Os resultados do PISA 2025 saíram a 8 de setembro e, durante dias, especialistas, governantes e comentadores explicaram o que se passa com os jovens de 15 anos. Faltava ouvir os próprios. O podcast diário do jornal EL PAÍS sentou à mesma mesa um grupo de estudantes de uma escola pública dos arredores de Madrid e pediu-lhes que respondessem ao que se anda a dizer sobre eles. A conversa é espanhola, mas as perguntas que levanta servem, sem grande tradução, para qualquer sala de aula portuguesa.

Uma conversa que devia acontecer mais vezes
O episódio chama-se «Los alumnos responden a lo que se dice de ellos por PISA», foi publicado a 17 de setembro no Hoy en EL PAÍS e dura pouco menos de 23 minutos. Reúne mais de uma dezena de alunos do IES Miguel Catalán, em Coslada, com idades entre os 15 e os 17 anos, a frequentar o último ano da ESO e o Bachillerato, o que corresponde, grosso modo, ao nosso ensino secundário. O jornalista Ignacio Zafra, especializado em política educativa, contextualiza os dados.
Segundo a apresentação do próprio episódio, os estudantes chegam a duas conclusões que merecem ser lidas em conjunto. Reconhecem que os ecrãs e a inteligência artificial mexem com a sua atenção e com a forma como aprendem, dando razão, nesse ponto, à OCDE. E pedem, ao mesmo tempo, uma escola que se adapte melhor às necessidades que têm hoje e que lhes dê motivos para continuar a querer aprender.
Parece pouco, mas não é. Os alunos não se põem na defensiva nem aceitam o papel de culpados. Admitem o problema e devolvem uma parte da pergunta aos adultos. É uma posição mais madura do que muito do que se ouviu nos debates televisivos dessa semana.
O que dizem os números
Convém ter presente a dimensão do estudo. Mais de 760 000 alunos de 91 países e economias fizeram as provas, representando cerca de 33 milhões de jovens de 15 anos. A área principal desta edição foi a ciência, com a leitura e a matemática como áreas secundárias. Nos países da OCDE, a média em matemática e em leitura é a mais baixa de sempre, e um em cada cinco alunos fica agora abaixo do nível mínimo de proficiência nos três domínios, contra 16% em 2022. Entre 2015 e 2025, a média da OCDE caiu 22 pontos em matemática e 28 em leitura.
Portugal acompanha a tendência, com agravantes. Os 6945 alunos de 225 escolas que representaram o país obtiveram 460 pontos em matemática, 462 em leitura e 482 em ciências. Face a 2022, são menos 12 pontos em matemática, menos 15 em leitura e menos 2 em ciências. Na leitura, o resultado é o mais baixo desde que Portugal entrou no PISA, oito pontos abaixo de 2000. Em termos comparativos, o país fica praticamente em linha com a média da OCDE (482 em ciências, 461 em leitura, 463 em matemática), o que ajuda a perceber que não se trata de uma derrocada isolada, mas não consola ninguém. O secretário de Estado Adjunto e da Educação, Alexandre Homem Cristo, descreveu os dados como «históricos, mas no sentido negativo».
Espanha, de onde vem o podcast, ficou abaixo de Portugal em leitura (451) e matemática (457) e ligeiramente abaixo em ciências (477). Os estudantes de Coslada falam, portanto, a partir de um contexto ainda mais difícil do que o nosso.
Ecrãs: os alunos não negam
Aqui os dados e os testemunhos coincidem. Em Portugal, 31% dos alunos dizem que os colegas se distraem frequentemente com dispositivos digitais nas aulas de ciências, acima dos 28% da média da OCDE. O relatório associa esse ambiente de distração a desempenhos mais fracos, a menor envolvimento e a uma ligação mais frágil à escola. Em Espanha, depois de controladas as características socioeconómicas, a diferença chega aos 16 pontos em ciências; na média da OCDE, aos 11.
Há um cuidado a ter com a leitura destes números. O PISA mostra associações, não prova que o telemóvel seja a causa da queda. Uma turma onde os ecrãs dominam pode também ser uma turma onde outras coisas já correm mal. Ainda assim, a recomendação da OCDE é clara: as salas de aula devem manter-se livres de distrações digitais evitáveis, entendendo-se por isso sobretudo o uso não pedagógico dos telemóveis.
Um dado português merece atenção. Na altura do estudo, só 25% dos alunos frequentavam escolas onde os telemóveis não eram permitidos, contra 49% na média da OCDE. Entretanto, a restrição foi alargada até ao 9.º ano, e o Governo afirmou que não tenciona, para já, estendê-la ao secundário. Ora, os alunos do PISA têm 15 anos e estão, na maioria, precisamente no início do secundário. Fica a pergunta para cada escola: se a regra nacional não chega lá, que acordo interno faz sentido construir, e com quem?
Inteligência artificial: nem tabu, nem atalho
Quase metade dos alunos portugueses (48%) diz usar chatbots de IA em atividades de aprendizagem, um pouco acima da média da OCDE (46%). Usam-nos sobretudo para uma primeira pesquisa, para resumir e para ajudar a escrever.
O relatório traz duas conclusões que qualquer professor devia conhecer. A primeira: os alunos que dizem não usar IA para redigir os textos dos trabalhos escritos têm melhores resultados do que os que o fazem. A segunda, talvez mais interessante: entre os utilizadores frequentes, saem-se melhor os que usam a IA para aprender e a quem foi ensinado como avaliar a qualidade da informação que ela produz. Por outras palavras, o problema não é a ferramenta, é a delegação. Quem entrega à máquina a parte do pensamento perde; quem a usa com critério, e aprendeu esse critério na escola, ganha.
Aqui Portugal aparece bem. Cerca de 57% dos alunos portugueses dizem avaliar, em aula, a qualidade da informação gerada por IA (53% na OCDE), e estão entre os que mais afirmam cruzar informação de fontes diferentes. É um ponto de partida que as escolas podem aproveitar. E não é tema passageiro: o próximo ciclo, o PISA 2029, terá a leitura como área principal e incluirá um domínio inovador dedicado à literacia mediática e em IA.
A parte que costuma ficar de fora
O pedido dos estudantes de Coslada, uma escola que os motive, costuma ser arrumado na gaveta das queixas adolescentes. O próprio PISA desmente essa leitura. Este volume mede também a curiosidade, a perseverança e a agência dos alunos, e a OCDE conclui que a curiosidade, a perseverança e o valor atribuído à escola andam associados a melhores resultados em ciências. Em média, 69% dos alunos da OCDE dizem gostar de aprender coisas novas. Não é um número baixo, mas o relatório nota que curiosidade e perseverança tendem a enfraquecer em conjunto, o que devia pôr as escolas de sobreaviso.
Há também notícias boas para Portugal que ficaram soterradas pelas manchetes. Oito em cada dez alunos portugueses (80%) dizem que, na maioria das aulas de ciências, o professor mostra interesse pela aprendizagem de cada um, contra 69% na OCDE. O absentismo é bastante inferior: 7% faltaram pelo menos um dia nas duas semanas anteriores à prova, contra 22% na média da OCDE. Em sentido contrário, 44% dos alunos estão em escolas cujos diretores dizem que a falta de professores prejudica o ensino (39% na OCDE). A relação pedagógica existe e é valorizada. O que falta, muitas vezes, são condições para a sustentar.
O que a escola pode fazer já
O mais fácil de copiar do podcast é o próprio formato. Juntar um grupo de alunos do 10.º ano, mostrar-lhes os dados do PISA que lhes dizem respeito e perguntar-lhes o que pensam é uma atividade de cidadania, de literacia estatística e de pensamento crítico ao mesmo tempo. Pode acontecer numa aula de Português, de Cidadania e Desenvolvimento, na biblioteca ou numa assembleia de delegados. As respostas serão mais úteis para o plano de melhoria da escola do que muitas grelhas de monitorização.
Sobre os ecrãs, a experiência mostra que as regras negociadas com os alunos duram mais do que as impostas. Um acordo de turma sobre quando, como e para quê se usa o telemóvel ou o computador, revisto ao fim de um período, responde à recomendação da OCDE sem transformar a sala de aula numa zona de fiscalização.
Sobre a IA, os dados sugerem um caminho concreto: ensinar a avaliar antes de ensinar a produzir. Pedir aos alunos que confrontem uma resposta de um chatbot com duas fontes independentes, que identifiquem o que está certo, o que está errado e o que não é verificável, trabalha exatamente a competência que o PISA associa a melhores resultados. Encaixa, aliás, sem esforço nas áreas de competências do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória ligadas à informação e comunicação e ao pensamento crítico.
E sobre a leitura, o domínio onde Portugal mais caiu, talvez valha a pena recordar o óbvio: ler textos longos exige atenção prolongada, e a atenção prolongada treina-se. Tempo protegido para leitura extensa, sem ecrãs por perto, continua a ser uma das intervenções mais baratas e mais negligenciadas que uma escola tem à mão.
No fim, a lição do episódio talvez seja esta: os alunos sabem mais sobre o seu próprio problema do que lhes costumamos reconhecer. Perguntar-lhes não resolve a queda nos resultados. Mas não lhes perguntar garante que continuaremos a desenhar soluções para pessoas que não conhecemos bem.
Nota editorial e de transparência. Este artigo foi preparado com apoio de inteligência artificial (Claude, da Anthropic) na pesquisa, verificação e redação, com revisão humana. O ponto de partida foi o episódio do podcast Hoy en EL PAÍS.

Referências
CNN Portugal. (2026, 8 de setembro). PISA. Quase metade dos jovens portugueses já usa IA para estudar e muitos distraem-se nas aulas. https://cnnportugal.iol.pt/alunos/escola/pisa-quase-metade-dos-jovens-portugueses-ja-usa-ia-para-estudar-e-muitos-distraem-se-nas-aulas/20260908/6a9fbf27d34ed0733ba83e96
Confederación Interamericana de Educación Católica. (2026, setembro). Lo que PISA 2025 ha descubierto sobre el uso de pantallas y la IA en el aprendizaje. https://ciec.edu.co/lo-que-pisa-2025-ha-descubierto-sobre-el-uso-de-pantallas-y-la-ia-en-el-aprendizaje/
Diário de Notícias. (2026, 8 de setembro). Relatório PISA 2025: 20 números explicam a queda histórica dos alunos portugueses em matemática, leitura e ciência. https://www.dn.pt/sociedade/relatrio-pisa-20-nmeros-que-ajudam-a-perceber-como-esto-os-alunos-portugueses
Fuentes, A. (Apresentadora), & Remacha, B. (Realizadora). (2026, 17 de setembro). Los alumnos responden a lo que se dice de ellos por PISA [Episódio de podcast áudio]. Em Hoy en EL PAÍS. EL PAÍS. https://open.spotify.com/episode/64BkP7XNLvBYayCPVPLkUZ
La Moncloa. (2026, 8 de setembro). El alumnado español reporta niveles de perseverancia ante el aprendizaje superiores al promedio de los países de la OCDE, según el informe PISA 2025. Gobierno de España. https://www.lamoncloa.gob.es/serviciosdeprensa/notasprensa/educacion-fp-deportes/Paginas/2026/080926-informe-pisa-2025.aspx
OECD. (2026a). PISA 2025 results (Volume I): Future-ready students. OECD Publishing. https://doi.org/10.1787/73451bc5-en
OECD. (2026b, 8 de setembro). PISA 2025 results (Volume I): Portugal [Nota de país]. OECD Publishing. https://www.oecd.org/en/publications/pisa-2025-results-volume-i-country-notes_2d4ff9ea-en/portugal_1b9ed477-en.html
OECD. (2026c, 8 de setembro). PISA 2025: Students’ reading and mathematics performance declined sharply across the OECD [Comunicado de imprensa]. https://www.oecd.org/en/about/news/press-releases/2026/09/pisa-2025-students-reading-and-mathematics-performance-declined-sharply-across-the-oecd.html
OECD. (2026d). Student attitudes towards learning. Em PISA 2025 results (Volume I): Future-ready students. OECD Publishing. https://www.oecd.org/en/publications/pisa-2025-results-volume-i_73451bc5-en/full-report/student-attitudes-towards-learning_a3cc05a7.html
Plataforma Media. (2026, 8 de setembro). Alunos em Portugal: Resultados do PISA 2025. https://www.plataformamedia.com/2026/09/08/alunos-portugueses-recuam-quase-20-anos-em-matematica-e-leitura/
Renascença. (2026, 8 de setembro). PISA 2025: Alunos portugueses regridem cerca de 20 anos a Matemática e Leitura. https://rr.pt/noticia/pais/2026/09/08/pisa-2025-alunos-portugueses-regridem-cerca-de-20-anos-a-matematica-e-leitura/484602/
Para saber mais
Quem quiser ouvir a conversa na íntegra encontra o episódio do Hoy en EL PAÍS no Spotify. O relatório completo da OCDE pode ser lido em linha, capítulo a capítulo, e a nota de país sobre Portugal é o melhor resumo para levar a uma reunião de departamento. Para comparações interativas entre países, a Education GPS da OCDE permite explorar os indicadores portugueses. Para quem quer antecipar o próximo ciclo, a página do programa PISA apresenta o PISA 2029 e o novo domínio de literacia mediática e em IA. Por fim, a peça do Jornal de Negócios sobre o uso de IA pelos alunos portugueses reúne bem os dados sobre ecrãs e inteligência artificial.

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