Sampaio da Nóvoa e o futuro da educação

I Encontro de Educação de Oeiras. 4/9/2019

A Metamorfose da Escola
Uma conferência de Sampaio da Nóvoa na Escola Secundária Sebastião e Silva

A pergunta é simples na sua formulação, mas vertiginosa nas suas implicações: como será a educação do futuro? Numa conferência realizada na Escola Secundária Sebastião e Silva, em Oeiras — a sua própria escola de formação —, o Professor Sampaio da Nóvoa respondeu com uma franqueza rara nos grandes fóruns internacionais: não sabemos. Mas sabemos que a mudança será profunda, rápida e acontecerá nos próximos 20 a 30 anos.

Sampaio da Nóvoa, atualmente ligado à UNESCO, começou por prestar homenagem a três professores que o marcaram naquela escola: o Professor Luís Ardison Pereira, o Professor José Esteves e a Professora Marinete Leitão. Foi também naquele liceu, disse, que cresceu como pessoa e como pensador — razão pela qual confessou ser muito mais difícil falar ali do que “pelas Chinas, pelas Américas, pelas Rússias”.

O Futurismo em Três Palavras

Nos jornais, nas revistas e nos grandes fóruns internacionais, o pensamento sobre o futuro da educação pode, segundo Sampaio da Nóvoa, ser resumido em três palavras: o cérebro, o digital e a inteligência artificial.

A neuroeducação tornou-se o grande paradigma científico da aprendizagem, deslocando a psicologia do desenvolvimento de Piaget e as sociologias de Bourdieu. Em Portugal, António Damásio é a figura central desta corrente, inspirando centenas de estudos que colocam o funcionamento cerebral como chave para repensar a escola. Na linha do digital, Michel Serres, no seu célebre livro Pulgarzinha, argumentou que nasceu no século XXI uma nova geração que pensa, sente, conhece e aprende de maneira radicalmente diferente — e que ignorar este facto é ignorar o próprio futuro da educação. Por fim, o “Consenso de Pequim” sobre educação e inteligência artificial, assinado por grande parte dos governos do mundo, veio confirmar que a IA é hoje o tema mais popular em qualquer discussão sobre o futuro da escola.

O Perigo da Desintegração

Apesar do interesse destes três futurismos, Sampaio da Nóvoa alertou para um risco real: a sensação crescente de desintegração da escola como instituição.

A insistência na hiperpersonalização da educação — a ideia de que cada criança deve receber o serviço educativo que mais lhe convém, fora dos espaços escolares se necessário — estabelece, no seu entender, uma relação consumista com o conhecimento. Como ilustração, citou uma conferência TEDx de um jovem de 13 anos (La Plante) que explica por que razão os pais o retiraram da escola aos 9 anos e como construiu a sua educação fora do sistema — um vídeo que, no seu lado idílico, revela muito do que estas tendências produzem.

Clicar na imagem para ver a apresentação…

A Metáfora da Metamorfose

Para ultrapassar esta tensão, Sampaio da Nóvoa recorreu ao filósofo Edgar Morin e à sua distinção entre desintegração e metamorfose:

“Quando um sistema é incapaz de tratar dos seus problemas vitais, degrada-se, desintegra-se ou então é capaz de um gesto de metamorfose. O provável é a desintegração. O improvável, mas possível, é a metamorfose.”

A metamorfose da escola, defende Sampaio da Nóvoa, não implica abandoná-la, mas reconstruir o seu ambiente educativo — um espaço mais próximo de uma biblioteca ou de um laboratório de ciência, onde coexistem trabalho individual, projetos em grupo, vários professores e várias atividades em simultâneo. Este novo ambiente não é apenas uma questão espacial ou física; é uma transformação profunda na relação com o conhecimento e com as aprendizagens.

Seis Apontamentos para a Metamorfose

Sampaio da Nóvoa sintetizou os contributos mais relevantes dos futuristas em seis pontos práticos para repensar a escola:

  1. Atenção e motivação (Damásio) — Para haver aprendizagem, é preciso haver sentido; e para haver sentido, talvez seja necessário organizar o currículo não em torno das disciplinas, mas em torno dos grandes temas da humanidade, como os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
  2. Emoção como base da memória — Um neurocientista espanhol citado sublinha que “acender uma emoção” no aluno é condição essencial para a aprendizagem; e isso exige que o professor consiga que os alunos gostem no fim daquilo que não gostavam no princípio.
  3. Linguagens acima de conteúdos (Harari) — Dar mais informação é a última coisa que um professor deve fazer; o essencial é ensinar a distinguir o que é importante, a dar sentido e a dominar as linguagens — matemática, científica, literária.
  4. Reorganização do tempo — Todos os estudos cerebrais demonstram que cinco aulas de 10 minutos valem mais do que uma aula de 50 minutos; a relação com o tempo dos jovens do século XXI nada tem a ver com a dos jovens de meados do século XIX, quando foram criadas as aulas de 50 minutos.
  5. Tutoria e supervisão (Laurent Alexandre) — A melhor forma de conduzir alguém à aprendizagem é através do acompanhamento pedagógico individualizado e da diferenciação.
  6. Cooperação (Taddé e Dehaene) — O Homo Sapiens distingue-se por cooperar em número crescente e para tarefas cada vez mais complexas; é esta cooperação que deve estar no centro do novo ambiente educativo.

A Escola Como Bem Comum

A dimensão mais profunda da conferência foi uma advertência contra a redução da educação às aprendizagens no sentido estrito. Para Sampaio da Nóvoa, a escola não é um serviço — é uma instituição onde nos constituímos como cidadãos, onde se produz o comum: não a uniformidade, mas o trabalho conjunto de pessoas com crenças, origens e ideologias diferentes. É para esse trabalho do comum que a escola pública é insubstituível, e nenhum algoritmo ou máquina de inteligência artificial pode substituí-la nessa função.

A Pergunta de George Steiner

Sampaio da Nóvoa encerrou com uma questão que, confessa, o acompanha há muitos anos — formulada pelo escritor George Steiner, ele próprio expulso da Alemanha Nazi:

Como era possível tocar Schubert pela noite e marchar de manhã para o campo de concentração? Porque é que as humanidades não nos humanizaram? Porque é que a cultura não nos fez mais humanos?

Esta pergunta é, segundo Sampaio da Nóvoa, central para pensar a educação do futuro. Nunca poderemos fazer educação apenas a partir do cérebro, do digital ou da inteligência artificial — há uma dimensão do público, do comum e dos valores que tem de estar no coração da metamorfose da escola. E essa metamorfose, concluiu, não pode ser deixada aos futuristas: tem de ser construída pelos próprios professores, nas suas escolas, a partir da libertação das suas energias criadoras.

Clicar na imagem para a ver maior…

1 thought on “Sampaio da Nóvoa e o futuro da educação

  1. Pingback: “Educação ou barbárie”: o recado de António Sampaio da Nóvoa, no Oeiras Education Forum 2026 | TIC, Educação e Web

Leave a Reply