Portugal e a inteligência artificial: um olhar sobre a nova agenda nacional

Clicar na imagem para a ver maior….

Apresentação .pdf |

Introdução: o futuro é agora

A Inteligência Artificial (IA) representa uma das transformações tecnológicas, económicas e sociais mais significativas da atualidade, redefinindo cadeias de valor e o funcionamento de economias a nível global. Atento a esta revolução, Portugal estabeleceu a sua resposta estratégica através da “Agenda Nacional de Inteligência Artificial” (ANIA), aprovada pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 2/2026. O objetivo central é claro: usar a IA para acelerar o crescimento económico, reformar o Estado e aumentar a produtividade nacional, que atualmente se encontra a apenas 75% da média europeia.

1. A oportunidade histórica para Portugal

A ANIA foi desenhada para enfrentar um dos desafios estruturais mais prementes do país: o défice de produtividade. Com um valor por hora trabalhada correspondente a 75% da média da União Europeia, Portugal tem na IA uma oportunidade histórica para mudar de rumo. As estimativas indicam que a adoção acelerada desta tecnologia pode acrescentar entre 18 e 22 mil milhões de euros ao Produto Interno Bruto (PIB) e aumentar o contributo da produtividade para o crescimento em até 2,7 pontos percentuais na próxima década.

Para capitalizar esta oportunidade, Portugal não parte do zero. Pelo contrário, o país alicerça a sua ambição em IA numa fundação sólida de vantagens competitivas estruturais:

• Infraestrutura de fibra ótica: O país possui uma das melhores redes da Europa, sendo o terceiro na UE com maior cobertura de fibra ótica (92% das casas).

• Conectividade internacional estratégica: Funciona como um hub de rotas intercontinentais de baixa latência através de cabos submarinos, sendo o único país da UE com uma ligação direta à América do Sul.

• Talento qualificado: Ocupa o terceiro lugar na UE em percentagem de estudantes em áreas de engenharia e tem um número de investigadores por mil trabalhadores (9,6) superior à média europeia (8,7).

• Energia competitiva: Apresenta uma matriz energética fortemente sustentável, com cerca de 63% da produção a provir de fontes renováveis, bem acima da média da UE (45%).

• Qualidade de vida excecional: É reconhecido como o sétimo país mais seguro do mundo e o sexto com a melhor qualidade de vida, fatores cruciais para atrair e fixar talento global.

• Predisposição elevada para adotar IA: Quase 90% dos portugueses acreditam que a IA torna a sua vida mais fácil, demonstrando uma abertura generalizada à tecnologia.

• Dinamismo no ecossistema de startups: Conta com mais de 5.000 startups, das quais 552 têm a IA como atividade nuclear. Seis dos sete unicórnios portugueses utilizam IA no centro das suas operações.

• Crescimento económico sustentado: O país demonstra uma trajetória de crescimento económico sólida, com previsões de aumento do PIB e uma taxa de desemprego baixa, situada nos 5,8%.

2. A abordagem estratégica: produtor, implantador ou ambos?

Para maximizar o impacto da IA, um país pode adotar diferentes posturas estratégicas. Uma abordagem de “Produtor” foca-se na criação de nova tecnologia de raiz, como algoritmos e modelos de fundação. Este caminho exige investimento intensivo em Investigação e Desenvolvimento (I&D), investigadores doutorados e infraestrutura de computação de alto desempenho, visando a soberania tecnológica e a propriedade intelectual.

Por outro lado, uma abordagem de “Implantador” concentra-se na aplicação de tecnologias de IA já existentes para gerar ganhos rápidos de produtividade e eficiência. É a via mais rápida para obter retornos económicos, permitindo que as Pequenas e Médias Empresas (PME) adotem a tecnologia sem um investimento significativo em I&D.

Portugal optou por uma posição estratégica e híbrida. A ANIA propõe maximizar o papel de Implantador para gerar receita e, com esses fundos, financiar o seu papel de Produtor em áreas de alto valor e vantagem competitiva, como cibersegurança, large language models (LLM) português, IA e robótica aplicada à indústria, economia azul e mar, e IA responsável.

3. Os 4 eixos de atuação da ANIA

A Agenda Nacional de Inteligência Artificial está estruturada em quatro pilares estratégicos, cada um com desafios, objetivos e iniciativas concretas.

3.1. Infraestrutura e dados

O principal desafio neste eixo é a capacidade computacional atual, que é limitada e insuficiente para a procura crescente, e a fragmentação dos dados nacionais, que impede a sua utilização em escala. O objetivo é aumentar a capacidade de computação nacional entre 10 a 15 vezes até 2030 e criar uma política nacional de dados robusta.

Iniciativas de exemplo:

• Atrair uma Gigafactory para Portugal: para reforçar a autonomia tecnológica, criar capacidade industrial para IA e reduzir a dependência externa.

• Criação de espaços de dados em áreas críticas: para permitir o treino de soluções de IA em setores como a saúde, educação, indústria e administração pública, assegurando interoperabilidade e acesso seguro a dados de alto valor.

3.2. Inovação e adoção

Portugal enfrenta baixos níveis de adoção de IA, especialmente nas PME (apenas 9,4% nas pequenas empresas), e uma dificuldade em transformar o conhecimento científico gerado nas universidades em valor económico. No entanto, a procura existe e é robusta: a nova linha do Banco de Fomento dedicada à adoção de IA pelas PME esgotou rapidamente os 100 milhões de euros de dotação inicial, demonstrando que, quando o apoio é claro, as empresas avançam. O objetivo é exponenciar a adoção de IA com foco nas PME e na Administração Pública, reforçando simultaneamente a ligação entre a investigação e o mercado.

Iniciativas de exemplo:

• IA nas PME: criar mecanismos de integração entre diferentes instrumentos financeiros de apoio às PME (como a Fábrica de IA) e desenvolver um novo programa setorial para promover a adoção de IA neste segmento empresarial.

• Centro de Excelência em IA na Administração Pública: criação de uma estrutura para desenvolver, testar e escalar soluções de IA nos serviços públicos, com foco em tarefas transversais e casos de uso críticos.

3.3. Talento e competências

A transformação impulsionada pela IA exigirá a requalificação de cerca de 1,3 milhões de postos de trabalho até 2030. A urgência é sublinhada pelo facto de metade dos CEOs portugueses identificarem a falta de competências técnicas como a principal barreira à adoção da IA. No entanto, o país tem uma base limitada de talento especializado (apenas 11% dos profissionais com competências avançadas) e enfrenta uma persistente “fuga de talento qualificado”. O objetivo é formar, atrair e reter talento em IA à escala necessária para sustentar a competitividade do país.

Iniciativas de exemplo:

• Quadro Nacional de Competências Inteligentes (QNCI): criação de uma taxonomia nacional de competências, usando IA para mapear as competências existentes, identificar necessidades futuras e orientar políticas de requalificação.

• AI Fast Track: implementação de um regime acelerado de vistos para atrair investigadores e profissionais altamente qualificados em áreas críticas de IA onde falta talento nacional.

3.4. Responsabilidade e ética

As implicações éticas são a principal barreira à adoção da IA para 54% dos líderes empresariais portugueses, a par da incerteza jurídica criada pela complexidade do novo Regulamento Europeu de IA. O objetivo é criar um ambiente de maior confiança em IA para cidadãos e empresas, promovendo o investimento em IA responsável como um acelerador de valor e não como um travão.

Iniciativas de exemplo:

• Implementação de Sandboxes Regulatórias: para permitir que empresas testem soluções de IA inovadoras num ambiente controlado, com segurança jurídica e alinhamento com as novas regras.

• Guia de implementação do Regulamento de IA: desenvolver um guia prático para apoiar as entidades no cumprimento das novas exigências europeias, incluindo standards, documentação técnica e ferramentas nacionais de avaliação de risco.

Conclusão: transformar potencial em valor

A Agenda Nacional de Inteligência Artificial representa um compromisso claro para aproximar Portugal dos países europeus mais avançados na aplicação de IA para a produtividade e o bem público. Mais do que um plano tecnológico, a ANIA é um instrumento estratégico concebido para transformar o potencial existente em valor económico e social concreto. Ao focar-se em infraestruturas, inovação, talento e ética, Portugal procura assegurar uma transição responsável e orientada para o interesse público, garantindo que o futuro da IA se traduz em melhores salários, serviços públicos mais eficientes e uma maior qualidade de vida para todos.

Leave a Reply