Quase toda a gente guarda um livro dos primeiros anos: a capa, uma personagem, o capítulo que se lia a espreitar por entre os dedos. O que não sabemos tão bem é se ter uma biblioteca por perto faz de uma criança uma melhor leitora, ou se as famílias que já leem é que vivem junto delas. Fomos ver o que dizem os estudos que tentam responder a isto com algum rigor e em que ponto estão, hoje, os nossos alunos.

Quem trabalha com leitura conhece a regra de bolso: onde há mais livros em casa, costuma haver melhores leitores. O artigo da Iniciativa Educação que nos serviu de ponto de partida lembra que, numa análise dos resultados ingleses do PIRLS, o estudo internacional que avalia a leitura de alunos por volta dos 10 anos, o número de livros em casa é o segundo fator que mais explica os resultados. Em Portugal, no PIRLS 2021, 62% dos alunos do 4.º ano tinham entre 11 e 100 livros em casa (Lusa, 2023).
O problema é que este indicador diz pouco por si. Famílias com mais livros costumam ter também mais tempo, mais recursos e mais hábito de acompanhar os filhos, e nada garante que seja o livro a fazer a diferença. Para chegar mais perto de uma relação de causa e efeito é preciso outro tipo de desenho, e as bibliotecas públicas oferecem alguns casos interessantes.
A distância como experiência natural
Em 2010, a economista Rachana Bhatt publicou no Journal of Urban Economics um estudo com dados de inquéritos norte-americanos sobre o uso do tempo e a educação das famílias (Bhatt, 2010). A pergunta é simples: se a biblioteca estiver ao alcance, as pessoas leem mais? O truque está no método. Famílias parecidas vivem a distâncias diferentes da biblioteca mais próxima, por razões que pouco têm a ver com o gosto pela leitura, e essa diferença de geografia permite separar o efeito da biblioteca do efeito de já gostar de livros.
Segundo o resumo do artigo, usar a biblioteca no último mês aumenta o tempo de leitura em cerca de 27 minutos por dia, em média, e reduz em 59 minutos o tempo de televisão. A estimativa mais simples, sem o recurso à distância, dava apenas 11 minutos de leitura, o que mostra bem porque é que o método importa. Nas famílias com crianças pequenas, quem usa a biblioteca lê cerca de 14 minutos a mais com elas. E, nas crianças em idade escolar, o uso da biblioteca aumenta a probabilidade de os trabalhos de casa serem feitos e de o comportamento ser bom. Convém notar que os 27 minutos se referem a quem usa a biblioteca em geral, e não apenas às crianças.
Há duas ressalvas. O estudo tem mais de quinze anos e usa dados norte-americanos. E mede o que as famílias fazem, o tempo de leitura, e não a classificação num teste de compreensão. Mostra que a biblioteca por perto muda o fim do dia em casa. Que isso se traduza em melhores leitores é um passo que este estudo, sozinho, não dá.
Quando se investe na biblioteca, os resultados mexem?
A pergunta seguinte é a de quem decide: havendo biblioteca, compensa investir nela? Gilpin, Karger e Nencka (2024) olharam para quase todas as bibliotecas públicas dos Estados Unidos entre 1992 e 2018 e concentraram-se nos grandes investimentos de capital, aqueles que mudam um edifício, e não nas despesas correntes. Como são investimentos concentrados no tempo, dão datas claras para comparar o antes e o depois. Nos distritos onde o investimento chegou aos 200 dólares por aluno, ou mais, os resultados em leitura subiram entre 0,01 e 0,04 desvios-padrão nos anos seguintes, com os maiores efeitos cinco a sete anos depois. As visitas às bibliotecas aumentaram, em média, entre 5% e 15%, e o investimento trouxe também mais livros e mais pessoal.
É um efeito pequeno, e a Matemática não mostra um efeito claro, o que condiz com o papel das bibliotecas na leitura. Mas vem de uma política pública real, medida em milhares de comunidades, e não de um programa de laboratório.
O caminho inverso também parece contar. Um documento de trabalho sobre 766 bibliotecas públicas encerradas nos Estados Unidos entre 2008 e 2019 associa os encerramentos a menos utilização e a piores resultados em leitura e em Matemática nos distritos escolares fora das áreas metropolitanas, e a efeitos mínimos nas áreas metropolitanas, onde a biblioteca seguinte fica perto (EdWorkingPaper 25-1140, 2025). Lemo-lo como um indício e não como uma prova, por ser um texto ainda não publicado em revista, tanto quanto sabemos. Mas o pormenor das áreas metropolitanas tem graça: o que parece contar é mesmo a biblioteca estar perto.
E as bibliotecas das escolas?
Tudo o que vimos até aqui diz respeito a bibliotecas públicas. Para as escolas, o artigo da Iniciativa Educação refere um trabalho recente sobre Portugal que aproveita o alargamento por fases das bibliotecas nas escolas do 1.º ciclo, cuja cobertura terá passado de 32% em 2008 para 65% em 2018 (mais 33 pontos percentuais), e compara os resultados nos exames e provas de aferição à saída do 4.º ano. A conclusão seria que criar uma biblioteca na escola aumenta ligeiramente a probabilidade de obter uma classificação superior a 4 na prova de Português, e que o efeito na probabilidade de uma nota positiva é maior nos alunos com acesso à ação social escolar, ou seja, nos de condições socioeconómicas mais frágeis.
Não conseguimos localizar esse trabalho nem confirmar estes números na fonte original, por isso deixamo-los como o artigo os apresenta, com a cautela que isso pede. Se se confirmarem, o dado mais interessante é o segundo: a biblioteca da escola chegaria sobretudo a quem tem menos livros em casa.
Onde estão os nossos alunos de 15 anos
Os resultados do PISA 2025, divulgados em setembro, dão o pano de fundo. Em leitura, Portugal ficou nos 462 pontos, um ponto acima da média da OCDE (461), mas 15 pontos abaixo de 2022 e 30 abaixo de 2018 (EduQA, 2026). A percentagem de alunos abaixo do nível 2, o patamar que a OCDE considera básico, passou de 20,2% em 2018 para 28,4% em 2025. São mais 8,2 pontos percentuais e quase três em cada dez alunos. Do lado oposto da escala, só 3,4% chegaram aos níveis 5 e 6.
O contexto de origem pesa muito. Os alunos do quarto mais desfavorecido do índice socioeconómico e cultural ficam, em média, 80 pontos abaixo dos do quarto mais favorecido, e 40,0% deles não chegam ao nível 2, contra 13,3% no outro extremo, cerca de três vezes mais (40,0 ÷ 13,3 ≈ 3,0). Esse índice tem em conta, entre outras coisas, o número de livros em casa, o que fecha o círculo com o início deste texto. As raparigas, por seu lado, leem melhor do que os rapazes em 33 pontos.
Sobre o PISA 2025 já escrevemos aqui, e mostrámos também o que os próprios alunos têm a dizer em «Quando os alunos comentam o PISA».
O que isto pode querer dizer na escola
O que se segue é a nossa leitura, e não uma conclusão dos estudos.
Primeiro, ter livros por perto é uma condição e não uma garantia. Os efeitos medidos são pequenos e demoram anos, e nenhum destes estudos mede o que acontece lá dentro, a mediação de um adulto, a conversa sobre o livro. Já escrevemos que não basta ter mais livros nas escolas se os alunos chegam a eles com hábitos formados por anos de consumo digital acelerado, e a pergunta mantém-se.
Por isso interessa tanto quem trabalha na biblioteca. No artigo sobre o manifesto europeu pela leitura vimos a proposta de integrar os bibliotecários nas equipas pedagógicas, com formação e carreira. Na prática, é a diferença entre uma biblioteca presente no planeamento das turmas e um espaço à parte, aberto quando há tempo.
Segundo, os alunos que menos livros têm em casa. Se o efeito das bibliotecas escolares for mesmo maior nestes alunos, como sugere o trabalho português, a biblioteca é uma das poucas ferramentas ao alcance da escola que mexe diretamente no acesso ao livro. Pode começar-se pequeno. No texto sobre a biblioteca de Loyola Brandão deixámos a ideia de uma biblioteca de bolso: cada aluno tem a sua estante na sala e vai juntando ali dez livros próprios, vindos de trocas, empréstimos longos e ofertas, o que ajuda quem tem poucos livros em casa sem o expor.
Terceiro, os rapazes. Uma diferença de 33 pontos a favor das raparigas não se resolve só com acesso. Na reflexão sobre os rapazes, os livros e os algoritmos vimos que a autonomia na escolha do livro pesa muito no gosto pela leitura, sobretudo nos leitores mais relutantes. Uma biblioteca com bom fundo e com tempo para escolher vai nesse sentido.
Quarto, as dificuldades que aparecem cedo. O artigo da Iniciativa Educação termina onde nos parece que deve terminar: de pouco serve pôr livros ao alcance de quem ainda não lê com segurança. Programas de apoio individual a crianças do 1.º e do 2.º ano com dificuldades, como o AaZ – Ler Melhor, Saber Mais, da própria Iniciativa Educação, seguem uma lógica de deteção precoce. A biblioteca da escola pode ser o sítio onde esse apoio e o gosto pelo livro se encontram.
Por fim, uma proposta para a sala de aula, nossa e não testada. Com uma turma do 3.º ciclo ou do secundário, pode partir-se do argumento da distância: porque é que comparar famílias que moram perto e longe da biblioteca ajuda a distinguir causa de coincidência? Liga-se ao «inventário vivo» que propusemos em «Vinte mil livros numa casa»: cada aluno estima os livros que tem em casa, a turma faz os gráficos e compara a amostra com o que dizem os estudos nacionais e internacionais.
Fica uma pergunta para levar ao próximo grupo disciplinar, ou ao conselho pedagógico: o que é que a biblioteca da nossa escola precisa de ter, além de livros, para que a distância de um aluno ao livro seja mesmo curta?

Nota editorial e de transparência. Este artigo foi elaborado com assistência de inteligência artificial (Claude, da Anthropic), a partir do texto do artigo da Iniciativa Educação. O texto foi sujeito a revisão e à responsabilidade editorial dos autores do blogue.
Referências
Bhatt, R. (2010). The impact of public library use on reading, television, and academic outcomes. Journal of Urban Economics, 68(2), 148–166. Consultado a 7 de novembro de 2026, em https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0094119010000197
EduQA, I.P. (2026). PISA 2025 – Portugal: Relatório nacional. Consultado a 7 de novembro de 2026, em https://eduqa.pt/wp-content/uploads/2026/09/Relatorio-PISA-2025.pdf
Gilpin, G., Karger, E., & Nencka, P. (2024). The returns to public library investment. American Economic Journal: Economic Policy, 16(2), 78–109. https://doi.org/10.1257/pol.20210300
How public library closures affect educational performance (EdWorkingPaper N.º 25-1140). (2025). EdWorkingPapers. Consultado a 7 de novembro de 2026, em https://edworkingpapers.com/sites/default/files/ai25-1140.pdf
Iniciativa Educação. (s.d.-a). AaZ – Ler Melhor, Saber Mais. Consultado a 7 de novembro de 2026, em https://www.iniciativaeducacao.org/pt/aaz
Iniciativa Educação. (s.d.-b). Ter uma biblioteca por perto ajuda as crianças a lerem melhor. Texto fornecido pelos autores do blogue. https://www.iniciativaeducacao.org/pt/ed-on/artigos/ciencia/ter-uma-biblioteca-por-perto-ajuda-as-criancas-a-lerem-melhor
Lusa. (2023, 16 de maio). Alunos que não gostam de ler têm melhores resultados em prova de leitura, revela estudo. DNotícias. Consultado a 7 de novembro de 2026, em https://www.dnoticias.pt/2023/5/16/360141-alunos-que-nao-gostam-de-ler-tem-melhores-resultados-em-prova-de-leitura/
Para saber mais
Fora do blogue: o resumo do estudo de Bhatt, curto e claro sobre o método; a página do artigo de Gilpin, Karger e Nencka; o relatório nacional do PISA 2025; e o programa AaZ – Ler Melhor, Saber Mais.
No blogue: todos os artigos sobre leitura; Vinte mil livros numa casa: o que a biblioteca de Loyola Brandão ensina a quem quer formar leitores; Ler em tempos de algoritmos: os rapazes, os livros e uma brecha anunciada; Uma linha num plano, um manifesto em Bruxelas: a Europa assume o seu problema com a leitura; Quando ler deixou de ser compreender: saturação informativa, leitura rápida e o que a escola pode fazer; A tecnologia matou a leitura? Talvez estejamos a fazer as perguntas erradas; Quando os alunos comentam o PISA; Ler o mundo em múltiplos formatos: multiliteracias na era da inteligência artificial.
