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Como é que o nosso cérebro desenvolve o sentido crítico? Raquel Lemos, neuropsicóloga e investigadora na Fundação Champalimaud, explica quais os processos cognitivos envolvidos na aprendizagem e de que forma é que os professores podem ensinar a pensar de forma crítica.
Oiça um podcast, sobre o tema e a partir dos conteúdos do vídeo acima, criado pelo NotebookLM:
O Pensamento Crítico: Uma Discussão Profunda
Olá, sejam bem-vindos ao programa Nota 20 da Rádio Observador, em colaboração com a Iniciativa Educação, um programa onde a educação dialoga com a ciência. Esta semana, mergulhamos no pensamento crítico: como se desenvolve, qual o seu objetivo e quais os seus benefícios.
Antes de mais, viva a pessoa de um trato para viva, Professor Dantes! Para começarmos, vamos analisar o nosso inquérito no Twitter. Perguntamos aos nossos ouvintes: o que é mais importante para o pensamento crítico, conhecer a matéria ou estratégias específicas? A maioria, 72%, respondeu que conhecer a matéria é crucial. O que você pensa sobre esses resultados, Professor Dantes?
Professor Nuno Crato: o meu pensamento crítico, alinhado com o que a ciência tem demonstrado nos últimos tempos, é que a maioria está certa. Para desenvolver o pensamento crítico e ter uma atitude crítica diante de qualquer tema, é fundamental conhecer esse tema a fundo. Falar sem conhecimento é algo que não apreciamos, e o pensamento crítico em si não é uma habilidade que se desenvolve separadamente. As pessoas podem ter atitudes críticas, podem ser naturalmente inclinadas a questionar o que os outros dizem, mas isso torna-se mais complexo quando falamos de um contexto político. A nossa convidada de hoje vai nos ajudar a entender melhor esse conceito.
Raquel Lemos: É fundamental conhecer o assunto para ter voz e a ciência, nas últimas décadas, tem enfatizado muito esse ponto. O que nos traz aqui hoje é um passo à frente. Apesar de ser necessário conhecimento sobre o tema em debate para exercer o pensamento crítico, será que há algo que podemos aprender e aplicar nas aulas para ajudar os alunos a desenvolver essa habilidade?
Professor Nuno Crato: Essa é uma pergunta muito interessante, e é exatamente o que nos traz aqui hoje a nossa convidada, Raquel Lemos, neuropsicóloga, professora de neuropsicologia no ISCTE e investigadora da Unidade de Neuropsiquiatria da Fundação Champalimaud. Raquel, seja bem-vinda! Para começarmos, o que é o pensamento crítico?
Raquel Lemos: O pensamento crítico pode ser definido como a utilização de factos para criar julgamentos. É uma forma muito genérica de dizer, mas basicamente é o que usamos no método científico. Precisamos conhecer a evidência científica, ter uma postura imparcial em relação à nossa interpretação do problema, analisar os problemas de diferentes perspectivas, entender que diferentes pessoas defendem diferentes pontos de vista e, mesmo assim, conseguir formar um julgamento e ter uma opinião sobre o assunto. Podemos dizer que quanto mais conhecemos sobre um assunto, quanto mais fatos históricos sobre o mundo temos, mais apurado e desenvolvido é nosso pensamento crítico. Quanto mais conhecimento tivermos sobre um assunto, maior será nossa capacidade de pensar criticamente sobre ele. Podemos então concluir que o conhecimento é a matéria-prima, a chave, o elemento base do pensamento crítico.
Professor Nuno Crato: Isso mesmo! Muito conhecimento é o ponto de partida. Precisamos conhecer para poder pensar criticamente sobre qualquer assunto. Isso nos leva à pergunta: como aprendemos? Como é que o nosso cérebro se desenvolve? Como aprendemos conhecimento?
Raquel Lemos: A aprendizagem é um processo com vários tipos, mas o que sabemos é que a informação que chega através dos cinco sentidos é captada e processada provisoriamente por uma estrutura chamada memória de curto prazo, equivalente à memória RAM do computador. Em psicologia cognitiva, essa estrutura é chamada de memória de trabalho. Essa informação fica armazenada por um curto período e, através de mecanismos de utilização e ligação a outras áreas de conhecimento já adquirido, é transferida para a memória de longo prazo, nosso armazém de informação. Existe uma conectividade entre a informação que captamos e a qual damos atenção, e essa informação que os sentidos receberam se conecta com as estruturas de curto prazo e de longo prazo. A partir do momento em que raciocinamos e fazemos essa ligação entre o que está armazenado provisoriamente e o que já está armazenado em outras redes neurais, transformamos essa informação. Ela passa da fase inicial para o conhecimento adquirido e se torna memória de longo prazo.
Professor Nuno Crato: Como professor, essa explicação é muito útil! Em termos práticos, o que ensinamos e o que o aluno está aprendendo no momento são interligados. A capacidade de assimilar algo depende muito do que já se sabe sobre esse assunto. Se eu souber bastante sobre a Guerra Civil Espanhola, por exemplo, posso assimilar um determinado conceito, informação ou evento e situá-lo melhor, compreendê-lo melhor porque tenho esse conhecimento de base. Isso significa que é importante ter um currículo estruturado, onde os conhecimentos se constroem uns sobre os outros. É crucial sabermos em cada momento onde estamos e para onde vamos.
Raquel Lemos: Podemos traduzir isso para o contexto da sala de aula: o aluno está atento ao que está a ouvir, tem algum conhecimento adquirido sobre o tema e está a raciocinar sobre esse novo conhecimento que está a ouvir, que está a entrar pelos órgãos sensoriais, neste caso, a audição. Ao se debruçar e estudar, estar mais atento ao assunto, esse conhecimento torna-se memória de longo prazo. É uma visão simplista, mas podemos dizer que o aluno, ou qualquer pessoa em processo de aquisição de conhecimento, está a receber, armazenar, a processar e consolidar a informação. Não necessariamente nessa ordem, mas os conceitos são mais ou menos estes.
**Professor Dantes:** Muito bem! E em relação ao pensamento crítico, Raquel, ele pode ser ensinado?
**Raquel Lemos:** Parece que sim! Parece que, de alguma forma, ele pode ser trabalhado com base no conhecimento. Inicialmente, o pensamento crítico reside na utilização do conhecimento adquirido. O autor deste trabalho, Daniel Willingham, sugere que é importante conhecer um assunto para poder pensar criticamente sobre ele. Ele define um plano de quatro fases:
1. **Identificação do conhecimento:** O professor, em contexto educativo, deve identificar qual o conhecimento necessário para o pensamento crítico naquele contexto específico de conhecimento, ou seja, para aquela disciplina. 2. **Avaliação do conhecimento prévio:** É preciso entender qual o tipo de conhecimento que o aluno já possui para trabalhar o pensamento crítico. 3. **Sequenciamento da aprendizagem:** É preciso apresentar as informações de forma que o aluno possa aprender e pensar criticamente sobre elas, avançando para o próximo passo. 4. **Reforço do conhecimento:** É fundamental reforçar o conhecimento ao longo do tempo, pois aquilo que não é reforçado tende a ser esquecido.
Professor Nuno Crato: Não sei se gostaria de adicionar algum comentário a essa questão, Raquel.
Raquel Lemos: O ensino do pensamento crítico situa-se na intersecção entre o conhecimento e a capacidade de questionamento. Estamos falando sobre um trabalho publicado nas páginas da iniciativa Educação, de um psicólogo cognitivo norte-americano muito conhecido, Daniel Willingham, que colabora conosco. Este é o terceiro artigo dele em nossas páginas, e os dois últimos, que a Professora Raquel está nos ajudando a entender, discutem exatamente como desenvolver o pensamento crítico no âmbito de cada disciplina, os passos a serem dados e dão alguns exemplos.
Professor Nuno Crato: Em matemática, por exemplo, é fundamental ter o senso crítico. Não é apenas aceitar as fórmulas e os conceitos sem questionar. É preciso olhar para as construções, questionar cada passo, cada derivação, cada salto no raciocínio. Esse senso crítico é importante para que os jovens compreendam a lógica e a estrutura da matemática. Para isso, eles precisam entender os diferentes espaços, as diferentes áreas da matemática. Vou dar um exemplo: a construção da geometria. É preciso buscar a lógica da construção da matemática, não é algo que se aprende de forma fragmentada. É preciso ter uma curiosidade aberta, uma curiosidade que busca a lógica e a estrutura.
**Raquel Lemos:** A história é a mesma coisa. A história tem uma estrutura. Não se aprende um pouco sobre os comandos, um pouco sobre a Guerra Civil Espanhola e depois um pouco sobre a Revolução Chinesa. A história é uma evolução da sociedade humana, e é importante, também na história, desenvolver o senso crítico. Questionar: será que essa interpretação do que aconteceu na Guerra Civil Espanhola é a correta? Será que essa interpretação não é questionável? É fundamental que os jovens aprendam a questionar, a ter uma postura crítica. Não é apenas dizer: “Eu não concordo porque não sei, mas acho que está errado”. Não é isso. O que vale é: “Eu não entendo porque isso aconteceu dessa forma, porque isso está em cima disso, isso precisa ser entendido”. Muitas vezes, os próprios historiadores reconhecem que parte do que eles escrevem é questionável. É importante que os alunos aprendam a questionar, a entender que diferentes autores podem ter diferentes interpretações.
Professor Nuno Crato: Isso nos leva a uma pergunta fundamental: a partir de que idade devemos começar a ensinar o pensamento crítico?
Raquel Lemos: De fato, não há estudos que definam uma idade ideal para iniciar o trabalho com o pensamento crítico. O que sabemos é que crianças em idades mais precoces, mesmo no pré-escolar e no 1º ciclo, já possuem algum tipo de raciocínio e resolução de problemas, o que é muito importante para o desenvolvimento do pensamento crítico mais tarde. Alguns estudos mostram que crianças, mesmo sem instrução explícita, conseguem resolver problemas em idades mais precoces. Isso já foi demonstrado cientificamente. Essa evidência nos mostra que as crianças têm mais aptidões e capacidades do que pensamos, e talvez valha a pena investir em trabalhar o pensamento crítico de forma adaptada por educadores e pedagogos em crianças mais novas.
Professor Nuno Crato: Uma questão interessante é a transferência do pensamento crítico. O pensamento crítico pode ser transferido de uma área para outra?
Raquel Lemos: Aparentemente, não. A ciência mostra que o facto de alguém dominar um assunto não significa que domine todos os assuntos. Não há uma “grelha de pensamento”, uma forma de pensar que se aplica a tudo. O pensamento crítico é um processo contínuo sobre um determinado assunto, sobre um determinado conhecimento. Ele baseia-se no conhecimento. Precisamos conhecer aquele tema em concreto para poder pensar criticamente sobre ele. Ele não é transversal. A evidência científica mostra isso.
Professor Nuno Crato: Isso mesmo! Mesmo em termos de contexto escolar, existem algumas premissas que são questionadas. Por exemplo, estudar latim é vantajoso para aprender outras línguas estrangeiras. A evidência científica mostra que não é bem assim. Se compararmos grupos que não aprenderam latim com grupos que aprenderam, não há diferença no final. Ou seja, estudar latim não desenvolve o pensamento crítico para o latim e não torna a pessoa mais apta a aprender outras línguas. O mesmo acontece com o xadrez. É muito comum nos currículos escolares da Armênia, onde a premissa é que aprender a jogar xadrez torna as crianças mais criativas e desenvolve capacidades cognitivas. Mas estudos mostram que o xadrez não está associado ao desenvolvimento de outras características, além das próprias jogadas inerentes ao jogo.
Raquel Lemos: É importante ter cuidado com esses mitos que são difundidos. Décadas de investigação, estudos sobre xadrez, sobre latim, sobre música, mostram que não há evidências científicas para sustentar essas ideias. O famoso “efeito Mozart”, por exemplo, a crença de que ouvir música clássica para bebés desenvolve o pensamento crítico em outras áreas, como a matemática, não é comprovado. A música vale por si própria! Às vezes, temos uma visão utilitária das coisas. A música é boa por ser música, o xadrez é bom por ser xadrez. Não devemos dizer que o xadrez é bom porque melhora a matemática.
Professor Nuno Crato: Sem dúvida! É importante entender que o conhecimento não é transversal. Adquirir conhecimento em uma área não nos torna conhecedores de todas as áreas, nem desenvolve todas as aptidões cognitivas. Como dissemos no início do programa, o conhecimento não se transfere de uma área para outra. A evidência científica não mostra isso.
Professor Nuno Crato: Raquel Lemos, muito obrigado por esta aula sobre pensamento crítico! Antes de finalizarmos o programa, algumas notas sobre o que é importante reter sobre o pensamento crítico.
Raquel Lemos: Gostei muito desta discussão, acho que foi muito clara. Agradeço a oportunidade de partilhar estas informações e agradeço também a colaboração com a Fundação Champalimaud.
A Raquel é uma representante da Fundação, e temos essa colaboração há algum tempo, através de artigos e agora através da participação na rádio. Já falamos sobre outro artigo escrito pela Fundação Champalimaud, e acho que isso é extremamente importante, pois nos traz informação científica sobre a qual podemos desenvolver o senso crítico.
Professor Nuno Crato: Para quem quiser saber mais sobre o pensamento crítico, há dois artigos no site da iniciativa Educação, dois artigos sintetizados ou resumidos do original do psicólogo Daniel Willingham.
Professor Nuno Crato: Antes de finalizarmos o programa de hoje, gostaria de deixar uma pergunta para vocês: como combatem a ansiedade na matemática? Com mais estudo ou gerindo melhor as emoções? Respondam no Twitter e, na próxima semana, teremos mais uma discussão sobre esse tema. Até a próxima!

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