Sabrina Gonzalez Pasterski: construtora de universos

Da engenharia aeronáutica tátil à vanguarda da holografia celeste

Quem é

Sabrina Gonzalez Pasterski (nascida a 3 de junho de 1993, em Chicago) é uma física teórica norte-americana especializada em física de altas energias e holografia celeste. Descreve-se a si própria como “uma orgulhosa cubano-americana de primeira geração e antiga aluna das escolas públicas de Chicago”. Filha de Mark Pasterski — advogado e engenheiro eletrotécnico — e Maria Gonzalez, cresceu num ambiente que valorizava tanto a curiosidade intelectual como a resolução prática de problemas.

Desde 2021, integra o corpo docente do Perimeter Institute for Theoretical Physics, em Waterloo (Canadá), onde fundou e dirige a Celestial Holography Initiative (CHI). Tornou-se, assim, a mais jovem professora de física desta instituição de referência mundial, ingressando aos 27 anos.


A história: da aviação à Física

Os Primeiros Anos em Chicago

A biografia de Pasterski começa, invulgarmente, no ar e na garagem — e não no quadro negro. A sua infância em Chicago foi marcada por uma mentalidade de construtora, patente desde muito cedo: aos 9 anos fez a primeira lição de voo na margem do lago de Chicago; aos 10, reconstruía repetidamente um motor O-200A na soleira da porta do quarto, usando peças com defeito compradas no eBay. Aos 11, adquiriu 10 acres no West Texas Spaceport por 2.950 dólares, com o objetivo de impulsionar a sua vocação aeroespacial.

A construção do avião

Entre os 12 e os 14 anos, Pasterski montou um Zenith CH 601 XL — uma aeronave ligeira em kit —, cravando pessoalmente cerca de 95% dos 15.000 rebites necessários, a um custo total de 36.000 dólares. Não se limitou a seguir o manual: introduziu modificações estruturais à fuselagem para corrigir vulnerabilidades que tinham causado desintegrações em voo noutros modelos da mesma série. Aos 16 anos, tornou-se a pessoa mais jovem a testar em voo solo, nos EUA, uma aeronave construída por si própria, com validação da FAA.

O episódio tem uma significância que vai além do prodígio técnico. A própria descreve a motivação estratégica: queria provar a líderes da tecnologia aeroespacial que era suficientemente competente para trabalhar com eles. Ao chegar ao MIT, mudou de rumo: “Pensei: já fiz aeroespacial — agora vou ser física.”


Percurso Académico

Do MIT (lista de espera ao topo da turma)

A ironia da sua entrada no MIT é conhecida: foi inicialmente colocada na lista de espera. Foram os vídeos do seu voo solo e a documentação de certificação do avião que acabaram por convencer a instituição a aceitá-la. Uma vez admitida, o seu impacto foi histórico: concluiu o bacharelato em Física em apenas três anos, com um GPA perfeito de 5,0 — a nota máxima absoluta possível na instituição. Tornou-se a primeira mulher a vencer o Prémio Orloff do Departamento de Física do MIT e, como estudante de segundo ano, integrou a equipa do experimento CMS no Large Hadron Collider do CERN.

Harvard e o doutoramento

Ingressou no programa de pós-graduação de Harvard com bolsas da Hertz Foundation e da NSF, num total de 400.000 dólares. Trabalhou sob orientação do reputado físico Andrew Strominger e obteve o doutoramento em Física em maio de 2019. A tese, intitulada Implications of Superrotations, foi publicada na íntegra na revista Physics Reports — apenas a segunda vez em toda a história que uma dissertação de Harvard recebeu esta honra; a primeira foi a de David Politzer em 1974, trabalho que lhe valeria mais tarde o Prémio Nobel.

Pós-Doutoramento em Princeton

Entre 2019 e 2022, foi PCTS Postdoctoral Fellow na Universidade de Princeton, onde aprofundou o programa da holografia celeste que hoje a define.


A Física que produz

O contributo científico central de Pasterski situa-se no chamado triângulo infravermelho (infrared triangle) — uma rede de equivalências matemáticas que ela ajudou a completar e estender.

O triângulo PSZ

Existem três conceitos que, à primeira vista, pareciam separados na física, mas que são manifestações da mesma estrutura subjacente:

  • Simetrias assintóticas — o grupo infinito-dimensional de Bondi–Metzner–Sachs (BMS) no infinito nulo do espaço-tempo;
  • Teoremas soft — leis de conservação de baixa energia para fotões e gravitões (Weinberg, 1965);
  • Efeitos de memória das ondas gravitacionais — marcas físicas permanentes deixadas pela radiação.

O Triângulo Pasterski–Strominger–Zhiboedov (PSZ) prova que estes três conceitos são manifestações matemáticas de uma e mesma física. O contributo próprio de Pasterski foi, sobretudo, na extensão subdominante (subleading) do triângulo: co-descobriu o efeito de memória de spin (spin memory effect), que demonstra que a radiação gravitacional induz não apenas um deslocamento linear permanente de massas, mas também uma rotação angular permanente — um rasto invisível, rotacional, deixado pela gravidade.

Tecnicamente, este resultado demonstra que partículas num arranjo circular mudam a sua posição angular transversal após a passagem de ondas gravitacionais, provando a existência de memória rotacional. O trabalho foi citado por Stephen Hawking em 2016 no seu estudo sobre o soft hair de buracos negros e a retenção de informação quântica.

Uma consequência elegante deste programa é a universalidade infravermelha: a física infravermelha das colisões de buracos negros e da dispersão de partículas fundamentais é essencialmente idêntica, dada a relação entre teorema soft e efeito de memória.

Holografia celeste: codificar o universo como holograma

A partir do triângulo infravermelho, Pasterski avançou para o programa que hoje a define: a holografia celeste. Em linguagem acessível, a ideia parte de uma analogia: imagine um filme 3D projetado a partir de um ecrã completamente plano — o universo tridimensional que habitamos pode estar codificado como um holograma numa superfície bidimensional.perimeterinstitute+1
Mais precisamente, a holografia celeste é uma dualidade proposta que reformula as amplitudes de dispersão em espaços-tempo assintoticamente planos (Minkowski) como uma teoria de campo conforme (CFT) definida na esfera celeste no infinito nulo. O problema que resolve é conceptualmente profundo: a correspondência AdS/CFT — o sucesso anterior da holografia — funcionava matematicamente em universos curvos (Anti-de Sitter). Mas o universo que habitamos é quase plano. A holografia celeste visa generalizar esse sucesso ao caso fisicamente relevante de constante cosmológica nula.

A contribuição técnica direta de Pasterski para este mapeamento incluiu a construção da base conforme (conformal primary basis) usada para mapear amplitudes de dispersão em correladores da CFT bidimensional na esfera celeste — trabalho pioneiro publicado em 2017

Na sua própria formulação: “Holografia celeste tem duas palavras — celeste e holografia. Celeste significa, literalmente, olhar para o céu noturno para perceber como codificar o universo físico como um holograma.”


Vanguarda teórica (2024–2026)

A produção recente de Pasterski e da sua equipa no Perimeter aponta para três frentes de investigação convergentes:

Linha de InvestigaçãoDescrição
Conjetura Python’s LunchUso de ferramentas criptográficas para provar a complexidade exponencial da reconstrução de buracos negros, ligando geometria a teoria da informaçãoarxiv
Emaranhamento no Espaço PlanoCálculo da entropia de emaranhamento usando geometrias de conchas de D-branes, superando divergências infinitas (resolvendo o Minkowski bubble)
Cargas como DetetoresReformulação da radiação quântica usando estados de Faddeev-Kulish para medir a memória eletromagnética com precisão absoluta

Em 2025, publicou resultados sobre estados multipartícula para o holograma plano no Journal of High Energy Physics, e em dezembro de 2025 surgiu novo trabalho aplicando correladores de memória e identidades de Ward ao formalismo in-in. O Institute for Advanced Study (IAS) de Princeton programou para julho de 2026 o Prospects in Theoretical Physics (PiTP 2026), um programa intensivo de duas semanas dedicado inteiramente à holografia de espaço plano, com bootcamp de holografia celeste, sinal do grau de maturidade institucional atingido pelo campo.


A Celestial Holography Initiative e a Simons Collaboration

No Perimeter Institute, Pasterski é Investigadora Principal (PI) e fundadora da Celestial Holography Initiative, onde lidera uma equipa de investigadores em amplitudes, física matemática e gravidade quântica.
A iniciativa ganhou escala com a formação da Simons Collaboration on Celestial Holography, apoiada por um financiamento de 8 milhões de dólares da Simons Foundation, que reúne a elite global da gravidade quântica. Pasterski exerce funções de Deputy Director desta colaboração. Em abril de 2025, a reunião anual da Simons Collaboration contou com 133 participantes presenciais no Flatiron Institute, em Nova Iorque.


A relação com a fama: ruído mediático vs. sinal científico

Um eixo recorrente — e revelador — da sua biografia pública é a tensão com a mediatização. Por ter começado tão jovem e ter sido citada por Hawking, atraiu a atenção global sob o rótulo de “a próxima Einstein”. A sua resposta é inequívoca: recusa a comparação (“ninguém voltará a ser Einstein”) e caracteriza a situação com precisão cirúrgica: “Não era síndrome do impostor — era saber que se é, de facto, um impostor por causa do clickbait.”

A estratégia foi metodológica: estudou redobradamente para construir credenciais incontestáveis e antecipar críticas de sobrevalorização. Em 2017, com o mundo da física a prestar-lhe atenção máxima, disse simplesmente: “Sou apenas uma estudante de pós-graduação. Tenho tanto para aprender. Não mereço esta atenção.”

O seu perfil digital é deliberadamente minimalista — sem redes sociais, sem smartphone —, comunicando exclusivamente através de publicações científicas e do seu sítio pessoal PhysicsGirl.com. Encontrou no Perimeter um ambiente alinhado com o seu temperamento: “Encontrei aqui a minha gente”, privilegiando a colaboração sobre a competição.


Reconhecimentos e escolhas de carreira

AnoReconhecimento
AnoReconhecimento
2010Illinois Aviation Trades Association Industry Achievement Award
2013Orloff Scholarship Award, MIT Physics Department (1ª mulher)
2015Forbes 30 Under 30 — Ciência; Hertz Foundation Fellowship
2016Marie Claire Young Women Honors: “The Genius”
2017Forbes 30 Under 30 All Star; #3 Trending Scientist mundial (Google Trends)
2018Albert Einstein Foundation — Genius 100 Visions Project (“100 maiores inovadores”)
2023Deputy Director, Simons Collaboration on Celestial Holography

A escolha de carreira mais emblemática foi a recusa de uma oferta de 1,1 milhões de dólares da Brown University para professora-assistente, optando por juntar-se ao Perimeter Institute em 2021. Recusou igualmente propostas da Blue Origin (Jeff Bezos) e da NASA. Em 2016, foi convidada à Casa Branca pelo seu trabalho na iniciativa Let Girls Learn, promovendo a educação STEM de raparigas — com mensagem de congratulação transmitida em rede televisiva e uma dupla página na Marie Claire com a então Primera-Dama Michelle Obama.


A mesma lógica, dimensões diferentes

Existe uma coerência profunda entre a fase aeronáutica e a fase teórica da sua carreira, que os seus documentos deixam explícita:

Engenharia AeronáuticaFísica Teórica
Limites de cisalhamento e falhas estruturais em vooDivergências no infravermelho e o paradoxo da informação
Folhas de alumínio e 15.000 rebites tangíveisTensores de espaço-tempo, simetrias assintóticas no infinito nulo
Convencer inspetores do FAA com documentos de aeronavegabilidadeIdentidades de Ward, formulações da Matriz-S e teoremas soft

O domínio das leis da mecânica clássica no ar treinou a sua intuição para compreender o comportamento do espaço e do tempo nos limites do universo. O verdadeiro génio de Pasterski, como os seus próprios materiais sublinhavam, não reside num intelecto etéreo e inatingível, mas numa intuição mecânica construída no mundo físico e projetada na estrutura do espaço-tempo.

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