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A inteligência artificial já entrou nas escolas — mesmo que ninguém a tenha convidado formalmente. Os alunos usam-na para fazer trabalhos, os professores experimentam-na para preparar aulas, e as direções escolares debatem o que permitir e o que proibir. Mas entre o entusiasmo e o receio, falta muitas vezes o essencial: preparar os docentes para navegar neste território com segurança, sentido crítico e intencionalidade pedagógica.
É precisamente essa lacuna que um documento publicado em 2026 procura ajudar a colmatar. As Recomendações para Formação Docente em Inteligência Artificial na Educação Básica, da autoria de Camila Wasserman, Jéssica Tambor, Tiago Thompsen Primo, Maria Alice Carraturi, Seiji Isotani e Ig Ibert Bittencourt, resultam de uma colaboração entre a Fundação Telefônica Vivo, o Instituto IA.Edu e a Cátedra UNESCO de IA Desplugada na Educação, coordenada pela Universidade Federal de Alagoas. Embora tenha sido concebido para o contexto brasileiro, o documento oferece pistas valiosas para qualquer sistema educativo que enfrente o mesmo dilema: como formar professores que não se limitem a usar ferramentas de IA, mas que compreendam o que está por trás delas e saibam decidir quando — e se — faz sentido levá-las para a sala de aula.
Quatro dimensões, uma só formação
Uma das ideias centrais do documento é que a formação docente em IA não pode ser reduzida a um workshop sobre como usar o ChatGPT. Os autores propõem quatro dimensões que devem coexistir em qualquer percurso formativo sério:
Ensinar sobre IA — o professor precisa de compreender o que é a inteligência artificial, como funciona, quais são os seus limites e de que maneira se distingue do pensamento humano. Sem essa base conceptual, qualquer uso em sala de aula corre o risco de se tornar acrítico.
Ensinar com IA — aqui entra a utilização de ferramentas baseadas em IA como apoio ao ensino, ao planeamento e à avaliação. Mas atenção: usar não é o mesmo que compreender. Um professor que gera fichas de trabalho com IA sem questionar a qualidade ou os enviesamentos do resultado está a passar ao lado do essencial.
Compreender criticamente a IA — esta é, porventura, a dimensão mais exigente e mais necessária. Envolve a análise de questões como enviesamentos algorítmicos, privacidade de dados, justiça social e o impacto que estas tecnologias têm (e terão) no mercado de trabalho e nas relações humanas.
Usar a IA no desenvolvimento profissional — o professor, enquanto profissional, também pode beneficiar da IA no seu próprio crescimento: na análise de dados educativos, na produção de materiais, na formação contínua. Mas sempre com consciência dos limites e das implicações éticas.
Estas quatro dimensões não funcionam como módulos separados. O documento sublinha que devem articular-se num percurso integrado, evitando a armadilha da formação puramente instrumental — aquela que ensina a carregar em botões sem perguntar porquê.
O diagnóstico antes da receita
Antes de desenhar qualquer programa de formação, os autores defendem algo que deveria ser óbvio mas raramente acontece: fazer um diagnóstico. Perceber onde estão os professores em termos de competências digitais, que experiências já têm com IA, que receios manifestam e em que condições trabalham.
Os dados recolhidos para o próprio documento são reveladores. A partir de grupos focais e de um inquérito a 78 docentes, o estudo identificou aquilo a que chama um “entusiasmo cauteloso”: a maioria dos professores já utiliza alguma forma de IA no seu trabalho — sobretudo para planear aulas, rever textos e organizar materiais —, mas poucos a levam diretamente para a sala de aula. A utilização com alunos continua a ser exploratória e, em muitos casos, insegura.
Mais de metade dos docentes inquiridos aprendeu a usar ferramentas de IA por conta própria. Isto diz muito sobre a ausência de formação estruturada e sobre a urgência de a criar.
Do jardim de infância ao ensino secundário: não serve um tamanho único
Uma das contribuições mais úteis do documento é a diferenciação das recomendações por nível de ensino — um ponto com relevância direta para quem trabalha em agrupamentos ou nas equipas de formação.
Na educação de infância, a IA não deve traduzir-se no uso de ecrãs. O foco está na formação do educador para reconhecer que as brincadeiras, os jogos e as rotinas já contêm elementos de lógica, padrões e sequências que se relacionam com conceitos computacionais. A chamada “IA desplugada” — atividades que exploram princípios de inteligência artificial sem recurso a dispositivos eletrónicos — é aqui especialmente relevante.
Nos anos iniciais do ensino básico, a formação deve ajudar o professor a integrar conceitos de IA de forma natural nas áreas de Linguagens e Matemática, distinguindo claramente entre usar tecnologias e ensinar sobre tecnologias. Plataformas como o Scratch ou o Code.org podem ser introduzidas, mas sempre com intencionalidade pedagógica e supervisão.
Nos anos finais do ensino básico, os alunos já possuem maior capacidade de abstração. A formação docente deve preparar o professor para mediar a transição entre o uso intuitivo da tecnologia e a compreensão dos seus fundamentos técnicos e sociais. Analisar como funcionam os algoritmos do YouTube ou do TikTok, por exemplo, é uma forma poderosa de trabalhar conceitos de IA com relevância para a vida dos jovens.
No ensino secundário e profissional, a formação exige maior profundidade técnica sem perder a dimensão ética e cidadã. Os professores devem estar preparados para orientar projetos interdisciplinares com dados reais, discutir o impacto da automação no mundo do trabalho e abordar criticamente a IA generativa em práticas de leitura e escrita.
A ética não é um anexo — é o fio condutor
Se há uma mensagem que atravessa todo o documento, é esta: a dimensão ética não pode ser tratada como um capítulo à parte, reservado para o final do curso. Questões como enviesamentos algorítmicos, proteção de dados pessoais dos alunos, reprodução de desigualdades e desinformação devem estar presentes em todas as etapas da formação e em todos os níveis de ensino.
O documento alerta especificamente para a necessidade de analisar os impactos étnico-raciais da IA — algo que, no contexto brasileiro, tem particular urgência, mas que é igualmente pertinente em qualquer sociedade diversa. Quando um sistema de IA reproduz estereótipos ou discrimina determinados grupos, a escola tem de ser o primeiro lugar onde isso é questionado.
IA desplugada: ensinar sem depender de ecrãs
Um dos conceitos mais interessantes do documento é o de “IA desplugada” — atividades que abordam competências ligadas à inteligência artificial sem o uso de dispositivos eletrónicos. Jogos de classificação, simulações de tomada de decisão, reconhecimento de padrões com objetos físicos: tudo isto permite trabalhar conceitos fundamentais de IA em contextos com infraestrutura limitada ou com crianças mais pequenas.
Esta abordagem é particularmente relevante para escolas que não dispõem de equipamento suficiente ou de conectividade fiável — uma realidade que, embora o documento se refira ao Brasil, também se encontra em muitas escolas portuguesas e de outros países. A IA desplugada não é uma alternativa inferior; é uma estratégia pedagógica com valor próprio, que permite compreender os princípios antes de passar à prática com ferramentas digitais.
Um referencial vivo, não um manual fechado
Os autores fazem questão de sublinhar que estas recomendações não pretendem ser um programa formativo rígido. Numa área que evolui tão rapidamente, qualquer documento corre o risco de ficar desatualizado antes de ser publicado. A proposta é a de um “referencial vivo”, sujeito a revisão periódica e adaptável às condições reais de cada contexto.
Isto implica que as escolas e os sistemas educativos devem monitorizar continuamente a formação — não apenas como etapa final de avaliação, mas como parte integrante do processo. Indicadores como a integração efetiva da IA nos planos de aula, a qualidade das reflexões registadas pelos docentes ou a capacidade de identificar riscos e enviesamentos são mais úteis do que simples taxas de participação em cursos.
O que podemos retirar daqui para o nosso contexto
Embora o documento se dirija às redes de ensino brasileiras e dialogue com referências curriculares como a BNCC Computação, as suas propostas são transferíveis para outros contextos — incluindo o português. As quatro dimensões da formação em IA, a ênfase no diagnóstico prévio, a diferenciação por nível de ensino e a centralidade da ética são princípios que fazem sentido em qualquer sistema educativo que queira preparar os seus professores para este novo cenário.
A mensagem de fundo é clara: não basta dar acesso a ferramentas. É preciso formar profissionais que saibam quando usar a IA, quando não usar e, sobretudo, que consigam ajudar os seus alunos a fazer o mesmo. Porque, no final, o papel do professor não é ser substituído pela tecnologia — é ser o mediador que dá sentido ao seu uso.
Fonte:
Wasserman, C., Tambor, J., Primo, T. T., Carraturi, M. A., Isotani, S., & Bittencourt, I. I. (2026). Recomendações para formação docente em inteligência artificial (IA) na educação básica. Fundação Telefônica Vivo; Instituto IA.Edu.


