O leitmotiv da República é a procura da definição de justiça. Para a alcançar, Platão considera necessário expor como seria a sociedade perfeita.
Autor: Alejandro Villamor | Ler na fonte
Na Atenas do século IV antes da nossa era, um homem presumivelmente barbudo e de ombros largos marcou um marco na história do pensamento global. Mais de dois mil anos depois, o grande matemático Alfred Whitehead diria que «toda a filosofia ocidental não é mais do que um conjunto de notas de rodapé» à sua obra. Discípulo do insigne Sócrates (470-399 a.C.), este homem recebeu dos pais o nome de Aristocles, mas foi a alcunha devida à sua larga compleição que se tornou mais familiar: Platão.
A obra de Platão é extensa e diversificada. Vai desde os escritos de juventude (como a Apologia de Sócrates) até alguns tardios (como o Timeu), nos quais algumas das suas próprias teses parecem ser colocadas em dúvida. Com a devida vénia ao Banquete ou ao Fédon, seguem-se oito chaves para compreender aquela que é, para muitos, a sua magnum opus: a República.
A República |
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A segunda navegação
Embora o seu interesse fosse eminentemente político, o pilar fundamental do pensamento platónico reside na chamada «segunda navegação».
Os factos que podemos perceber pelos sentidos (cheirar, saborear, ver…) mudam, nascem e morrem, em suma, não são estáveis. Contudo, as coisas são o que são. Uma maçã é, objetivamente, uma maçã. Porém, em simultâneo, as diversas maçãs que percebemos aparecem do nada, mudam (de forma, cor…) e, finalmente, desaparecem. Como é isto possível? Platão deduz que, para além da dimensão do que se pode experienciar – sujeita ao tempo –, tem de existir uma realidade eterna, composta pelas essências das coisas. Aquilo que faz ser cada coisa o que é, o que confere à maçã a sua condição de maçã, a sua maçanidade.
Dualismo antropológico
O dualismo anterior (mundo empírico/mundo ideal) é complementado por um novo dualismo, desta vez relativo ao ser humano. Enquanto seres que fazem parte do mundo, os humanos são compostos por uma dupla realidade. Por um lado, são objetos submetidos ao tempo e passíveis de ser percebidos: corpo material. Por outro, são entes abstratos, eternos, capazes de compreender aquilo que os rodeia: a alma.
Divisão tripartida da alma
Como viria a ser acolhido por algumas filosofias posteriores – como a cristã –, todo o ser humano é corpo e alma. Por sua vez, cada alma possui três partes: uma racional (tendente ao mundo ideal), uma irascível (disciplinadora) e uma concupiscível (inclinada ao mundo material). Como é previsível, a primeira é a mais elevada para o filósofo grego, porque se orienta para o mundo verdadeiro, o inalterável. A prevalência de uma parte ou de outra varia conforme a pessoa: há indivíduos mais racionais e outros mais passionais.
O caminho do conhecimento
Esta alma que todos possuímos pertence à dimensão eterna do mundo, não sendo uma parte material do corpo. E é precisamente por isso que, através de um processo de abstração, pode alcançar o conhecimento das essências que compõem o mundo ideal. No cume deste mundo, assegura Platão, encontram-se essências como Justiça, Beleza e, em suma, o Bem.
Organização em classes
O leitmotiv da República é a definição de justiça. Para tal, Platão considera necessário projetar como seria a sociedade perfeita. Dada a impossibilidade de os humanos se autoabastecerem, a sua primeira característica consiste na separação em classes sociais. De forma polémica, Platão sustenta que cada um nasce para aquilo que nasce, em conformidade com a tipologia da alma: umas mais inclinadas para o conhecimento das essências eternas, outras mais ligadas ao mundo sensível.
Justiça
Alguns dedicar-se-ão a prover os restantes dos bens mais básicos (alimentos ou instrumentos de trabalho). Quem são esses? Aqueles com menor formação, mais presos ao mundo sensível. Outros, com maior bagagem educativa, os guardiães, zelarão pela segurança da polis. Finalmente, o governo caberá aos reis-filósofos, os que sabem o que é o bem e a justiça. Para Platão, o justo é que cada indivíduo desempenhe, com virtude, a função que lhe corresponde.
Crítica à democracia
Esta forma de organização social – um elitismo intelectual – confronta-se com o modelo democrático que nasceu na Grécia. Fervoroso antidemocrata, Platão considerou um erro equiparar a voz de todas as pessoas. Para ele, isso significava igualar o ignorante (alma concupiscível) ao sábio (alma racional).
Aroma de autoritarismo
No extremo oposto, Platão também criticou o autoritarismo, modelo em que o governo está nas mãos do ignorante. Contudo, como assinalaram autores como Karl Popper, várias características da sociedade ideal platónica (como a censura ou a impossibilidade de mudar de classe social) tornam difícil não reconhecer um certo aroma autoritário na sua proposta política.

