A informação já não chega até nós: é escolhida por nós — e, cada vez mais, por máquinas

470 especialistas de 71 países traçam um retrato inquietante do ambiente informacional em 2026. A desinformação continua a preocupar, mas o problema é mais fundo: plataformas pouco responsabilizadas, algoritmos que selecionam o que vemos e sistemas de inteligência artificial que começam a substituir a procura pela resposta pronta. Para a escola, o desafio é evidente: já não basta ensinar a encontrar informação. É preciso ensinar a perceber por que razão aquela informação chegou até nós — e o que ficou de fora.

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Durante muitos anos, uma das grandes promessas da internet parecia simples: todo o conhecimento estaria à distância de um clique.

Pesquisávamos. Abríamos páginas. Comparávamos resultados. Escolhíamos fontes.

Esse gesto aparentemente banal está a mudar.

Hoje, a informação chega-nos cada vez mais previamente selecionada, ordenada, resumida e interpretada. Os algoritmos das redes sociais decidem o que aparece primeiro. Os sistemas de recomendação sugerem aquilo que devemos ver a seguir. E os motores de pesquisa começam a responder diretamente às nossas perguntas através de resumos produzidos por inteligência artificial.

Em vez de procurarmos a informação, começamos a receber uma resposta sobre a informação.

É neste contexto que o International Panel on the Information Environment (IPIE) publicou Trends in the Information Environment: 2026 Expert Survey Results, a quarta edição do seu inquérito anual a especialistas. O estudo ouviu 470 investigadores com conhecimento especializado sobre 71 países, quase metade dos quais dedicada a economias em desenvolvimento.

Os resultados justificam atenção.

E, para quem trabalha na escola, talvez justifiquem ainda mais do que isso.

Nunca houve tanto pessimismo

O primeiro número é difícil de ignorar.

76% dos especialistas acreditam que o ambiente informacional do país que estudam irá piorar durante o próximo ano.

Em 2023 eram 53%.

Em 2024, 63%.

Em 2025, 72%.

Agora são 76%.

O próprio relatório aconselha prudência: o aumento entre 2025 e 2026 não é estatisticamente significativo e um inquérito a especialistas não constitui uma previsão infalível do futuro. Ainda assim, quatro anos consecutivos permitem identificar uma tendência difícil de desprezar.

E há aqui uma primeira ideia importante.

A preocupação não nasce simplesmente da existência de mais conteúdos falsos.

Nasce da transformação do próprio ecossistema através do qual percebemos o mundo.

O problema maior talvez não seja a inteligência artificial

Num momento em que grande parte da discussão pública parece concentrar-se na IA, o resultado é particularmente interessante.

Quando os investigadores tiveram de avaliar seis ameaças ao ambiente informacional, a inteligência artificial generativa ficou em último lugar.

As maiores preocupações foram:

  • falta de responsabilização das plataformas — 78%;
  • desinformação — 73%;
  • polarização — 69%;
  • domínio de um pequeno número de plataformas sociais — 64%;
  • bolhas informacionais e câmaras de eco — 53%;
  • inteligência artificial generativa — 47%.

Isto não significa que os especialistas considerem a IA inofensiva. Quase metade continua a classificá-la como uma ameaça grande ou extrema.

Significa outra coisa: o problema não começou com o ChatGPT.

Já existia um ecossistema digital fortemente dependente de grandes plataformas, de algoritmos opacos, de modelos de negócio baseados na atenção e de sistemas de recomendação capazes de decidir quais as informações que ganham visibilidade e quais praticamente desaparecem.

A IA chegou a um terreno que já estava longe de ser neutro.

Uma sociedade pode ter muitas vozes e, mesmo assim, estar mal informada

Há outro resultado particularmente revelador.

76% dos especialistas consideram que as pessoas conseguem encontrar diferentes pontos de vista online com relativa facilidade.

À primeira vista, parece uma boa notícia.

Mas apenas 28% acreditam que a maioria das pessoas confia nos principais meios de comunicação para relatarem corretamente assuntos políticos.

E apenas 37% consideram que a informação disponível dá aos cidadãos a compreensão necessária para participarem plenamente na vida cívica.

Temos, portanto, um paradoxo.

Nunca tivemos acesso a tantas vozes.

Isso não significa necessariamente que compreendamos melhor o mundo.

Ter mais informação não é o mesmo que possuir melhor informação. E ter acesso a milhares de opiniões não garante que consigamos distinguir evidência, interpretação, propaganda, publicidade, manipulação e erro.

Para a escola, talvez esteja aqui uma das questões decisivas do nosso tempo.

A literacia já não pode ser apenas aprender a procurar

Durante anos ensinámos os alunos a pesquisar.

Escolher palavras-chave. Consultar diferentes páginas. Identificar fontes credíveis. Comparar informações.

Tudo isso continua a ser necessário.

Mas começa a deixar de ser suficiente.

Imagine-se uma pergunta simples feita por um aluno.

Em vez de escrever algumas palavras num motor de pesquisa, analisar dez resultados e abrir três páginas, pergunta a um chatbot:

«Explica-me as causas da Primeira Guerra Mundial.»

Segundos depois recebe uma resposta organizada, clara e aparentemente segura.

O problema pedagógico mudou.

A questão deixou de ser apenas:

«Onde encontraste esta informação?»

Passa também a ser:

«Porque recebeste esta resposta?»

Que fontes estiveram na sua origem?

Que perspetivas foram incluídas?

Quais ficaram de fora?

O texto distingue factos de interpretações?

Que confiança devemos atribuir à resposta?

Encontrar informação continua a ser uma competência.

Mas interrogar a mediação da informação começa a ser outra.

Quando o motor de pesquisa deixa de nos mandar pesquisar

Talvez o resultado mais relevante do relatório para perceber esta transformação esteja relacionado com os resumos automáticos produzidos por IA nos motores de pesquisa.

Os especialistas identificam uma troca muito clara.

79% acreditam que estes resumos permitem encontrar respostas relevantes mais rapidamente.

A vantagem é evidente.

Mas:

64% esperam que reduzam as visitas aos sites noticiosos;

e

58% acreditam que diminuirão a diversidade de perspetivas com que os utilizadores contactam.

O estudo cita investigação do Pew Research Center sobre os resumos de IA no Google: quando aparece um resumo gerado por IA, os utilizadores tornam-se significativamente menos propensos a clicar nas fontes originais.

É uma alteração pequena no gesto, mas potencialmente enorme nas consequências.

Antes:

pergunta → resultados → fontes → leitura → conclusão

Agora:

pergunta → resposta

Entre uma coisa e outra desaparecem vários passos.

E esses passos — abrir, ler, comparar, hesitar, regressar atrás — são precisamente aqueles onde muitas vezes acontece o pensamento crítico.

O risco da resposta sem caminho

Há qualquer coisa de profundamente educativa em percorrer fontes diferentes.

Um aluno abre uma página. Depois outra. Descobre que não dizem exatamente a mesma coisa. Repara que uma data não coincide. Procura uma terceira fonte. Percebe que o assunto é mais complexo do que parecia inicialmente.

Esse percurso produz conhecimento.

Uma resposta automática pode eliminar grande parte dessa fricção.

E a fricção cognitiva nem sempre é um problema.

Por vezes, é precisamente aquilo que obriga a pensar.

Isto não significa que devamos rejeitar sistemas de IA ou respostas automáticas. Os próprios especialistas consultados estão longe de ter uma posição unanimemente negativa.

Quando questionados sobre o impacto social das tecnologias, 80% classificaram positivamente os motores de pesquisa. Em relação à IA generativa, as opiniões estão muito mais divididas: 41% avaliam positivamente o seu impacto e 34% negativamente.

Não estamos perante uma história simples de tecnologia boa ou tecnologia má.

Estamos perante tecnologias que oferecem benefícios reais enquanto alteram silenciosamente hábitos intelectuais.

O vídeo preocupa mais. Mas o texto pode enganar-nos melhor

Quando o relatório pergunta pelo futuro da IA generativa, surge outro resultado interessante.

67% dos especialistas esperam que os vídeos produzidos por IA prejudiquem o ambiente informacional.

Seguem-se as imagens, com 63%, e as vozes artificiais, com 61%.

O texto produzido por IA é o que gera menos preocupação.

Mesmo assim, metade dos investigadores considera que também poderá piorar o ambiente informacional.

Há, porém, uma ironia assinalada pelo próprio relatório.

A investigação experimental citada pelo IPIE sugere que podemos estar especialmente atentos aos deepfakes e aos vídeos espetaculares precisamente quando o texto produzido por IA poderá representar um risco persuasivo maior do que imaginamos.

Um vídeo estranho desperta suspeitas.

Um parágrafo fluente, plausível e bem escrito pode passar despercebido.

Também aqui a escola tem trabalho a fazer.

Talvez a pergunta mais importante seja: «Como sabes?»

Durante décadas, uma grande parte da avaliação escolar assentou numa pergunta implícita:

«Sabes?»

Num mundo de inteligência artificial generativa, talvez precisemos de acrescentar outra:

«Como sabes?»

A diferença parece pequena. Não é.

«Sabes?» pede uma resposta.

«Como sabes?» pede um percurso.

Obriga o aluno a explicar a origem da informação, a avaliar as fontes, a justificar a confiança que lhes atribui e a distinguir aquilo que verificou daquilo que simplesmente recebeu.

Talvez tenhamos de valorizar cada vez mais perguntas como:

Quem produziu esta informação?

Com que evidências?

Há uma fonte original?

Que outras perspetivas existem?

O que sabemos e o que estamos apenas a inferir?

O que poderia fazer-nos mudar de opinião?

Isto é literacia da informação.

Mas é também aprender a pensar.

Clicar na imagem para ver a apresentação…

A escola tem uma vantagem que nenhum algoritmo possui

Há um dado do relatório que permanece praticamente inalterado há quatro anos.

Quando se pergunta aos especialistas quais são os elementos indispensáveis de um ambiente informacional saudável, duas respostas aparecem sistematicamente no topo:

informação rigorosa e diversidade de vozes.

Em 2026, 90% classificaram a disponibilidade de informação rigorosa como extremamente importante ou absolutamente essencial. A diversidade de vozes voltou a surgir logo a seguir.

É difícil imaginar uma missão mais próxima da escola.

Uma boa escola é precisamente um dos poucos lugares onde ainda podemos colocar lado a lado uma notícia, um gráfico, uma fotografia, um vídeo, um testemunho, um texto literário, uma resposta de IA e uma fonte científica — e perguntar aos alunos:

O que vemos aqui?

O que podemos afirmar?

Em que podemos confiar?

O que falta saber?

Num ecossistema digital construído para dar respostas rapidamente, a escola pode preservar uma coisa cada vez mais rara:

o tempo necessário para fazer boas perguntas.

Não devemos ensinar os alunos a desconfiar de tudo

Existe, porém, um perigo inverso.

Ensinar literacia mediática não pode significar transformar todos os alunos em desconfiados profissionais.

Se tudo pode ser falso, manipulado ou produzido por IA, torna-se tentador concluir que nada é fiável.

Isso também destrói o ambiente informacional.

A competência essencial não é a desconfiança permanente.

É aprender a atribuir graus diferentes de confiança com base em evidências.

Um artigo científico revisto por pares não é equivalente a uma publicação anónima numa rede social.

Uma reportagem baseada em várias fontes não vale o mesmo que um vídeo sem origem conhecida.

Uma resposta de IA acompanhada por referências verificáveis não deve ser avaliada da mesma forma que uma afirmação sem qualquer possibilidade de confirmação.

Pensamento crítico não significa duvidar de tudo.

Significa saber quando devemos confiar, quando devemos verificar e quando ainda não dispomos de informação suficiente para concluir.

O que este relatório pede à escola

O Trends in the Information Environment 2026 não é um relatório sobre educação.

Mas dificilmente poderia ser mais relevante para ela.

Os alunos que hoje entram numa sala de aula estão a crescer num ambiente em que a informação já não lhes chega apenas através de livros, professores, jornais ou motores de pesquisa.

Chega através de TikTok, YouTube, Instagram, sistemas de recomendação, notificações, influenciadores, motores de pesquisa com IA e chatbots capazes de responder imediatamente a praticamente qualquer pergunta.

Por isso, talvez a literacia essencial deste século não seja apenas saber ler textos.

Será saber ler sistemas.

Perceber quem seleciona.

Quem recomenda.

Quem resume.

Quem beneficia.

Que fontes sustentam uma resposta.

E que vozes desapareceram antes mesmo de termos oportunidade de as ouvir.

O relatório do IPIE deixa-nos com números preocupantes. Mas deixa também uma indicação surpreendentemente simples sobre o que continua a importar: informação rigorosa e diversidade de perspetivas.

É exatamente aí que a escola pode fazer diferença.

Não competindo com a inteligência artificial na velocidade das respostas.

Mas ensinando aquilo que nenhuma resposta instantânea deveria dispensar:

ler, comparar, verificar, questionar e pensar antes de acreditar.

Fonte principal: International Panel on the Information Environment — Trends in the Information Environment: 2026 Expert Survey Results

Nota de transparência: este artigo foi elaborado com o apoio de inteligência artificial (ChatGPT, da OpenAI).

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