Análise do Relatório sobre o Estado da Década Digital 2026 — Comissão Europeia, junho de 2026

Enquadramento: o que é o DESI e porque importa
O DESI (Digital Economy and Society Index) é o instrumento da Comissão Europeia para medir e comparar o desempenho digital dos 27 Estados-Membros. Desde 2014, este índice acompanha indicadores nas áreas da conectividade, competências digitais, digitalização das empresas e serviços públicos digitais. A partir de 2023, o DESI foi integrado no quadro de monitorização da Década Digital 2030 — o programa estratégico da União Europeia para a transformação digital da Europa.
O relatório de 2026, o terceiro da série, foi publicado pela Comissão Europeia a 17 de junho de 2026 e inclui 27 relatórios individuais por país, com avaliação detalhada do progresso de cada Estado-Membro face às metas europeias para 2030. O relatório de Portugal baseia-se nos dados do DESI 2026 (ano de referência 2025) e integra também os resultados do Eurobarómetro especial sobre a Década Digital.portugal.
Portugal: um retrato digital com luzes e sombras
O relatório da Comissão Europeia sobre Portugal revela um país com pontos fortes estruturais bem consolidados — sobretudo na conectividade e nos serviços públicos digitais — mas também com lacunas persistentes na adoção de tecnologias avançadas pelas empresas e no ritmo de crescimento das competências digitais da população.
Em termos gerais, Portugal demonstra uma elevada ambição no quadro da Década Digital, tendo definido 12 metas nacionais (das 14 possíveis), das quais 92% estão alinhadas com os objetivos europeus para 2030. Todos os 8 pontos de trajetória para 2025 definidos no Roteiro Nacional foram considerados 100% cumpridos, o que coloca Portugal como um dos países mais cumpridores das suas próprias metas de curto prazo.
Conectividade: o ponto forte de Portugal
Na área da conectividade, Portugal apresenta resultados consistentemente acima da média europeia. Os números do DESI 2026 são elucidativos:
| Indicador | Portugal 2026 | Média UE 2026 | Meta 2030 |
|---|---|---|---|
| Cobertura VHCN (redes de alta capacidade) | 97,1% | 85,5% | 100% |
| Cobertura FTTP (fibra até à habitação) | 95,5% | 74,1% | 100% |
| Cobertura 5G básica | 99,1% | 96,8% | 100% |
Portugal lidera claramente na cobertura de fibra até à habitação, com 95,5%, face a uma média europeia de apenas 74,1%. Esta infraestrutura robusta representa uma vantagem competitiva significativa e constitui a base para o desenvolvimento de todos os outros domínios da transformação digital.
O Plano de Ação da Estratégia Digital Nacional 2026-2027 reforça este eixo com uma Estratégia de Cloud Soberana (para garantir o controlo nacional e europeu de dados críticos), uma Estratégia Nacional de Centros de Dados resilientes e energeticamente eficientes, e uma Política Nacional de Dados alinhada com os frameworks europeus.
Serviços Públicos Digitais: referência europeia
O desempenho português nos serviços públicos digitais é excecional, com resultados acima da média europeia em todas as categorias:
| Indicador | Portugal 2026 | Média UE 2026 | Meta 2030 |
|---|---|---|---|
| Serviços públicos digitais para cidadãos | 86,4 | 84,6 | 100 |
| Serviços públicos digitais para empresas | 90,0 | 88,6 | 100 |
| Acesso a registos eletrónicos de saúde | 92,2 | 86,5 | 100 |
Este desempenho é confirmado pelo European e-Government Benchmark 2025, no qual Portugal subiu da 14.ª para a 8.ª posição entre os países europeus, superando a média da UE em todas as áreas avaliadas. Três iniciativas portuguesas foram mesmo reconhecidas como boas práticas com potencial para replicação noutros países: o programa de cibersegurança C-Academy, o modelo de linguagem em português europeu AMALIA, e a nova versão da assistente virtual do portal gov.pt.
O desafio das empresas: IA e cloud muito abaixo das metas
O contraste mais marcante no relatório é entre o desempenho da administração pública e o das empresas privadas. Na adoção de tecnologias avançadas pelas empresas, Portugal fica claramente aquém da média europeia:
| Indicador | Portugal 2026 | Média UE 2026 | Meta 2030 |
|---|---|---|---|
| Adoção de cloud pelas empresas | 34,1% | 46,7% | 75% |
| Adoção de IA pelas empresas | 11,5% | 20,0% | 75% |
| Análise de dados | 45,0% | 39,9% | 75% |
| PME com intensidade digital básica | 63,9% | 71,4% | 90% |
Apenas 11,5% das empresas portuguesas utilizam IA — menos de metade da média europeia de 20% e muito longe da meta de 75% para 2030. Este é, de longe, o maior desafio identificado no relatório. A Comissão Europeia alerta que a baixa digitalização das empresas impede-as de aproveitar os ganhos de produtividade das ferramentas digitais e de aceder a novos mercados online.
Em análise de dados, Portugal destaca-se positivamente, superando a média europeia (45,0% vs 39,9%), mas o crescimento em cloud, IA e intensidade digital permanece abaixo das tendências europeias. Estas lacunas comprometem a soberania e competitividade tecnológica do país, que é também um objetivo estratégico nacional.
Competências digitais: progresso lento e desigual
As competências digitais da população revelam um perfil misto. Em 2026, 59,2% da população portuguesa entre os 16 e os 74 anos possui competências digitais básicas, face a uma média europeia de 60,4% — ou seja, Portugal está abaixo da média da UE, com a meta de 80% para 2030 ainda distante.
O relatório identifica grupos especialmente vulneráveis ao fosso digital: mulheres, pessoas com baixos níveis de educação e adultos mais velhos. O crescimento das competências digitais em Portugal é mais lento do que a média europeia, o que agrava o risco de exclusão digital em sectores da população já fragilizados.
Pontos positivos incluem o crescimento dos especialistas TIC (5,4% da população empregada, acima da média europeia de 5,0%) e a boa performance dos jovens adultos e na adoção de IA generativa. Em resposta a estas lacunas, o governo aprovou o Pacto de Competências Digitais 2026-2030 (Resolução do Conselho de Ministros n.º 216/2025), com um orçamento de 80 milhões de euros, que prevê capacitar 1,9 milhões de pessoas em literacia digital básica e formar mais de 100 mil especialistas em tecnologias emergentes até 2030.
O que dizem os portugueses
O Eurobarómetro especial sobre a Década Digital 2026 revela que 72% dos portugueses consideram que a política digital deve ter alta prioridade para a UE. As principais prioridades identificadas pelos cidadãos para a próxima década são:
- Segurança e proteção online (88% dos inquiridos)
- Proteção online de crianças e jovens (92% apoiam medidas mais fortes)
- Promoção de programas de educação digital e competências (86%)
- Regulação cuidadosa do desenvolvimento da IA (77% concordam que deve ser regulada, mesmo que restrinja desenvolvedores)
- Redução da dependência de tecnologias digitais de países não-UE (81%)
Os principais obstáculos à utilização de ferramentas de IA generativa são a falta de formação ou competências relevantes (35%), a falta de necessidade (29%) e as preocupações com a perda de emprego (26%). Estes dados são particularmente relevantes para o contexto educativo e para o trabalho de formação de professores e comunidades.
Financiamento e roteiro nacional
Portugal possui um dos planos de financiamento mais robustos da UE para a transformação digital. O Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) aloca 21,5% do total à digitalização (4,7 mil milhões de euros), e a política de coesão contribui com mais 2,3 mil milhões de euros (10% do total de fundos de coesão nacionais).
O Roteiro Nacional inclui 157 medidas com um orçamento público total de 1,6 mil milhões de euros — 75% do orçamento total do roteiro. Contudo, 62% destas medidas terminam em 2026, o que levanta questões sobre a sustentabilidade do investimento e a necessidade de renovação do quadro de implementação para o período 2027-2030.
A recente Estratégia Digital Nacional (aprovada em dezembro de 2024) e o seu Plano de Ação 2026-2027 estruturam a resposta portuguesa em seis eixos: reforma tecnológica do Estado, dados e interoperabilidade, serviços públicos digitais, economia e regulação digital, competências digitais, e inteligência artificial. O investimento total previsto — incluindo a Agenda Nacional de IA e o Pacto de Competências Digitais — ascende a 1.000 milhões de euros.
Recomendações da comissão europeia para Portugal
O relatório emite 8 recomendações específicas para Portugal:
- Conectividade/5G — Acelerar o lançamento do espectro 3,4-3,8 GHz em zonas rurais e apoiar casos de uso avançados de 5G SA.
- Inteligência Artificial — Acelerar a adoção de IA pelas empresas, revendo a estratégia nacional com foco sectorial em verticais-chave.
- Cloud — Implementar os planos de infraestrutura de cloud soberana e estimular a adoção nas empresas.
- Unicórnios — Acelerar o ecossistema de scale-up com melhores condições de financiamento e eliminação de barreiras à expansão (Portugal tem apenas 2 unicórnios, face à meta de 500 na UE).
- Competências digitais básicas — Avaliar e ajustar as medidas em curso, com foco especial na redução do fosso digital.
- Cibersegurança — Reforçar a ciberliteracia, atualizar a estratégia nacional e garantir gestão de risco e reporte de incidentes em todas as entidades.
- Digitalização de PME e tecnologias avançadas — Continuar a promover a adoção de tecnologias digitais avançadas pelo tecido empresarial no médio prazo.
- eSaúde — Investir na adoção e integração de IA nos cuidados de saúde, incluindo a participação em redes europeias de centros médicos avançados com IA.
Uma leitura para o contexto educativo
Para quem trabalha na educação — e em particular no desenvolvimento da literacia digital e no papel das bibliotecas escolares nesse processo —, este relatório contém mensagens fundamentais.
A conclusão de que Portugal melhora as competências digitais mais lentamente que a média europeia, com lacunas pronunciadas entre grupos etários, géneros e níveis de escolaridade, coloca a escola no centro da solução. A Estratégia Digital Nacional inclui explicitamente o eixo “Digital e IA na Educação” (Ação 19 do Plano 2026-2027), com o objetivo de modernizar o ensino e preparar alunos e professores para o futuro digital.
O Pacto de Competências Digitais visa capacitar 1,9 milhões de pessoas e inclui iniciativas de proximidade em territórios de baixa densidade — um reconhecimento de que a transformação digital só será justa e sustentável se chegar a todos. Neste contexto, o papel das bibliotecas escolares como espaços de literacia digital, de acesso equitativo e de formação para a cidadania digital torna-se, mais do que nunca, estratégico para o cumprimento das metas nacionais e europeias.
Fontes: Comissão Europeia, DESI 2026 — Portugal Short Country Report (junho 2026); digital-strategy.ec.europa.eu; digital.gov.pt; portugal.gov.pt


