Ler na fonte | Sobre um artigo de Jonathan Malesic |
O artigo do New York Times publicado originalmente em inglês por Jonathan Malesic a 25 de outubro de 2024 e traduzido para a edição em espanhol levanta uma tese provocadora: os estudantes não deixaram de ler apenas por preguiça ou vício nos ecrãs, mas porque fizeram um cálculo racional sobre o que a sociedade valoriza.
Porque é que os alunos deixaram de ler livros inteiros? (Spoiler: A culpa não é só dos telemóveis)
Como educadores, todos nós já sentimos a mudança. Há uma década, ainda era possível atribuir a leitura de romances completos ou ensaios complexos e esperar uma discussão vibrante na aula seguinte. Hoje, isso parece uma batalha perdida. A reação imediata é culparmos a atenção fragmentada, o TikTok ou os smartphones.
Mas um artigo de opinião recente no The New York Times, assinado pelo professor Jonathan Malesic, propõe uma explicação mais desconfortável: os alunos não leem porque perceberam que, no mercado de trabalho atual, isso não é necessário para ter sucesso.
O Cálculo Racional do Estudante
Malesic compara a sua experiência de 2011 — quando os seus alunos liam Platão e Thoreau e debatiam com entusiasmo — com a realidade de 2024, onde ele confessa já não atribuir um único livro completo há quatro anos.
O argumento central é que os estudantes estão a fazer uma “escolha racional”. Eles olham para o mercado de trabalho e veem que a produtividade, muitas vezes, não está ligada ao trabalho profundo ou à competência técnica real, mas sim a qualidades intangíveis — aquilo a que a cultura pop chama de “vibes” ou a capacidade de projetar uma imagem de competência.
Se a sociedade e a economia sinalizam que o sucesso financeiro está desligado do esforço intelectual profundo, porque haveriam eles de investir horas a decifrar Moby Dick?
A Inteligência Artificial como “Atalho” Legitimado
O artigo dá um exemplo perturbadoramente preciso desta nova realidade: um anúncio recente à Apple Intelligence. No anúncio, uma pessoa utiliza a IA para resumir uma proposta que não leu, conseguindo assim “fingir” que está preparada para uma reunião.
A mensagem implícita é clara: ler de verdade é para quem não tem ferramentas melhores. O sucesso pertence a quem consegue parecer que leu, a quem consegue navegar na superfície com eficiência. A tecnologia, que deveria ser uma ferramenta de apoio, é aqui vendida como um substituto para o pensamento crítico e para o trabalho de fundo.
O Que Isto Significa Para Nós, Educadores?
Para quem está no terreno, em Portugal, a tentar ensinar a ler os clássicos ou a desenvolver a literacia digital crítica, esta perspetiva é assustadora. Sugere que não estamos apenas a lutar contra a dopamina das redes sociais, mas contra todo um sistema de incentivos económicos.
Se a escola for vista apenas como uma preparação para o emprego, e se o emprego valoriza a rapidez e a superficialidade em detrimento da profundidade, a leitura integral de obras torna-se, aos olhos dos alunos, obsoleta.
Talvez o nosso papel hoje passe por mostrar o valor “subversivo” da leitura. Ler um livro do princípio ao fim, sem atalhos e sem resumos de IA, é um ato de resistência. É treinar um músculo que a economia moderna está a deixar atrofiar, mas que continua a ser a única via para a verdadeira empatia e compreensão complexa do mundo.
Como Malesic conclui, o mundo está a enviar uma mensagem sobre as suas prioridades, e elas não parecem incluir a literatura. Cabe-nos a nós contrariar essa mensagem, não por saudosismo, mas porque sabemos que há competências que nenhum resumo automático consegue substituir.
Referência:
Malesic, J. (2024). There’s a Very Good Reason College Students Don’t Read Anymore. The New York Times.[nytimes]





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