A tecnologia matou a leitura? Talvez estejamos a fazer as perguntas erradas

De tempos a tempos, regressa o diagnóstico de que a cultura escrita está a morrer às mãos da tecnologia. Desta vez, a culpa recai sobre os telemóveis e a inteligência artificial. Mas os dados são menos dramáticos do que as manchetes e muito mais incómodos para a escola.

A revista LER publicou, no seu número 177, um texto de Luís Naves com um título que dispensa apresentações: «A tecnologia matou a leitura?». Leu-se de uma assentada e, depois, voltou-se atrás para sublinhar. Não por trazer respostas fechadas, mas por pôr lado a lado coisas que costumamos discutir separadamente: a escrita assistida por máquinas, o temor de que se leia menos e a evidência, nem sempre simpática, sobre o que os jovens e os adultos conseguem de facto fazer com um texto.

Um livro em 45 minutos

O ponto de partida é quase caricatura. Segundo o New York Times, a autora norte-americana que assina como Coral Hart publicou mais de duzentos romances num só ano, sob 21 pseudónimos, com a ajuda do assistente Claude, da Anthropic. Garante que consegue fabricar um livro em 45 minutos e que vendeu cerca de 50 mil exemplares na Amazon. Feitas as contas, são em média 250 exemplares por título: dinheiro, talvez, mas dificilmente um fenómeno literário. Já tínhamos escrito sobre esta lógica de livros produzidos em minutos e o que isso faz ao conceito de autoria; o número mudou, a questão ficou.

O outro episódio é o do romance de terror Shy Girl, de Mia Ballard, cuja edição norte-americana foi cancelada pela Hachette depois de suspeitas de uso de IA. A editora afirma que a decisão foi anterior à notícia do jornal. O que interessa para quem trabalha com leitores é a observação de Naves: os modelos vão aprender a corrigir os «sinais» que hoje denunciam um texto de máquina (lugares-comuns, prosa demasiado certinha), pelo que distinguir quem escreveu o quê será cada vez menos fiável. Para a sala de aula, isto tem consequências diretas. Se nem os editores conseguem distinguir, fingir que o professor o faz a olho é, no mínimo, otimismo.

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A tese pessimista e as suas raízes

Naves resume o argumento do crítico britânico James Marriott: a democratização da leitura, iniciada no século XVIII, estaria agora a ser revertida pelo ecrã. Smartphones, vídeos curtos, vocabulário mais pobre, frases mais curtas, universitários que já não aguentam textos que os da geração anterior despachavam sem esforço. A este coro junta-se Nicholas Carr, que em 2008 perguntava na The Atlantic se o Google nos estava a tornar estúpidos. A anedota de Nietzsche e da máquina de escrever, que teria tornado a sua prosa mais telegráfica, é bonita, mas convém saber que há quem a conteste como explicação do estilo do filósofo.

A tese tem força porque toca em algo que qualquer professor reconhece: a dificuldade crescente de manter a atenção num texto longo. Já aqui falámos disso a propósito da saturação informativa e da leitura rápida e, mais recentemente, da relação entre algoritmos, rapazes e livros. A pergunta é se essa experiência, real, equivale a um colapso da literacia.

O que dizem os números

Aqui o texto de Naves faz o que mais falta faz nestas discussões: confronta o apocalipse com os dados. No PISA 2022, a pontuação de Portugal em leitura foi de 477 pontos, menos 15 do que em 2018 (492), numa queda em linha com a da média da OCDE, que desceu 11. Cerca de 23% dos alunos de 15 anos ficaram abaixo do nível 2, isto é, com dificuldade em compreender textos, e só 4,7% atingiram os níveis mais altos (5 e 6). Dito de outra forma: quase um em cada quatro com dificuldades sérias, e um grupo de excelência minúsculo. Não é um colapso, mas é uma degradação lenta, que não se explica só com telemóveis.

O inquérito da OCDE às competências dos adultos, divulgado em dezembro de 2024, acrescenta uma nota desconfortável: em literacia, Portugal obteve 235 pontos e ficou em penúltimo lugar entre 31 países, acima apenas do Chile. Sem termo de comparação com a década anterior, como Naves faz notar, não sabemos se estamos a melhorar ou a piorar. O que o estudo indica, segundo o mesmo texto, é que as quebras são mais fortes entre quem tem menos escolaridade, e que países como a Finlândia e a Dinamarca registaram melhorias. Se a tecnologia fosse o vilão único, não haveria países a subir.

Há ainda o contexto de longa duração. Em 1926, o analfabetismo atingia dois terços dos portugueses; hoje, a taxa é praticamente nula. Os autores do estudo da OCDE, aliás, associam os problemas de literacia a fragilidades do ensino ou à pobreza, e não aos dispositivos digitais.

Os modernistas já tinham visto o filme

A parte mais surpreendente do texto de Naves é o recuo ao início do século XX. Em 1926, Virginia Woolf escreveu sobre o cinema, que na altura ainda era mudo, e começou por achá-lo uma arte «simples, até estúpida», a canibalizar a literatura para satisfazer as massas. Mas ficou-se por aí? Nada disso. O resto do ensaio, «The Cinema», intui que haveria uma «emoção visual» à espera da nova arte e que a técnica chegaria ao som e à cor. O que parecia ameaça era, afinal, um território novo. Em Portugal, a discussão fez-se por outras vias: no primeiro número da revista Presença, em março de 1927, José Régio escreveu que faltava à literatura portuguesa originalidade e sinceridade e defendeu a procura da «literatura viva», aquela que nasce da sensibilidade, da inteligência e da imaginação de quem escreve.

Desta viagem no tempo, Naves tira uma ideia simples e que nos parece muito útil: os modernistas perceberam depressa que as inovações técnicas teriam um impacto profundo na cultura e que as obras-primas corriam o risco de ser banalizadas, sim, mas a nova arte estava ainda na infância. A inteligência artificial está agora a derrubar fronteiras entre quem produz e quem consome arte, e há, como sempre houve, quem veja o desastre e quem veja oportunidades.

O que muda (e o que não muda) na escola

Para quem está numa sala de aula ou numa biblioteca escolar, três ideias parecem-nos úteis.

A primeira é que o problema não é só o ecrã. Se os resultados dependem tanto da condição socioeconómica, da geografia e das migrações, a resposta passa por equidade, por tempo de leitura protegido e por mediação, e não por proibir tecnologia sem mais. A segunda é que a escrita assistida por IA obriga a repensar o que pedimos aos alunos: um texto «sem erros» já não prova que alguém pensou, e talvez seja altura de valorizar o processo, a oralidade e a argumentação. Aliás, a IA não é apenas uma ferramenta, e isso muda o que a escola tem de ensinar. A terceira é a conclusão de Naves, a que voltamos: as máquinas usam todo o vocabulário e conhecem todos os factos, mas são mais fracas na consciência e na imaginação, e é aí que a literatura viva de Régio, e a escola, têm de apostar.

Os alarmes, de resto, nunca foram novidade. Em 1993, o escritor David Foster Wallace via na televisão uma civilização cínica e vazia; em 1928, Paul Valéry imaginava a cultura a chegar a casa como chegam a água, o gás e a corrente elétrica, e achava que isso a tornaria mais acessível, não mais pobre. Hoje a televisão fragmentou-se e a internet mudou tudo, e a democratização trouxe acesso e também ruído. Naves não esconde que a informação circula sem mediadores e que já nem sempre distinguimos a verdade da mentira; mas o gráfico de dois séculos, nota, sobe: mais literacia, mais acesso. E agora a democratização chega à própria escrita, porque qualquer cidadão pode conceber, escrever e editar uma história sua. O texto termina com uma pergunta, que deixamos como ele a deixa, porque é a mais honesta: se qualquer pessoa pode agora conceber, escrever e editar uma história sua, será isto um retrocesso?

Talvez a questão não seja se a tecnologia matou a leitura, mas o que fazemos para que quem hoje lê pouco, ou lê mal, tenha razões e condições para ler melhor. É um trabalho de escola e, sobretudo, de quem a faz funcionar todos os dias. Por falar nisso, até os próprios alunos têm opinião sobre os resultados que os descrevem, como mostrámos em «Quando os alunos comentam o PISA».

Nota editorial: este artigo foi elaborado com o apoio de inteligência artificial.

Referências

Carr, N. (2008, julho/agosto). Is Google making us stupid? The Atlantic. https://www.theatlantic.com/magazine/archive/2008/07/is-google-making-us-stupid/306868/ (acedido em 25 de outubro de 2026)

Diário de Notícias. (2024, 10 de dezembro). Adultos portugueses são dos que têm menos competências na OCDE. https://www.dn.pt/3689942/adultos-portugueses-sao-dos-que-tem-menos-competencias-na-ocde/ (acedido em 25 de outubro de 2026)

Futurism. (2026, 10 de fevereiro). «Novelist» boasts that using AI she can churn out a new book in 45 minutes. https://futurism.com/artificial-intelligence/ai-novelist (acedido em 25 de outubro de 2026)

Marriott, J. (s.d.). The dawn of the post-literate society. Cultural Capital. https://jmarriott.substack.com/p/the-dawn-of-the-post-literate-society (acedido em 25 de outubro de 2026)

Naves, L. (2026). A tecnologia matou a leitura? LER, (177).

Woolf, V. (1926). The cinema. Arts. Disponível em https://www.themarginalian.org/index.php/2013/02/25/virginia-woolf-on-the-cinema-1926/ (acedido em 25 de outubro de 2026)

Observador. (2023, dezembro). Portugal já não é o caso de sucesso e cai em todos os domínios, em linha com a OCDE: o PISA. https://observador.pt/especiais/portugal-ja-nao-e-o-caso-de-sucesso-e-cai-em-todos-os-dominios-em-linha-com-a-ocde-o-pisa (acedido em 25 de outubro de 2026)

Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económicos. (2024, 10 de dezembro). Survey of Adult Skills 2023: Portugal. https://www.oecd.org/en/publications/survey-of-adults-skills-2023-country-notes_ab4f6b8c-en/portugal_dc35a4c5-en (acedido em 25 de outubro de 2026)

Publishers Lunch. (2026, 20 de março). Hachette cancels «Shy Girl» for being AI-generated. https://lunch.publishersmarketplace.com/2026/03/hachette-cancels-shy-girl-for-being-ai-generated/ (acedido em 25 de outubro de 2026)

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