
Autor: Higinio Marín | Ler na fonte | Vs. para sala de aula
Ler não é tão fácil como parece e só quem não o faz habitualmente confunde poder ler com saber ler. Há uma iliteracia inconsciente de que sofrem todos aqueles que poderiam ler mas não sabem fazê-lo. A literacia é uma competência cognitiva, mas a leitura é um conhecimento cuja aprendizagem requer todos os poderes interiores: imaginação, memória, emoção, reflexão, julgamento, análise, intuição. É por isso que aqueles que lêem pouco ou nada têm uma alma não treinada. A maior ou menor extensão deste analfabetismo secundário é a medida do nível cultural de uma sociedade: há países completamente alfabetizados e calamitosamente incultos.
É necessária uma longa aprendizagem, por vezes árdua, mas apaixonante, para saber realmente ler. É verdade que os melhores textos nem sempre são os mais difíceis, mas o prazer da melhor literatura nem sempre suprime o esforço e, claro, o pensamento exige-o sempre. É por isso que precisamos de professores que nos ensinem a ler, e essa é quase a sua principal missão. É tal a associação entre o ensino e a leitura que o mesmo termo significava ambos, o latim legere; e ainda hoje dizemos o mesmo com lição. Quem sabe ler de verdade ensina-nos o que o texto não dá a qualquer um. É como se nos abrissem os olhos e pudéssemos ver o que não se vê a olho nu.
Além disso, ler é como andar sobre um fio, e a primeira das lições necessárias é como saber manter o equilíbrio sem cair do que está escrito: a distração e a confusão são um sinal de ter perdido o equilíbrio. Por outro lado, não compreender suficientemente bem é sinal de estar a par da situação. O costume de escrever sem espaços nem pontuação, que vigorou até ao século XI, dificultava a leitura e exigia que o leitor compusesse o texto e o seu significado enquanto o lia. Se a atenção se perdesse, a leitura era irremediavelmente perturbada: as palavras e a sintaxe eram reconhecidas ao mesmo tempo que o sentido, pelo que era impossível ler sem compreender o que se lia.
Só se pode ler se as páginas abertas anularem a nossa visão periférica. Esta concentração permite que o que está escrito ganhe volume até sermos incluídos num novo espaço aberto por ele. Além disso, o hábito da leitura atenta é a base de um espírito atento que sabe situar-se completamente num assunto. Sem esta capacidade, a vida interior dispersa-se e a ligeireza ou a superficialidade ficam à nossa espera. Por outro lado, quem lê deve aprender a colocar o seu centro no texto, isto é, nem fora nem dentro de si, mas num lugar sustentado e aberto pela sua atenção.
O que é invulgar num livro é o facto de poder prender todo o olhar do leitor, porque transporta consigo um mundo que nos inclui. A leitura abre horizontes desconhecidos e, de certa forma, leva-nos para fora de nós próprios. “Ler, ler, ler, viver a vida que os outros sonharam”, dizia Unamuno. É por isso que pode servir de consolo para enfrentar melhor as inevitáveis dificuldades da vida. Mas também pode tornar-se um mecanismo de fuga da realidade, conduzindo-nos num labirinto feito do desejo de evitar a saída.
No entanto, a leitura, que não nega a realidade, mesmo que a suspenda até certo ponto, educa a personalidade com novas visões e, acima de tudo, com o hábito de guardar e ter em consideração. Ler é ruminar, assimilar e entrar no próprio através do que não é próprio, para que o leitor cultive um interior a que se chama intimidade ou juízo próprio, isto é, um ponto de vista interior que cada um de nós é perante a vida e o mundo. Este modo de olhar e de escutar, por assim dizer, é o que cresce à medida que se aprende a ler.
Quando a leitura silenciosa e solitária se popularizou (séc. XVI-XVII), facilitada pela imprensa e pela disponibilidade de livros, a leitura tornou-se um ato de escuta interior. Até então, as leituras públicas faziam a distinção entre leitor e ouvinte. E embora durante muito tempo os leitores solitários tenham continuado a ler em voz alta, a verdade é que a leitura é uma forma de escuta, mesmo que seja o olhar que percorre as páginas. É como emprestar um ouvido com os olhos e habituá-los a um certo silêncio do olhar.
No entanto, este silêncio não é passivo, pois trata-se de deixar falar as personagens, as ideias ou a própria palavra. O leitor escuta um texto ao qual dá voz em silêncio. Mas quanto mais primordial for o texto, mais o leitor sente falta de um regresso à oralidade. Isto é especialmente verdade no caso da poesia, que nunca é totalmente lida até ser declamada na memória, a partir do centro do leitor recuperado da exterioridade do texto. Platão tinha razão em repudiar a escrita porque ela enfraquecia a memória: ler sem memória é um passatempo.
A leitura ensina-nos a transformar a solidão em conversa e coloca-nos ao serviço dos outros para que eles se possam exprimir. É por isso que os antigos preferiam ouvir, a ler: parecia-lhes que o leitor se deixava possuir pelo autor a quem dava voz. E assim é na realidade, pois transformamos temporariamente o texto na nossa alma.
O leitor assemelha-se a Ulisses, que precisava de descer ao submundo para perguntar ao vidente morto Tirésias o caminho de regresso a Ítaca. Mas como os mortos eram espectros sem memória, para que recuperassem a memória, era preciso dar-lhes a beber o sangue oferecido num sacrifício. O leitor também viaja de volta sem conhecer o caminho, e os livros também são como espectros frios: só o sangue de quem se afasta do tumulto para os ler os traz de volta à vida. Em troca, podemos ouvir as histórias de outras vidas e de outros mundos que são como enigmas para adivinhar a nossa própria vida e o seu percurso.
Nós, homens, lemos porque a nossa vida não é suficiente para sabermos como a viver.
