Reaprender a perguntar: estamos a caminho da Geração Prompt?

O que significa viver num mundo em que saber perguntar é tão importante como saber responder?

Ler na fonte [por Ricardo Palomo] |

Há algo de paradoxal no nosso tempo. Vivemos rodeados de respostas — motores de busca, enciclopédias online, assistentes virtuais — e, no entanto, nunca foi tão urgente aprender a fazer as perguntas certas. A inteligência artificial generativa veio mudar as regras do jogo: não basta ter acesso à informação. O que conta, agora, é saber pedi-la.

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De Geração em Geração: Uma Questão de Nome

Ao longo do século XX, fomos baptizando gerações quase como se estivéssemos a nomear fenómenos meteorológicos. A Geração Perdida, a Grandiosa, a Silenciosa, os Baby Boomers, a X, os Millennials, a Z, a Alfa… Cada nome é, no fundo, uma tentativa de ordenar o tempo e dar rosto a uma identidade colectiva, moldada por guerras, crises, avanços tecnológicos ou simples mudanças de calendário.

Mas o que vem a seguir à geração Alfa? A sequência terá de ser reinventada. E talvez já tenhamos o candidato perfeito: a Geração Prompt.

Não seria um nome ligado a uma faixa etária, nem a uma data de nascimento. Seria uma condição cultural — a condição de quem cresceu a aprender que a qualidade das respostas depende, antes de tudo, da qualidade das perguntas. Afinal, chamar-lhe “Geração IA” seria dar o protagonismo às máquinas. E as máquinas, por muito inteligentes que sejam, não fazem as perguntas. Fazemo-las nós.


Saber Procurar, Saber Partilhar, Saber Perguntar

Cada era tecnológica trouxe a sua própria literacia dominante.

Na era dos motores de busca, o mérito estava em saber procurar e seleccionar: quem dominava as palavras-chave certas chegava mais depressa à informação relevante. Com as redes sociais, o valor deslocou-se para saber partilhar: a curadoria, a visibilidade, o alcance tornaram-se competências centrais.

Agora, na era da inteligência artificial generativa, o verdadeiro poder reside em saber perguntar à máquina. A linguagem tornou-se a interface. Quem domina a arte do prompting — isto é, quem sabe formular instruções claras, contextualizadas e precisas — obtém respostas mais úteis, mais criativas, mais ajustadas ao que realmente precisa.


O Que É, Afinal, um Prompt?

Um prompt é, na sua essência, uma instrução: uma pergunta, um contexto, um ponto de partida para uma conversa com a máquina. Pode ser simples (“resume este texto”) ou sofisticado (“analisa este artigo do ponto de vista da argumentação retórica, identificando falácias e pontos fortes”). A diferença entre um prompt e outro pode significar a diferença entre uma resposta genérica e uma resposta verdadeiramente útil.

Mas o prompting não é neutro. Os resultados dependem de como se pergunta — e também dos dados com que os modelos foram treinados, dos seus enviesamentos, das suas lacunas. Por isso, falar de literacia em prompt é falar de algo tão decisivo como foi, séculos atrás, aprender a ler e a escrever.

Nessa época, quem sabia ler tinha vantagem no acesso ao conhecimento. Hoje, quem sabe formular boas perguntas a sistemas de inteligência artificial adquire uma vantagem real — académica, profissional e social. Desde que, claro, continue a saber ler, escrever, pensar e contrastar informação.


Uma Longa Viagem: Da Oralidade à IA

A história da transmissão do conhecimento é uma história de revoluções sucessivas.

Começámos pela palavra falada — o saber passado de boca em boca, de geração em geração. Depois veio a escrita, gravada em pedra, argila, papiro. A imprensa de Gutenberg, por volta de 1440, foi a primeira grande ruptura: pela primeira vez, o conhecimento podia ser reproduzido em massa, ainda que a alfabetização demorasse séculos a generalizar-se.

O telégrafo, a rádio, a televisão foram alargando progressivamente o alcance da informação. E nos anos 90 do século XX chegou a segunda grande revolução: a internet multiplicou exponencialmente o acesso ao saber, criou as condições para as redes sociais e, a partir de 2023, abriu as portas ao acesso público à inteligência artificial generativa.

Cada salto trouxe novas oportunidades — e novos riscos.


Reaprender a Perguntar

Há algo de profundamente humano no acto de perguntar. E, paradoxalmente, os sistemas educativos das últimas décadas premiaram muito mais a memorização de respostas do que a formulação de boas perguntas. Decorar, reproduzir, repetir — eis o que muitas vezes se avaliava. A curiosidade, o questionamento, o espanto ficavam frequentemente à margem.

Agora, de forma inesperada, é uma máquina a lembrar-nos que perguntar bem é uma competência essencial.

Para isso, precisamos de dois ingredientes fundamentais:

  • Conhecimento prévio — sem um mínimo de saber sobre um tema, dificilmente se formulam perguntas profundas e úteis. Quem não sabe nada sobre história não consegue pedir à IA uma análise crítica comparativa entre dois períodos históricos.
  • Curiosidade intelectual — o desejo genuíno de saber, de questionar, de ir mais fundo. A IA pode ser um excelente estímulo para essa curiosidade, desde que seja usada com critério e não como atalho para evitar o esforço de pensar.

O estudante que nunca se questiona a si próprio dificilmente desenvolverá pensamento crítico — com ou sem inteligência artificial.


Cuidado com as Armadilhas

O entusiasmo com a IA é compreensível. Mas não pode apagar os riscos reais:

Dependência cognitiva. Delegar demasiado nas máquinas pode atrofiar a capacidade de síntese, análise e pesquisa autónoma. Se a IA pensa por nós, deixamos de pensar.

Perda de fontes não digitalizadas. Grande parte do conhecimento humano ainda está em arquivos físicos, manuscritos, bibliotecas que nunca foram digitalizadas. Folhear um livro antigo, percorrer um arquivo com anotações manuscritas — há uma magia nesse processo que nenhum algoritmo consegue replicar.

Enviesamentos e opacidade. Os modelos de IA respondem com base nos dados com que foram treinados. Se esses dados têm falhas, preconceitos ou lacunas, as respostas também os terão. A aparência de autoridade das respostas pode ser enganadora — e perigosa.

A sociedade do prompt corre o risco de se deixar seduzir pela comodidade da resposta imediata e esquecer o prazer de descobrir, contrastar e investigar pelos próprios meios.


O Desafio da Escola

A escola não pode ignorar esta realidade. Mas também não pode render-se a ela sem critério.

Proibir a inteligência artificial nas salas de aula é uma resposta compreensível, mas insuficiente. O verdadeiro desafio é integrar a IA como ferramenta pedagógica, ensinando os alunos a distinguir respostas plausíveis de respostas válidas, a contrastar fontes, a usar a máquina para aprofundar — e não para fugir ao esforço intelectual.

Numa palavra: ensinar a pensar com a máquina, e não em vez dela.

A Geração Prompt não é uma coorte de idades. É uma postura perante o conhecimento. Fazem parte dela todos — jovens e adultos — que aprendam a convivir com sistemas inteligentes de forma crítica, ética e criativa. E excluídos dela ficarão os que, por falta de acesso, de formação ou de curiosidade, não aprenderem a fazer as perguntas certas.

Por isso, mais do que investir em tecnologia, urge investir em educação para a literacia do prompt: desde cedo, nas escolas, em todos os contextos. Porque não basta ter acesso à IA — o que realmente importa é saber o que lhe perguntar.


A sociedade do futuro não será apenas a sociedade da informação, nem da rede, nem do conhecimento. Também será, inevitavelmente, a sociedade do prompt.


Referências

Cain, W. (2024). Prompting change: Exploring prompt engineering in large language model AI and its potential to transform education. TechTrends, 68(1), 47–57.

Eager, B. & Brunton, R. (2023). Prompting higher education towards AI-augmented teaching and learning practice. Journal of University Teaching and Learning Practice, 20(5), 1–19.

Floridi, L. (2022). The ethics of artificial intelligence. Oxford University Press.

Fundación Telefónica (2022). Sociedad digital en España. Fundación Telefónica.

Henrickson, L. & Meroño-Peñuela, A. (2025). Prompting meaning: A hermeneutic approach to optimising prompt engineering with ChatGPT. AI & Society, 40(2), 903–918.

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