O que não devemos entregar à inteligência artificial? Três filósofos e uma sala de aula

A Big Think perguntou a três filósofos o que devemos esforçar-nos por guardar à medida que a inteligência artificial pensa por nós. Michael Hauskeller respondeu com o direito de ficar sem resposta, Susan Wolf com a curiosidade que se contagia e Luciano Floridi com o valor do que tem origem e história. Não falam de escolas. Lemo-los, ainda assim, com uma turma à frente, e fomos ver o que dizem os livros que sustentam as frases.

Imagine-se um aluno do 9.º ano que entrega o resumo de um capítulo sem uma gralha. O professor pergunta-lhe, só por perguntar, o que achou do capítulo. Silêncio. Não é falta de educação nem, necessariamente, batota: o resumo existe, a pergunta é que nunca chegou a ser dele. (A cena é nossa, e não custa imaginá-la.)

É mais ou menos este o ponto de partida de um texto de Shai Tubali, publicado na Big Think a 21 de outubro de 2026, no número de outono dedicado à relação entre humanos e máquinas. Convém dizer já o que é: três conversas curtas com filósofos, e não um estudo com alunos. Ninguém mediu aprendizagens nem comparou turmas. O que lá está são pontos de vista de quem passou a vida a pensar sobre o que é viver bem, e é essa a sua utilidade para quem ensina. Uma nota prática: a cópia do texto que tivemos à mão termina a meio de uma frase de Floridi sobre identidade, por isso não comentamos o desfecho do argumento dele.

Hauskeller: o direito de ficar sem resposta

Michael Hauskeller, que dirige o departamento de Filosofia da Universidade de Liverpool, diz que o perigo está em tratar o pensamento como se fosse só o ponto de chegada. Vê os primeiros sinais em estudantes que entregam a leitura obrigatória a uma máquina para ela resumir. O resumo serve de pouco, defende, quando o objetivo do exercício era justamente treinar as capacidades que permitem fazê-lo. E o que se perde vai além do pensamento crítico: perde-se sabedoria, que nasce de pensar as coisas até ao fim e de juntar à reflexão a experiência própria e o bom senso.

O que mais o inquieta é que muitos alunos já não percebem para que servem as perguntas. Esperam que lhes deem a resposta para a repetirem no exame. Perguntas como a da relação entre corpo e mente, ou a de como podemos ser livres num mundo determinado, não têm resposta pronta, e para Hauskeller é por isso que valem a pena. Boa parte do seu tempo de professor vai em mostrar porquê.

Admite, com franqueza, que a máquina só empurra uma porta já aberta: pensar sempre custou, e agora a tentação de fugir ao esforço é difícil de recusar. Acrescenta que a IA pode parecer ter uma autoridade quase divina, desinteressada e objetiva, quando os enviesamentos existem e simplesmente não se veem. E vira o espelho para nós: se calhar o nosso pensamento é mais mecânico do que gostamos de admitir, feito de padrões repetidos, que é o que a máquina também faz.

Há uma anedota que fica na memória. Hauskeller coleciona postais antigos e costuma pedir aos chatbots que identifiquem os artistas de postais sem assinatura do início do século XX. Se insistir bastante, a máquina acaba por fabricar uma biografia nítida de uma pessoa que nunca existiu. Para ele, a IA parece incapaz de suportar a incerteza, e é essa resistência que nos cabe treinar, até ao ponto de insistirmos no direito de suspender o juízo e de dizer «não sei». Quando poucos o fazem, avisa, as sociedades deixam de perguntar se as coisas tinham de ser assim, e é daí que nasce qualquer possibilidade de mudança. Citando Harry Frankfurt, trata-se também de aprender a reconhecer a conversa fiada quando a ouvimos.

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Wolf: a faísca que ninguém consegue encomendar

Susan Wolf começa por um momento que qualquer professor reconhece: o brilho no olhar de um aluno quando algo o apanha. Não se força. Pode ser acendido pelo entusiasmo sem cerimónias de quem ensina, e o bom professor é aquele que repara nessa faísca e abre caminho para ela, dando a alguém a oportunidade de se apaixonar por uma parte do mundo.

Para isso são precisas duas coisas, ver a faísca na pessoa e perceber o que no assunto merece que nos prendamos a ele. Wolf acha que a IA não tem nenhuma das duas. As respostas que dá a perguntas filosóficas parecem-lhe sem graça, a resumir sem ver o que é discutível ou radical. Não se ilude quanto ao passado: já antes da IA, diz, os sistemas de ensino andavam mais preocupados em encaminhar os alunos para empregos e diplomas do que em cultivar a curiosidade livre, a de descobrir o mundo sem destino marcado.

Reconhece que a máquina pode ajudar quem já é curioso, respondendo na hora a quase tudo. O reverso é subtil: muitas vezes não sabemos bem qual é a nossa pergunta, e a resposta pronta faz-nos acreditar que era essa. Ela dá o exemplo de interpretar o Hamlet, em que a máquina responde de imediato mas nenhuma resposta será a final. O que a preocupa é o cuidar, aquilo a que chama atração subjetiva, que só se mantém vivo com contacto humano e independência. Um entusiasmo não se transmite por especialização; vê-se numa cara, em olhos que se abrem.

Floridi: o relógio do avô e o bolo que se diz caseiro

Luciano Floridi, filósofo da ética digital, hoje em Yale, aponta uma distinção que toda a gente sente e quase ninguém formula: a que existe entre o que uma coisa é e de onde vem. Dois relógios iguais, um do avô e outro acabado de comprar, valem de maneira diferente porque o primeiro tem uma história e uma rede de relações que o segundo não tem. Segundo ele, o consumo de massas ensinou-nos a valorizar só o resultado. Quando se compra um automóvel compra-se o tipo e não o exemplar, e não nos interessa quem o fez.

A IA, que produz réplicas sem fim, pode agravar essa perda ou obrigar-nos a revalorizar processos e fontes. Já é muito difícil distinguir um ensaio de um grande estudioso de outro escrito por uma máquina, e, se o texto for igual, porque haveria a origem de contar? Para Floridi, contaria se soubéssemos que ali estava o espírito, a paixão e a inteligência de alguém. Daí os bolos: comprar um, fazê-lo em casa, ou comprá-lo e dizer que o fizemos são três objetos diferentes, pelo modo, pela razão, pelo tempo e pela intenção. O último é o paralelo mais próximo de entregar como nosso um texto gerado por IA. E os desenhos das crianças vão para o frigorífico porque foi aquela criança que os fez, não por serem Picassos.

O que dizem os livros por trás das frases

Como pedido, fomos ver o que sustenta cada resposta, e com o que pudemos confirmar. O livro de Susan Wolf, Meaning in Life and Why It Matters (Princeton University Press, 2010), nasceu de duas conferências proferidas em Princeton em novembro de 2007 e vem acompanhado de comentários de outros autores (Wolf, 2010). A tese é que muito do que nos move não cabe na escolha entre egoísmo e dever: agimos por amor de coisas que percebemos, com razão, como dignas de amor, e é isso que dá sentido à vida. O sentido, defende, é uma dimensão própria da vida boa, ao lado da felicidade e da moral. Leitura nossa: se a escola só mede o que se vê no fim, arrisca-se a não ter por onde pegar neste terceiro eixo.

Floridi tem dois livros que ajudam a ler a entrevista. Em The Fourth Revolution (2014), defende que as tecnologias da informação nos puseram numa «infosfera» em que vivemos onlife, e que isso é uma quarta revolução, a seguir às de Copérnico, Darwin e Freud. O índice tem um capítulo sobre identidade, que é o tema em que o texto da Big Think se interrompe, mas não o resumimos porque não o lemos (Floridi, 2014). Já em The Ethics of Artificial Intelligence (2023), propõe que a IA é um divórcio inédito entre agir e ser inteligente, uma nova forma de agência que pode ser usada ética ou antieticamente (Floridi, 2023). Leitura nossa: é esse divórcio que torna possível o bolo comprado a fazer-se passar por caseiro, um produto perfeito sem que ninguém tenha passado pelo caminho.

De Hauskeller confirmámos dois livros sobre as ideias de aperfeiçoamento humano, Better Humans? Understanding the Enhancement Project (2013) e Mythologies of Transhumanism (2016), e vários trabalhos mais recentes sobre o sentido da vida. No segundo, analisa até que ponto os argumentos transumanistas dependem de histórias sobre o sentido e sobre a natureza humana em que estão metidos (Hauskeller, 2016). Leitura nossa: para ele, os debates sobre tecnologia são sempre, por baixo, debates sobre a vida que consideramos boa, e é por isso que a sua resposta à Big Think fala de ficar intrigado e não de algoritmos. Não lemos os livros na íntegra, apenas as descrições e índices publicados, e dizemo-lo para ninguém atribuir a Hauskeller ou a Wolf mais do que eles escreveram.

Quatro coisas para experimentar numa aula

O que se segue é nosso. Os filósofos não propõem atividades e nenhuma destas foi testada com alunos. Convém usar uma ferramenta que a escola tenha aprovado, nunca com dados pessoais dos alunos, e conduzida pelo professor com os mais novos, em linha com as orientações em consulta pública que comentámos há dias.

A pergunta que não tem resposta, para treinar o «não sei»

Escolhe-se um objeto sem assinatura que a turma conheça, como uma fotografia antiga da escola ou um postal do arquivo da biblioteca, e pede-se a um chatbot que diga quem o fez e quando. Os alunos assinalam o que na resposta se pode confirmar e o que parece inventado, e discutem o que seria uma resposta honesta («não consigo saber»). Se a máquina fabricar uma biografia, tem-se uma boa aula sobre desinformação. Se não fabricar, também: modelos diferentes comportam-se de maneira diferente, e a anedota de Hauskeller é só uma anedota.

A pergunta que eu queria mesmo fazer

Depois de a turma pôr à IA uma pergunta de interpretação (um poema, um excerto de Os Maias), cada aluno escreve, antes de ler a resposta, o que realmente queria saber. Compara-se com o que a máquina respondeu. Em geral, a primeira formulação falha e a terceira já é outra coisa, e é essa distância que Wolf descreve. Liga-se bem ao que escrevemos sobre reaprender a perguntar.

Dois minutos de entusiasmo

Esta não precisa de ecrã. No início de uma aula de leitura, o professor diz em dois minutos o que o apanha naquele texto, sem apresentação e sem esquema, e a seguir pede a um aluno que faça o mesmo com outro texto. Wolf diria que é assim que a faísca passa de uns para os outros, e quem trabalha em bibliotecas escolares conhece o livro que sai da estante porque alguém o recomendou com brilho nos olhos. Nenhum dado nosso mostra que isto aumente a curiosidade; é uma aposta, e baratíssima.

O bolo comprado, o bolo feito e o bolo que se diz feito

Pede-se à turma três versões de um pequeno texto: escrito sozinho, escrito com ajuda de IA declarada, e gerado pela máquina e entregue como se fosse do aluno. Sem avaliar, discute-se o que cada uma vale, para quem e porquê. A conversa aproxima-se das três modalidades (sem IA, IA de apoio, IA integrada) que as orientações em consulta propõem anunciar antes de cada tarefa, e liga-se ao que escrevemos sobre o ensaio de Renato Ortiz sobre escrever com a máquina. O objetivo é que o aluno diga o que perde quando salta o caminho, e não o apanhar em falta.

Em termos de currículo, a conversa toca, por aproximação, nas áreas de pensamento crítico e pensamento criativo e de linguagens e textos do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória (Ministério da Educação, 2017). A articulação é nossa e deve ser confirmada pelo grupo disciplinar. Quem queira alargar o olhar encontra mais caminhos nos nossos cinco passos da literacia em IA e no texto sobre o programa estónio que quer ensinar a pensar e não dar respostas.

Onde se pode discordar

O primeiro limite é o género: entrevistas curtas a três filósofos, com observações pessoais e pouca evidência empírica. Que os estudantes de Hauskeller entreguem leituras à IA e já não percebam as perguntas é uma impressão de professor, e plausível, mas não um dado. A mesma ressalva vale para o caso dos postais, que depende dos modelos que ele usou e dos que usamos hoje.

Há depois uma tensão entre as três respostas. Hauskeller admite que o nosso pensamento talvez seja mais mecânico do que queremos crer, o que desafia a imagem de um pensar humano sempre original que as outras duas parecem pressupor. Wolf reconhece que a escola já falhava a curiosidade antes da IA, o que significa que culpar a máquina seria fácil e injusto. E a ideia de Floridi, de que a origem deve contar, é uma escolha de valores e não um facto: para um aluno com poucos recursos, usar uma ferramenta pode ser a única ajuda que tem, e a conversa sobre autoria tem de o saber. Ainda por cima, na escola, desvalorizar o resultado em nome do processo só é justo se o processo se puder ver e se houver tempo para o avaliar, coisa que a maior parte dos professores não tem de sobra.

Uma pergunta para levar

Quando damos um trabalho, o que queremos mesmo recolher: a resposta, ou o caminho que um aluno fez para lá chegar? Hauskeller, Wolf e Floridi dão três razões diferentes para preferir o caminho. Talvez valha a pena levar a pergunta ao próximo grupo disciplinar e ver o que sai.


Nota editorial e de transparência. Este artigo foi elaborado com assistência de inteligência artificial (Claude, da Anthropic), a partir do texto de Tubali (2026). O texto foi revisto pelos autores do blogue.

Referências

Floridi, L. (2014). The fourth revolution: How the infosphere is reshaping human reality. Oxford University Press. Consultado a 24 de outubro de 2026.

Floridi, L. (2023). The ethics of artificial intelligence: Principles, challenges, and opportunities. Oxford University Press. Consultado a 24 de outubro de 2026.

Hauskeller, M. (2013). Better humans? Understanding the enhancement project. Routledge. Consultado a 24 de outubro de 2026.

Hauskeller, M. (2016). Mythologies of transhumanism. Palgrave Macmillan. https://doi.org/10.1007/978-3-319-39741-2

Ministério da Educação. (2017). Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória (Despacho n.º 6478/2017, de 26 de julho). Direção-Geral da Educação. Consultado a 24 de outubro de 2026, em https://dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/Projeto_Autonomia_e_Flexibilidade/perfil_dos_alunos.pdf

Tubali, S. (2026, 21 de outubro). 3 philosophers on what humans should never give up to AI. Big Think. Consultado a 24 de outubro de 2026, em https://bigthink.com/philosophy/3-philosophers-on-what-humans-should-never-give-up-to-ai/

Wolf, S. (2010). Meaning in life and why it matters. Princeton University Press. https://doi.org/10.1515/9781400834594

Para saber mais

Fora do blogue: o artigo original da Big Think, para quem tenha acesso ao texto completo; a página do livro de Susan Wolf na Princeton University Press; a página de Luciano Floridi em Yale; e a lista de publicações de Michael Hauskeller, na Universidade de Liverpool.

No blogue: Uma IA pode ter consciência? O que pode aprender a escola com quem responde «não sabemos»; Metade das conversas com IA tem atrito, e isso pode ser bom; A IA escreve um soneto à Camões? Uma aula com os alunos no papel de juízes; Pensamento crítico e ética na era da inteligência artificial generativa; Vinte e dois referenciais sobre IA na educação: por onde começar?

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