Quando a poesia soa a rap: Pedro Freitas e o que a escola pode aprender com o Poeta da Cidade

Há uma cena que se repete, de norte a sul do país. Uma sala de espectáculos, um microfone, uma voz. E entre oitenta a noventa pessoas — muitas delas jovens que nunca tinham ido a um recital de poesia —, um silêncio de atenção absoluta. Quem está no palco é Pedro Freitas, o Poeta da Cidade. Tem vinte e poucos anos, nasceu em Lisboa em 1998, e tornou-se, em muito pouco tempo, uma referência incontornável da poesia portuguesa contemporânea: o seu primeiro livro, Ela, Metafisicamente d’outro Mundo, editado de forma independente em 2022, foi o livro de poesia portuguesa mais vendido nesse ano; o segundo, Vim Sem Tempo, venceu o Prémio Livro do Ano Bertrand 2024, na categoria Poesia. Mais de 212 mil seguidores acompanham-no nas redes sociais. Não são números de poeta. São números de fenómeno cultural.

O que faz Pedro Freitas diferente — e por que razão isso importa à escola — não é apenas o sucesso. É o caminho que percorreu para o alcançar, e o que esse caminho nos diz sobre a relação entre os jovens, a linguagem e a literatura.

De Sam the Kid ao caderno de poesia

Tudo começou quando uma prima lhe ofereceu um álbum de Sam the Kid por volta do quarto ou quinto ano de escolaridade. Naquele disco havia letras que soavam a poesia — imagens densas, ritmo preciso, emoção sem pudor. Freitas não separou as duas coisas. Para ele, o rap e a poesia nunca estiveram em campos opostos; estavam na mesma conversa, com registos diferentes. Essa convicção nunca o abandonou.

O atletismo fez o resto. Durante mais de uma década, praticou a modalidade de forma séria — e de uma modalidade solitária, de treino diário e confronto consigo próprio, transportou para a escrita a mesma disciplina: a insistência quando não há vontade, a resiliência quando a página resiste, a ideia de que o talento sem trabalho não chega. Escrever tornou-se, para ele, um treino.

Esta síntese entre a cultura urbana e o rigor do ofício é precisamente o que a escola raramente consegue transmitir sobre a poesia. Estudam-se poetas do século passado em contexto de programa, fora de qualquer ressonância afectiva com o presente dos alunos. Pedro Freitas inverte essa lógica: parte do que os jovens já ouvem, do que já sentem, e mostra-lhes que disso também se faz poesia.

A escrita como processo, não como produto

Numa conversa recente com o canal BESLC, Freitas descreveu o seu processo criativo com uma honestidade pouco comum. Há dois modos de escrever: o orgânico, quando a palavra surge por si, amadurecida e inevitável — e aí o autor escreve; e o forçado, quando o prazo chama e a inspiração não apareceu. Nesse segundo caso, a estratégia é sentar, abrir o caderno, e “martelar” a página até que alguma coisa ceda. Não há mistério. Há disciplina.

Esta distinção tem uma utilidade pedagógica imediata. A oficina de escrita criativa nas escolas tende a tratar a produção textual como um momento de iluminação — a criança ou o jovem “inspira-se” e escreve. Pedro Freitas desmonta esse mito com simplicidade: a escrita, como qualquer outra competência, exige prática sistemática, mesmo — e sobretudo — quando não há vontade. Isso não mata a criatividade. Torna-a mais robusta.

O mesmo vale para o rigor formal. Freitas escreve para ser ouvido, não apenas lido. Cada verso é refinado até “suar bem” em voz alta, até que o som e o sentido se alinhem de forma que a leitura silenciosa raramente exige. Esta atenção à oralidade é, aliás, um dos aspectos que mais facilmente liga a poesia escrita às práticas digitais que os jovens já dominam: o TikTok, o Instagram, os podcasts — todos eles meios em que a voz conta tanto quanto as palavras.

A imagem antes da palavra

Há outro traço no processo de Freitas que merece atenção: a dimensão visual como ponto de partida. O autor descreve o seu método como intrinsecamente cinematográfico — pinta o conceito na cabeça antes de o escrever, constrói o cenário visual antes de escolher as palavras que o habitam. O poema é, antes de mais, uma imagem mental que depois se vai tornando linguagem.

Esta abordagem encontrou expressão concreta no seu primeiro livro, onde os poemas foram ilustrados por Ana Yael, uma artista argentina que Freitas conheceu através das redes sociais. A decisão de conceder à artista liberdade total para interpretar os seus textos foi, em si mesma, um gesto significativo: o poeta deixou a sua obra respirar noutro suporte, noutra sensibilidade, confiando que a palavra e a imagem podiam falar em conjunto sem que nenhuma das duas perdesse autonomia. O resultado foi um objecto artístico que transcende o livro convencional.

Para os professores que trabalham a literacia visual e a literacia dos media, este exemplo oferece uma entrada pedagógica rica: como é que um texto se transforma quando muda de suporte? O que acrescenta a ilustração ao poema? O que fica por dizer?

O palco como fenomenologia

A dimensão performativa da obra de Pedro Freitas é provavelmente a que mais impressiona quem o vê ao vivo — e que mais instiga à reflexão sobre o que significa “apresentar” um texto.

Freitas decora os seus poemas. Não por convenção, mas por estratégia consciente: saber o texto de cor liberta-o da dependência da página e permite-lhe, no palco, fazer algo muito diferente de declamar. Pode olhar para a plateia. Pode ver o riso, o choro, o silêncio. Pode calibrar a entrega em função do que está a acontecer na sala, em tempo real. O poema deixa de ser um objecto fixo e torna-se um evento — algo que acontece entre o artista e quem o escuta.

Esta transformação tem uma dimensão que vale a pena nomear: a poesia ao vivo, na voz de quem a escreveu, converte a experiência individual da escrita numa catarse partilhada. O que o poeta sentiu no quarto, a sós com o caderno, revela-se publicamente e encontra eco em desconhecidos. É um movimento de abertura que os jovens entendem intuitivamente, porque reconhecem nele a lógica das redes sociais — a partilha do íntimo como gesto de conexão.

O que a escola pode aprender

Pedro Freitas não é um fenómeno apesar do sistema educativo. É, em larga medida, um fenómeno à sua margem — e isso devia fazer-nos pensar.

Ele próprio tem sido explícito nas entrevistas: pedir a um jovem que vive com tecnologia, redes sociais e rap que se entusiasme com os poetas do programa escolar — muitas vezes autores de há setenta ou oitenta anos — sem qualquer contextualização afectiva ou cultural é, nas suas palavras, “fazer um desserviço à própria poesia”. O problema não é o cânone. O problema é a ausência de pontes entre o cânone e o presente dos alunos.

O trabalho de Freitas sugere três pontes possíveis que os professores podem construir em sala de aula.

A primeira é a da oralidade. A poesia não nasceu para ser lida em silêncio; nasceu para ser dita. Reintroduzir a leitura em voz alta, o recital, a performance — mesmo que imperfeita, mesmo que tímida — devolve à poesia uma dimensão que o manual de texto tende a apagar.

A segunda é a da intersecção de linguagens. O rap, a música, a ilustração, o vídeo — são todos suportes em que a linguagem poética vive e respiram com naturalidade para os jovens. Trabalhar poesia a partir de letras de músicas que os alunos já conhecem é uma estratégia válida, pedagogicamente sólida, e não é uma concessão: é um ponto de partida para chegar mais longe.

A terceira é a da desmistificação do processo criativo. Mostrar que escrever bem é um ofício que se aprende, que há dias em que não sai nada e isso faz parte, que a revisão é tão criativa quanto o primeiro rascunho — estas ideias simples podem transformar a relação dos alunos com a escrita, tirando-lhe a aura de dom exclusivo e devolvendo-lhe a dignidade de prática que qualquer um pode cultivar.

Uma última nota sobre o mercado

Vale a pena sublinhar um dado que nenhuma análise educativa devia ignorar: Pedro Freitas alcançou o topo das vendas na Bertrand com poesia, editada de forma independente, sem o apoio de uma grande editora, através das redes sociais e da performance ao vivo. Num país em que se fala há décadas da crise dos hábitos de leitura — e com particular preocupação entre os jovens —, este percurso é uma prova de que a falta de leitores não é uma fatalidade. É, muitas vezes, um problema de mediação.

A escola é o maior mediador cultural de que dispomos. E há, no exemplo do Poeta da Cidade, um roteiro que vale a pena ler com atenção.


Sugestão de actividade para a sala de aula

“Do rap ao poema” — pedir aos alunos que escolham uma letra de uma música que gostem, identifiquem nela imagens poéticas, comparações ou metáforas, e reescrevam um excerto como poema em verso livre. Partilha em voz alta, com ou sem acompanhamento musical. Discussão sobre o que muda quando o texto é dito e não lido.

Nível: 3.º ciclo / Ensino Secundário | Disciplinas: Português, Expressão Dramática, Educação para os Media

Clique na imagem para ver a apresentação…


Referências

Freitas, P. (2022). Ela, metafisicamente d’outro mundo. Edição de autor.

Freitas, P. (2024). Vim sem tempo. Edição de autor.

Farinha, R. (2022, 8 de setembro). Poeta da Cidade: o português que se tornou um fenómeno no TikTok a dizer poesia. NiT. https://www.nit.pt/cultura/livros/poeta-da-cidade-o-portugues-que-se-tornou-um-fenomeno-no-tiktok-a-dizer-poesia

Diário de Notícias. (2024, 12 de novembro). “Na geração de escritores anterior à minha ainda se olha para as redes sociais com desdém”. DN. https://www.dn.pt/cultura/na-geracao-de-escritores-anterior-a-minha-ainda-se-olha-para-as-redes-sociais-com-desdem

UALMedia. (2023, 6 de fevereiro). Pedro Freitas: “Pedir a um jovem que vive com tecnologia que entenda um escritor de 1950 é fazer um desserviço à própria poesia”. UALMedia. https://ualmedia.pt/pedro-freitas-pedir-a-um-jovem-que-vive-com-tecnologia-que-entenda-um-escritor-de-1950-e-fazer-um-desservico-a-propria-poesia/

APEL. (2024, 1 de março). Pedro Freitas — Book 2.0. Associação Portuguesa de Editores e Livreiros. https://book.apel.pt/people/pedro-freitas/

Poeta da Cidade. (s.d.). Sobre mim. https://poetadacidade.com/pages/sobre-mim

Wikipédia. (2026). Poeta da Cidade. https://pt.wikipedia.org/wiki/Poeta_da_Cidade

Pinheiro, C. (realizador). (2025). Entrevista a Pedro Freitas [vídeo]. Canal Carlos Pinheiro – BESLC. https://youtu.be/SCkb1qydtVs

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