
Há uma tendência muito comum, sobretudo entre quem trabalha em educação, para falar de «tempo de ecrã» como se fosse uma medida única e comparável, e para culpar o aparelho em si pelo problema. Mas o mesmo computador que serve para fazer um trabalho de pesquisa serve também para uma maratona de séries até de madrugada; o mesmo telemóvel que permite consultar o horário dos comboios é também a porta de entrada para uma aplicação concebida, ao milímetro, para nos manter a deslizar o dedo pelo ecrã. O risco não está, portanto, no objeto, mas naquilo que fazemos com ele e, sobretudo, naquilo que ele foi desenhado para nos fazer fazer. É esta distinção entre uso produtivo e uso desenhado para reter que separa, na prática, uma ferramenta de uma armadilha, e que tem implicações diretas para quem ensina, para quem aprende e para quem decide políticas educativas.
Foi precisamente esta ideia que motivou um artigo recente publicado pela revista Telos, da Fundación Telefónica, da autoria de María Solano Altaba e Ignacio Blanco Alfonso. Partindo do já clássico Manifesto Onlife — o documento promovido pela Comissão Europeia que descreveu, há mais de uma década, a forma como a tecnologia deixou de ser uma ferramenta externa para se tornar parte da própria condição humana —, os autores propõem uma análise dispositivo a dispositivo: computadores, tablets e telemóveis não são equivalentes nem nos usos que permitem nem nos riscos que comportam. Vale a pena seguir esse fio e cruzá-lo com a realidade das escolas portuguesas, onde o tema já não é apenas teórico: tornou-se lei.
Computadores e portáteis: a multitarefa que nos engana
Para muitos professores e pais que cresceram no mundo analógico, o computador continua associado, antes de mais, ao trabalho. Foi a máquina que substituiu o caderno e a máquina de escrever. Mas essa associação esconde um problema que afeta igualmente quem usa o portátil para estudar: a ilusão da multitarefa.
A investigação citada por Solano Altaba e Blanco Alfonso é clara num ponto que importa repetir nas salas de aula: o cérebro não processa duas tarefas complexas em simultâneo, ainda que tenhamos a sensação contrária. O que fazemos, na realidade, é saltar de uma atividade para outra, e cada salto custa tempo de reconcentração, mesmo que medido em fração de segundo. A soma desses pequenos cortes deixa-nos com a sensação de ter trabalhado muito e produzido pouco, e essa frustração é, em si mesma, um fator de desgaste que afeta o desempenho escolar. A isto soma-se o consumo em maratona de séries, hoje tão comum entre adolescentes que estudam com o portátil aberto numa aba e uma série a decorrer noutra, um hábito que alimenta ainda mais o défice de atenção sustentada que tantos professores relatam.
Tablets na escola: entre a ferramenta de trabalho e a distração
O tablet ocupa um lugar particular no ecossistema escolar português. Por um lado, é cada vez mais utilizado como ferramenta pedagógica: os manuais digitais continuam a fazer parte da paisagem de muitas escolas, ainda que um estudo da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência não tenha encontrado efeitos significativos nos resultados dos alunos associados ao seu uso, o que levou o Ministério da Educação, Ciência e Inovação a manter a possibilidade de escolha entre manual em papel e manual digital a partir do 2.º ciclo, em vez de a impor. Por outro lado, é também o dispositivo de entretenimento preferido para muitas crianças em idades muito precoces.
O risco mais específico do tablet, segundo o artigo da Telos, tem que ver com a forma como tomamos notas. A investigação mais recente sobre escrita e cognição mostra que escrever à mão ativa ligações neuronais mais relevantes do que escrever ao teclado, o que significa que um aluno que toma apontamentos num tablet com teclado retém, em princípio, menos do que aquele que usa um lápis digital ou, mais simplesmente, papel. Para as escolas que avançaram para o digital nos últimos anos, esta não é uma curiosidade académica: vale a pena perguntar, disciplina a disciplina, em que momentos a escrita manual continua a fazer sentido pedagógico, independentemente da tecnologia disponível.
Telemóveis: o caso mais visado, e agora também regulado por lei
Chegamos ao dispositivo que gera mais controvérsia, e por boas razões. O artigo da Telos sublinha que o problema não está no telemóvel em si — usado para consultar o tempo, ler notícias ou responder a um e-mail, é uma ferramenta como outra qualquer —, mas no facto de uma parte significativa das aplicações que nele instalamos ter sido concebida, deliberadamente, para maximizar o tempo que lhes dedicamos. As redes sociais com vídeos curtos são o exemplo mais citado, precisamente porque exploram um mecanismo de recompensa que nos impele a procurar sempre mais conteúdo, independentemente da sua qualidade ou relevância.
Em Portugal, esta discussão deixou de ser apenas um debate de sala de professores. Desde o ano letivo de 2025/2026, está em vigor um decreto-lei que proíbe o uso de telemóveis com acesso à internet nos 1.º e 2.º ciclos do ensino básico, ou seja, até ao 6.º ano, com recomendação de medidas restritivas no 3.º ciclo e o envolvimento dos próprios alunos do secundário na construção de regras de utilização responsável. A medida não nasceu de um impulso: seguiu-se a um ano de experiência com recomendações não vinculativas, avaliado pelo Centro de Planeamento e de Avaliação de Políticas Públicas, cujo estudo apurou que mais de metade das escolas que optaram pela proibição registaram menos episódios de indisciplina e de bullying, além de um aumento claro da socialização e da atividade física dos alunos nos intervalos. É um dado que confirma, com números portugueses, exatamente aquilo que o artigo da Telos descreve em termos mais gerais: o telemóvel é o dispositivo que mais facilmente desliza do uso ocasional para o uso compulsivo, precisamente porque é também aquele que menos associamos, mentalmente, a uma obrigação ou a uma tarefa.
O que isto significa para professores e escolas
A conclusão mais útil que se pode tirar deste exercício de comparação não é que a tecnologia, em bloco, seja perigosa. É que tratar todos os dispositivos da mesma forma, com o mesmo discurso de alarme ou com a mesma permissividade, é um erro de avaliação que tem custos reais. Um computador pedido para um trabalho de pesquisa, um tablet com lápis digital para tomar notas numa aula de História e um telemóvel pessoal no recreio colocam exigências completamente diferentes à atenção de um aluno, e merecem, por isso, respostas diferentes por parte da escola e da família.
Uma forma simples de tornar esta distinção visível para os alunos é propor, durante uma semana, um pequeno registo em papel: cada aluno anota, ao longo do dia, que dispositivo usou, para que tarefa concreta e durante quanto tempo, sem juízos de valor antecipados. No final da semana, a turma analisa em conjunto os padrões que emergem: em que dispositivo se concentra o entretenimento, em que dispositivo se concentra o trabalho, e onde as fronteiras se confundem. Quase invariavelmente, são os próprios alunos que identificam o telemóvel como o ponto onde o tempo «desaparece» sem que disso se apercebam, o que torna a conversa sobre limites muito mais eficaz do que qualquer aviso vindo de um adulto.
Não se trata de demonizar nenhum destes objetos. Trata-se de ensinar a olhar para eles com mais precisão, e essa é, no fundo, uma competência de literacia digital tão importante como qualquer outra que se ensine hoje nas escolas portuguesas.
Referências
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Governo de Portugal. (2025a). Proibição de smartphones nas escolas diminui bullying e aumenta socialização dos alunos [comunicado, XXV Governo Constitucional]. https://www.portugal.gov.pt/pt/gc25/comunicacao/noticia?i=proibicao-de-smartphones-nas-escolas-diminui-bullying-e-aumenta-socializacao-dos-alunos
Governo de Portugal, Ministério da Educação, Ciência e Inovação. (2025b). Recomendações às escolas para a operacionalização das regras e recomendações sobre o uso de smartphones nos espaços escolares. https://www.portugal.gov.pt/pt/gc25/comunicacao/documento?i=recomendacoes-as-escolas-para-a-operacionalizacao-das-regras-e-recomendacoes-sobre-o-uso-de-smartphones-nos-espacos-escolares
Instituto Nacional de Estatística. (2025). Inquérito à utilização de tecnologias da informação e da comunicação pelas famílias – 2025. https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_destaques&DESTAQUESdest_boui=707461433&DESTAQUEStema=5414257&DESTAQUESmodo=2&xlang=pt
Marano, G. K. (2025). The neuroscience behind writing: Handwriting vs. typing—Who wins the battle? Life, 15(3). https://www.mdpi.com/2075-1729/15/3/345
Ort, A., Wirz, D., & Fahr, A. (2021). Is binge-watching addictive? Effects of motives for TV series use on the relationship between excessive media consumption and problematic viewing habits. Addictive Behaviors Reports, 13. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2352853220301401
Solano Altaba, M., & Blanco Alfonso, I. (2026, 11 de junho). ¿Son todos los dispositivos digitales igual de adictivos? Telos – Fundación Telefónica. https://telos.fundaciontelefonica.com/son-todos-los-dispositivos-digitales-igual-de-adictivos/


