A IA e crianças: o que os educadores precisam de saber | UNICEF

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A inteligência artificial está a transformar o mundo das crianças a uma velocidade sem precedentes. Em 2025, 67% dos adolescentes britânicos já utilizam IA — número que duplicou em apenas dois anos —, e 37% das crianças entre os 9 e os 11 anos na Argentina recorrem ao ChatGPT para obter informações. A UNICEF publicou, em dezembro de 2025, a terceira edição do documento “Guidance on AI and Children”, um guia atualizado destinado a governos e empresas para criar políticas e sistemas de IA que respeitem os direitos das crianças. Para os educadores, conhecer este documento é essencial.​

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Por Que Este Documento Importa

A adoção da IA por crianças cresceu de forma tão acelerada que a investigação sobre os seus efeitos a médio e longo prazo ainda não consegue acompanhar o ritmo. Esta nova versão do guia foi impulsionada por desenvolvimentos como a IA generativa, os chatbots companheiros, a proliferação de deepfakes, e a utilização de IA em contextos de conflito armado. A mensagem central é clara: proteger os direitos das crianças na era da IA não é opcional — é uma obrigação.​


Os Três Pilares Fundamentais

O documento assenta na Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança (CDC) e organiza a IA centrada nas crianças em torno de três princípios:​

  • Proteção — As crianças devem ser protegidas de todos os impactos prejudiciais ou discriminatórios da IA, tanto a curto como a longo prazo
  • Provisão — As oportunidades que a IA traz às crianças devem ser plenamente aproveitadas, quando tal for adequado, seguro e benéfico
  • Participação — As crianças devem ter agência e oportunidade de moldar os sistemas de IA, de acordo com as suas capacidades em desenvolvimento


Os 10 Requisitos para uma IA Centrada nas Crianças

A UNICEF apresenta dez requisitos concretos para governos e empresas:​

  1. Garantir quadros regulatórios, supervisão e conformidade
  2. Assegurar a segurança das crianças
  3. Proteger os dados e a privacidade das crianças
  4. Garantir a não-discriminação e equidade
  5. Assegurar transparência, explicabilidade e responsabilização
  6. Respeitar os direitos humanos e das crianças através de práticas responsáveis
  7. Apoiar os melhores interesses, o desenvolvimento e o bem-estar das crianças
  8. Garantir a inclusão de e para as crianças
  9. Preparar e capacitar as crianças para os desenvolvimentos atuais e futuros da IA
  10. Criar um ambiente favorável para uma IA centrada nas crianças

O Que Nos Diz Sobre a Educação

O papel insubstituível dos professores

O documento é explícito: os professores não devem ser substituídos pela IA, mas colocados no centro do processo. Para isso, é necessário que sejam continuamente formados e atualizados em literacia digital e em IA, que aprendam a utilizar estas ferramentas no seu trabalho diário, e que sejam equipados com conhecimento sobre quando não usar a IA — nomeadamente em avaliações sumativas de alto impacto ou no apoio socioemocional aos alunos.​

A questão dos trabalhos de casa e da integridade académica

Um aluno numa consulta da UNICEF no Brasil disse algo que ficou registado no documento: “Pegas na tua tarefa, colocas no chat, o chat cria a tua redação. Aprendeste a escrever? Aprendeste a raciocinar?”. Esta questão está no coração do debate educativo atual: quando a IA faz os trabalhos de casa, que aprendizagens ficam por desenvolver? O documento alerta para o risco de a IA minar o pensamento crítico das crianças, especialmente numa fase crucial do seu desenvolvimento cognitivo.​

Literacia em IA como prioridade curricular

A UNICEF defende que a literacia em IA deve integrar os currículos formais, incluindo:​

  • Conceitos básicos de IA (o que é e o que não é)
  • Literacia de dados e privacidade
  • Ética e uso responsável da IA
  • Impacto ambiental dos sistemas de IA
  • Integridade académica e direitos de autor
  • Capacidade de questionar e optar por não usar a IA sem que isso prejudique as oportunidades educativas

Riscos Que os Educadores Devem Conhecer

Chatbots companheiros e dependência emocional

Aplicações que simulam amizade ou relações afetivas com IA representam um risco significativo para as crianças. As crianças, com as suas capacidades cognitivas e socioemocionais ainda em desenvolvimento, são particularmente vulneráveis a formar laços afetivos com chatbots, a revelar informação privada e a serem manipuladas. A Common Sense Media concluiu que os companheiros de IA social representam riscos inaceitáveis para as crianças.​

Desinformação e “AI slop”

A IA pode gerar conteúdo indistinguível do criado por humanos, incluindo discursos de ódio, desinformação médica e política, e conteúdo enganoso. O documento alerta ainda para um fenómeno crescente denominado AI slop — conteúdo gerado por IA que, sem ser imediatamente ilegal, é de fraca qualidade e frequentemente impreciso, degradando o ambiente informativo em que as crianças aprendem.​

Deepfakes e abuso sexual infantil gerado por IA

Um dos temas mais graves do documento é o uso crescente da IA para criar material de abuso sexual infantil (CSAM) foto-realista e imagens íntimas não consentidas (NCII), frequentemente a partir de fotografias retiradas de redes sociais. As escolas têm um papel ativo na sensibilização e no apoio às vítimas.​


O Que Podem Fazer as Escolas

Com base nas recomendações do documento, as escolas e os professores podem atuar em várias frentes:​

  • Integrar a literacia em IA nas disciplinas existentes, articulando com a literacia mediática e a literacia da informação
  • Formar professores de forma contínua, criando espaços de partilha de oportunidades, riscos e boas práticas
  • Envolver as famílias em campanhas de sensibilização sobre segurança digital, privacidade e regras de utilização da IA em casa
  • Incluir os alunos nos processos de reflexão e decisão sobre o uso da IA na escola — a sua perspetiva é insubstituível
  • Não delegar à IA funções de apoio emocional, avaliações sumativas ou decisões que exijam julgamento humano

Uma Nota Final para os Educadores

A IA já é uma realidade na vida das nossas crianças — dentro e fora da sala de aula. O documento da UNICEF não pede que ignoremos esta realidade nem que a aceitemos sem crítica. Pede que a enfrentemos com responsabilidade, colocando sempre os direitos e o bem-estar das crianças no centro de cada decisão. Como educadores, temos um papel único e insubstituível nesse processo.​

📄 Documento de referência: UNICEF (2025). Guidance on AI and Children 3.0. [Disponível online em unicef.org]


Este artigo foi elaborado com base no documento oficial da UNICEF “Guidance on AI and Children 3.0”, publicado em dezembro de 2025.

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