através de jogos sérios; Estudo sobre educação para a cibersegurança no ensino básico e secundário em Portugal; A escola e a segurança digital: preparar, prevenir e agir | Toolkit Austrália; Cibersegurança e privacidade de dados nas instituições GLAM.

Fora do blogue: Secure by design, na CISA; fadiga de segurança, no NIST; Global Cybersecurity Outlook 2026, do Fórum Económico Mundial.

O domínio da narrativa e a natureza humana

Com a inteligência artificial, produzir conteúdos tornou-se barato e rápido. O que continua escasso é perceber o que as pessoas valorizam, recordam e repetem. A história do «uma maçã por dia» e do sumo de laranja ajuda a perceber porquê, e o que isso significa para a escola.

Há uma ideia a circular numa publicação no LinkedIn, acompanhada de um vídeo de animação, que merece ser discutida por quem trabalha em educação: à medida que a inteligência artificial torna a produção de conteúdos quase gratuita, a vantagem desloca-se para algo muito mais antigo e muito mais difícil de automatizar, perceber as pessoas ao ponto de as fazer importar-se. Tentámos separar o que está documentado do que é só boa história, e perceber o que isto muda na sala de aula.

A tese: produzir já não é o difícil

O argumento é simples. Cada tecnologia nova traz novas formas de produzir, distribuir e amplificar ideias. Os sistemas de inteligência artificial generativa são, provavelmente, a maior máquina de amplificação que já construímos. Se qualquer pessoa pode gerar um texto, uma imagem ou um vídeo em segundos, o mundo fica mais ruidoso, e o que escasseia deixa de ser a capacidade de fazer. Escasseia a atenção de quem recebe, e escasseia sobretudo a compreensão do que essa atenção merece.

A conclusão do autor da publicação é que, se tivesse de dominar uma única competência para a próxima década, estudaria os humanos. A tecnologia muda todos os anos; a natureza humana atualiza-se muito mais devagar. Parece-nos uma boa frase, mas convém olhar para os exemplos que a sustentam, porque nem todos têm o mesmo grau de prova.

O sumo de laranja: um caso bem documentado

O melhor dos dois exemplos é o do sumo de laranja. No início do século XX, os produtores da Califórnia tinham laranjas a mais. A cooperativa que os representava, a California Fruit Growers Exchange, que mais tarde adotaria a marca Sunkist, contratou o publicitário Albert Lasker, que lançou o slogan «Drink an orange» («Beba uma laranja»). Segundo o historiador Pierre Laszlo, citado por Marcus (2007), foi a partir desta campanha que o consumo de sumo começou a ultrapassar o da fruta inteira. Também se vendiam espremedores baratos juntamente com as laranjas, o que ajudou a transformar o sumo num gesto doméstico de todas as manhãs.

Há aqui um pormenor que importa: os relatos que consultámos não coincidem quanto ao ano exato da campanha (uns apontam 1907, outros 1916), nem quanto ao aumento do consumo. Por isso, fixamos apenas o essencial, que é consistente: houve excedente, houve uma campanha concebida em torno do comportamento das pessoas, e um hábito novo passou a parecer natural.

A maçã: uma história mais frágil do que parece

O vídeo conta que o célebre «uma maçã por dia mantém o médico longe» teria sido desenterrado por produtores com excedentes e espalhado em anúncios, paredes e salas de aula, até ninguém se lembrar de onde vinha. É uma narrativa sedutora, e é precisamente por isso que desconfiámos dela.

O que conseguimos confirmar é mais modesto. O provérbio é bastante anterior a qualquer campanha moderna: uma variante («Eat an apple on going to bed, and you’ll keep the doctor from earning his bread») foi registada em 1866 como dito do País de Gales, e a formulação atual aparece em jornais galeses por volta de 1887 e 1892 (Wikipedia, s.d.; Word Histories, 2019). O que não encontrámos foi prova de que os produtores de maçãs tenham sido o motor da sua popularidade. Não está desmentido, mas também não o conseguimos confirmar, e por isso não o afirmamos.

Este caso é, ele próprio, uma pequena lição de literacia: uma explicação elegante, bem contada e com um vilão à medida pode circular com mais força do que a verificação que a deveria acompanhar. A história sobre como as histórias se espalham espalhou-se, ela mesma, por ser boa história.

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O que muda para a escola

Para quem ensina, a pergunta útil não é se a inteligência artificial vai substituir quem escreve, mas o que deve a escola cultivar quando produzir deixa de ser o gargalo. Vemos pelo menos três frentes.

A primeira é a literacia mediática e a análise da persuasão. Se os alunos aprendem a reconhecer como uma mensagem foi desenhada para lhes captar a atenção, o que ela omite e a quem serve, ficam mais bem preparados para lidar com a literacia mediática e informacional e com a desinformação. Um exercício simples: pegar numa campanha antiga, como a do sumo de laranja, e pedir à turma que identifique o público, a emoção, o hábito que se pretende criar e as provas que se apresentam.

A segunda é a escrita com propósito e com leitor. Os modelos de linguagem geram texto, mas não sabem, por si, para quem se escreve nem porquê. Pedir aos alunos que expliquem quem é o seu leitor, o que esse leitor já sabe e o que deve ficar na memória dele é trabalho de língua portuguesa no seu melhor, e não é automatizável sem perda.

A terceira é o espírito crítico perante boas histórias. O caso da maçã serve de exercício de verificação: onde aparece a primeira referência, quem a regista, o que fica por provar. Está em linha com o que o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória espera em matéria de pensamento crítico e criativo e de informação e comunicação.

Uma ressalva a quem estuda os humanos

Compreender as pessoas é uma competência valiosa, mas tem dois gumes. Serve para comunicar melhor e serve para manipular com mais eficácia. A frase inicial do vídeo, «quem controla a narrativa controla tudo», é um bom ponto de partida para uma conversa com alunos precisamente porque é inquietante. A escola não deve formar apenas quem sabe contar histórias que se repetem, deve formar também quem sabe perguntar quem as conta, com que interesse e com que provas.

Talvez a competência a ensinar seja esta: estudar as pessoas para as compreender, e não apenas para as convencer.

Nota editorial e de transparência: este artigo foi elaborado com apoio de inteligência artificial a partir do texto e das imagens de um vídeo partilhado no LinkedIn.

Referências

Marcus, E. (2007, novembro). Burning questions: Why do we drink orange juice? Newsday. Citado em University of Chicago Press. (2007, 6 de novembro). Why do we drink orange juice? The Chicago Blog. https://pressblog.uchicago.edu/2007/11/06/why-do-we-drink-orange-juice.html (consultado em 8 de outubro de 2026)

Word Histories. (2019, 24 de maio). Origin of “an apple a day keeps the doctor away”. https://wordhistories.net/2019/05/24/apple-keeps-doctor-away/ (consultado em 8 de outubro de 2026)

Wikipedia. (s.d.). An apple a day keeps the doctor away. https://en.wikipedia.org/wiki/An_apple_a_day_keeps_the_doctor_away (consultado em 8 de outubro de 2026)

Para saber mais

Sobre o enquadramento nacional, vale a pena reler o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória; para o caso da laranja, a entrada do blogue da University of Chicago Press é um bom ponto de partida.

Influência híbrida, media sintéticos e resiliência democrática

A investigadora Vian Bakir mostra como a IA generativa está a transformar a desinformação em campanhas de influência quase indistinguíveis da conversa humana — e porque já não basta ensinar a verificar factos.

Há uma pergunta que qualquer professor de Cidadania e Desenvolvimento já ouviu de um aluno: «como é que eu sei se isto é verdade?». Durante anos, essa pergunta bastava-se a si própria — verificar a fonte, cruzar dados, desconfiar do sensacionalismo. Mas uma formação recente da European Digital Media Observatory (EDMO), dedicada a compreender a interação entre a inteligência artificial generativa e as operações de influência, sugere que a pergunta certa já não é apenas «é verdade?». É também «quem construiu esta mensagem para mim, e porquê?».

A professora Vian Bakir, da Bangor University, especialista em desinformação, propaganda e comunicação política estratégica, apresenta um enquadramento conceptual dirigido explicitamente a quem trabalha em literacia mediática. Não é um tema abstrato ou distante da sala de aula: é, sobretudo, um mapa para entender o ecossistema informativo em que os nossos alunos já vivem todos os dias.

Da desinformação às «operações de informação»

O vocabulário militar pode parecer deslocado de um contexto escolar, mas ajuda a perceber a escala do problema. A NATO define «operações de informação» como uma função que analisa, planeia e integra atividades informativas para produzir efeitos deliberados sobre a vontade, a compreensão e a capacidade de decisão de públicos-alvo, em apoio de objetivos estratégicos (NATO, 2023). Por outras palavras: não se trata de mentiras avulsas que circulam por acaso, mas de campanhas desenhadas com um objetivo, um público definido e um plano de execução.

É esta ideia de intencionalidade e de escala que distingue a desinformação contemporânea do simples erro ou do exagero jornalístico. E é também aqui que a escola ganha um papel que ultrapassa a verificação de factos isolados: ajudar os alunos a reconhecer padrões de manipulação, não apenas mentiras individuais.

A arquitetura do ambiente informativo em que os alunos navegam

Segundo o Digital News Report 2026, do Reuters Institute for the Study of Journalism, as redes sociais e as plataformas de vídeo ultrapassaram, pela primeira vez, tanto a televisão como os sítios noticiosos como principal fonte de informação a nível global, numa altura em que a confiança geral nos meios de comunicação caiu para o valor mais baixo alguma vez registado pelo estudo (Reuters Institute for the Study of Journalism, 2026). Este dado, por si só, já justificaria atenção redobrada por parte de quem ensina literacia mediática.

Bakir & McStay (2022), no livro Optimising Emotions, Incubating Falsehood, descrevem quatro traços estruturais deste ambiente informativo que ajudam a explicar por que motivo a desinformação atual é tão eficaz. Primeiro, a fragmentação: já não existe um espaço público único, mas uma miríade de bolhas informativas praticamente incomunicáveis entre si. Segundo, a amplificação emocional algorítmica: os sistemas de recomendação privilegiam conteúdos que provocam reações fortes — indignação, medo, entusiasmo — porque isso maximiza o tempo de permanência no ecrã. Terceiro, a personalização, que faz com que dois alunos da mesma turma vejam realidades informativas radicalmente diferentes nos seus telemóveis. Quarto, e cada vez mais relevante, a crescente incapacidade de distinguir conteúdo audiovisual real de conteúdo fabricado.

Vale a pena recuar até 2018 para perceber que esta arquitetura não nasceu com a inteligência artificial generativa. No caso Cambridge Analytica, o denunciante Christopher Wylie explicou, em depoimento perante o Parlamento britânico, como a construção de perfis psicológicos detalhados permitia identificar os grupos mais suscetíveis a determinadas narrativas e expô-los, de forma repetida, a conteúdo talhado à medida das suas vulnerabilidades — pessoas que, por não verem essas narrativas nos canais generalistas, começavam a questionar por que motivo «os grandes meios de comunicação» não falavam do assunto. O mecanismo já existia; o que mudou, entretanto, foi a capacidade de o operacionalizar em grande escala e com muito menos esforço humano.

Da Cambridge Analytica a uma indústria global

Um dos contributos mais úteis da apresentação foi mostrar que aquele episódio não foi um caso isolado, mas o momento em que se tornou visível uma indústria já em expansão. O Routledge Handbook of the Influence Industry, organizado por Briant e Bakir (2024), define esta «indústria da influência» como o conjunto de práticas de definição de perfis (profiling) orientadas por dados, deliberadas, que atravessam simultaneamente sistemas privados e estatais, com o propósito de induzir mudanças de comportamento em públicos específicos. Os autores identificam três pilares recorrentes — vigilância, desinformação e motivações de lucro ou de mudança comportamental — e documentam a sua presença em contextos tão distintos como a Rússia, a Nigéria, o Médio Oriente, o Chile, a Índia e os Estados Unidos, o que sugere um fenómeno global e adaptável, e não uma anomalia regional.

Seremos assim tão facilmente influenciados?

Convém não cair em alarmismo fácil. A investigação empírica sobre os efeitos reais da desinformação nas audiências apresenta resultados mistos. Alguns estudos apontam para uma influência mínima: Garrett (2019), analisando as eleições presidenciais norte-americanas, e McCombie e colegas (2020), sobre as chamadas «fábricas de trolls» russas em 2016, encontraram efeitos limitados sobre a opinião pública. Outros, como Weeks e Garrett (2014) ou Dobber e colegas (2020), sobre deepfakes com microssegmentação, documentam efeitos mensuráveis, embora nem sempre dramáticos.

A conclusão mais honesta que se pode retirar desta literatura é que a persuasão em massa nunca foi tão simples como por vezes se apresenta em debates públicos. Mas há um dado que atravessa toda a apresentação de Bakir: o jogo está a mudar, precisamente por causa da inteligência artificial generativa — e é aqui que a escola tem menos tempo para se preparar do que gostaria.

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Quando a IA generativa entra em cena

A comparação mais reveladora da sessão foi a que opõe as campanhas de influência da chamada «primeira geração» (2016–2020) às campanhas apoiadas por IA a partir de 2024. Na primeira geração, a geração de conteúdo era baseada em modelos repetitivos e facilmente identificáveis; hoje, é sensível ao contexto, persuasiva e praticamente indistinguível de produção humana. Antes, os perfis falsos eram estáticos, com histórias de fundo pouco desenvolvidas; agora, existem identidades sintéticas dinâmicas, com perfis psicológicos adaptativos. A segmentação de públicos deixou de assentar em categorias demográficas amplas para passar a basear-se em mapeamento de vulnerabilidades psicológicas e análise de sentimento em tempo real. E, sobretudo, o que antes exigia equipas humanas numerosas e ajustes manuais tornou-se automatizável à escala industrial, com supervisão humana mínima (NATO Strategic Communications Centre of Excellence, 2026).

A própria Bakir recorreu a uma imagem elucidativa para descrever este tipo de campanhas: são como uma companhia de teatro que infiltra secretamente o público com o seu próprio elenco — atores que se misturam com a audiência real e conduzem a conversa a partir de dentro, sem que ninguém perceba que estão a representar um papel.

Este não é um cenário hipotético. O relatório Master of Puppets, da equipa de investigação de ameaças da empresa de cibersegurança Sekoia, documenta desde 2024 a campanha DoppelGänger, uma operação de influência atribuída a entidades russas e ativa desde 2022, que visa reduzir o apoio à Ucrânia e fomentar divisões entre os países que a apoiam. A campanha combina sítios noticiosos que imitam órgãos de comunicação social legítimos com contas falsas em redes sociais que amplificam o conteúdo, adaptando-se continuamente à atualidade de cada país-alvo, incluindo vários Estados europeus (Sekoia Threat Detection & Research Team et al., 2024). É um exemplo concreto, ativo e europeu — não um exercício académico — de como a arquitetura descrita atrás funciona na prática.

Dois desafios centrais para a resiliência democrática europeia

A apresentação termina com uma síntese particularmente útil para quem pensa a educação para a cidadania. Identificam-se duas tendências que se reforçam mutuamente. A primeira é o que se pode chamar o «fosso de deteção»: a capacidade de gerar conteúdo sintético está a crescer mais depressa do que a capacidade de o detetar, seja por parte das plataformas, dos verificadores de factos ou dos próprios cidadãos — uma assimetria que tudo indica continuar a alargar-se. A segunda é a economia da desinformação: conteúdo sensacionalista e sintético tende a aumentar precisamente durante crises, porque o envolvimento (engagement) gera receita publicitária, criando um incentivo económico persistente para a produção deste tipo de material.

Juntas, estas duas tendências produzem confusão generalizada e alimentam aquilo a que a literatura chama o «dividendo do mentiroso» (liar’s dividend): a possibilidade de qualquer pessoa, incluindo figuras públicas, negar a autenticidade de provas genuínas alegando tratar-se de uma fabricação por IA, um efeito já documentado em estudos sobre a receção pública de deepfakes durante a guerra na Ucrânia (Twomey et al., 2023). O resultado final ameaça dois valores que sustentam qualquer democracia: a integridade da informação pública — ou seja, a possibilidade de esta ser suficientemente verdadeira e transparente para sustentar decisões informadas — e a autonomia humana, entendida como a capacidade de formar convicções e fazer escolhas a partir do próprio raciocínio, e não por manipulação alheia.

O que isto significa, concretamente, para professores e alunos

É neste ponto que a apresentação de Bakir se torna mais diretamente relevante para quem trabalha em contexto escolar. Os dois desafios identificados — o fosso de deteção e a economia da desinformação — traduzem-se em duas frentes de trabalho complementares. Uma diz respeito aos cidadãos e à sua consciência crítica: ajudar os alunos a compreender que o ambiente informativo que habitam é moldado, frequentemente de forma deliberada, lucrativa e emocional, ao serviço de interesses que não são os deles. A outra diz respeito às instituições e às políticas educativas: construir respostas que acompanhem o ritmo, a escala, a personalização e o poder persuasivo desta nova geração de conteúdo.

Para a prática letiva, isto tem implicações concretas. No âmbito de Cidadania e Desenvolvimento e da literacia mediática transversal ao currículo — em diálogo direto com as competências de pensamento crítico do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória —, deixa de bastar ensinar a verificar factos isoladamente. Torna-se necessário trabalhar com os alunos três perguntas complementares perante qualquer conteúdo que os emocione fortemente nas redes sociais: quem beneficia com esta mensagem, que técnica de segmentação ou de amplificação pode ter estado na sua origem, e que sinais de fabricação sintética — por mais subtis — podem estar presentes. É também importante que os alunos percebam, sem alarmismo, que nem sequer os adultos e os especialistas conseguem hoje distinguir com segurança conteúdo real de conteúdo gerado por IA apenas «a olho», e que essa dificuldade é normal, não um fracasso pessoal de literacia digital.

Há ainda uma dimensão frequentemente esquecida nestes debates, mas com relevância crescente à medida que crianças e adolescentes interagem com assistentes e companheiros de IA: a da manipulação emocional por parte dos próprios sistemas. A norma IEEE 7014.1, atualmente em desenvolvimento com a participação de Bakir, propõe 29 recomendações práticas sobre engano, manipulação e dependência emocional em sistemas de inteligência artificial de uso geral concebidos como parceiros empáticos — chatbots, assistentes pessoais e companheiros digitais. Trata-se de um documento pensado, entre outros públicos, para profissionais de literacia mediática, e que pode servir de referência para escolas que discutam com os alunos os limites éticos da interação com IA conversacional, um tema cada vez mais presente fora e dentro da sala de aula.

Nenhuma destas respostas substitui a outra. A investigação mostra que os efeitos da desinformação sobre o comportamento e as convicções das pessoas continuam a ser objeto de debate científico genuíno, e é importante que os alunos saibam disso — a literacia mediática não deve gerar pânico nem uma desconfiança paralisante face a toda a informação. Mas também é verdade que a capacidade técnica de produzir conteúdo persuasivo, indistinguível e à escala industrial cresceu de forma muito mais rápida do que a nossa capacidade coletiva de a detetar e regular. É precisamente nesse espaço — entre a cautela informada e o alarmismo improdutivo — que a escola tem um papel insubstituível a desempenhar.


Referências

Bakir, V., & McStay, A. (2022). Optimising emotions, incubating falsehood: How to protect the global civic body from disinformation and misinformation. Palgrave Macmillan. https://doi.org/10.1007/978-3-031-13551-4

Briant, E. L., & Bakir, V. (Eds.). (2024). Routledge handbook of the influence industry. Routledge.

Dobber, T., Metoui, N., Trilling, D., Helberger, N., & de Vreese, C. (2020). Do (microtargeted) deepfakes have real effects on political attitudes? The International Journal of Press/Politics, 26(1), 69–91. https://doi.org/10.1177/1940161220944364

European Digital Media Observatory. (2026, 6 de julho). Training on generative AI and hybrid influence: How do we make sense of what we hear and see? [Formação online]. https://edmo.eu/training/edmo-training-on-generative-ai-and-hybrid-influence-how-do-we-make-sense-of-what-we-hear-and-see/

Garrett, R. K. (2019). Social media’s contribution to political misperceptions in U.S. presidential elections. PLoS ONE, 14(3), e0213500. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0213500

McCombie, S., Uhlmann, A. J., & Morrison, S. (2020). The US 2016 presidential election & Russia’s troll farms. Intelligence and National Security, 35(1), 95–114. https://doi.org/10.1080/02684527.2019.1673940

NATO. (2023). Allied joint doctrine for information operations (AJP-10.1, ed. do Reino Unido). Ministério da Defesa do Reino Unido. https://www.gov.uk/government/publications/allied-joint-doctrine-for-information-operations-ajp-101

NATO Strategic Communications Centre of Excellence. (2026). Beyond spam bots: The rise of AI-powered disinformation machines and the imperative for strategic response. https://stratcomcoe.org/publications/beyond-spam-bots-the-rise-of-ai-powered-disinformation-machines-and-the-imperative-for-strategic-response/342

Reuters Institute for the Study of Journalism. (2026). Digital news report 2026. University of Oxford. https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/sites/default/files/2026-06/DNR%202026%20FINAL_2.pdf

Sekoia Threat Detection & Research Team, Chavane, C., Garçon, A.-J., & Seznec, K. (2024, 21 de maio). Master of puppets: Uncovering the DoppelGänger pro-Russian influence campaign. Sekoia Blog. https://blog.sekoia.io/master-of-puppets-uncovering-the-doppelganger-pro-russian-influence-campaign

Twomey, J., Ching, D., Aylett, M. P., Quayle, M., Linehan, C., & Murphy, G. (2023). Do deepfake videos undermine our epistemic trust? A thematic analysis of tweets that discuss deepfakes in the Russian invasion of Ukraine. PLoS ONE, 18(10), e0291668. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0291668

Weeks, B. E., & Garrett, R. K. (2014). Electoral consequences of political rumors: Motivated reasoning, candidate rumors, and vote choice during the 2008 U.S. presidential election. International Journal of Public Opinion Research, 26(4), 401–422. https://doi.org/10.1093/ijpor/edu005

A eficácia e os desafios das proibições das redes sociais

Texto recriado a partir de um artigo do Economist |

1. O Dilema de Ramon e a Vaga Global de Restrições

Para Ramón, um jovem espanhol de 15 anos, o algoritmo não é uma escolha, mas uma condição meteorológica: inevitável e, por vezes, severa. “Fazemos scroll sem pensar e perdemos a noção do tempo”, admite, descrevendo um ecossistema onde a sexualização precoce e conteúdos de violência crua — como acidentes de viação — surgem no ecrã com a mesma naturalidade que um vídeo de humor. Ramón reconhece que as redes sociais na escola “mexem com a cabeça”, mas o plano do governo espanhol de banir menores de 16 anos deixa-o cético. Para ele e para a sua geração, o proibicionismo é um desafio técnico que será superado antes da próxima atualização de software.

Esta tensão em Espanha é o prelúdio de uma mudança tectónica global. Da Austrália, que implementou uma proibição rigorosa em dezembro, ao Reino Unido, França, Brasil e China, os governos estão a tentar erguer barreiras legais onde as arquiteturas digitais falharam. Contudo, enquanto o apoio político é transversal, a implementação revela-se um campo de batalha onde a vontade legislativa embate na engenhosidade de uma geração que nasceu a saber contornar filtros.

2. O Mito da “Porta Fechada”: Engenhosidade Juvenil vs. Regras Nocionais

A ideia de que uma lei pode impedir o acesso de menores não é nova, mas o seu historial é de um fracasso sistémico. A lei americana COPPA, de 1998, estabeleceu os 13 anos como o limite de entrada, mas tornou-se uma “idade notional” largamente ignorada. Os dados do regulador britânico Ofcom são contundentes: entre as crianças de apenas 10 a 12 anos, mais de metade utiliza o Snapchat, mais de 60% o TikTok e mais de 70% o WhatsApp.

O caso da Austrália oferece uma lição de sociologia digital sobre a “inflação de contas”: após a proibição, foram desativadas 4,7 milhões de contas, um número bizarro quando contrastado com a população real de apenas 2,5 milhões de crianças nessa faixa etária. Isto sugere um uso massivo de contas múltiplas e inativas — a conta “oficial” para os pais verem e a conta real, escondida sob pseudónimos ou VPNs.

“A vontade de cumprir é baixa”, confessa um executivo do setor tecnológico. “Sem incentivos reais para as plataformas e com uma resistência natural dos utilizadores, as barreiras etárias tornam-se meras sugestões.”

3. O Viés do Algoritmo de Verificação: Quando a IA Falha na Equidade

Perante a falha da autodeclaração, a solução técnica de eleição tem sido a biometria facial, com sistemas como os da Yoti a prometerem estimar a idade através da câmara. Todavia, aqui reside o conceito de “Discriminação por Design”. Os dados da própria Yoti revelam um viés algorítmico preocupante: enquanto a IA estima a idade de um rapaz branco com um erro inferior a 10 meses, a margem de erro sobe para um ano e meio quando confrontada com uma rapariga de pele escura.

Além do erro técnico, há o risco civilizacional da privacidade. O recente hack à plataforma Discord, que expôs fotos de documentos de identificação (IDs) de milhares de utilizadores, ilustra o perigo de centralizar dados sensíveis para fins de verificação. Para os jovens, enganar estas IAs tornou-se um jogo: de fazer caretas para simular rugas a apontar a câmara para amigos mais velhos, a arquitetura de vigilância é tratada como uma inconveniência a ser hackeada.

4. O “Efeito de Precipício”: Por que Proibir pode ser mais Perigoso do que Educar

Associações de bem-estar infantil, como a Molly Rose Foundation, alertam para o “efeito de precipício”. Ao banir o acesso até aos 16 anos, os governos podem estar a criar um falso sentimento de segurança, lançando adolescentes para o mundo digital sem qualquer literacia mediática ou experiência prévia.

“Estamos a ensinar as crianças a nadar ou a atirá-las para o fundo da piscina quando fazem 16 anos?”, questiona Kathryn Modecki, do Kids Research Institute Australia.

O receio é que, ao serem expulsos das plataformas principais e moderadas, os jovens migrem para espaços encriptados e comunidades de jogo sem qualquer supervisão. Andy Burrows, da Molly Rose Foundation, é incisivo: a criminalidade não desaparece com as proibições; ela simplesmente migra para onde as crianças se escondem, longe dos olhares dos reguladores.

5. Do Conteúdo ao Design: A Nova Fronteira da Regulação

A verdadeira revolução regulatória está a deslocar-se do “o que se vê” para “como a app é construída”. A Comissão Europeia já investiga o TikTok pelo seu “design viciante”, atingindo o núcleo do modelo de negócio das tecnológicas. Esta abordagem assemelha-se à regulação de serviços financeiros: exige-se transparência, dever de cuidado e auditorias antes do lançamento de novas funcionalidades.

Esta mudança é economicamente assimétrica. Enquanto no Facebook apenas 5% dos utilizadores são menores, no Snapchat essa fatia sobe para 20%, explicando por que algumas empresas lutam com mais ferocidade contra estas leis. Os elementos agora sob fogo regulatório incluem:

• Infinite Scroll (rolagem infinita que elimina os pontos de paragem natural);

• Reprodução automática de vídeos (reforço positivo contínuo);

• Notificações push desenhadas para fragmentar a atenção;

• Algoritmos de recomendação que priorizam a retenção sobre o bem-estar.

6. Conclusão: Para Lá dos Ecrãs Esmagados

O exemplo da China é premonitório quanto à resiliência da tecnologia. Apesar do seu “modo menor” ultra-estrito — que estratifica conteúdos em cinco bandas etárias e proíbe livestreams para menores de 16 anos —, a cultura juvenil encontra fendas. O fenómeno de pais que partilham fotos de ecrãs de telemóveis esmagados em desespero tornou-se um meme, enquanto crianças e empresas exploram lacunas em dispositivos menos vigiados, como os smartwatches.

A experiência global sugere que o problema não reside no acesso, mas na própria arquitetura da nossa sociedade digital. Ao tentarmos “conferir as identidades” ou “fechar as portas”, corremos o risco de apenas esconder os sintomas de um design que nunca foi pensado para humanos, muito menos para crianças. Fica a pergunta: estamos a tentar proteger a infância ou apenas a tentar limpar o reflexo de um mundo que nos esquecemos de humanizar?

La circulación de la información y la verdad – Claves para su abordaje

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O documento intitulado “La circulación de la información y la verdad: claves para su abordaje”, organizado por Mariano Dagatti e Margoth Mena-Young e publicado pela CLACSO e CALAS, oferece uma análise crítica e multidisciplinar sobre os desafios contemporâneos da circulação de informação e das ameaças à verdade no contexto digital, particularmente na América Latina.

A obra procura compreender como os cidadãos interagem com um ecossistema informativo digital caracterizado por uma abundância de informação, desordem informativa e polarização política, e que consequências isso tem para a democracia e a vida pública.

Estrutura

O livro está organizado em capítulos que exploram nove conceitos-chave:

  • Desinformação
  • Credibilidade
  • Distorção
  • Autoridade jornalística
  • Polarização
  • Verificação
  • Algoritmo
  • Propaganda
  • Educação mediática

Tópicos centrais

1. Desinformação

Silvio Waisbord argumenta que a desinformação, embora não seja nova, ganhou novas proporções no ambiente digital. Está intrinsecamente ligada a dinâmicas de poder, sendo disseminada sobretudo por elites políticas e mediáticas. O impacto do fact-checking é limitado, sendo necessário um enfoque político e estrutural, que vá além das respostas tecnológicas e informativas convencionais.

2. Desinfodemia e credibilidade

Gustavo Araya-Martínez introduz o conceito de desinfodemia, particularmente visível durante a pandemia de COVID-19. Esta representa uma estratégia de ataque à credibilidade de instituições democráticas, científicas e jornalísticas, mobilizada por elites emergentes com fins políticos, especialmente no contexto de democracias em crise.

3. Distorções informativas e gestão de risco

Mena-Young e Tristán Jiménez propõem abordar a desinformação como um risco social, enfatizando que as distorções informativas afetam a capacidade dos cidadãos para tomarem decisões informadas — especialmente em domínios como a saúde e a ciência.

4. Crise da autoridade jornalística

Ximena Orchard analisa a perda de autoridade epistémica do jornalismo contemporâneo, marcada pela desconfiança das audiências, instrumentalização do discurso das fake news e mudança de consumo para plataformas digitais, que minam a ligação entre jornalismo e verdade factual legitimada.

5. Verificação e vida quotidiana

Dagatti e Ahibe estudam as estratégias quotidianas de verificação utilizadas por cidadãos para lidar com a incerta esfera informativa, mostrando que muitos adotam práticas críticas e seletivas no consumo mediático, embora com recursos desiguais.

6. Algoritmos e experiências de verdade

Siles, Gómez-Cruz e Muñoz-González analisam etnograficamente como os algoritmos moldam realidades subjetivas e coletivas, criando o que Latour chamou de factishes — mistura de facto e fetiche — que afetam percepções, emoções e crenças, incluindo visões místicas sobre a verdade algorítmica.

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