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Ler para aprender: como usar a literatura no ensino do português
Muitas vezes, a perspetiva histórica do ensino de línguas separou a língua e a literatura, tratando-as como áreas distintas. No entanto, o Plano Nacional de Leitura defende uma visão integrada, onde a literatura é uma parte essencial do ensino do português como língua não materna. As vantagens de levar um bom livro para a sala de aula superam largamente os desafios.
A literatura não é apenas um complemento; é uma ferramenta poderosa que proporciona um enriquecimento vocabular profundo, uma experiência cultural autêntica e um notável desenvolvimento cognitivo e pessoal. Neste artigo, exploramos como pode integrar a literatura nas suas aulas de forma prática e eficaz, com base nas orientações do Plano Nacional de Leitura.
2. Porquê levar a literatura para a sala de aula? Os quatro grandes benefícios
A leitura de obras literárias oferece vantagens claras e fundamentadas para os aprendentes de uma nova língua. Mais do que um exercício de gramática, é uma imersão completa na língua e na cultura.
• Exposição Cultural: A literatura funciona como um documento autêntico que dá acesso a contextos culturais complexos. Permite aos alunos conhecerem o ambiente político, social e histórico de uma obra, promovendo a competência intercultural. Ao compreender as motivações das personagens dentro do seu mundo, o leitor aprende a apreciar diferentes visões do mundo e a confrontar as suas próprias perspetivas.
• Desenvolvimento da Linguagem: Qualquer obra de ficção, mesmo infantil, apresenta um vocabulário mais rico e estruturas linguísticas mais variadas e inesperadas do que a conversação do dia a dia. Esta exposição melhora significativamente a compreensão e a expressão, tanto oral como escrita, e torna os alunos mais conscientes da riqueza da língua-alvo de uma forma muito mais significativa do que os diálogos artificiais criados para manuais.
• Desenvolvimento do Pensamento Crítico: Com as suas múltiplas camadas de sentido, os textos literários obrigam o leitor a analisar, interpretar, inferir e avaliar a informação. Esta leitura ativa, em busca de pistas e significados, desencadeia discussões mais ricas em que os alunos negoceiam sentidos e constroem perspetivas pessoais de forma fundamentada.
• Crescimento Emocional: A literatura cultiva a empatia. Ao envolver-se com a história, o leitor experimenta as motivações de diferentes personagens, compreende as suas ações e reflete sobre os seus próprios valores. Este processo encoraja a reflexão pessoal e um maior conhecimento sobre si mesmo, ao mesmo tempo que fornece modelos de expressão pessoal.
3. O que ler? Como escolher os livros certos
A escolha do livro certo depende dos interesses, do conhecimento prévio e do nível de língua dos alunos. No entanto, o critério principal vai além da simplicidade linguística: a relevância do texto para o leitor e a sua capacidade de provocar uma reação pessoal forte têm mais impacto na motivação para continuar a ler.
3.1. Sugestões de leitura por nível de proficiência
Para apoiar a sua seleção, o Plano Nacional de Leitura preparou as seguintes sugestões, organizadas por nível de proficiência (QECR), que servem como um excelente ponto de partida para a construção do seu repositório de aula.
| Nível (QECR) | Exemplos de Títulos e Autores | Público-Alvo |
|---|---|---|
| A1 | Onda (Suzy Lee) <br> Emigrantes (Shaun Tan) <br> Todos fazemos tudo (Madalena Matoso) | Infantil <br> Jovens/Adultos <br> Jovens/Adultos |
| A2 | A lagartinha muito comilona (Eric Carle) <br> O homem que plantava árvores (Jean Giono) <br> Mafalda – Feminino singular (Quino) | Infantil <br> Jovens/Adultos <br> Jovens/Adultos |
| B1 | Pipi das Meias Altas (Astrid Lindgren) <br> Diário de um banana (Jeff Kinney) <br> Mar Negro (Ana Pessoa e Bernardo P. Carvalho) | Infantojuvenil <br> Infantojuvenil <br> Jovens/Adultos |
| B2 | A invenção de Hugo Cabret (Brian Selznick) <br> Vamos comprar um poeta (Afonso Cruz) <br> Deste mundo e do outro (José Saramago) | Juvenil/Jovens <br> Jovens/Adultos <br> Jovens/Adultos |
| C1 | A viagem do elefante (José Saramago) <br> O retorno (Dulce Maria Cardoso) <br> Sapiens – História breve da Humanidade (Yuval Noah Harari) | Jovens/Adultos <br> Jovens/Adultos <br> Jovens/Adultos |
3.2. Formas de sugerir livros e erros a evitar
Apresentar os livros de forma apelativa é fundamental para despertar o interesse. Pode:
• Projetar book trailers para criar curiosidade.
• Incentivar recomendações entre pares, pois a opinião de um colega é muitas vezes valorizada.
• Explorar o espaço da biblioteca escolar ou organizar uma caixa com uma seleção variada de livros para os alunos manusearem.
Erros a evitar
• Sugerir leituras infantis a alunos adultos. Embora a literatura infantil de qualidade possa ser apreciada em qualquer idade, é crucial adequar os temas ao público para não criar situações desmotivadoras.
• Seguir estereótipos de género, idade, etc. É importante conhecer os gostos reais dos leitores em vez de assumir que rapazes só gostam de futebol e meninas preferem princesas.
• Fornecer aos alunos interpretações prévias dos textos. O papel do professor é fazer perguntas que promovam a inferência e a análise crítica, não dar respostas prontas.
• Dissecar os textos com exercícios de língua não relevantes para a compreensão. O valor do texto literário não deve ser reduzido a um mero pretexto para praticar um ponto gramatical específico.
4. Como ler? Duas estratégias fundamentais
Existem duas abordagens principais para trabalhar a leitura na aula, cada uma com o seu propósito: a leitura extensiva, focada no prazer de ler, e a leitura orientada, focada no desenvolvimento de competências de compreensão.
4.1. Leitura Extensiva: Promover o prazer de ler
O objetivo principal da leitura extensiva é ler por prazer, de forma autónoma. Para a promover, o professor pode adotar várias ações.
1. Conhecer os leitores: Utilizar questionários sobre hábitos de leitura no início do ano letivo ajuda a inventariar os perfis dos alunos, a conhecer os seus temas e géneros favoritos e a construir uma coleção de livros adequada a cada turma.
2. Definir objetivos individuais: Os alunos podem definir os seus próprios objetivos — ler um certo número de livros, explorar novos géneros, aumentar o tempo de leitura diário — e registá-los em diários ou passaportes de leitura para acompanhar o seu progresso.
3. Criar momentos de leitura: Atividades como os “10 Minutos a Ler” no início da aula, círculos de leitura para discussão ou a criação de um clube de leitura ajudam a normalizar e a socializar o ato de ler.
O que evitar
• Pedir fichas de compreensão obrigatórias: Sendo o objetivo ler por prazer, evite exercícios que transformem a leitura numa tarefa. Em vez disso, use registos que incentivem a partilha e a reflexão.
• Esconder o seu perfil de leitor: O professor é um modelo. Partilhe as suas próprias preferências, hábitos e até dificuldades de leitura. Isto cria um ambiente autêntico e mostra como se fala sobre livros.
4.2. Leitura Orientada: Desenvolver a compreensão
Na leitura orientada, o professor atua como um guia, fornecendo aos alunos as ferramentas necessárias para se tornarem leitores autónomos. Este processo divide-se em três fases.
• Pré-leitura: Antes de começar a ler, é fundamental ativar o conhecimento prévio dos alunos. Isto pode ser feito através da apresentação de informação contextual sobre a obra (locais, contexto histórico, etc.) e do esclarecimento de vocabulário-chave relacionado com os temas do livro.
• Durante a leitura: Nesta fase, o professor ensina estratégias de metacompreensão (como fazer perguntas ao texto ou antecipar o que vai acontecer) e utiliza o scaffolding (andaimes), fazendo perguntas que aumentam progressivamente de complexidade para guiar a compreensão.
• Pós-leitura: Partilha e Discussão: Após a leitura estar completa, esta fase foca-se na consolidação da compreensão e na partilha de interpretações. As discussões em grupo, orientadas por guiões com tópicos definidos, permitem o confronto de opiniões e a negociação de sentidos. Ferramentas digitais como o Goodreads ou o StoryChart podem ser usadas para criar clubes de leitura online, e os alunos podem ser motivados a criar e partilhar os seus próprios conteúdos sobre livros em plataformas como o Instagram, YouTube ou TikTok.
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5. Avaliação: Reconhecer e valorizar o percurso do leitor
Avaliar o progresso dos alunos é fundamental para que eles desenvolvam a capacidade de automonitorização e se tornem mais conscientes do seu percurso como leitores. A avaliação formativa pode ser feita através da discussão em grupo e da observação do empenho, enquanto a avaliação sumativa formaliza este progresso.
Para além dos modelos mais tradicionais, a avaliação pode assumir formatos mais criativos que permitem aos alunos demonstrar a sua compreensão de formas diversas:
• Portefólio de leituras
• Criação de um ebook
• Produção de um booktrailer ou booktok
• Elaboração de mapas mentais ou nuvens de palavras
Apresentamos dois modelos práticos para a avaliação sumativa:
• Entrevista sobre livros lidos: Uma conversa individual de aproximadamente cinco minutos, na qual o aluno fala sobre um livro que leu à sua escolha. O objetivo é elicitar uma resposta pessoal, com perguntas como “Como se sentiu quando acabou de ler o livro?”, “Qual foi a sua personagem favorita? Porquê?” ou “Recomenda o livro? Porquê?”, em vez de focar apenas na recordação de factos.
• Relatório de leitura: Um registo escrito dividido em duas partes essenciais. A primeira, “Os factos”, foca-se nos elementos da história (cenário, personagens, ação). A segunda, uma “Resposta pessoal”, é crucial e convida o aluno a articular as suas impressões, emoções e as aprendizagens culturais ou pessoais que retirou da leitura.
6. Conclusão
Integrar a literatura na sala de aula de português como língua não materna é transformar o ensino da língua numa experiência mais rica, autêntica e humana. A literatura é uma ferramenta poderosa que, longe de ser um mero complemento, se revela central para o desenvolvimento de competências linguísticas, culturais e críticas.
Convidamos todos os professores a explorar estas sugestões, a experimentar as atividades e a adaptar os materiais aos seus contextos e públicos. Ao abrir um livro, abrimos um mundo de possibilidades de aprendizagem.


