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A OCDE acaba de publicar o primeiro rascunho de uma das avaliações mais ambiciosas e pertinentes dos últimos anos: o PISA 2029 Media and Artificial Intelligence Literacy (MAIL) Assessment Framework. O documento, desenvolvido por especialistas de universidades como Cambridge, Minnesota e Berkeley, propõe um quadro de competências que vai muito além do que habitualmente se entende por “literacia digital”. Está na altura de perceber o que isto significa para a escola, para os professores e, acima de tudo, para os jovens que habitam este mundo digital em permanente mudança.
O Que é o MAIL e Por Que Surge Agora?
O acrónimo MAIL significa Media and Artificial Intelligence Literacy. O PISA 2029 irá avaliar, pela primeira vez a nível internacional, até que ponto os jovens de 15 anos estão preparados para navegar, analisar e criar conteúdos num ecossistema digital cada vez mais dominado por plataformas algorítmicas e sistemas de Inteligência Artificial generativa.
A urgência desta avaliação justifica-se pelos riscos reais que os jovens enfrentam diariamente: desinformação amplificada por IA, deepfakes fotorrealistas, bolhas de filtro criadas por algoritmos de recomendação, ataques de phishing automatizados e uma permanente exposição a técnicas de persuasão sofisticadas. Ao mesmo tempo, estas mesmas ferramentas oferecem oportunidades sem precedentes de criação, colaboração e participação cívica.
Os Três Grandes Conceitos-Chave
O quadro do MAIL assenta em três eixos conceptuais que estruturam toda a avaliação:
- Autores e Audiências — Quem produz as mensagens? Para que fins? Com que poder económico e político por detrás? Num mundo em que qualquer pessoa pode ser autora e em que a IA gera conteúdo em segundos, questionar a origem e os interesses de uma mensagem é uma competência fundamental.
- Mensagens e Significados — As mensagens não são neutras: são construídas com escolhas deliberadas de linguagem, imagem, tom e estrutura que visam informar, entreter ou persuadir. Os sistemas de IA incorporam nos seus resultados os vieses presentes nos dados de treino.
- Representações e Realidades — Os media e a IA constroem representações seletivas e, por vezes, fabricadas da realidade. Estereótipos, simplificações e conteúdo sintético podem distorcer a perceção do mundo — especialmente quando os jovens não têm experiência direta dos temas retratados.
As Cinco Competências do Modelo MAIL
O coração do framework é um modelo de cinco competências interligadas, com a ética como dimensão transversal a todas elas:
1. Refletir e Agir de Forma Ética e Responsável
Esta competência é transversal a todo o modelo. Os jovens devem ser capazes de reconhecer como as plataformas digitais capturam a atenção através de notificações, sistemas de recompensa e conteúdo emocionalmente provocador, e de tomar decisões responsáveis no espaço digital — desde partilhar ou não uma publicação questionável, até decidir se usam IA para fazer um trabalho escolar.
2. Aceder e Usar
Competência fundacional: saber utilizar eficazmente motores de busca, ferramentas de IA e plataformas digitais, com consciência de que os resultados de pesquisa são influenciados pelo historial do utilizador, pela localização geográfica e por interesses comerciais. Inclui ainda a proteção de dados pessoais e a gestão de configurações de privacidade.
3. Analisar e Avaliar
Talvez a competência mais crítica na era da desinformação. Os jovens precisam de avaliar a credibilidade de fontes humanas e geradas por IA, de reconhecer hallucinations (informações factualmente incorretas que os modelos de linguagem produzem com aparente confiança), de praticar lateral reading e de identificar técnicas de manipulação. A investigação sobre “inoculação psicológica” mostra que a exposição prévia a táticas de manipulação — como linguagem emocionalmente carregada ou omissão de factos — aumenta a resistência à desinformação.
4. Participar e Colaborar
Participar digitalmente não é apenas técnico — exige agilidade comunicativa, consciência social e responsabilidade ética. Os jovens devem saber colaborar em ambientes digitais, adaptar a comunicação ao contexto, prevenir e gerir conflitos online e reconhecer como os algoritmos amplificam certas vozes em detrimento de outras.
5. Criar
A criação digital — com ou sem o apoio de IA generativa — exige intencionalidade, fluência técnica, pensamento criativo e consciência ética. Os jovens devem questionar para quem e porquê criam, considerar questões de direitos de autor e de co-autoria humano-máquina, e avaliar o impacto social dos conteúdos que produzem.
O MAIL e as Outras Disciplinas: Uma Oportunidade Curricular
Um dos aspetos mais relevantes para os professores é a natureza transversal destas competências. O framework apresenta exemplos concretos de como o MAIL pode ser integrado em todas as disciplinas:
| Disciplina | Exemplo de Atividade |
|---|---|
| Língua Portuguesa / Leitura | Comparar notícias jornalísticas com resumos gerados por IA para identificar diferenças de tom, viés ou ênfase |
| Matemática | Investigar o papel da amostragem de dados e do viés em previsões de algoritmos de redes sociais |
| Ciências | Analisar como diferentes meios de comunicação representam as alterações climáticas e o impacto dessa representação na opinião pública |
| História | Debater o impacto dos deepfakes na autenticidade de evidências históricas |
| Línguas Estrangeiras | Comparar cobertura mediática do mesmo evento em diferentes línguas para analisar ponto de vista e viés |
| Artes | Explorar questões de direitos de autor na colaboração humano-IA e refletir sobre o conceito de criatividade e originalidade |
| Informática | Desenvolver um modelo simples de recomendação de conteúdo e refletir sobre os vieses introduzidos pelos dados de treino |
Como Será a Avaliação em 2029?
O PISA 2029 MAIL usará um ambiente digital simulado — um “desktop virtual” — onde os alunos interagem com ferramentas como um browser, uma ferramenta de chat, motores de busca e sistemas de IA generativa. As tarefas variam em extensão e complexidade:
- Tarefas curtas (resposta múltipla, resposta construída breve): testam conhecimentos e competências de forma eficiente.
- Tarefas longas (cenários imersivos): permitem observar pensamento estratégico, persistência e tomada de decisão em contextos abertos e realistas.
Um exemplo concreto descrito no documento é a tarefa do “jornalista”: o aluno recebe uma notícia através de uma ferramenta de chat e deve verificar a sua veracidade consultando múltiplas fontes num browser simulado, praticando lateral reading e submetendo a sua análise com evidências de suporte.
O grupo de especialistas recomenda que 50% do tempo de avaliação seja dedicado às competências de Analisar e Avaliar e Criar (25% cada), com o restante distribuído pelas outras três competências.
O Que Isto Significa Para a Escola Portuguesa
Portugal, como país participante no PISA, será diretamente confrontado com os resultados desta avaliação em 2030. Mas mais do que os resultados, o que importa é o processo de preparação. Algumas reflexões essenciais:
Os professores precisam de formação específica. O documento reconhece que muitos programas de desenvolvimento profissional docente não incluem conteúdo abrangente sobre literacia mediática e IA, o que deixa os professores menos preparados para integrar estas competências nas suas disciplinas — especialmente à medida que os sistemas de IA continuam a evoluir rapidamente.
O acesso a dispositivos e recursos ainda é desigual. O framework alerta para o facto de que muitas escolas carecem de recursos e dispositivos suficientes, tornando as oportunidades de literacia mediática mais difíceis de concretizar.
A literacia mediática e a IA não são uma disciplina — são uma forma de pensar. O MAIL é um domínio transversal que deve ser cultivado em todas as áreas curriculares, articulado com as competências socioemocionais dos alunos e com os desafios reais que enfrentam no seu quotidiano digital.
Uma Nota Final: A Escola Como Espaço de Resistência Crítica
Num mundo onde a IA pode gerar conteúdo enganador em segundos, onde os algoritmos moldam o que vemos e o que pensamos, e onde a atenção dos jovens é deliberadamente colonizada por plataformas desenhadas para viciar, a escola tem uma responsabilidade inédita: ser o espaço onde se aprende a questionar, a verificar, a criar com intencionalidade e a agir com ética.
O PISA 2029 MAIL não é apenas mais uma avaliação. É um sinal de que estas competências são tão fundamentais como ler, escrever ou calcular — e que o tempo de as levar a sério na sala de aula já chegou.
Este artigo foi elaborado com base no primeiro rascunho do PISA 2029 Media and Artificial Intelligence Literacy (MAIL) Assessment Framework, publicado pela OCDE em 2026.



