“As Palavras São Sempre uma Distância”: Uma Conversa com António Lobo Antunes

Em 2001, o escritor e psiquiatra António Lobo Antunes sentou-se perante as câmaras do programa Por Outro Lado para uma das suas raras entrevistas televisivas. Com a frontalidade que o caracteriza, falou de literatura, da guerra em Angola, da infância solitária, da psiquiatria — e do que significa, afinal, escrever.

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A Infância e o Avô: o Alicerce de Tudo

Lobo Antunes cresceu num ambiente familiar onde a proximidade afetiva não era simples. Criança introspetiva e pouco sociável — “nunca fui muito sociável, continuo a não ser” —, encontrou no seu avô, Daniel, a figura fundadora de toda a sua existência. “É o homem fundador da minha vida e da minha maneira de ser”, afirmou, sem hesitação. É nesse contexto de solidão, de brincadeiras a sós, que germina a sensibilidade literária que viria a marcar décadas da ficção portuguesa.

As brincadeiras de infância, recorda ele, já pressentiam os seus livros. A língua de peixe, referida na sua obra, não era apenas um jogo — era já uma forma de reinventar o mundo pelas palavras.


A Guerra em Angola: o Silêncio que Fala

Depois de partir para Angola como médico militar, Lobo Antunes viveu experiências-limite que moldaram irreversivelmente a sua escrita. A companhia onde serviu foi, segundo disse na entrevista, um destino de “castigo” por ter sido candidato único oficial pela CDU. Ainda assim, recusa a narrativa fácil: nunca teve “razão de queixa” dos militares que o rodearam — “encontrei pessoas com comportamento exemplar em situações de limite”.

O coronel Melo Antunes, figura presente nesse período, é evocado com discrição, como alguém que manteve sempre o mesmo ponto de vista político, no desencanto e na coerência. A guerra, insiste Lobo Antunes, não deve ser romantizada nem instrumentalizada: “Quando se está na guerra, quaisquer que fossem as opiniões, não se está a desfrutar em cheio os fundamentos do colonialismo”.


Escrever é uma Salvação — e um Sofrimento

A escrita, na visão de Lobo Antunes, não é um ofício confortável. É “muito desgastante fisicamente”, capaz de deixar o autor “completamente exausto”. Mas é também, paradoxalmente, a sua “razão de viver” e a sua “salvação”. “É muito mais difícil não estar a escrever do que estar”, admitiu.

O processo criativo começa de forma agradável — quando o livro “está a formar na cabeça” e os problemas da escrita ainda não chegaram. Mas quando chegam as palavras, chegam também os problemas técnicos, as revisões, a distância entre o que se quer dizer e o que se consegue dizer.

“As palavras são sempre uma distância enorme entre os sentimentos da nossa vida e os resultados que conseguimos. E é muito bom e satisfatório essa distância. Tanto que o trabalho é difícil.”


Os Livros Como Organismos Vivos

Uma das imagens mais marcantes da entrevista é a do escritor como o artista chinês dos pratos: sempre a correr de um lado para o outro para manter tudo em equilíbrio instável. Os personagens dos seus livros “não são símbolos” — são pessoas que procuram, como todos nós, saber quem são.

Lobo Antunes rejeita a ideia de que um livro deva ser lido com uma “chave mestra”: “Não quero que abram um livro com a minha chave. Quero que apanhem os livros com quem aprendemos sempre.” O leitor não deve compreender — deve sentir. Tal como numa fechadura, o trabalho do leitor é encontrar o click certo, com paciência e sensibilidade.


Sucesso, Qualidade e o Mercado

Com ironia fina, o escritor fala da relação sempre problemática entre sucesso comercial e qualidade literária. Há grandes livros que passam despercebidos; há livros medíocres que esgotam edições. “Não existe uma relação direta entre o sucesso e a qualidade”, constata. E acrescenta: “É melhor desconfiar do sucesso”.

Para escrever de verdade, é necessária “disponibilidade interior” — algo que o mercado editorial, na sua lógica de quantidade e de “lixo a preço acessível”, não favorece. A literatura exige exclusividade: é uma questão de consciência, tempo e entrega total.


A Psiquiatria e o Outro

Médico e escritor: duas profissões que, em Lobo Antunes, não se excluem — alimentam-se. O contacto diário com o sofrimento humano nos hospitais psiquiátricos não o distanciou das pessoas; pelo contrário, ensinou-lhe que o sofrimento de um doente internado “não é certamente diferente do meu ou do seu”. As condições desumanizantes dos hospitais psiquiátricos preocupam-no, e a crítica é clara: o sistema trata as pessoas como se o seu sofrimento pudesse ser gerido burocraticamente.


Para Refletir

Esta entrevista de 2001 permanece surpreendentemente atual. Num tempo em que a literatura compete com mil distrações e o mercado impõe o efémero, a voz de Lobo Antunes lembra-nos que escrever — e ler — é sempre um ato de coragem e de autoconhecimento.

Como ele próprio disse: um livro não conta, não explica. Tem que ser tomado como tal.


Fontes: Entrevista de António Lobo Antunes no programa “Por Outro Lado”, RTP, 2001. Disponível em: youtube.com

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