Em meados de agosto, um artigo de opinião publicado no El País voltou a tocar numa ferida que as escolas conhecem bem: os rapazes leem menos, leem pior e, sobretudo, gostam menos de ler. Três semanas depois, o PISA 2025 veio pôr números nessa intuição. Em Portugal, as raparigas de 15 anos ficaram 33 pontos à frente dos rapazes na leitura. Vale a pena olhar para estes dados com calma, sem alarmismo e sem desculpas, e perguntar o que cabe à escola fazer num tempo em que quem escolhe o que os jovens leem é, cada vez mais, um algoritmo.

Um título que já é um diagnóstico
O artigo chama-se «Leer en tiempos de algoritmos: diagnóstico de una brecha anunciada» e saiu na secção de Educação do El País a 13 de agosto de 2026. Um dos autores, Daniel Turienzo, resumiu-o nas redes com uma pergunta provocatória: ler será «cosa de niñas»? O subtítulo diz o resto. Se queremos jovens capazes de se orientar no século XXI, precisamos que rapazes e raparigas leiam em profundidade, que tenham prazer nisso e que se reconheçam nos livros.
Há ali três exigências diferentes, e convém não as misturar. Ler em profundidade é uma competência. Ter prazer é uma disposição. Reconhecer-se nos livros é uma questão de identidade, de saber se aquilo que a escola põe à frente dos alunos lhes diz alguma coisa. É neste terceiro ponto que muitas estratégias de promoção da leitura tropeçam, sobretudo com os rapazes adolescentes.
O texto abre com uma frase do Quixote, e a escolha tem a sua graça. Na segunda parte do romance, Cervantes escreve que «el que lee mucho y anda mucho, vee mucho y sabe mucho». Logo o Quixote, a história de um homem que enlouqueceu de tanto ler romances de cavalaria. Quatro séculos depois, o risco que nos preocupa é precisamente o contrário.
O que o PISA 2025 veio confirmar
Os resultados do PISA 2025 foram divulgados pela OCDE a 8 de setembro. A leitura foi o domínio que mais caiu. Entre 2015 e 2025, a média dos países da OCDE desceu 28 pontos, o que a própria organização traduz em cerca de ano e meio de aprendizagem. E a queda não foi igual para todos. Entre 2022 e 2025, os rapazes perderam em média 17 pontos e as raparigas 12, pelo que a distância entre uns e outras aumentou cinco pontos. Hoje, na média da OCDE, as raparigas estão 30 pontos à frente.
Em Portugal, a diferença é ainda maior: 33 pontos a favor das raparigas. Segundo o relatório nacional, as raparigas obtiveram 479 pontos e os rapazes 445, sendo a diferença apresentada como 33 pontos por efeito de arredondamento. A média nacional, de 462 pontos, está alinhada com a da OCDE (461), mas isso não chega para tranquilizar ninguém. Em relação a 2022, Portugal perdeu 15 pontos na leitura. Em relação a 2018, perdeu 30. Estar na média, quando a média está a descer, é um consolo fraco.
Há outros números do relatório nacional que qualquer professor de Português devia ter presentes. Os alunos que, com 15 anos, ainda frequentavam o 9.º ano obtiveram 417 pontos na leitura, contra 483 dos colegas do 10.º ano. São 67 pontos de distância por causa de um ano de escolaridade, que em muitos casos corresponde a uma retenção. E a diferença entre os alunos de meios mais favorecidos e os de meios mais desfavorecidos chega aos 80 pontos. Género, percurso escolar e origem social cruzam-se aqui, e quem trabalha em escola sabe que raramente aparecem sozinhos.
A OCDE associa esta evolução ao aumento da digitalização, ao prolongamento do tempo de ecrã e à quebra da leitura por prazer. O verbo que usa é cuidadoso: estas tendências coincidiram com resultados mais fracos. É uma correlação, não uma prova de causa. Mas é uma correlação que se repete demasiadas vezes para ser ignorada.
O gosto de ler também tem género
Os testes medem competências. Não medem a vontade de pegar num livro ao fim do dia. Para isso é preciso ir a outras fontes, e as mais consistentes vêm do Reino Unido, onde o National Literacy Trust inquire todos os anos mais de cem mil crianças e jovens.
Os dados de 2025 foram os piores em vinte anos. Apenas 32,7% dos inquiridos entre os 8 e os 18 anos disseram gostar de ler nos tempos livres, quando em 2005 eram 51,4%. Menos de um em cada cinco lia alguma coisa todos os dias por iniciativa própria. O relatório sobre a leitura na adolescência, publicado em julho deste ano, mostra onde a coisa se complica: entre os 14 e os 16 anos, só 18,8% dos rapazes dizem gostar de ler, contra 37,7% das raparigas. As raparigas também perdem o entusiasmo no início da adolescência, mas recuperam. Os rapazes, em grande parte, não voltam.
Há uma boa notícia, ainda que modesta. Em 2026, o gosto pela leitura subiu pela primeira vez em cinco anos, para 36,1%. Continua muito longe dos níveis de há uma década, mas mostra que a curva não é uma fatalidade.
E em Portugal? Não consegui identificar uma série anual comparável sobre leitura por prazer entre crianças e jovens. O retrato mais sólido que temos é o Inquérito às Práticas Culturais dos Portugueses 2020, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, com apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. Nele, 61% dos inquiridos afirmaram não ter lido nenhum livro impresso nos doze meses anteriores. Os jovens dos 15 aos 24 anos surgiam como o grupo que menos prazer retira da leitura, possivelmente porque é também o que mais lê por obrigação escolar. É um dado que devia fazer-nos pensar sobre a forma como a escola apresenta os livros.
O algoritmo não lê por nós, mas escolhe por nós
Seria fácil, e errado, pôr as culpas todas no telemóvel. Os jovens não deixaram de ler. Leem constantemente: mensagens, legendas, comentários, fios de discussão, descrições de vídeos. O que mudou foi o tipo de leitura e quem decide o que aparece à frente dos olhos. Uma plataforma de vídeo curto não foi pensada para que alguém fique quarenta minutos dentro da mesma história. Foi pensada para que passe ao conteúdo seguinte, e ao seguinte, e ao seguinte.
A leitura longa pede exatamente o que o feed desencoraja: tempo contínuo, tolerância ao tédio das primeiras páginas, capacidade de segurar uma ideia complexa sem recompensa imediata. Não é por acaso que o PISA 2025 aponta como mais preocupante a erosão das competências que mais contam na era da inteligência artificial, como avaliar informação, relacionar várias fontes e pensar criticamente sobre o que se lê. Quem não treina a leitura atenta dificilmente saberá desconfiar de uma resposta bem escrita por uma máquina.
Mas os mesmos inquéritos britânicos trazem uma pista útil. Os jovens que dizem não gostar de ler continuam a ler letras de músicas, notícias, banda desenhada, fan fiction. E os rapazes, em particular, dizem ler sobretudo para perceber o mundo e ligar-se a causas que lhes interessam, mais do que para gerir emoções. O problema pode não ser a falta de leitores, mas a distância entre o que eles leem e o que a escola reconhece como leitura.
O que a escola pode fazer já na próxima segunda-feira
Nenhuma escola vai inverter sozinha uma tendência internacional. Mas há margem de manobra, e boa parte dela depende de decisões que se tomam no conselho pedagógico, no departamento de Línguas e na biblioteca escolar.
A primeira é dar tempo. Se a leitura por prazer só existe em casa, fica entregue às desigualdades de cada família, e os números do estatuto socioeconómico mostram bem o que isso significa. Reservar momentos de leitura livre dentro do horário, sem ficha no fim nem nota associada, é das medidas mais simples e menos exploradas que conheço. A segunda é dar escolha. O National Literacy Trust insiste que a autonomia na escolha do livro pesa muito no gosto pela leitura, sobretudo entre os leitores mais relutantes. Ler «o livro da turma» tem o seu lugar, mas não pode ser a única experiência que um rapaz de 14 anos tem com a leitura na escola.
A terceira é alargar o que conta como leitura. Não ficção, divulgação científica, desporto, biografias, romance gráfico, textos ligados aos jogos que os alunos jogam ou às séries que veem. Nada disto substitui a educação literária prevista nas Aprendizagens Essenciais de Português, mas pode ser a porta de entrada para ela. A biblioteca escolar tem aqui um papel que nenhuma outra estrutura da escola consegue desempenhar, porque pode oferecer diversidade sem a pressão da avaliação.
A quarta tem a ver com modelos. Muitos rapazes raramente veem um homem adulto a ler por gosto, seja em casa, seja na escola. Professores de outras disciplinas que falam dos livros que andam a ler, pais convidados para sessões com a turma, alunos mais velhos a recomendar leituras aos mais novos: são gestos pequenos que mudam a ideia de que ler «é coisa de raparigas».
A quinta é juntar a leitura à literacia digital, em vez de as pôr em campos opostos. Uma aula em que os alunos comparam o que o algoritmo lhes mostra durante uma semana com o que escolheriam ler por conta própria diz mais sobre recomendação automática do que qualquer exposição teórica. Ajuda também a perceber que o livro é, ainda, um dos poucos espaços onde ninguém está a medir o tempo que passamos nele para nos vender alguma coisa. Tudo isto encaixa sem esforço nas áreas de competência do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, em particular Linguagens e textos, Informação e comunicação e Pensamento crítico e pensamento criativo.
Por fim, olhar para os dados da própria escola. As provas e os projetos de leitura geram informação que raramente é analisada por género, por ano ou por percurso. Saber se os rapazes do 7.º ano requisitam menos livros na biblioteca, ou se os alunos que ficaram retidos deixaram de ler, é o primeiro passo para agir com critério e não por palpite.
Ver muito para saber muito
A frase de Cervantes junta duas coisas que hoje andam separadas: ler e andar pelo mundo. Os nossos alunos andam pelo mundo através de ecrãs, e isso não tem de ser um problema. O problema é quando esse mundo lhes chega já escolhido, cortado em pedaços de trinta segundos, sem espaço para a demora que a compreensão exige.
A brecha entre rapazes e raparigas na leitura foi, de facto, anunciada. Os sinais estavam nos relatórios há anos. O que o PISA 2025 acrescenta é a sensação de que o tempo para responder está a encurtar. A resposta não passa por proibir, nem por moralizar. Passa por criar, dentro da escola, condições para que cada aluno encontre pelo menos um livro onde se reconheça. Às vezes, é tudo o que é preciso para que venha o segundo.
Nota de transparência. Este artigo foi preparado com apoio de inteligência artificial (Claude, da Anthropic) na pesquisa, verificação de dados e redação, com revisão editorial humana.
Referências
Cervantes, M. de. (1615). Segunda parte del ingenioso caballero don Quijote de la Mancha. Juan de la Cuesta.
EduQA. (2026). PISA 2025 – Portugal: Relatório nacional. EduQA, I.P. Recuperado a 22 de setembro de 2026, de https://eduqa.pt/wp-content/uploads/2026/09/Relatorio-PISA-2025.pdf
Fernández Kranz, D. (2026, setembro). The exam that decides: What PISA 2025 gets right and wrong about girls and mathematics. IE Insights. Recuperado a 22 de setembro de 2026, de https://www.ie.edu/insights/articles/the-exam-that-decides-what-pisa-2025-gets-right-and-wrong-about-girls-and-mathematics/
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Pais, J. M., Magalhães, P., & Lobo Antunes, M. (Coords.). (2022). Práticas culturais dos portugueses: Inquérito 2020. Imprensa de Ciências Sociais. Recuperado a 22 de setembro de 2026, de https://www.ics.ulisboa.pt/livros/praticas-culturais-dos-portugueses
Turienzo, D. (2026, 13 de agosto). Leer en tiempos de algoritmos: diagnóstico de una brecha anunciada [Opinião, coautoria]. El País. https://elpais.com/educacion/
Para saber mais
PISA 2025: Portugal está na média da OCDE. Mas isso não nos deixa ficar descansados — a leitura mais ampla dos resultados portugueses, aqui no blogue.
Relatório nacional PISA 2025 — o capítulo 4.2 e a secção sobre equidade são leitura obrigatória para departamentos de Línguas.
PISA 2025 Results (Volume I) — o relatório internacional da OCDE, com dados por país, sexo e estatuto socioeconómico.
Teenage reading: (Re)framing the challenge — o estudo britânico sobre leitura na adolescência, com muitos testemunhos dos próprios jovens.
Rethinking reading for pleasure in schools — sugestões práticas do National Literacy Trust para professores.
Práticas culturais dos portugueses: Inquérito 2020 — o retrato mais completo dos hábitos de leitura em Portugal.
