A eficácia e os desafios das proibições das redes sociais

Texto recriado a partir de um artigo do Economist |

1. O Dilema de Ramon e a Vaga Global de Restrições

Para Ramón, um jovem espanhol de 15 anos, o algoritmo não é uma escolha, mas uma condição meteorológica: inevitável e, por vezes, severa. “Fazemos scroll sem pensar e perdemos a noção do tempo”, admite, descrevendo um ecossistema onde a sexualização precoce e conteúdos de violência crua — como acidentes de viação — surgem no ecrã com a mesma naturalidade que um vídeo de humor. Ramón reconhece que as redes sociais na escola “mexem com a cabeça”, mas o plano do governo espanhol de banir menores de 16 anos deixa-o cético. Para ele e para a sua geração, o proibicionismo é um desafio técnico que será superado antes da próxima atualização de software.

Esta tensão em Espanha é o prelúdio de uma mudança tectónica global. Da Austrália, que implementou uma proibição rigorosa em dezembro, ao Reino Unido, França, Brasil e China, os governos estão a tentar erguer barreiras legais onde as arquiteturas digitais falharam. Contudo, enquanto o apoio político é transversal, a implementação revela-se um campo de batalha onde a vontade legislativa embate na engenhosidade de uma geração que nasceu a saber contornar filtros.

2. O Mito da “Porta Fechada”: Engenhosidade Juvenil vs. Regras Nocionais

A ideia de que uma lei pode impedir o acesso de menores não é nova, mas o seu historial é de um fracasso sistémico. A lei americana COPPA, de 1998, estabeleceu os 13 anos como o limite de entrada, mas tornou-se uma “idade notional” largamente ignorada. Os dados do regulador britânico Ofcom são contundentes: entre as crianças de apenas 10 a 12 anos, mais de metade utiliza o Snapchat, mais de 60% o TikTok e mais de 70% o WhatsApp.

O caso da Austrália oferece uma lição de sociologia digital sobre a “inflação de contas”: após a proibição, foram desativadas 4,7 milhões de contas, um número bizarro quando contrastado com a população real de apenas 2,5 milhões de crianças nessa faixa etária. Isto sugere um uso massivo de contas múltiplas e inativas — a conta “oficial” para os pais verem e a conta real, escondida sob pseudónimos ou VPNs.

“A vontade de cumprir é baixa”, confessa um executivo do setor tecnológico. “Sem incentivos reais para as plataformas e com uma resistência natural dos utilizadores, as barreiras etárias tornam-se meras sugestões.”

3. O Viés do Algoritmo de Verificação: Quando a IA Falha na Equidade

Perante a falha da autodeclaração, a solução técnica de eleição tem sido a biometria facial, com sistemas como os da Yoti a prometerem estimar a idade através da câmara. Todavia, aqui reside o conceito de “Discriminação por Design”. Os dados da própria Yoti revelam um viés algorítmico preocupante: enquanto a IA estima a idade de um rapaz branco com um erro inferior a 10 meses, a margem de erro sobe para um ano e meio quando confrontada com uma rapariga de pele escura.

Além do erro técnico, há o risco civilizacional da privacidade. O recente hack à plataforma Discord, que expôs fotos de documentos de identificação (IDs) de milhares de utilizadores, ilustra o perigo de centralizar dados sensíveis para fins de verificação. Para os jovens, enganar estas IAs tornou-se um jogo: de fazer caretas para simular rugas a apontar a câmara para amigos mais velhos, a arquitetura de vigilância é tratada como uma inconveniência a ser hackeada.

4. O “Efeito de Precipício”: Por que Proibir pode ser mais Perigoso do que Educar

Associações de bem-estar infantil, como a Molly Rose Foundation, alertam para o “efeito de precipício”. Ao banir o acesso até aos 16 anos, os governos podem estar a criar um falso sentimento de segurança, lançando adolescentes para o mundo digital sem qualquer literacia mediática ou experiência prévia.

“Estamos a ensinar as crianças a nadar ou a atirá-las para o fundo da piscina quando fazem 16 anos?”, questiona Kathryn Modecki, do Kids Research Institute Australia.

O receio é que, ao serem expulsos das plataformas principais e moderadas, os jovens migrem para espaços encriptados e comunidades de jogo sem qualquer supervisão. Andy Burrows, da Molly Rose Foundation, é incisivo: a criminalidade não desaparece com as proibições; ela simplesmente migra para onde as crianças se escondem, longe dos olhares dos reguladores.

5. Do Conteúdo ao Design: A Nova Fronteira da Regulação

A verdadeira revolução regulatória está a deslocar-se do “o que se vê” para “como a app é construída”. A Comissão Europeia já investiga o TikTok pelo seu “design viciante”, atingindo o núcleo do modelo de negócio das tecnológicas. Esta abordagem assemelha-se à regulação de serviços financeiros: exige-se transparência, dever de cuidado e auditorias antes do lançamento de novas funcionalidades.

Esta mudança é economicamente assimétrica. Enquanto no Facebook apenas 5% dos utilizadores são menores, no Snapchat essa fatia sobe para 20%, explicando por que algumas empresas lutam com mais ferocidade contra estas leis. Os elementos agora sob fogo regulatório incluem:

• Infinite Scroll (rolagem infinita que elimina os pontos de paragem natural);

• Reprodução automática de vídeos (reforço positivo contínuo);

• Notificações push desenhadas para fragmentar a atenção;

• Algoritmos de recomendação que priorizam a retenção sobre o bem-estar.

6. Conclusão: Para Lá dos Ecrãs Esmagados

O exemplo da China é premonitório quanto à resiliência da tecnologia. Apesar do seu “modo menor” ultra-estrito — que estratifica conteúdos em cinco bandas etárias e proíbe livestreams para menores de 16 anos —, a cultura juvenil encontra fendas. O fenómeno de pais que partilham fotos de ecrãs de telemóveis esmagados em desespero tornou-se um meme, enquanto crianças e empresas exploram lacunas em dispositivos menos vigiados, como os smartwatches.

A experiência global sugere que o problema não reside no acesso, mas na própria arquitetura da nossa sociedade digital. Ao tentarmos “conferir as identidades” ou “fechar as portas”, corremos o risco de apenas esconder os sintomas de um design que nunca foi pensado para humanos, muito menos para crianças. Fica a pergunta: estamos a tentar proteger a infância ou apenas a tentar limpar o reflexo de um mundo que nos esquecemos de humanizar?

La circulación de la información y la verdad – Claves para su abordaje

Download | Mapa mental

O documento intitulado “La circulación de la información y la verdad: claves para su abordaje”, organizado por Mariano Dagatti e Margoth Mena-Young e publicado pela CLACSO e CALAS, oferece uma análise crítica e multidisciplinar sobre os desafios contemporâneos da circulação de informação e das ameaças à verdade no contexto digital, particularmente na América Latina.

A obra procura compreender como os cidadãos interagem com um ecossistema informativo digital caracterizado por uma abundância de informação, desordem informativa e polarização política, e que consequências isso tem para a democracia e a vida pública.

Estrutura

O livro está organizado em capítulos que exploram nove conceitos-chave:

  • Desinformação
  • Credibilidade
  • Distorção
  • Autoridade jornalística
  • Polarização
  • Verificação
  • Algoritmo
  • Propaganda
  • Educação mediática

Tópicos centrais

1. Desinformação

Silvio Waisbord argumenta que a desinformação, embora não seja nova, ganhou novas proporções no ambiente digital. Está intrinsecamente ligada a dinâmicas de poder, sendo disseminada sobretudo por elites políticas e mediáticas. O impacto do fact-checking é limitado, sendo necessário um enfoque político e estrutural, que vá além das respostas tecnológicas e informativas convencionais.

2. Desinfodemia e credibilidade

Gustavo Araya-Martínez introduz o conceito de desinfodemia, particularmente visível durante a pandemia de COVID-19. Esta representa uma estratégia de ataque à credibilidade de instituições democráticas, científicas e jornalísticas, mobilizada por elites emergentes com fins políticos, especialmente no contexto de democracias em crise.

3. Distorções informativas e gestão de risco

Mena-Young e Tristán Jiménez propõem abordar a desinformação como um risco social, enfatizando que as distorções informativas afetam a capacidade dos cidadãos para tomarem decisões informadas — especialmente em domínios como a saúde e a ciência.

4. Crise da autoridade jornalística

Ximena Orchard analisa a perda de autoridade epistémica do jornalismo contemporâneo, marcada pela desconfiança das audiências, instrumentalização do discurso das fake news e mudança de consumo para plataformas digitais, que minam a ligação entre jornalismo e verdade factual legitimada.

5. Verificação e vida quotidiana

Dagatti e Ahibe estudam as estratégias quotidianas de verificação utilizadas por cidadãos para lidar com a incerta esfera informativa, mostrando que muitos adotam práticas críticas e seletivas no consumo mediático, embora com recursos desiguais.

6. Algoritmos e experiências de verdade

Siles, Gómez-Cruz e Muñoz-González analisam etnograficamente como os algoritmos moldam realidades subjetivas e coletivas, criando o que Latour chamou de factishes — mistura de facto e fetiche — que afetam percepções, emoções e crenças, incluindo visões místicas sobre a verdade algorítmica.

Continuar a ler

Cadernos do Contemporâneo | v. 1 / n. 1 / junho / 2025

Download |

Os “Cadernos do Contemporâneo” constituem uma nova publicação da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), lançada em junho de 2025, que visa promover o debate sobre questões prementes da sociedade contemporânea através do diálogo com intelectuais de renome. A publicação surge no contexto do Instituto L’Hermitage de Estudos Avançados e reflecte o compromisso da universidade católica em orientar o desenvolvimento tecnológico à luz da dignidade humana.

Contexto editorial e orientação ética

O editorial desta primeira edição centra-se na mensagem do Papa Francisco sobre Inteligência Artificial, proferida no Dia Mundial da Paz de 2024. A posição papal enfatiza que “a inteligência artificial deve servir à paz e não ao aumento das desigualdades ou da violência”, estabelecendo o quadro ético para a discussão. A PUCPR posiciona-se claramente ao afirmar que a pergunta central não é o que as máquinas podem fazer, mas “o que nós queremos ser enquanto humanidade”.

A universidade aprovou em agosto de 2024 diretrizes específicas para o uso ético da IA, procurando mitigar riscos relacionados com a aprendizagem, desenvolvimento cognitivo e honestidade académica.

Entrevista com Pierre Lévy

Perfil do entrevistado

Pierre Lévy, filósofo e sociólogo, é uma referência mundial em cultura digital e autor de obras fundamentais como “Cibercultura” e “A Inteligência Colectiva”. Actualmente é CEO da INTLEKT Metadata Inc. e professor emérito da Universidade de Ottawa.

Principais Perspectivas sobre Hiperconetividade

Sobre a “Era das Paixões Tristes”
Lévy argumenta que a hiperconetividade não é exclusiva dos jovens, mas omnipresente. Contesta a ideia de que a internet seja a principal causa da solidão, apontando que este é um problema antigo relacionado com urbanização e mudanças familiares. Apresenta dados mostrando que os casais se conhecem cada vez mais online, evidenciando a transformação irreversível dos laços sociais.

Inteligência colectiva e tecnologias digitais
O filósofo esclarece nunca ter afirmado que as tecnologias desenvolvem automaticamente a inteligência colectiva, mas sim que o melhor uso que podemos fazer delas é desenvolver a inteligência colectiva humana. Destaca exemplos como a Wikipédia e o software livre como manifestações bem-sucedidas desta abordagem.

Desafios das Redes Sociais
Reconhece os problemas de dependência e manipulação pelas grandes empresas tecnológicas, que utilizam “estimulação dopaminérgica” para aumentar o engagement. Propõe que os professores devem formar os alunos para um uso crítico e construtivo das redes sociais.

Visão sobre Educação e IA

Transformação da educação
Lévy não acredita que a escola vá desaparecer, mas deve transformar-se. Defende a utilização de ferramentas digitais familiares aos estudantes, transformando-as em instrumentos de aprendizagem. Partilha métodos próprios de ensino que incluíam o uso de Facebook, Twitter e blogs para criar cadernos colectivos de investigação.

IA generativa na educação
Considera ferramentas como ChatGPT muito úteis como mentores e enciclopédias de primeira mão, mas alerta que cometem erros regularmente. Enfatiza que “a IA não substitui a ignorância, pelo contrário: dá um bónus a quem já tem bons conhecimentos”. Critica o uso da IA para escrever em lugar dos estudantes, defendendo que aprendemos a pensar lendo e escrevendo pessoalmente.

Perspectivas sobre o futuro do trabalho

Lévy não acredita que o trabalho esteja concluído com a IA. Vê a automação como um processo que faz desaparecer certas profissões mas cria outras, aumentando principalmente a produtividade do trabalho cognitivo. Argumenta que sempre haverá necessidade de pessoas “inteligentes, criativas e compassivas”, mas que terão de aprender a trabalhar com novas ferramentas.

Relação entre virtual e real

O filósofo rejeita a existência de fronteiras claras entre mundo virtual e real, afirmando que “a nossa existência estende-se num intervalo e a relação fundamental entre o virtual e o real é uma transformação recíproca”. Considera que vivemos simultaneamente na realidade física e no mundo dos significados, sendo isso o que nos torna humanos.

Artigo sobre Relações Humanas na Era da IA Generativa

Contexto e desenvolvimento

O artigo de Kleber Candiotto examina como a IA generativa, especialmente desde 2017 com os modelos Transformers, tem transformado as interações humanas1. A revolução começou com o artigo “Attention is all you need” do Google, que permitiu a criação de modelos como o ChatGPT.

Impactos Psicológicos e Sociais

Continuar a ler

“História dos Media em Portugal”: uma viagem interativa pelo panorama mediático português

Uma nova aplicação web convida os utilizadores a explorar cinco séculos de evolução dos meios de comunicação em Portugal, desde a primeira gazeta até às plataformas digitais contemporâneas.

Saber mais | Literacia dos Media

Da censura à Era Digital: uma história que merece ser contada

A história dos meios de comunicação em Portugal é, em muitos aspetos, uma janela privilegiada para a própria história do país. Através da imprensa, da rádio, da televisão e, mais recentemente, dos meios digitais, é possível compreender as transformações sociais, políticas e culturais que moldaram a sociedade portuguesa ao longo dos séculos.

Foi com esta premissa que desenvolvemos a aplicação web História dos Media em Portugal, um projeto que nasceu da necessidade de disponibilizar, de forma acessível e interativa, um recurso que compile e apresente a rica história dos meios de comunicação portugueses numa perspetiva abrangente e rigorosa.

Uma experiência interativa para todos os públicos

Disponível a partir de hoje, esta nova aplicação destaca-se pela sua abordagem multidimensional e interativa à história dos media em Portugal, apresentando uma interface elegante inspirada nas cores da bandeira nacional e uma navegação intuitiva que permite ao utilizador explorar diferentes épocas e meios de comunicação.

Não se trata apenas de datas e factos, mas de contar a história de como os portugueses se informaram, entretiveram e comunicaram ao longo dos tempos.

Um percurso completo pelos media portugueses

A aplicação está estruturada em secções temáticas que permitem explorar a evolução de cada tipo de media:

  • Imprensa: Desde a “Gazeta em que se relatam as novas todas” de 1641 até aos atuais desafios da imprensa na era digital, passando pelos períodos da censura e da liberdade pós-25 de Abril.
  • Rádio: A história da radiodifusão portuguesa, incluindo as primeiras experiências na década de 1920, o papel da Emissora Nacional durante o Estado Novo e a revolução das rádios locais nos anos 80.
  • Televisão: O percurso da televisão em Portugal, desde o monopólio da RTP até à atual diversidade de canais e plataformas, destacando programas emblemáticos que marcaram gerações.
  • Cinema: Um olhar sobre a produção cinematográfica nacional, desde os pioneiros até à atual “escola portuguesa” reconhecida internacionalmente.
  • Era Digital: A análise das transformações trazidas pela internet, redes sociais e novas plataformas ao panorama mediático português.

Uma das funcionalidades mais apreciadas pelos utilizadores que já testaram a aplicação é a cronologia interativa, que permite visualizar os principais marcos da história dos media portugueses numa linha do tempo, proporcionando uma perspetiva cronológica das transformações ocorridas desde o século XVII até à atualidade.

Aprender de Forma Lúdica

Para além do seu caráter informativo, a aplicação incorpora elementos lúdicos que estimulam a aprendizagem. Destaca-se o quiz interativo com dez perguntas que desafiam o utilizador a testar os conhecimentos adquiridos durante a exploração dos conteúdos.

Uma ferramenta para escolas e universidades

A aplicação foi concebida a pensar também no uso educativo. O facto de estar disponível num formato acessível através do Google Sites, sem necessidade de instalação ou plugins adicionais, facilita a sua utilização em contexto escolar.

Acessibilidade e compatibilidade universal

Do ponto de vista técnico, a aplicação destaca-se pela sua simplicidade e eficácia. Desenvolvida em HTML, CSS e JavaScript puro, sem dependências externas, garante compatibilidade com praticamente qualquer dispositivo com acesso à internet.

O design responsivo adapta-se automaticamente a diferentes tamanhos de ecrã, proporcionando uma experiência otimizada tanto em computadores como em tablets ou smartphones.

Um contributo para a preservação da memória coletiva

Num momento em que o panorama mediático está em acelerada transformação, com desafios como a desinformação e os novos modelos de negócio digital, olhar para a história dos media portugueses pode oferecer perspetivas valiosas.

Compreender como chegámos até aqui é fundamental para pensarmos o futuro dos media em Portugal. A aplicação não é apenas sobre o passado, mas também sobre as tendências que estão a moldar o presente e a indicar caminhos para o futuro.

Experimente agora esta viagem pelos media portugueses

A aplicação “História dos Media em Portugal” está disponível gratuitamente e pode ser acedida através de qualquer navegador web. Não necessita de registo ou instalação.

Se é professor, estudante, profissional da comunicação ou simplesmente alguém interessado na história portuguesa e na evolução dos meios de comunicação, esta é uma oportunidade para explorar, de forma interativa e aprofundada, o fascinante percurso dos media em Portugal – das gazetas manuscritas aos podcasts, passando pelos jornais de grande tiragem, pelas ondas da rádio e pelo ecrã da televisão.

Embarque nesta viagem pela história dos media portugueses e descubra como os meios de comunicação moldaram (e foram moldados por) cinco séculos de história nacional.


Evitar o desastre: reconquistar a atenção

por Carlos Javier González Serrano |

Submetemos o nosso corpo até que ele perdesse a capacidade de manter a cabeça erguida, de olhar para as estrelas e de nos orientarmos. O uso excessivo dos ecrãs condenou-nos a dirigir os olhos para baixo.

Desde tempos antigos, as pessoas que – por ofício ou paixão – se dedicavam à navegação sabiam que, numa noite de céu encoberto, quando não era possível observar o movimento e a posição das estrelas, o percurso de um barco tornava-se incerto e perigoso. O desvio e a confusão eram quase inevitáveis no meio da escuridão.

Hoje sabemos que os nossos hábitos culturais, desde as leituras até ao consumo de conteúdos audiovisuais, têm uma influência decisiva na construção da nossa atenção. Contudo, parece que estamos a perder essa capacidade de forma alarmante. A atenção é o farol que guia as nossas ações e pensamentos. Sem ela, ficamos à deriva, como embarcações sem rumo.

Na rua, nos transportes públicos ou em conversas presenciais, submetemos servilmente o nosso corpo até ele perder a capacidade de manter a cabeça erguida para olhar para as estrelas e nos orientarmos. Os nossos corpos foram domesticados sob a bandeira do progresso tecnológico: o uso desmedido e normalizado dos ecrãs condenou-nos a baixar os olhos, perdendo assim de vista o horizonte e, com ele, algo mais profundo sobre nós mesmos. Da mesma forma, as nossas mãos permanecem ocupadas por dispositivos eletrónicos que seguramos voluntariamente.

Também nos movemos menos. Temos milhões de opções ao alcance da mão mas, dizem-nos, podemos aceder a tudo sem sair do lugar. Conversamos, namoramos, flertamos, lemos livros ou vemos filmes sem nos levantarmos do sofá. Mas consumimos tudo isto com pressa e ansiedade: uma série atrás da outra; um filme seguido de outro; um vídeo após outro; um scroll infinito em busca do próximo “gosto”. Enquanto isso, os nossos corpos permanecem imóveis e os nossos olhos fixos num ponto luminoso que nos prende ao chão.

No Protágoras (318e-319a), Platão recorda-nos que Sócrates dizia ter ouvido de Pitágoras que os seres humanos foram criados para olhar para o céu e contemplar as estrelas. “Não foram criados para olhar para baixo”, dizia ele. Para Pitágoras, esta capacidade era um sinal da nossa ligação com o divino. Hoje em dia, parece que estamos cada vez mais desligados desse ideal.

Cada vez mais crianças e adolescentes – mas também muitos adultos – sentem solidão, ansiedade e angústia ao preencherem os seus dias com conteúdos digitais que saturam irremediavelmente o seu tempo sem enriquecê-lo. O efeito TikTok (rapidez, isolamento, dispersão) é particularmente evidente na geração dos ecrãs: já não é raro encontrar alguém incapaz de manter uma conversa fluida ou de sustentar um diálogo profundo.

Reconquistar a atenção é também reconquistar o nosso lugar no mundo: erguer novamente os olhos para o céu e recuperar a conexão perdida com aquilo que está acima e além de nós mesmos.