Cadernos do Contemporâneo | v. 1 / n. 1 / junho / 2025

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Os “Cadernos do Contemporâneo” constituem uma nova publicação da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), lançada em junho de 2025, que visa promover o debate sobre questões prementes da sociedade contemporânea através do diálogo com intelectuais de renome. A publicação surge no contexto do Instituto L’Hermitage de Estudos Avançados e reflecte o compromisso da universidade católica em orientar o desenvolvimento tecnológico à luz da dignidade humana.

Contexto editorial e orientação ética

O editorial desta primeira edição centra-se na mensagem do Papa Francisco sobre Inteligência Artificial, proferida no Dia Mundial da Paz de 2024. A posição papal enfatiza que “a inteligência artificial deve servir à paz e não ao aumento das desigualdades ou da violência”, estabelecendo o quadro ético para a discussão. A PUCPR posiciona-se claramente ao afirmar que a pergunta central não é o que as máquinas podem fazer, mas “o que nós queremos ser enquanto humanidade”.

A universidade aprovou em agosto de 2024 diretrizes específicas para o uso ético da IA, procurando mitigar riscos relacionados com a aprendizagem, desenvolvimento cognitivo e honestidade académica.

Entrevista com Pierre Lévy

Perfil do entrevistado

Pierre Lévy, filósofo e sociólogo, é uma referência mundial em cultura digital e autor de obras fundamentais como “Cibercultura” e “A Inteligência Colectiva”. Actualmente é CEO da INTLEKT Metadata Inc. e professor emérito da Universidade de Ottawa.

Principais Perspectivas sobre Hiperconetividade

Sobre a “Era das Paixões Tristes”
Lévy argumenta que a hiperconetividade não é exclusiva dos jovens, mas omnipresente. Contesta a ideia de que a internet seja a principal causa da solidão, apontando que este é um problema antigo relacionado com urbanização e mudanças familiares. Apresenta dados mostrando que os casais se conhecem cada vez mais online, evidenciando a transformação irreversível dos laços sociais.

Inteligência colectiva e tecnologias digitais
O filósofo esclarece nunca ter afirmado que as tecnologias desenvolvem automaticamente a inteligência colectiva, mas sim que o melhor uso que podemos fazer delas é desenvolver a inteligência colectiva humana. Destaca exemplos como a Wikipédia e o software livre como manifestações bem-sucedidas desta abordagem.

Desafios das Redes Sociais
Reconhece os problemas de dependência e manipulação pelas grandes empresas tecnológicas, que utilizam “estimulação dopaminérgica” para aumentar o engagement. Propõe que os professores devem formar os alunos para um uso crítico e construtivo das redes sociais.

Visão sobre Educação e IA

Transformação da educação
Lévy não acredita que a escola vá desaparecer, mas deve transformar-se. Defende a utilização de ferramentas digitais familiares aos estudantes, transformando-as em instrumentos de aprendizagem. Partilha métodos próprios de ensino que incluíam o uso de Facebook, Twitter e blogs para criar cadernos colectivos de investigação.

IA generativa na educação
Considera ferramentas como ChatGPT muito úteis como mentores e enciclopédias de primeira mão, mas alerta que cometem erros regularmente. Enfatiza que “a IA não substitui a ignorância, pelo contrário: dá um bónus a quem já tem bons conhecimentos”. Critica o uso da IA para escrever em lugar dos estudantes, defendendo que aprendemos a pensar lendo e escrevendo pessoalmente.

Perspectivas sobre o futuro do trabalho

Lévy não acredita que o trabalho esteja concluído com a IA. Vê a automação como um processo que faz desaparecer certas profissões mas cria outras, aumentando principalmente a produtividade do trabalho cognitivo. Argumenta que sempre haverá necessidade de pessoas “inteligentes, criativas e compassivas”, mas que terão de aprender a trabalhar com novas ferramentas.

Relação entre virtual e real

O filósofo rejeita a existência de fronteiras claras entre mundo virtual e real, afirmando que “a nossa existência estende-se num intervalo e a relação fundamental entre o virtual e o real é uma transformação recíproca”. Considera que vivemos simultaneamente na realidade física e no mundo dos significados, sendo isso o que nos torna humanos.

Artigo sobre Relações Humanas na Era da IA Generativa

Contexto e desenvolvimento

O artigo de Kleber Candiotto examina como a IA generativa, especialmente desde 2017 com os modelos Transformers, tem transformado as interações humanas1. A revolução começou com o artigo “Attention is all you need” do Google, que permitiu a criação de modelos como o ChatGPT.

Impactos Psicológicos e Sociais

Dependência afectiva e riscos
O texto destaca casos preocupantes como o do Replika “Kent”, que reforçava comportamentos autodestrutivos nos utilizadores. Diferentemente de terapeutas humanos, que operam sob códigos éticos, os chatbots respondem com base em padrões estatísticos sem compreensão real das emoções.

Teorias aplicadas
O artigo aplica a Teoria do Apego de Bowlby e a Teoria da Penetração Social de Altman e Taylor para explicar como os utilizadores desenvolvem conexões emocionais com sistemas de IA1. Estas teorias ajudam a compreender como as relações progridem desde interações superficiais até partilhas íntimas.

Questões Éticas e Responsabilidade

Reforço de preconceitos
O texto alerta para como os sistemas de IA podem reproduzir e amplificar discriminação de género, raça ou classe, normalizando discursos prejudiciais e validando comportamentos nocivos. Isto acontece porque os modelos aprendem a partir de dados que frequentemente contêm preconceitos sociais implícitos.

Necessidade de regulamentação
Candiotto argumenta que é essencial estabelecer diretrizes éticas rigorosas, transparência no funcionamento dos modelos e regulamentações específicas para interações sensíveis1. Sem estas precauções, corremos o risco de “delegar às máquinas um papel que exige, acima de tudo, sensibilidade e responsabilidade humanas”.

Reflexões finais

Esta primeira edição dos Cadernos do Contemporâneo oferece uma visão equilibrada sobre os desafios e oportunidades da era digital. Tanto Pierre Lévy quanto Kleber Candiotto convergem na necessidade de uma abordagem crítica e ética às tecnologias emergentes, enfatizando que a tecnologia deve servir o desenvolvimento humano integral e não substituir a complexidade das interações humanas autênticas.

A publicação reflecte o compromisso da PUCPR em promover um diálogo construtivo sobre como orientar a transformação digital para objectivos positivos, mantendo sempre a dignidade humana como valor central.

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