Abrir um livro antigo e cheirá-lo é um gesto tão comum que raramente reparamos nele. O historiador Will Tullett leva-o a sério: mostra que há séculos se associa o aroma dos livros ao saber, que a química do papel explica boa parte do que sentimos e que o nariz também serve para ler o passado. Para as escolas, a conversa tem pontas por onde pegar, da biblioteca à aula de Físico-Química.

Quem trabalha numa biblioteca escolar conhece a cena. Um aluno tira da estante um volume que ninguém abria há anos, aproxima-o do rosto e diz, meio a rir, «isto cheira a velho». O que parece uma graça de corredor tem uma história comprida e, desde há alguns anos, também uma explicação científica. Foi esse caminho que Will Tullett, historiador da Universidade de York, percorreu num excerto do seu novo livro, Sniff: A History of Smells (Yale University Press, 2026), publicado pela Literary Hub a 4 de novembro. Partimos desse texto, juntámos-lhe fontes científicas e institucionais e deixámos para o fim a pergunta que mais interessa a quem ensina: o que se faz com isto na escola?
Um saber que cheirava bem
Em 1345, o inglês Richard de Bury descreveu as livrarias e bibliotecas de Paris como «mais aromáticas do que depósitos de especiarias». Segundo Tullett, Bury via no ato de ler uma maneira de adoçar a memória e no conhecimento um perfume que se espalha. A imagem não era só inglesa nem só medieval. Em chinês, shuxiang significa ao mesmo tempo «conhecimento» e «cheiro dos livros», e Tullett lembra que, na China dos séculos XVII e XVIII, uma biblioteca bem recheada dava respeitabilidade a uma família; deixar o perfume dos livros apagar-se era arriscar a decadência do bom nome.
A tradição filosófica ocidental, essa, nunca morreu de amores pelo olfato. De Aristóteles a Kant, houve quem o tivesse por subjetivo, dispensável e pouco fiável, e a visão ficou no topo da hierarquia dos sentidos como fonte do conhecimento. Não admira que a sátira tenha feito dos colecionadores um alvo fácil: o francês La Bruyère, no século XVII, e o dramaturgo vitoriano Douglas Jerrold troçaram de quem enchia prateleiras de livros por ler e julgava absorver sabedoria só por lhes dar uma fungadela.
Cheirar para distinguir o verdadeiro do falso
O nariz já foi instrumento de perito. Tullett conta que, pelo menos desde o século XI, os colecionadores chineses farejavam falsificações envelhecidas de propósito. O pintor e poeta Mi Fu avisava que as peças «curtidas» no fumo guardavam o cheiro, ao passo que o papel ou a seda genuinamente antigos tinham uma fragrância própria. Perto de setecentos anos depois, em 1781, um colecionador terá confirmado, só de abrir o volume, que o livro de poesia que o amigo trazia de Suzhou era mesmo uma bela edição da dinastia Song.
Já no século XX, em Paris, o filósofo japonês Kuki Shūzō escreveu que, quando cheiramos uma rosa, não é a fragrância que desencadeia a memória: sentimos na fragrância a memória do passado. Tullett liga-o a Proust e acrescenta um pormenor que interessa a quem dá aulas. As investigações de psicólogos e neurocientistas sobre memória olfativa costumam pedir aos participantes que cheirem e depois se esforcem, deliberadamente, por construir recordações. O cheiro não despeja uma lembrança já pronta; abre uma porta e pede trabalho a quem entra.
O que a ciência encontrou no «cheiro a livro velho»
Em 2017, Cecilia Bembibre e Matija Strlič, do Instituto de Património Sustentável da University College London (UCL), publicaram na revista Heritage Science um estudo que trata o cheiro do papel antigo como património a documentar. Fizeram duas experiências. Na primeira, pediram aos visitantes da biblioteca do Deão e do Cabido da Catedral de São Paulo, em Londres, que descrevessem o aroma do espaço. Todos os inquiridos o disseram «amadeirado», 86% «fumado», 71% «terroso» e 41% «baunilha», e mais de 70% achou-o agradável. Na segunda, apresentaram, sem qualquer identificação, o cheiro de um livro de 1928 comprado numa loja de segunda mão a visitantes de um museu de Birmingham. A palavra mais usada foi «chocolate» (e variantes), seguida de «café» (comunicado da editora do estudo).
Por trás destas palavras há compostos concretos. A equipa recolheu os compostos orgânicos voláteis do livro e da biblioteca, isto é, as substâncias que se evaporam à temperatura ambiente e chegam ao nariz, e cruzou-os com as descrições dos visitantes para desenhar uma «roda de odores do livro histórico». Segundo o artigo, alguns desses compostos estão ligados à degradação da celulose (o furfural) e outros à da lenhina (o benzaldeído e a vanilina). Bembibre explicou à Popular Science que os compostos voláteis do chocolate e do café parecem muito semelhantes aos dos livros, o que ajuda a perceber por que razão as pessoas vão buscar essas palavras. Os autores admitem que a roda possa vir a servir de ferramenta de diagnóstico: o cheiro como pista do estado de decomposição de um objeto.
Convém, porém, não exagerar. A experiência de Birmingham envolveu 79 pessoas, de acordo com a mesma revista, e os investigadores falam de resultados preliminares que pedem mais trabalho. O que fica de mais curioso talvez seja um pormenor da biblioteca de São Paulo: o cheiro daquele espaço é tão célebre que aparece nos livros de visitas, e o curador exige que qualquer intervenção de conservação o preserve.
Tullett acrescenta a perspetiva histórica. O odor parecido com baunilha está relacionado com a decomposição dos componentes químicos do papel, e o papel moderno, desde finais do século XIX, é menos estável quimicamente e, por isso, mais cheiroso do que o antigo. A Biblioteca do Congresso norte-americana conta a outra face da moeda: as fábricas passaram do trapo de algodão para a pasta de madeira ainda no início do século XIX, e a lenhina e outras impurezas da madeira oxidam e produzem ácidos que tornam o papel quebradiço. Em 1997, um responsável da instituição avisava que a maior parte dos livros da casa estava em risco de se tornar demasiado frágil para ser manuseada (Dalrymple, 1997). As datas variam consoante as fontes, mas a ideia é a mesma: o aroma que tanto nos agrada é, em parte, o sinal de um livro a degradar-se.
O papel que já foi trapo
Antes da pasta de madeira, o papel europeu fazia-se muitas vezes com roupa velha. Tullett lembra que a recolha de trapos era trabalho de idosos, de pobres e de mulheres, e que as fábricas cheiravam tão mal que um turista que visitou uma, no Württemberg, em 1842, ficou com o olfato «muito ofendido». Em Inglaterra, os fiscais cheiravam as folhas para perceber, pelo alcatrão do cordame, se pertenciam à segunda classe e pagavam menos imposto, até o uso do branqueador permitir aos menos honestos disfarçar o cheiro e a cor.
O branqueamento deixava rasto nos rios. No North Esk, na Escócia, o cirurgião John Falconer, pescador de toda a vida, reconheceu o cheiro a cloreto de cal, o desinfetante dos hospitais, e foi uma das testemunhas que levaram as fábricas a tribunal; depois de 1841, os efluentes passaram a ser controlados. Nos anos 1860, a Guerra Civil americana cortou o fornecimento de algodão e as fábricas viraram-se para o esparto, cujo efluente, segundo Tullett, era ainda mais fétido. Em 1941, em Lewiston, no Maine, o rio Androscoggin cheirava a sulfureto de hidrogénio por causa do processo de sulfito. A história do papel é também a história de quem o fabricou e de quem viveu rio abaixo.
Dunhuang e o nariz dos outros
A 25 de junho de 1900, o monge taoista Wang Yuanlu, que restaurava as Grutas de Mogao, em Dunhuang, no noroeste da China, encontrou uma biblioteca escondida atrás de uma pequena porta. Em 1907 e 1908, Aurel Stein e Paul Pelliot compraram-lhe grandes quantidades de manuscritos e levaram-nos para fora da China, segundo o International Dunhuang Programme, que, a partir da British Library, trabalha com parceiros de vários países para tornar essas coleções acessíveis.
Tullett usa o episódio para mostrar outra coisa. Os europeus que mais tarde cuidaram desses materiais, e os viajantes que antes tinham chegado ao Tibete, descreveram o «cheiro tibetano» (manteiga de iaque, fumo, incenso) com uma condescendência colonial evidente. Ignoravam que, para os tibetanos, esses cheiros tinham significados próprios. No Bardo Thodol, do século XIV, deixar de sentir o cheiro de uma lamparina de manteiga a apagar-se era sinal de morte próxima; e o fumo do tabaco dos ocidentais era ofensivo, ao ponto de um decreto do 13.º Dalai Lama, em 1918, proibir os cigarros em Lhasa. Quando um grupo diz que o outro «cheira mal», diz muitas vezes mais sobre si do que sobre quem é cheirado. Tullett nota que aqueles narizes raramente pararam para pensar em como a sua própria cultura soaria reduzida a estereótipos.
O que fazer com isto na escola
Uma nota de honestidade antes de avançar: não encontrámos estudos que mostrem que cheirar livros melhora a leitura ou as aprendizagens. O que se segue são propostas nossas, de natureza pedagógica, ainda por experimentar.
Em Português ou nas línguas estrangeiras, a ideia de Tullett sobre a memória olfativa dá uma atividade simples: cada aluno escolhe um livro, cheira-o, e escreve dez linhas sobre o que o cheiro lhe lembra e a quem o associa. O vocabulário sensorial dos adolescentes costuma ser pobre, e este exercício obriga a procurar palavras e comparações. Resulta ainda melhor se ligada à «estante aberta» sugerida no artigo sobre a biblioteca de Loyola Brandão, em que professores e funcionários levam à escola livros da sua casa.
Nas ciências, a «roda de odores» é um bom objeto de partida. Ao nível do secundário, pode servir de porta de entrada para os compostos orgânicos voláteis, a oxidação e a acidez. Uma ideia: comparar com tiras indicadoras o pH de papel de jornal e de papel de cópias, depois de ensaiar antes com a turma, porque o resultado depende do papel usado. Já em História e em Cidadania, o percurso do trapo ao rio poluído e o caso de Dunhuang dão matéria para falar de trabalho, de indústria, de património e de quem tem direito a guardar e a descrever as coisas dos outros. Pedir aos alunos que descrevam o cheiro de uma cozinha ou de um lugar que não é o seu, e depois debater o que essas palavras revelam, é uma boa maneira de falar de estereótipos. O mesmo fio liga-se ao que dissemos sobre ler o mundo em múltiplos formatos: o cheiro é mais um deles, e a escola pouco o trabalha.
A própria biblioteca escolar também pode aprender alguma coisa. Segundo a revista Chemistry World, o controlo da temperatura, da humidade, da luz e da qualidade do ar, bem como das condições de armazenamento, abranda de forma significativa a deterioração do papel (Chemistry World). Nenhuma escola vai desacidificar o seu acervo, mas pode evitar guardar livros em arrecadações húmidas ou ao sol e ensinar os alunos a pegar neles com cuidado. Uma nota de prudência: livros com bolor não se aproximam do nariz.
Por fim, a leitura por prazer. Se há elo fraco na escola portuguesa, é esse, e o artigo sobre os rapazes, os livros e os algoritmos mostra bem a dimensão do problema. O cheiro não substitui o texto, e ninguém lê melhor por cheirar uma lombada. Mas um livro é um objeto com peso, textura e odor, e isso faz parte do convite, sobretudo para quem passa o dia em ecrãs. Quem ficou com vontade de ler mais devagar encontra ponto de partida em Anne Carson e a leitura lenta e em o que a escola pode fazer perante a saturação informativa.
Da próxima vez que um aluno disser «isto cheira a velho», talvez valha a pena perguntar-lhe: a quê, exatamente?
Nota de transparência: este artigo foi elaborado com o apoio de inteligência artificial, a partir do excerto de Will Tullett publicado na Literary Hub (4 de novembro de 2026),
Referências
BMC (BioMed Central). (2017, 6 de abril). «What do old books smell like?» — Preserving smells as important cultural heritage [Comunicado de imprensa]. EurekAlert!. https://www.eurekalert.org/news-releases/858333 (acedido em 5 de novembro de 2026)
Bembibre, C., & Strlič, M. (2017). Smell of heritage: A framework for the identification, analysis and archival of historic odours. Heritage Science, 5, Artigo 2. https://doi.org/10.1186/s40494-016-0114-1 (acedido em 5 de novembro de 2026)
Chemistry World. (s.d.). Acidity will destroy paper without conservation and careful handling. https://chemistryworld.com/news/how-the-british-library-preserves-ancient-manuscripts/3007191.article (acedido em 5 de novembro de 2026)
Dalrymple, W. (1997, 21 de abril). A paper chase: Technology helps library save its paper collections. Library of Congress Information Bulletin, 56(8). https://www.loc.gov/loc/lcib/970421/deacid.html (acedido em 5 de novembro de 2026)
Griggs, M. B. (2017, 7 de abril). Old books actually smell like chocolate and coffee. Popular Science. https://www.popsci.com/old-book-smell/ (acedido em 5 de novembro de 2026)
International Dunhuang Programme. (2023, 22 de junho). Shaping the Stein collection’s Dunhuang corpus (1): Wang Yuanlu, the first «curator». British Library. https://idp.bl.uk/blog/shaping-the-stein-collections-dunhuang-corpus-1-wang-yuanlu-the-first-curator/ (acedido em 5 de novembro de 2026)
Tullett, W. (2026). Sniff: A history of smells. Yale University Press. https://yalebooks.yale.edu/book/9780300282597/sniff/ (acedido em 5 de novembro de 2026)
Tullett, W. (2026, 4 de novembro). The olfactory history of book collecting [Excerto de Sniff: A history of smells]. Literary Hub. https://lithub.com/the-olfactory-history-of-book-collecting/ (acedido em 5 de novembro de 2026)
Para saber mais
A tecnologia matou a leitura? Talvez estejamos a fazer as perguntas erradas, aqui no blogue. · Todos os artigos sobre leitura. · International Dunhuang Programme, para quem quiser conhecer a história da biblioteca escondida de Mogao. · O estudo da UCL sobre o cheiro dos livros, de acesso aberto.
