Agostinho da Silva – 5 ideias radicais de um filósofo português que vão mudar a sua perspetiva

Representação metafórica das ideias filosóficas de Agostinho da Silva: infância, sonho, transformação espiritual e conexão luso-brasileira

Introdução: Um Convite para Repensar o Mundo

Agostinho da Silva não é uma figura para ser encontrada apenas nos manuais de história da filosofia. É um pensador para o presente, um provocador cujas ideias desafiam, de forma radical, as nossas noções mais básicas de nação, sociedade e futuro. As suas palavras não oferecem conforto, mas sim um abalo necessário às estruturas mentais que damos por garantidas.

Numa era marcada pela crise da sociedade contemporânea — onde o desemprego, a falha do Estado e uma profunda sensação de desumanização parecem ser a norma — as nossas estruturas políticas e económicas revelam-se cada vez mais insuficientes. Face a esta crise, o seu pensamento oferece um antídoto radical: a recuperação de um modo de ser mais espiritual, criativo e não-utilitário, um caminho que exploraremos ao longo deste artigo. É precisamente neste cenário de incerteza que a filosofia de Agostinho da Silva ganha uma pertinência surpreendente.

Este artigo explora cinco das suas ideias mais impactantes e contraintuitivas. Não são propostas políticas pragmáticas, mas sim faróis espirituais e filosóficos. Considere-as um convite para questionar o “real” e ousar imaginar novas possibilidades para o mundo e para nós mesmos.

1. O Verdadeiro Portugal Não Está na Europa, Está no Brasil

Para Agostinho da Silva, existiam dois “Portugais”. Um era o Portugal continental, que ele descrevia como sendo culturalmente tão provinciano e tão acanhado. O outro era um Portugal expandido, autêntico, que se tinha libertado da “opressão da Europa de Carlos V e conexos” e que encontrava a sua expressão mais pura e vital não em Lisboa, mas no Brasil, em Angola e na Índia.

Perspectivas Sobre Agostinho Da Silva Na Imprensa Portuguesa

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Esta visão não era uma mera preferência geográfica, mas uma fuga espiritual. Agostinho via o Portugal continental como um país viciado por séculos de ocupação estrangeira e corrompido pelas intrigas políticas de Lisboa. O “Portugal ideal”, expresso no Brasil, era a continuação da missão espiritual e medieval original do país, livre dos vícios políticos e intelectuais europeus. Nesta inversão completa da perspetiva colonial, o Brasil não é uma ex-colónia, mas a realização autêntica do projeto português, o lugar onde a sua alma pôde florescer.

O Portugal mais autêntico e de maior vitalidade não é o País cuja capital é Lisboa, mas o do Brasil, ou o de Angola, ou o da Índia. É um Portugal que não tem seu centro em parte alguma e cuja periferia será marcada pela da expansão de sua língua e da cultura de Pax in excelsis que ela levar consigo.

2. A Humanidade Precisa de Recuperar a Sabedoria das Crianças

Enquanto o mundo contemporâneo se obceca com a produtividade, o pragmatismo e a seriedade adulta, Agostinho da Silva propunha um caminho inverso. Para ele, a construção de uma nova era — o que ele chamava de “Reino do Espírito” — passava por recuperar e cultivar as virtudes que vemos nas crianças.

Ele identificava qualidades como a “humildade”, a “generosa alegria”, a “imaginação” e a “inocência” não como traços de imaturidade a serem superados, mas como o modelo de vida a ser seguido. Esta não era uma romantização ingénua da infância. Agostinho defendia, com base histórica, que estas qualidades “infantis” foram o motor dos maiores florescimentos criativos da civilização, “como ocorreu entre os gregos, os árabes de Córdoba, os italianos do Renascimento”. Numa sociedade cada vez mais burocrática e desumanizada, esta valorização do “brincar de criança” era um poderoso antídoto para resgatar o entusiasmo e a capacidade de invenção que a vida adulta tantas vezes esmaga.

M ais que tudo eu quero ter pé bem firme em leve dança . com todo o saber de adu Ito e todo o brincar de criança!

3. O Futuro Ideal é um Mundo Sem Governo e Sem Economia

Talvez a mais chocante das suas visões utópicas seja a sua descrição do “Reino do Espírito”. Este horizonte espiritual, que ele apresentava como alternativa à crise da sociedade moderna, seria caracterizado por duas ausências fundamentais: “o não haver governo” e “o não haver economia”.

Esta não era uma proposta para uma revolução política imediata, mas sim um horizonte espiritual para a humanidade. Significaria a superação das oposições que definem o nosso mundo: produtor e consumidor, patrão e operário, e até mesmo criança e adulto. Num mundo onde o desemprego e a falha do Estado já demonstravam os limites dos sistemas vigentes, a proposta de Agostinho era pensar para além deles. Para uma mentalidade como a nossa, que assenta precisamente nestas estruturas de poder e troca, a ideia de as abolir parece impossível — e era precisamente nesse “impossível” que ele encontrava o verdadeiro motor da transformação.

4. O Sonho Vale Mais do que a Realidade

Agostinho da Silva defendia o que podemos chamar de uma “ética do sonho”. Para ele, a contemplação e a imaginação não eram fugas da realidade, mas sim o que conduzia à ação mais eficaz e verdadeira. A sua filosofia era um convite para não esperar por “circunstâncias absolutamente favoráveis” para começar a agir. A tarefa mais importante era “pôr o sonho em marcha, realizando o que for possível”.

Esta é uma “ética do possível”, uma exortação para começar a construir o mundo sonhado aqui e agora, no “instante presente”, com as ferramentas que temos à mão. Para Agostinho, a capacidade de imaginar um futuro melhor é a força mais poderosa que possuímos. Como ele mesmo afirmava, “o sonho vale mais que a realidade”, pois é o sonho que nos define, nos move e, em última análise, cria o mundo. Esta “ética do possível” não era apenas uma filosofia de vida individual; era o método prático para começar a construir, no instante presente, o “Reino do Espírito” sem governo e sem economia que ele ousou imaginar.

5. Um Pioneiro dos Estudos Africanos com Alma Luso-Cêntrica

A complexidade do pensamento de Agostinho da Silva revela-se num paradoxo fascinante. Em 1959, na Bahia, ele fundou o Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO), reconhecido como “a primeira experiência institucional dos estudos africanos no Brasil”. Foi um ato visionário, que abriu caminho para uma nova forma de o Brasil se relacionar com África.

No entanto, a sua visão não operava num vácuo; era, ao mesmo tempo, profundamente influenciada por uma missão para a “comunidade luso-brasileira”, inspirada no mito português do Quinto Império — uma utopia de um império espiritual e cultural. Esta perspetiva foi moldada pelo clima intelectual brasileiro, dialogando e, por vezes, tensionando com as ideias de luso-tropicalismo de Gilberto Freyre e o “nagocentrismo” prevalecente nos estudos afro-brasileiros da época. Ele acreditava que o Brasil tinha um papel de “liderança espiritual do mundo novo que está surgindo na faixa dos trópicos”. Esta dualidade mostra um pensador complexo, um visionário para o futuro das relações com África e, simultaneamente, um homem cujas ideias foram formadas pela sua herança portuguesa e pela sua experiência no Brasil.

Conclusão: E Se o Filósofo Tivesse Razão?

Do Brasil como verdadeiro Portugal à criança como modelo para a humanidade, passando por um futuro sem governo e pela primazia do sonho, as ideias de Agostinho da Silva obrigam-nos a questionar as nossas certezas mais enraizadas. Ele não nos oferece respostas fáceis, mas sim as perguntas certas, aquelas que nos forçam a sair da nossa zona de conforto intelectual.

Num mundo obcecado com resultados imediatos e realidades concretas, que lugar reservamos para o “sonho” e o “impossível” que Agostinho da Silva defendia? E se a chave para o futuro estivesse, afinal, na coragem de imaginar?

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