European Children´s use and understanding of generative AI
Download |
Crianças Europeias e a Inteligência Artificial Generativa: O que nos diz o estudo EU Kids Online 2025
A inteligência artificial generativa (IA Generativa) está a tornar-se rapidamente parte do quotidiano digital das crianças europeias. Um novo relatório da rede EU Kids Online, baseado em dados recolhidos em 20 países europeus durante 2025, oferece-nos a primeira visão abrangente sobre como os jovens entre os 9 e os 16 anos utilizam, compreendem e experienciam ferramentas como o ChatGPT, Gemini e outras plataformas de IA Generativa.
Quem usa IA Generativa?
Os dados revelam uma adoção surpreendentemente rápida: 72% das crianças europeias já utilizam IA Generativa, embora existam diferenças significativas entre países. Portugal destaca-se com uma taxa de utilização de 85%, posicionando-se entre os países com maior adoção, juntamente com a Áustria (94%), Bélgica e Itália (ambas com 89%).
Padrões de utilização por idade e contexto
A utilização aumenta claramente com a idade: apenas 45% das crianças de 9-10 anos usam IA Generativa, mas este número salta para 86% entre os jovens de 15-16 anos. As diferenças de género são pequenas, embora as raparigas reportem ligeiramente mais utilização (74%) do que os rapazes (70%).
Um aspeto preocupante é a desigualdade socioeconómica: crianças de contextos socioeconómicos mais elevados têm maior probabilidade de usar IA Generativa (75%) comparativamente às de contextos mais desfavorecidos (70%), sugerindo o emergir de uma “divisão digital” relacionada com a IA.
Para que usam as crianças a IA Generativa?
O estudo identificou que as motivações educativas e práticas dominam a utilização de IA Generativa:
Usos educativos (os mais comuns)
- Escrever ensaios ou histórias para trabalhos escolares (33% em média europeia, 47% em Portugal)
- Resumir ou explicar textos longos (35% em média, 48% em Portugal)
- Obter melhores notas (25% reportam este objetivo)
Motivações instrumentais
As razões mais citadas para usar IA Generativa incluem:
- Poupar tempo (43%)
- Tornar tarefas mais fáceis (36%)
- Encontrar informação não disponível noutros locais (34%)
Usos criativos e recreativos (menos frequentes)
- Criar imagens ou vídeos (16%)
- Obter inspiração para criações próprias (26%)
- Passar tempo de forma divertida (17%)
Apoio pessoal e emocional (ainda marginal)
Apenas 15% das crianças reportam usar IA Generativa para obter conselhos sobre saúde física ou partilhar preocupações, indicando que estas ferramentas ainda não são uma fonte dominante de suporte emocional.
IA Generativa como “professor pessoal”
As entrevistas qualitativas com 244 jovens revelam que muitas crianças percecionam a IA Generativa como um “professor sempre disponível”. Os jovens valorizam particularmente:
- A capacidade de obter explicações simplificadas de conceitos complexos
- A disponibilidade 24/7, especialmente quando fazem trabalhos de casa
- A rapidez nas respostas comparativamente a pesquisas tradicionais no Google
Como expressou uma participante italiana de 13 anos: “Uso-a um pouco como um professor, digamos, para me explicar as coisas uma segunda vez”.
A IA Generativa está a substituir o Google?
Um dos achados mais significativos é que a IA Generativa está gradualmente a mudar a forma como as crianças pesquisam informação online. Muitos jovens descrevem ferramentas como o ChatGPT como “o meu novo Google”, apreciando não terem de comparar múltiplas fontes.
Esta mudança levanta questões importantes sobre literacia digital e pensamento crítico. Enquanto algumas crianças mais experientes reportam práticas de verificação cruzada de informação, outras – especialmente as mais novas ou com menos competências digitais – podem ser mais inclinadas a confiar cegamente nos outputs da IA.
Riscos e preocupações: a ambivalência da IA
O estudo identifica uma natureza ambivalente da IA Generativa no desenvolvimento das crianças:
Oportunidades
- Apoio à aprendizagem personalizada
- Facilitação de tarefas repetitivas
- Estímulo à criatividade
Riscos
- Desqualificação (perda de competências): crianças que delegam completamente trabalhos de casa à IA
- Dependência excessiva de sistemas automatizados
- Confiança acrítica em informação potencialmente incorreta (alucinações da IA)
- Exposição a desinformação
Perspetivas das crianças sobre o futuro com IA
Quando questionadas sobre o impacto da IA nas suas vidas nos próximos 10 anos, as respostas das crianças revelam incerteza:
- 37% não têm opinião formada ou não sabem o que pensar
- 30% acreditam que o impacto será tanto positivo quanto negativo
- 20% prevêem um impacto maioritariamente positivo
- Menos de 7% antecipam um impacto primariamente negativo
Esta incerteza generalizada sublinha a necessidade urgente de educação e orientação sobre IA para crianças e jovens.
Recomendações para educadores e famílias
O relatório EU Kids Online apresenta recomendações fundamentais:
Para sistemas educativos
- Desenvolver abordagens estruturadas e sistemáticas para educar jovens e professores sobre IA Generativa
- Incluir conhecimento funcional (como usar) e crítico (implicações sociais, ambientais, éticas)
- Abordar questões como viés, discriminação, desinformação, privacidade e impacto ambiental
- Evitar parcerias precipitadas com empresas tecnológicas sem considerar cuidadosamente os interesses das crianças
Para famílias e educadores
- Proporcionar apoio educacional sobre IA a pais e cuidadores
- Reconhecer grandes diferenças entre famílias no conhecimento sobre IA
- Estar particularmente atentos ao uso de IA Generativa para apoio em saúde mental
- Incentivar práticas de verificação de informação e pensamento crítico
Para políticas públicas
- Considerar contextos nacionais ao desenvolver respostas políticas
- Assegurar abordagens consistentes em escolas de diferentes contextos socioeconómicos
- Consultar significativamente as crianças e jovens (conforme Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança)
- Regular cuidadosamente considerando o melhor interesse das crianças
Questões linguísticas e desigualdades
Um aspeto frequentemente negligenciado é que as ferramentas de IA Generativa não estão igualmente desenvolvidas em todas as línguas. Alguns jovens notam que a IA funciona melhor em inglês, o que privilegia crianças proficientes nesta língua e contribui para desigualdades estruturais no acesso aos benefícios da IA Generativa.
Conclusão: navegar entre hype e pânico moral
O estudo EU Kids Online 2025 oferece evidências cruciais num momento em que os debates públicos sobre crianças e IA oscilam entre entusiasmo tecnológico excessivo e pânico moral.
Os dados mostram que, apesar da rápida adoção, a maioria das crianças usa IA Generativa para um número relativamente limitado de atividades, principalmente relacionadas com educação e praticidade. Embora existam riscos reais – desde dependência excessiva até confiança acrítica em informação incorreta – também existem oportunidades genuínas para apoiar a aprendizagem.
O desafio não é demonizar nem romantizar a tecnologia, mas desenvolver abordagens baseadas em evidências que capacitem as crianças a usar IA Generativa de forma crítica, criativa e responsável, enquanto garantimos que todos os jovens – independentemente do seu contexto socioeconómico – possam beneficiar das oportunidades que estas ferramentas oferecem.
Sobre o estudo: O relatório baseia-se em dados de 25.592 crianças entre 9-16 anos em 17 países europeus (inquérito quantitativo) e 244 entrevistas qualitativas com jovens de 13-17 anos em 15 países, recolhidos durante 2025. Portugal participou em ambas as componentes do estudo, com dados de 1.988 crianças no inquérito e 15 entrevistas qualitativas.
Este artigo foi elaborado com base no relatório “European children’s use and understanding of Generative AI” (EU Kids Online, 2026), publicado no âmbito do Safer Internet Day 2026.



