Os “Cadernos do Contemporâneo” constituem uma nova publicação da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), lançada em junho de 2025, que visa promover o debate sobre questões prementes da sociedade contemporânea através do diálogo com intelectuais de renome. A publicação surge no contexto do Instituto L’Hermitage de Estudos Avançados e reflecte o compromisso da universidade católica em orientar o desenvolvimento tecnológico à luz da dignidade humana.
Contexto editorial e orientação ética
O editorial desta primeira edição centra-se na mensagem do Papa Francisco sobre Inteligência Artificial, proferida no Dia Mundial da Paz de 2024. A posição papal enfatiza que “a inteligência artificial deve servir à paz e não ao aumento das desigualdades ou da violência”, estabelecendo o quadro ético para a discussão. A PUCPR posiciona-se claramente ao afirmar que a pergunta central não é o que as máquinas podem fazer, mas “o que nós queremos ser enquanto humanidade”.
A universidade aprovou em agosto de 2024 diretrizes específicas para o uso ético da IA, procurando mitigar riscos relacionados com a aprendizagem, desenvolvimento cognitivo e honestidade académica.
Entrevista com Pierre Lévy
Perfil do entrevistado
Pierre Lévy, filósofo e sociólogo, é uma referência mundial em cultura digital e autor de obras fundamentais como “Cibercultura” e “A Inteligência Colectiva”. Actualmente é CEO da INTLEKT Metadata Inc. e professor emérito da Universidade de Ottawa.
Principais Perspectivas sobre Hiperconetividade
Sobre a “Era das Paixões Tristes” Lévy argumenta que a hiperconetividade não é exclusiva dos jovens, mas omnipresente. Contesta a ideia de que a internet seja a principal causa da solidão, apontando que este é um problema antigo relacionado com urbanização e mudanças familiares. Apresenta dados mostrando que os casais se conhecem cada vez mais online, evidenciando a transformação irreversível dos laços sociais.
Inteligência colectiva e tecnologias digitais O filósofo esclarece nunca ter afirmado que as tecnologias desenvolvem automaticamente a inteligência colectiva, mas sim que o melhor uso que podemos fazer delas é desenvolver a inteligência colectiva humana. Destaca exemplos como a Wikipédia e o software livre como manifestações bem-sucedidas desta abordagem.
Desafios das Redes Sociais Reconhece os problemas de dependência e manipulação pelas grandes empresas tecnológicas, que utilizam “estimulação dopaminérgica” para aumentar o engagement. Propõe que os professores devem formar os alunos para um uso crítico e construtivo das redes sociais.
Visão sobre Educação e IA
Transformação da educação Lévy não acredita que a escola vá desaparecer, mas deve transformar-se. Defende a utilização de ferramentas digitais familiares aos estudantes, transformando-as em instrumentos de aprendizagem. Partilha métodos próprios de ensino que incluíam o uso de Facebook, Twitter e blogs para criar cadernos colectivos de investigação.
IA generativa na educação Considera ferramentas como ChatGPT muito úteis como mentores e enciclopédias de primeira mão, mas alerta que cometem erros regularmente. Enfatiza que “a IA não substitui a ignorância, pelo contrário: dá um bónus a quem já tem bons conhecimentos”. Critica o uso da IA para escrever em lugar dos estudantes, defendendo que aprendemos a pensar lendo e escrevendo pessoalmente.
Perspectivas sobre o futuro do trabalho
Lévy não acredita que o trabalho esteja concluído com a IA. Vê a automação como um processo que faz desaparecer certas profissões mas cria outras, aumentando principalmente a produtividade do trabalho cognitivo. Argumenta que sempre haverá necessidade de pessoas “inteligentes, criativas e compassivas”, mas que terão de aprender a trabalhar com novas ferramentas.
Relação entre virtual e real
O filósofo rejeita a existência de fronteiras claras entre mundo virtual e real, afirmando que “a nossa existência estende-se num intervalo e a relação fundamental entre o virtual e o real é uma transformação recíproca”. Considera que vivemos simultaneamente na realidade física e no mundo dos significados, sendo isso o que nos torna humanos.
Artigo sobre Relações Humanas na Era da IA Generativa
Contexto e desenvolvimento
O artigo de Kleber Candiotto examina como a IA generativa, especialmente desde 2017 com os modelos Transformers, tem transformado as interações humanas1. A revolução começou com o artigo “Attention is all you need” do Google, que permitiu a criação de modelos como o ChatGPT.
Uma nova aplicação web convida os utilizadores a explorar cinco séculos de evolução dos meios de comunicação em Portugal, desde a primeira gazeta até às plataformas digitais contemporâneas.
Da censura à Era Digital: uma história que merece ser contada
A história dos meios de comunicação em Portugal é, em muitos aspetos, uma janela privilegiada para a própria história do país. Através da imprensa, da rádio, da televisão e, mais recentemente, dos meios digitais, é possível compreender as transformações sociais, políticas e culturais que moldaram a sociedade portuguesa ao longo dos séculos.
Foi com esta premissa que desenvolvemos a aplicação web “História dos Media em Portugal“, um projeto que nasceu da necessidade de disponibilizar, de forma acessível e interativa, um recurso que compile e apresente a rica história dos meios de comunicação portugueses numa perspetiva abrangente e rigorosa.
Uma experiência interativa para todos os públicos
Disponível a partir de hoje, esta nova aplicação destaca-se pela sua abordagem multidimensional e interativa à história dos media em Portugal, apresentando uma interface elegante inspirada nas cores da bandeira nacional e uma navegação intuitiva que permite ao utilizador explorar diferentes épocas e meios de comunicação.
Não se trata apenas de datas e factos, mas de contar a história de como os portugueses se informaram, entretiveram e comunicaram ao longo dos tempos.
Um percurso completo pelos media portugueses
A aplicação está estruturada em secções temáticas que permitem explorar a evolução de cada tipo de media:
Imprensa: Desde a “Gazeta em que se relatam as novas todas” de 1641 até aos atuais desafios da imprensa na era digital, passando pelos períodos da censura e da liberdade pós-25 de Abril.
Rádio: A história da radiodifusão portuguesa, incluindo as primeiras experiências na década de 1920, o papel da Emissora Nacional durante o Estado Novo e a revolução das rádios locais nos anos 80.
Televisão: O percurso da televisão em Portugal, desde o monopólio da RTP até à atual diversidade de canais e plataformas, destacando programas emblemáticos que marcaram gerações.
Cinema: Um olhar sobre a produção cinematográfica nacional, desde os pioneiros até à atual “escola portuguesa” reconhecida internacionalmente.
Era Digital: A análise das transformações trazidas pela internet, redes sociais e novas plataformas ao panorama mediático português.
Uma das funcionalidades mais apreciadas pelos utilizadores que já testaram a aplicação é a cronologia interativa, que permite visualizar os principais marcos da história dos media portugueses numa linha do tempo, proporcionando uma perspetiva cronológica das transformações ocorridas desde o século XVII até à atualidade.
Aprender de Forma Lúdica
Para além do seu caráter informativo, a aplicação incorpora elementos lúdicos que estimulam a aprendizagem. Destaca-se o quiz interativo com dez perguntas que desafiam o utilizador a testar os conhecimentos adquiridos durante a exploração dos conteúdos.
Uma ferramenta para escolas e universidades
A aplicação foi concebida a pensar também no uso educativo. O facto de estar disponível num formato acessível através do Google Sites, sem necessidade de instalação ou plugins adicionais, facilita a sua utilização em contexto escolar.
Acessibilidade e compatibilidade universal
Do ponto de vista técnico, a aplicação destaca-se pela sua simplicidade e eficácia. Desenvolvida em HTML, CSS e JavaScript puro, sem dependências externas, garante compatibilidade com praticamente qualquer dispositivo com acesso à internet.
O design responsivo adapta-se automaticamente a diferentes tamanhos de ecrã, proporcionando uma experiência otimizada tanto em computadores como em tablets ou smartphones.
Um contributo para a preservação da memória coletiva
Num momento em que o panorama mediático está em acelerada transformação, com desafios como a desinformação e os novos modelos de negócio digital, olhar para a história dos media portugueses pode oferecer perspetivas valiosas.
Compreender como chegámos até aqui é fundamental para pensarmos o futuro dos media em Portugal. A aplicação não é apenas sobre o passado, mas também sobre as tendências que estão a moldar o presente e a indicar caminhos para o futuro.
Experimente agora esta viagem pelos media portugueses
A aplicação “História dos Media em Portugal” está disponível gratuitamente e pode ser acedida através de qualquer navegador web. Não necessita de registo ou instalação.
Se é professor, estudante, profissional da comunicação ou simplesmente alguém interessado na história portuguesa e na evolução dos meios de comunicação, esta é uma oportunidade para explorar, de forma interativa e aprofundada, o fascinante percurso dos media em Portugal – das gazetas manuscritas aos podcasts, passando pelos jornais de grande tiragem, pelas ondas da rádio e pelo ecrã da televisão.
Embarque nesta viagem pela história dos media portugueses e descubra como os meios de comunicação moldaram (e foram moldados por) cinco séculos de história nacional.
Submetemos o nosso corpo até que ele perdesse a capacidade de manter a cabeça erguida, de olhar para as estrelas e de nos orientarmos. O uso excessivo dos ecrãs condenou-nos a dirigir os olhos para baixo.
Desde tempos antigos, as pessoas que – por ofício ou paixão – se dedicavam à navegação sabiam que, numa noite de céu encoberto, quando não era possível observar o movimento e a posição das estrelas, o percurso de um barco tornava-se incerto e perigoso. O desvio e a confusão eram quase inevitáveis no meio da escuridão.
Hoje sabemos que os nossos hábitos culturais, desde as leituras até ao consumo de conteúdos audiovisuais, têm uma influência decisiva na construção da nossa atenção. Contudo, parece que estamos a perder essa capacidade de forma alarmante. A atenção é o farol que guia as nossas ações e pensamentos. Sem ela, ficamos à deriva, como embarcações sem rumo.
Na rua, nos transportes públicos ou em conversas presenciais, submetemos servilmente o nosso corpo até ele perder a capacidade de manter a cabeça erguida para olhar para as estrelas e nos orientarmos. Os nossos corpos foram domesticados sob a bandeira do progresso tecnológico: o uso desmedido e normalizado dos ecrãs condenou-nos a baixar os olhos, perdendo assim de vista o horizonte e, com ele, algo mais profundo sobre nós mesmos. Da mesma forma, as nossas mãos permanecem ocupadas por dispositivos eletrónicos que seguramos voluntariamente.
Também nos movemos menos. Temos milhões de opções ao alcance da mão mas, dizem-nos, podemos aceder a tudo sem sair do lugar. Conversamos, namoramos, flertamos, lemos livros ou vemos filmes sem nos levantarmos do sofá. Mas consumimos tudo isto com pressa e ansiedade: uma série atrás da outra; um filme seguido de outro; um vídeo após outro; um scroll infinito em busca do próximo “gosto”. Enquanto isso, os nossos corpos permanecem imóveis e os nossos olhos fixos num ponto luminoso que nos prende ao chão.
No Protágoras (318e-319a), Platão recorda-nos que Sócrates dizia ter ouvido de Pitágoras que os seres humanos foram criados para olhar para o céu e contemplar as estrelas. “Não foram criados para olhar para baixo”, dizia ele. Para Pitágoras, esta capacidade era um sinal da nossa ligação com o divino. Hoje em dia, parece que estamos cada vez mais desligados desse ideal.
Cada vez mais crianças e adolescentes – mas também muitos adultos – sentem solidão, ansiedade e angústia ao preencherem os seus dias com conteúdos digitais que saturam irremediavelmente o seu tempo sem enriquecê-lo. O efeito TikTok (rapidez, isolamento, dispersão) é particularmente evidente na geração dos ecrãs: já não é raro encontrar alguém incapaz de manter uma conversa fluida ou de sustentar um diálogo profundo.
Reconquistar a atenção é também reconquistar o nosso lugar no mundo: erguer novamente os olhos para o céu e recuperar a conexão perdida com aquilo que está acima e além de nós mesmos.
O artigo “Escravos de nuestras palabras” publicado no site Ethic.es aborda a forma como a nossa privacidade se tornou praticamente inexistente na era digital. As nossas palavras, mensagens e interações online são permanentemente registadas e podem ser usadas contra nós a qualquer momento, transformando-nos em reféns do nosso próprio discurso. Esta realidade tem criado uma cultura de cancelamento onde comentários do passado podem destruir reputações e carreiras num instante, independentemente do contexto original ou da evolução de pensamento da pessoa em questão.
A Perda da privacidade na era digital
Vivemos numa era em que, quase sem darmos por isso, alienámos a nossa privacidade até níveis que nem o mais dogmático comissário político poderia imaginar. “A vida privada morreu na Rússia”, diz Strelnikov em Doctor Zhivago, mas aquilo era insignificante comparado com a exposição a que nos submetemos voluntariamente hoje em dia. Realizámos um completo esvaziamento das nossas vidas no fórum público e perdemos o controlo sobre o que poderá ser feito com as nossas palavras. A nossa privacidade não é apenas invadida – é deliberadamente cedida através das nossas interações diárias nas redes sociais, mensagens e pesquisas online.
Ninguém conseguiria resistir ao escrutínio completo do seu WhatsApp, das suas mensagens privadas no Instagram, do seu histórico de pesquisas no Google ou das suas conversas com o ChatGPT. Este registo permanente torna-se especialmente perigoso porque pode ser utilizado contra qualquer pessoa, e mesmo as palavras mais inocentes, quando devidamente manipuladas e retiradas do seu contexto, podem destruir completamente uma reputação. Esta realidade criou uma atmosfera de autocensura constante, onde as pessoas temem expressar-se livremente, sabendo que qualquer palavra pode ser desenterrada anos depois.
O caso Karla Sofía Gascón
Um exemplo paradigmático desta dinâmica é o da atriz Karla Sofía Gascón, que estava prestes a alcançar o Óscar quando se deparou abruptamente com as suas próprias palavras do passado. Tweets publicados há alguns anos, com opiniões contra a imigração, contra a lenda negra, contra o islão, e contra várias causas progressistas, foram suficientes para a afastar da confortável categoria de oprimida (como mulher trans) e colocá-la no grupo dos opressores1. De acordo com a lógica interseccional contemporânea, Karla não poderia ser simultaneamente de direita e trans, criando um paradoxo identitário que resultou na sua condenação pública.
Este caso ilustra perfeitamente como nada do que dizemos é já inocente, contextual ou transitório. As palavras não desaparecem e podem regressar anos depois, mesmo que já não nos identifiquemos com elas ou nem sequer nos lembremos de as ter proferido. No nosso mundo híbrido, real e virtual, tudo existe num presente perpétuo, e embora Karla Sofía Gascón possa já não pensar hoje o que pensava há apenas quatro anos, isso pouco importa: o que foi dito está dito e permanecerá para sempre no registo digital.
A exposição da vida privada como entretenimento
A perda de privacidade não se limita apenas à exposição de opiniões políticas controvertidas. A vida íntima tornou-se material de entretenimento. Paralelamente ao caso de Karla Gascón, o autor do artigo menciona ter visto na televisão uma mulher a divulgar publicamente as suas conversas privadas com o futebolista Iker Casillas. Apesar de não haver nada particularmente escandaloso nas mensagens do antigo guarda-redes, para além do seu caráter mundano, o facto de uma conversa privada se tornar conteúdo para um programa de televisão em horário nobre é revelador da nossa relação atual com a privacidade.
O verdadeiramente perturbador é a normalização desta invasão da privacidade. As mensagens eram simplesmente o tipo de resposta esperada a fotografias provocantes — “Estás boníssima” — e foram recebidas com agradecimento pela destinatária. O que deveria causar preocupação é o facto de estas trocas de mensagens privadas serem apresentadas como informação que o público “precisa de saber”, como se tivéssemos direito de acesso às comunicações íntimas de outras pessoas. Esta normalização da vigilância coletiva tem consequências profundas para o nosso comportamento social e para a nossa saúde mental.
A Geração Z e a abolição voluntária da privacidade
A situação torna-se ainda mais complexa quando consideramos que as gerações mais jovens, particularmente a Geração Z, parecem ter nascido sem qualquer noção de privacidade. Nas redes sociais, é comum encontrar capturas de ecrã de conversas privadas ou até mesmo de perfis de aplicações de encontros de terceiros, expostos sem consentimento, quase sempre para ridicularização pública. Esta geração internalizou completamente a ideia de que tudo é potencialmente público e que até uma mensagem de “bom dia”, quando adequadamente editada, pode tornar-se motivo para cancelamento.
Mais preocupante ainda é a aparente relutância em abdicar do poder que esta dinâmica confere: o poder de decisão sobre a vida dos outros e a excitação do “reforço intermitente variável” que as redes sociais proporcionam. A capacidade de expor alguém e potencialmente destruir a sua reputação tornou-se uma forma de capital social, criando uma sociedade de vigilância horizontal onde todos são simultaneamente vigilantes e vigiados.
As consequências de uma sociedade sem privacidade
Muitas pessoas argumentam que mais transparência significa menos hipocrisia, mas o artigo alerta que “uma casa com paredes de cristal é a pior das prisões” — e é precisamente nessa prisão que todos vivemos atualmente. Os defensores da ideia de que “o pessoal é político” têm vindo a provar do seu próprio remédio, um após outro, incluindo figuras políticas como Errejón. É paradoxal que estas mesmas pessoas agora apelem ao contexto, quando o contexto é precisamente o primeiro elemento a ser ignorado quando uma imagem ou palavra se torna de domínio público.
A sociedade contemporânea não está preparada para subtilezas ou nuances. O julgamento nas redes sociais é rápido, implacável e frequentemente desprovido de qualquer consideração pelo contexto, intenção ou evolução pessoal. Esta realidade cria uma permanente sensação de insegurança, onde cada palavra deve ser cuidadosamente avaliada não apenas pelo seu significado no presente, mas pelo que poderia potencialmente significar num futuro contexto desconhecido.
A reapropiação do silêncio
O verdadeiro desafio atual não é apenas reconhecer que somos mais escravos das nossas palavras do que nunca, mas descobrir como podemos reapropiar-nos do nosso silêncio. Esta tarefa torna-se particularmente difícil numa sociedade estruturada em torno da imagem pública, onde tudo fica permanentemente registado. Manter-se em silêncio, evitar as redes sociais, não participar no fórum público, tornou-se um luxo — talvez o maior luxo dos tempos modernos.
Como o anonimato se tornou praticamente impossível, o artigo sugere que deveríamos pelo menos procurar formas de nos relacionarmos de maneira mais sensata com as nossas próprias palavras e com as dos outros. Isto implica uma compreensão mais matizada da linguagem, do contexto e da capacidade humana para crescer e mudar ao longo do tempo. Implica também o desenvolvimento de uma ética digital que respeite a privacidade e reconheça o direito ao esquecimento.
Conclusão
A cultura do cancelamento e a nossa relação com as palavras no ambiente digital criaram uma realidade onde somos simultaneamente mais verbais e menos livres do que nunca. A permanência das nossas interações digitais transformou cada declaração num potencial documento contra nós próprios, num futuro imprevisível. Esta dinâmica não apenas compromete a nossa liberdade de expressão, mas fundamentalmente altera o modo como nos relacionamos uns com os outros e connosco mesmos.
A recuperação do silêncio e da privacidade surge como um imperativo ético numa era de hiperexposição. Não se trata apenas de proteger a nossa imagem pública, mas de preservar os espaços necessários para o pensamento autêntico, a experimentação de ideias e o crescimento pessoal. Numa sociedade onde tudo é potencialmente público, devemos reaprender a valorizar o privado não como um privilégio, mas como uma necessidade fundamental para o desenvolvimento do pensamento crítico e da identidade pessoal.
Talvez o verdadeiro desafio seja encontrar um equilíbrio entre a transparência necessária para a responsabilização social e o direito fundamental à privacidade e à evolução pessoal. Em vez de utilizar as palavras do passado como armas, poderíamos aprender a vê-las como marcos num caminho de crescimento contínuo, reconhecendo que nenhum de nós deveria ser permanentemente definido pelas nossas declarações menos ponderadas ou pelas opiniões que já abandonámos.
A literacia mediática é uma ferramenta essencial para navegar com segurança na Internet e evitar a desinformação.
Ilustração: freepik.es
Autora: Mariana Sofía Jiménez Nájera
A forma como consumimos notícias mudou drasticamente ao longo dos anos, os jornais tornaram-se aplicativos em nossos celulares e até mesmo alguns motoristas de notícias optaram por criar seus próprios canais no YouTube. No entanto, estes não são os únicos meios para se manter informado: para muitas pessoas, as redes sociais também são uma valiosa fonte de informação para se manter a par dos acontecimentos do momento. A Internet permite que as pessoas descubram o que está a acontecer em qualquer lugar do mundo em tempo real, e a propagação da informação é mais rápida do que nunca. No entanto, esta é uma arma de dois gumes, pois enquanto ter toda essa informação no seu bolso é maravilhoso, pode ser contraproducente devido ao grande número de informação falsa que qualquer pessoa pode publicar; tornando a litercia dos media uma ferramenta primordial para navegar na Internet com segurança.
Notícias falsas ou notícias falsas
O conceito de fake news foi muito soado devido ao seu uso constante por Donald Trump durante a campanha das eleições presidenciais dos EUA, pelo que se tornou viral. No entanto, este conceito existe muito tempo antes de este ser tão popularizado. O dicionário de inglês Oxford define-o como «notícias que transmitem ou incorporam informações falsas, fabricadas, deliberadamente enganosas ou caracterizadas como tal ou acusadas de ser». Hoje em dia, a Internet tem sido suscetível a este tipo de notícias devido à voz que este meio dá a qualquer pessoa para comentar e criar conteúdo.
Infelizmente, enquanto existem notícias falsas que podem parecer inofensivas e insignificantes para alguns, como a ruptura entre duas celebridades ou o avistamento de alienígenas em áreas rurais, relatórios indicam que também existem informações falsas espalhadas através de redes sociais de caráter sensível, como o desaparecimento de pessoas ou animais de estimação que na verdade não estão desaparecidos, assassinos em série soltos ou a propagação de doenças letais que não existem. Isso é extremamente grave para pessoas que genuinamente procuram os seus entes queridos, dado que, devido à saturação de comunicados, o legítimo se perde entre tantas postagens semelhantes, as pessoas dessensibilizam-se e até mesmo os anúncios reais chegam a ser ignorados. Da mesma forma, muita dessa desinformação serve meramente para assustar e incitar o medo e o pânico nos utilizadores.
Um exemplo muito claro foi durante a pandemia global de COVID-19.Sendo um evento de importância mundial, o telemóvel tornou-se fundamental para estar ciente da informação no momento em relação às novas descobertas deste vírus. Milhares de notícias enganosas circularam em todas as redes sociais, desde recomendações sobre como se cuidar através da ingestão de desinfetante até que os termómetros infravermelhos causavam câncer, e até mesmo desmentindo a existência do vírus. Este tipo de informação foi partilhada sem parar; o que teve consequências graves e letais para algumas pessoas.
Da mesma forma, enquanto as inteligências artificiais chegaram para ficar e são benéficas para áreas como educação, manufatura, medicina, etc., muitas pessoas começaram a usá-las para criar imagens e vídeos falsos que parecem tão reais que é difícil verificar a sua veracidade a olho nu. Há alguns meses, tornou-se viral uma fotografia do Papa Francisco usando um casaco de marca, que recebeu milhares de gostos e comentários, e até mesmo pessoas que pensavam que era real. Embora isso possa parecer apenas uma piada inocente, representa um perigo para as pessoas, pois também poderiam ser usadas para reafirmar a confiabilidade das notícias falsas em questões mais delicadas, como saúde pública ou segurança.
Portanto, a informação que encontramos na internet não se resume apenas a textos ou fotos já editadas com o Photoshop, mas também podem ser imagens e vídeos gerados do zero; o que, infelizmente, as complementa e beneficia para que as pessoas acreditem que esse tipo de notícia seja verdadeira.
Então, por que é que há pessoas que espalham notícias falsas? A resposta recai sobre os criadores de tais publicações. Ao conter temas extremamente alarmistas, este conteúdo geralmente tem um alcance muito mais amplo e rápido, gerando um grande número de seguidores, gostos, comentários, etc.; que além de criar atenção para si mesmos, às vezes também podem ganhar dinheiro devido aos cliques das pessoas que entram nos links fornecidos, que podem estar cheios de anúncios. Da mesma forma, estes também criam confusão, incentivam conflitos sociais, e até chegam a influenciar a forma de pensar das pessoas em relação a temas sociais, políticos, ecológicos, entre outros.
Embora qualquer pessoa possa ser vítima deste tipo de engano, os adultos mais velhos podem ser um grupo vulnerável, uma vez que grande parte carece das competências digitais que as gerações mais novas têm, pelo que lhes é difícil distinguir o verdadeiro e o real. Sem deixar de lado que qualquer pessoa pode cair em enganos ao não verificar as suas fontes, confiar em sites de origem duvidosa, etc. Apesar disso, nem tudo está perdido e todos nós podemos desenvolver competências de literacia mediática para combater a desinformação.
A literacia mediática
A UNESCO define a literacia mediática como «o conjunto de competências inter-relacionadas que ajudam as pessoas a maximizar vantagens e minimizar danos nas áreas informáticas, digitais e informação. […] abrange competências que permitem às pessoas interagir de forma crítica e eficaz com a informação, outras formas de conteúdo, as instituições que a facilitam e o uso reflexivo das tecnologias digitais».
Sendo o mundo de hoje tão errático e complicado, a literacia mediática é uma competência necessária para todas as pessoas, que permite que elas usem o seu pensamento crítico para avaliar a informação e que possam partilhá-la de forma responsável, mantendo uma postura neutra para evitar serem manipuladas.
É por isso que a ministração de aulas sobre literacia mediática é tão relevante, e embora no momento não seja uma matéria ou tema que se dá em muitas escolas, os professores encarregaram-se de dar a devida atenção a este tema, uma vez que é uma ferramenta valiosa para o dia-a-dia no mundo digital.
NAMLE (National Association for Media Literacy Education) é uma organização que desde 1997 se dedica a impulsionar a literacia mediática nos Estados Unidos, que propõe cinco componentes básicos para interagir com as notícias:
Acesso: Refere-se à frequência, tempo, maneira e local em que as pessoas acessam a Internet. Ou seja, a forma como as pessoas navegam na rede para encontrar informações, as restrições que podem ter nos seus países quanto a quais informações podem receber, bem como o conhecimento que têm em relação à literacia mediática, entre outros.
Analisar: O processo de perguntar no momento de consumir notícias para questionar a sua veracidade. Algumas delas podem ser:
Quando e onde esta informação foi carregada?
Quem é o autor e qual é a sua credibilidade nos média?
Qual é o objetivo do autor?
Quais são as fontes em que a informação é baseada?
Existem evidências desta informação em outros sites confiáveis?
Que técnicas esta nota usa para atrair a atenção?
Qual é a linguagem do conteúdo?
Avaliar: Aqui os nossos julgamentos e formas de pensar envolvem-se com os dados encontrados, isso depois de realizar os dois passos anteriores. Isso implica as vivências, valores e interpretações do mundo de cada pessoa. Depois de refletir sobre esses dados, as mensagens são interpretadas através de perguntas como as seguintes:
Quão credível é esta mensagem?
É uma opinião ou um facto?
Como isso impacta as minhas emoções?
É propaganda ou procura mudar a minha maneira de pensar?
Pode-se confiar nesta fonte?
No momento da avaliação, procura-se também identificar o subtexto ou mensagens mais subtis que a informação encontrada pode ter. Além de entender as conexões que o média tem com as diferentes ideologias que existem.
Criar: A forma de expressão para comunicar através dos média e das ferramentas digitais ao nosso alcance para criar novas narrativas através de vídeos, textos, podcasts, partilhar postagens, comunicar com outros, etc. Não só se aplica à criação de conteúdo, mas também à nossa interação com os média ao nosso alcance e o que fazemos com a informação:
A minha mensagem é um facto ou uma opinião?
Quem beneficiará ou se prejudicará com esta mensagem?
Quais são as minhas fontes de informação?
Como quero que as pessoas reajam e/ou ajam com a minha mensagem?
De que outras maneiras a minha mensagem poderia ser interpretada?
Agir: Aqui o processo culmina, e onde se tem uma interação previamente refletida responsável com a informação recebida. Desta forma, também é importante incentivar a literacia mediática nos outros e diminuir a desinformação.
Da mesma forma, o NAMLE fornece uma folha de exercícios para uso em sala de aula, que pode ser de grande conveniência para examinar notícias com os alunos em maior profundidade e testar as suas competências de literacia mediática.
Outras dicas para confirmar a veracidade das notícias
Verifique a veracidade do site: é melhor obter dados de instituições confiáveis em vez de blogs ou páginas de redes sociais. Fontes confiáveis geralmente têm terminação nos seus links: .gov (governo), .org (organização sem fins lucrativos), .edu (educação), entre outros.
Se a notícia não aparecer em mais de um ou dois lugares, o mais provável é que não seja autêntica. Verifique fontes confiáveis para verificar se é real ou não.
Verifique a forma como a nota está escrita: se tiver muitas letras maiúsculas ou se o site para onde a notícia o leva tiver muitos anúncios ou pop-ups, há uma probabilidade de ser falsa. Assim como se usar títulos e imagens que propiciam o clickbait de forma exagerada.
Ver se as fotografias utilizadas parecem questionáveis, devemos lembrar que hoje em dia as imagens geradas por IA são cada vez mais comuns. Se você as vir de perto, muitas vezes você pode notar inconsistências na edição ou pode verificar usando o Google; onde pode arrastar a foto em questão no motor de busca e identificar em que outros contextos ela foi usada.
A literacia mediática é necessária para lidar com o nosso dia-a-dia, e é essencial que seja aprendida desde tenra idade devido à facilidade de propagação de fake news que existem; especialmente agora que a Internet é vital durante todas as etapas pelas quais as pessoas passam, por isso é impossível evitá-la.
Sem dúvida vivemos numa época que nos desafia intelectualmente, a saturação de notícias pode afetar a nossa saúde mental através de dados falsos, pessimismo, e até mesmo golpes. É nossa responsabilidade para com a nossa comunidade questionar o que consumimos na Internet e verificar as fontes de que nos informamos para evitar cair na desinformação; além de criar conteúdo de qualidade que beneficie mais do que prejudique os outros.