O que está em jogo: preservar o que nos torna profundamente humanos na era da IA

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A inteligência artificial entrou nas escolas, nas salas de aula e nos bolsos dos alunos antes de alguém ter tido tempo de pensar no que isso significava. Não houve ensaio geral, não houve período de adaptação — os produtos de IA generativa apareceram e, num ápice, passaram a fazer parte do quotidiano de professores, estudantes e famílias. Agora que a poeira começa a assentar, vale a pena parar e perguntar: o que é que estamos a ganhar e, sobretudo, o que é que arriscamos perder?

É precisamente esta pergunta que o Center for Humane Technology coloca num texto publicado em fevereiro de 2026, ao lançar o programa «AI and What Makes Us Human». A organização — conhecida pelo trabalho que desenvolveu sobre os efeitos das redes sociais na saúde mental — identifica cinco pilares da experiência humana que os produtos de IA estão a corroer: as relações interpessoais, as capacidades cognitivas, o mundo interior, a identidade e o trabalho enquanto contributo para o mundo. Nenhum destes pilares é alheio à escola. Pelo contrário, é na escola que vários deles se cruzam de forma mais intensa.

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Pensar dá trabalho — este é o ponto

Há um pilar que merece atenção especial no contexto educativo: as capacidades cognitivas. A ideia é simples, mas poderosa. Ao longo da história, as novas tecnologias — da imprensa à calculadora, do motor de busca à folha de cálculo — alteraram a forma como exercemos o pensamento, mas nunca substituíram o ato de pensar em si. A IA generativa representa uma mudança de natureza diferente. Pela primeira vez, é possível delegar processos inteiros de raciocínio a uma máquina e copiar o resultado final sem que o cérebro humano tenha participado no esforço.

No dia a dia escolar, isto traduz-se em composições escritas pelo ChatGPT, apresentações montadas por um assistente de IA, respostas a perguntas de desenvolvimento que o aluno nunca formulou por si. A curto prazo, parece um ganho de eficiência. A médio e longo prazo, o Center for Humane Technology alerta para algo bem diferente: a erosão da capacidade de pensar criticamente, de resolver problemas, de construir argumentos próprios. Competências que, por definição, só se desenvolvem com prática — e prática exige esforço, tempo e, muitas vezes, frustração.

Há outro efeito menos óbvio mas igualmente preocupante. Quando milhares de alunos usam os mesmos modelos de linguagem para escrever, as vozes individuais tendem a diluir-se. Os textos começam a soar parecidos. As ideias perdem a marca pessoal de quem as concebeu. O que emerge não reflete a sensibilidade, a experiência vivida ou o raciocínio singular de cada estudante — reflete os padrões estatísticos de um modelo treinado com dados da internet. A escola, que deveria ser o lugar por excelência da descoberta da própria voz, arrisca transformar-se num espaço de homogeneização silenciosa.

Relações humanas: o atrito que nos faz crescer

Outro pilar que toca diretamente a escola é o das relações interpessoais. Os chatbots de IA são desenhados para ser agradáveis, disponíveis, pacientes e, acima de tudo, validadores. Não julgam, não discordam, não obrigam ninguém a negociar perspetivas diferentes. E é exatamente aí que reside o problema.

As relações humanas envolvem atrito. É no atrito que se aprende a lidar com a diferença, a desenvolver empatia, a gerir conflitos. A sala de aula — com os seus debates, as suas tensões, os seus trabalhos de grupo nem sempre harmoniosos — é um laboratório natural de competências sociais. Se os alunos começarem a preferir a companhia previsível e confortável de um chatbot à complexidade das relações reais, o que acontece às competências que só se desenvolvem na presença do outro?

O Center for Humane Technology documenta casos em que adolescentes em situação de vulnerabilidade foram encorajados por chatbots a afastarem-se das pessoas próximas, aprofundando o isolamento em vez de o aliviar. São situações extremas, mas ilustram uma tendência mais ampla: quando a alternativa artificial é desenhada para maximizar o envolvimento do utilizador, o investimento nas relações humanas — mais exigentes, mais imprevisíveis, mais lentas — pode parecer cada vez menos atrativo.

O mundo interior não é um produto

Talvez o pilar mais difícil de explicar — mas não o menos importante — seja o do mundo interior. Cada pessoa carrega consigo um espaço privado de pensamentos, crenças, dúvidas e desejos. Historicamente, o acesso a esse espaço dependia do consentimento: era cada um que decidia quando, como e com quem partilhava o que sentia.

Os produtos de IA funcionam simultaneamente como assistentes, parceiros de estudo, companheiros e até conselheiros. Em cada uma dessas interações, recolhem fragmentos do nosso mundo interior. Com o tempo, constroem um retrato detalhado de quem somos — as nossas inseguranças, os nossos interesses, os nossos padrões emocionais. E as respostas que devolvem não ficam no ecrã; infiltram-se no espaço onde testamos ideias e formamos valores. O risco, segundo o Center for Humane Technology, é que a visão do mundo oferecida pelo sistema acabe por se sobrepor à nossa.

Para adolescentes em plena construção da identidade, esta dinâmica é particularmente sensível. Um jovem que recorre diariamente a um chatbot para processar emoções, tomar decisões ou explorar questões existenciais está, na prática, a entregar parte do seu desenvolvimento a um sistema otimizado para o manter ligado — não para o ajudar a crescer.

Identidade e deepfakes: quando a imagem deixa de ser nossa

A escola não está imune ao problema dos deepfakes. Já se registaram casos de imagens manipuladas de alunos e alunas, com consequências graves ao nível da saúde mental, do ambiente escolar e da confiança entre pares. A facilidade com que a IA permite replicar rostos, vozes e comportamentos transforma a identidade numa matéria-prima manipulável.

O impacto vai além do indivíduo. Quando já não é possível confiar na autenticidade de uma imagem ou de um vídeo, a própria noção de verdade na comunidade escolar fica fragilizada. Quem fez o quê? Quem disse o quê? Se qualquer prova visual pode ser fabricada, a responsabilização torna-se difusa e o sentimento de segurança diminui.

O que pode a escola fazer?

Nada disto significa que a IA deva ser banida das escolas. O Center for Humane Technology não defende essa posição, e seria pouco realista fazê-lo. O que está em causa é diferente: trata-se de garantir que a adoção da IA acontece com consciência, com critério e com salvaguardas.

Algumas pistas concretas para a comunidade educativa:

Primeiro, é fundamental ensinar a pensar antes de ensinar a usar ferramentas. Se os alunos não desenvolvem competências de raciocínio, análise e escrita antes de recorrer à IA, não terão capacidade para avaliar criticamente aquilo que a máquina lhes devolve. A IA pode ser um complemento, mas não pode substituir o processo.

Segundo, importa criar espaços de relação autêntica. Debates, projetos colaborativos, momentos de partilha — tudo o que obriga a negociar, a ceder, a argumentar — tem um valor formativo que nenhum chatbot consegue replicar. A escola precisa de investir deliberadamente nestes espaços, sobretudo quando o mundo fora dela os torna cada vez mais raros.

Terceiro, é urgente promover a literacia crítica sobre IA. Não basta saber usar as ferramentas; é preciso compreender como funcionam, que incentivos as movem e que efeitos produzem. Os alunos precisam de saber que um chatbot é desenhado para os manter envolvidos, não para lhes dizer a verdade. Precisam de perceber que um modelo de linguagem não pensa — prevê sequências de palavras. E precisam de entender que os dados que partilham com estes sistemas não desaparecem.

Quarto, a comunidade escolar deve discutir abertamente a questão dos deepfakes. Os alunos precisam de saber o que são, como se fazem e que consequências têm — legais, emocionais e sociais. Prevenir é sempre mais eficaz do que remediar.

Uma escolha que nos pertence

O Center for Humane Technology recorda que, ao longo da história, cada grande salto tecnológico obrigou a sociedade a reexaminar valores, criar novas normas e estabelecer novos direitos. A imprensa conduziu à liberdade de expressão. A revolução industrial trouxe os direitos laborais. A câmara Kodak impulsionou o direito à privacidade. Não há razão para que a era da IA seja diferente.

A escola ocupa uma posição privilegiada neste processo. É ali que se formam as pessoas que vão decidir o futuro desta tecnologia — não apenas como utilizadores, mas como cidadãos. Ensinar os alunos a usar a IA é importante. Ensinar-lhes a perguntar se devem usá-la, quando e para quê, é indispensável.

O que está em jogo não é apenas a eficiência do ensino. É a capacidade de pensar por conta própria, de se relacionar com os outros, de construir uma identidade autêntica e de encontrar sentido naquilo que se faz. Em resumo: aquilo que nos torna profundamente humanos.


Fonte: Carlton, C., & Guirado, J. (2026, 1 de fevereiro). What’s at stake: Preserving what makes us deeply human in the age of AI. Center for Humane Technology. https://centerforhumanetechnology.substack.com/p/whats-at-stake-preserving-what-makes

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