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Há um dado que não deixa margem para interpretações reconfortantes: em quase todos os países da OCDE, os adolescentes estão psicologicamente pior do que estavam há dez anos. Mais ansiosos, mais deprimidos, mais fragilizados. E Portugal não é exceção.
Em 2026, a OCDE publicou um relatório abrangente sobre a saúde mental de crianças, adolescentes e jovens adultos nos países membros — Child, Adolescent and Youth Mental Health in the 21st Century — que reúne dados nacionais e internacionais, revisão da literatura científica e entrevistas com 29 especialistas clínicos e decisores políticos. O retrato que emerge é claro: estamos perante uma crise que a escola não pode ignorar.
Uma tendência que vem de longe
Seria cómodo atribuir tudo à pandemia. Mas os dados não permitem essa saída. Em países com séries temporais consistentes — Canadá, Noruega, Suécia, Países Baixos, Estados Unidos — a deterioração da saúde mental dos jovens começou por volta de 2015-2017, acelerou durante a COVID-19 e ainda não regressou aos valores anteriores.
Entre 2012 e 2022, nove em onze países com dados comparáveis registaram uma queda anual média entre 3% e 16% nos indicadores de saúde mental juvenil. Em Portugal, os dados do inquérito internacional HBSC — que acompanha os comportamentos de saúde de adolescentes em idade escolar — confirmam a mesma tendência: a proporção de jovens de 15 anos que dizem sentir-se em baixo mais do que uma vez por semana aumentou em todos os países participantes entre 2014 e 2022. Portugal está incluído.
Vinte e oito dos vinte e nove especialistas entrevistados pela OCDE afirmaram que a saúde mental dos jovens piorou na última década. Não há praticamente dissidência neste diagnóstico.
Quem sofre mais
Os números são particularmente preocupantes para as raparigas e para os adolescentes mais velhos.
Em 2022, 68% das raparigas de 15 anos reportaram múltiplas queixas de saúde, contra 36% dos rapazes da mesma idade. A proporção de raparigas de 15 anos que dizem sentir-se em baixo mais de uma vez por semana passou de 28,6% em 2014 para 45,4% em 2022 — um aumento de quase 60%.
As internações hospitalares por autolesão em raparigas dos 0 aos 17 anos aumentaram 29% entre 2015 e 2023, nos países com dados disponíveis. Em França — caso com dados particularmente detalhados e que serve de referência comparativa —, só entre 2023 e 2024 as internações por autolesão em raparigas dos 10 aos 14 anos aumentaram 22%.
Os jovens em situação de maior desvantagem socioeconómica também estão em risco acrescido, assim como os jovens LGBTQI+ e os que pertencem a minorias étnicas ou grupos populacionais indígenas — grupos que, como o relatório sublinha, continuam sub-representados nos sistemas de monitorização de saúde mental.
As causas: não há uma bala de prata
É tentador apontar o dedo aos ecrãs e às redes sociais. Os especialistas não o fazem, pelo menos não de forma exclusiva. A resposta que emerge das entrevistas da OCDE é outra: são múltiplos fatores que se sobrepõem e se reforçam mutuamente.
Digitalização e redes sociais, sim — mas também ansiedade climática, instabilidade geopolítica, pressão académica, bullying, ciberbullismo, insegurança económica e habitacional, e uma sensação difusa de que o futuro é ameaçador. Como sintetizou um decisor político do norte da Europa entrevistado pela OCDE: “Hoje estás constantemente confrontado com todos os problemas do mundo… essa é a grande diferença relativamente aos anos 80.”
O Papel dos Ecrãs — Mais Complexo do que Parece
O relatório dedica atenção considerável à relação entre o uso de tecnologia digital e a saúde mental, e a conclusão é de sobriedade científica: a evidência é mista. Há associações negativas, especialmente para o uso excessivo ou noturno, mas os efeitos são geralmente pequenos e a causalidade é difícil de estabelecer.
O que parece mais sólido é a relação entre ecrãs e sono. O uso de dispositivos antes de dormir está consistentemente associado a menor duração e pior qualidade do sono — e o défice de sono tem efeitos conhecidos na regulação emocional e no risco de depressão nos adolescentes.
Quanto às redes sociais, os efeitos variam consoante o tipo de uso (passivo ou ativo), a plataforma e o perfil individual. O uso passivo — navegar sem interagir — está mais associado a sintomas depressivos do que a participação ativa. E jovens com menos suporte familiar ou socioeconómico são mais vulneráveis aos efeitos negativos.
Nenhum especialista entrevistado identificou os ecrãs como a única causa. Vários foram explícitos: “Retirar os ecrãs não vai resolver todos os problemas.”
A Escola Como Fator de Risco — e de Proteção
A pressão académica aparece de forma consistente como um fator de risco. Entre 2018 e 2022, a percentagem de jovens de 15 anos que sentem pressão com o trabalho escolar aumentou — passando de 54% para 63% nas raparigas e de 40% para 43% nos rapazes, segundo o HBSC.
A investigação disponível indica que 92% dos estudos analisados numa revisão sistemática encontraram uma associação positiva entre pressão académica e problemas de saúde mental — incluindo ansiedade, depressão e sintomas psicossomáticos.
Portugal surge especificamente no relatório como um dos países com os níveis mais elevados de ansiedade face aos testes, apesar de ter uma frequência de testes padronizados menor do que outros países. Isto sugere que não é apenas a quantidade de avaliações o que conta, mas a forma como o sistema escolar enquadra o erro, o esforço e o desempenho.
O ciberbullismo também aumentou entre 2018 e 2022, sobretudo nos mais novos. Adolescentes vítimas de ciberbullismo têm probabilidades significativamente mais elevadas de autolesão e pensamentos suicidas.
O que pode a escola fazer
Aqui está o ponto onde o relatório da OCDE tem algo diretamente útil para professores, diretores e técnicos de educação. A mensagem central é que a resposta à crise de saúde mental não pode ser apenas clínica. Precisa de envolver a escola, a família, a comunidade e as políticas digitais — em simultâneo.
1. Aprendizagem Socioemocional — Não Como Extra, Mas Como Currículo
Os especialistas entrevistados identificaram a melhoria do ambiente escolar dos primeiros anos e o reforço das competências socioemocionais como a resposta mais eficaz para construir resiliência mental nos jovens.
Programas como o Zippy’s Friends (para crianças dos 5 aos 7 anos, já implementado em múltiplos países) ou o This Is Me, desenvolvido na Eslovénia para adolescentes, mostram resultados mensuráveis na regulação emocional, no clima de sala de aula e nas competências de confronto com a adversidade. O relatório da OCDE indica que o Zippy’s Friends reduziu em 9% os comportamentos de oposição e em 15% os de retraimento.
Em Portugal, a integração da saúde mental no currículo ainda é fragmentada. A formação dos professores nesta área, embora crescente, permanece insuficiente para a dimensão do problema.
2. Literacia em Saúde Mental — Para Alunos e Professores
Saber reconhecer sinais de sofrimento psicológico — nos próprios e nos outros — é uma competência que se ensina. Os dados mostram que maior literacia em saúde mental está associada a melhores perfis de saúde mental nos adolescentes.
O relatório destaca que a redução do estigma tem contribuído para que mais jovens verbalizem o seu sofrimento. Mas também alerta: nem toda a informação que circula online sobre saúde mental é rigorosa, e o acesso desinformado pode levar à sobrepatologização de emoções normais ou à autodiagnose incorreta. A escola tem aqui um papel de mediação crítica fundamental.
3. Serviços de Baixo Limiar — Acessíveis Antes da Crise
Quase todos os especialistas ouvidos pela OCDE concordaram: o apoio à saúde mental dos jovens é insuficiente nos seus países. Mas, surpreendentemente, não pediram grandes investimentos em serviços especializados. Pediram serviços acessíveis, comunitários, menos medicalizados e com componente de apoio entre pares.
O modelo australiano headspace — com 172 centros nacionais que oferecem apoio holístico a jovens dos 12 aos 25 anos, misturando intervenção de baixa intensidade com cuidados clínicos quando necessário, e integrando trabalhadores com experiência vivida — é referido como exemplo. Mais de 70% dos jovens que acederam ao headspace mostraram melhorias significativas no sofrimento psicológico ou no funcionamento.
Em Portugal, os gabinetes de apoio ao aluno existem em muitas escolas, mas a cobertura, a formação dos técnicos e o tempo disponível para cada jovem variam muito. A articulação com os centros de saúde e com os serviços de saúde mental da comunidade é, em muitos casos, ainda frágil.
4. Telemóveis na Escola — Com Critério e Avaliação
Portugal está, neste domínio, alinhado com a tendência internacional: em junho de 2025, o governo português anunciou restrições ao uso de telemóveis nas escolas, referindo a redução do bullying e a melhoria da socialização como motivações. O relatório da OCDE enquadra esta medida numa vaga global — 29 países tinham restrições nacionais ou regionais em vigor em outubro de 2025.
Mas o relatório é cuidadoso quanto às evidências: os resultados são mistos. Na Noruega, a proibição de smartphones reduziu o recurso a cuidados de saúde por sintomas psicológicos nas raparigas. Em Inglaterra, um estudo com 30 escolas secundárias encontrou redução no uso de telemóvel na escola, mas não encontrou melhorias no bem-estar geral, no sono ou no comportamento. Na Suécia, uma avaliação não registou efeitos significativos na ansiedade ou depressão, mas os alunos dormiram em média mais 10 minutos e reportaram menos comportamentos problemáticos online.
A mensagem para as escolas portuguesas: a medida pode ter efeitos positivos no ambiente escolar, mas não deve ser apresentada como solução para a crise de saúde mental. E deve ser acompanhada de avaliação — incluindo atenção a possíveis efeitos negativos, como o corte de acesso a comunidades de suporte online para jovens mais isolados.
O que falta saber
O relatório é honesto sobre as suas limitações. Menos de um terço dos países da OCDE recolhe dados nacionais representativos e regulares sobre a saúde mental dos jovens. Portugal tem dados do HBSC, mas a monitorização poderia ser mais frequente e abrangente.
Faltam também dados de qualidade sobre o impacto real da tecnologia digital — não apenas “tempo de ecrã”, mas que tipo de conteúdo, em que contexto, com que suporte familiar e social. E falta ouvir mais sistematicamente os próprios jovens sobre o que sentem, o que precisam e o que consideram útil.
Para fechar
A crise de saúde mental juvenil não começou com os smartphones nem vai acabar com a sua proibição na sala de aula. As suas raízes são mais profundas — e as suas soluções também terão de sê-lo.
A escola não pode fazer tudo. Mas pode fazer muito mais do que faz. Pode criar ambientes onde o erro não é catastrófico, onde as emoções têm lugar no currículo, onde os adultos reconhecem sinais de sofrimento e sabem como agir. Pode ser o espaço onde os jovens aprendem não apenas matemática e português, mas também a conhecerem-se a si próprios e a cuidarem uns dos outros.
Esse trabalho não é secundário. É, talvez, o mais urgente.
Fonte principal: OECD (2026). Child, Adolescent and Youth Mental Health in the 21st Century. OECD Publishing, Paris. https://doi.org/10.1787/1092c3cb-en

