Máquinas que aprendem, sociedades que decidem: O que a IA tem a ver connosco?

Há perguntas que ficam a ressoar depois de assistirmos a uma conversa verdadeiramente boa. Foi o que me aconteceu depois de ver a mesa-redonda promovida pelo Instituto Cervantes, em janeiro de 2026, com duas mulheres notáveis: a filósofa Adela Cortina e a cientista informática Nuria Oliver. O título dizia tudo: Máquinas que aprendem, sociedades que decidem.​

Não é uma discussão técnica. É uma discussão sobre nós.

Instituto Cervantes


A IA não decide — nós é que decidimos

Uma das ideias que mais me marcou foi esta, de Adela Cortina: a inteligência artificial não toma decisões, produz resultados. As decisões continuam a ser humanas. E, por isso, a responsabilidade também.

Parece simples, mas tem implicações enormes. Quando um algoritmo recusa uma candidatura de emprego, quando um sistema de saúde prioriza um doente em detrimento de outro, quando uma plataforma decide o que vês e o que não vês — há sempre uma escolha humana por trás. Alguém programou aquele sistema. Alguém aprovou aqueles critérios.

Cortina é direta: delegar nas máquinas decisões que afetam vidas humanas é imoral. Não porque a tecnologia seja má, mas porque nenhum algoritmo tem consciência, empatia, nem pode ser responsabilizado.


Os riscos que não vemos

Nuria Oliver, uma das maiores especialistas mundiais em IA responsável, aponta quatro grandes perigos que raramente estão no centro do debate público:

  • Violação da privacidade — os sistemas de IA conseguem inferir dados pessoais sensíveis a partir de informações aparentemente inocentes, como os nossos “gostos” nas redes sociais
  • Vieses algorítmicos — os algoritmos aprendem com dados históricos que já refletem discriminações. Se os dados são enviesados, as decisões do sistema também o serão, muitas vezes de forma amplificada
  • Opacidade — quando um sistema nos nega algo, temos direito a saber porquê. A “caixa negra” dos algoritmos coloca em causa princípios básicos de justiça
  • Falta de veracidade — a geração de conteúdo sintético (imagens, textos, áudio indistinguíveis do real) ameaça processos eleitorais, alimenta teorias da conspiração e corrói a confiança pública

Estes não são problemas do futuro. Estão a acontecer agora.


Uma ética para a era digital

O que propõem estas duas pensadoras? Não o bloqueio da tecnologia, mas a sua orientação ética. Adela Cortina defende que qualquer sistema de IA digno de confiança deve respeitar princípios claros: não maleficência, beneficência, autonomia, justiça, transparência e rendição de contas.

Nuria Oliver acrescenta uma dimensão política: a Europa tem aqui um papel único a desempenhar. O Regulamento Europeu de IA é o primeiro do mundo com caráter transversal, e tem por objetivo garantir que a IA não compromete os direitos fundamentais nem os valores que tornaram a qualidade de vida europeia numa referência global.

A questão não é se usamos IA. É como e para quem.


O que isto tem a ver com a escola?

Muito. Mais do que às vezes queremos reconhecer.

Os nossos alunos já vivem imersos em sistemas algorítmicos — as plataformas que usam, os conteúdos que consomem, as ferramentas que começam a usar para estudar. Se não os ajudarmos a desenvolver um pensamento crítico sobre a IA, estamos a falhar numa das tarefas mais importantes da educação hoje: prepará-los para serem cidadãos autónomos numa sociedade digital.

Cortina alerta precisamente para isso: o maior perigo não é a IA tornar-se mais inteligente do que nós. É nós deixarmos de exercer a nossa capacidade crítica por comodidade ou por medo.

E a escola é o lugar onde essa capacidade se constrói — ou não se constrói.


Para continuar a pensar

Se ainda não viste esta conversa, recomendo vivamente. São quase duas horas, mas passam depressa quando o tema é tão bem tratado.​

Fica uma pergunta para reflexão — para ti, e para levar para a sala de aula:

Se as máquinas aprendem com as nossas decisões passadas… que tipo de futuro estamos a ensinar(-lhes)?


Artigo baseado na mesa-redonda «Máquinas que aprenden, sociedades que deciden. Inteligencia artificial y desafíos éticos», com Adela Cortina e Nuria Oliver, moderada por Estrella Montolío, no ciclo «Cien Científicas» do Instituto Cervantes (janeiro de 2026).

Prompt – Desenvolver o Pensamento Crítico: Falácias

junho de 2025

por Nik Peachey – Director of Pedagogy at PeacheyPublications Ltd | Ler na fonte

Por estes dias partilhei um prompt que transforma o teu chatbot de IA num “amigo crítico”, como exemplo de como a IA PODE desenvolver o pensamento crítico — só temos de pensar de forma mais crítica sobre como a aplicamos!

No entanto, suspeito que o que muitos professores querem dizer, quando falam sobre o impacto da IA no pensamento crítico, é que os alunos vão obter informação de fontes de IA e não vão pensar criticamente sobre se essa informação é verdadeira. Isso não é novidade! As pessoas têm lido jornais, consultado sites, lido livros e visto vídeos e televisão durante muitos anos sem considerar a credibilidade do que consomem, por isso não creio que a culpa seja realmente da IA.

De qualquer forma, aqui ficam duas sugestões que posso oferecer da parte da IA para ajudar a combater isto:

  • Primeiro, um vídeo sobre como evitar que os alunos usem IA para fazer batota. O texto do vídeo foi criado com o ChatGPT e o vídeo em si foi feito com o Lumen5 (uma plataforma de criação de vídeo alimentada por IA). Há sugestões muito boas, por isso recomendo que vejas e leias:
  • Segundo, um prompt que te ajudará a ti e/ou aos teus alunos a desenvolver a compreensão da lógica falaciosa (falácias) em argumentos.

Basta copiares e colares o prompt no teu chatbot de IA (funciona bem com o ChatGPT) e ele irá criar um questionário interativo de escolha múltipla para ajudar a desenvolver a compreensão das falácias do pensamento. Podes jogá-lo várias vezes. Se o usares com os teus alunos, adiciona uma regra para indicar à IA o nível de linguagem a utilizar.

Prompt

Atua como um especialista em pensamento crítico. Cria um questionário para testar a minha compreensão das falácias do pensamento. Faz o teste em formato de escolha múltipla e coloca-me uma pergunta de cada vez, esperando pela minha resposta antes de fazer a próxima pergunta. Quando eu errar, dá-me uma breve explicação antes de avançar para a questão seguinte. Se percebeste, começa com a primeira pergunta.

O perigo da história única | Chimamanda Ngozi Adichie

Ative as legendas…

As nossas vidas, as nossas culturas, são compostas por muitas histórias sobrepostas. A romancista Chimamanda Adichie conta a história de como descobriu a sua voz cultural — e adverte que, se ouvirmos apenas uma história sobre outra pessoa ou país, corremos o risco de um erro crítico.

Sítio web da autora

Yuval Noah Harari | A força das narrativas

Yuval Noah Harari – Autor de : “Nexus História breve das Redes de Informação da Idade da Pedra à inteligência artificial”

A importância das Histórias | Exploração didática

Transcrição livre de um excerto da entrevista de Ana Soares a Yuval Harari, no programa Todas as Palavras da RTP, de 29.11.2024:

Ana Soares: Este livro (Nexus) também fala sobre a importância das narrativas para os humanos, especialmente para o *Homo sapiens*, e por que a nossa espécie prospera. Pode explicar isso? 

Yuval Harari: Sim, os humanos são animais que contam histórias. Nós controlamos o mundo por causa da nossa capacidade de contar histórias. Por que é que as histórias são tão importantes? Porque é isso que nos liga, individualmente. Um humano não é mais poderoso que um chimpanzé, um elefante ou um leão. O que realmente nos torna poderosos é que um milhão de pessoas podem cooperar num grande projeto. Um milhão de chimpanzés não conseguem. O que torna possível para nós cooperarmos? Não é o conhecimento pessoal. Eu conheço talvez 100 pessoas, talvez 500 no máximo, contando toda a minha família, amigos e amigos de amigos. Eu não te conheço pessoalmente, no entanto, estamos juntos a criar este programa de TV. O que torna possível para os humanos cooperarem com estranhos, com um grande número de estranhos? Histórias! Podem ser histórias religiosas sobre algum Deus, histórias nacionais, a nossa mitologia nacional, histórias económicas como o dinheiro. 

Sabes, até o dinheiro é apenas uma história. O dinheiro não tem valor objetivo. Se pensares num dólar ou num Bitcoin, não podemos comer Bitcoins, não podemos beber Bitcoins. O valor deles vem das histórias que as pessoas contam sobre eles. Vimos como a eleição de Trump para presidente dos EUA levou a um grande aumento no valor do Bitcoin. Agora está em torno de 70.000 ou 80.000 dólares por Bitcoin. Por quê? Por que a eleição de Trump deveria levar a um aumento no valor do Bitcoin? Por causa da história que as pessoas contam constantemente para convencer outras pessoas de que essa coisa tem valor e, funciona. Essa é a base de todo o nosso sistema económico, as histórias que contamos sobre moedas, sobre a bolsa de valores, sobre empresas. 

Toda a empresa que quer levantar dinheiro para obter investimentos conta uma história. As pessoas no mundo dos investimentos sabem que, no final das contas, para ter investidores, precisam contar uma história de sucesso. Não basta ter bons engenheiros ou boa tecnologia. (…)

Dada a relevância didática da entrevista, disponibiliza-se uma proposta de exploração que pode ser usada em sala de aula.

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Usais o ChatGPT?

Diario EL PAÍS |

“Desde que comecei a usá-lo, tenho pensado menos em mim e tentado muito menos. Não tenho nada para fazer e vou perguntar ao Chat GPT, nem tento entender”, confessa Sofía, estudante que está nos primeiros anos do Bacharelado em Jornalismo. Assim como ela, muitos alunos usam a ferramenta OPEN AI nos seus cursos. O seu uso generalizado entre os alunos, e às vezes sem controle, preocupa e frustra enormemente alguns professores. Professores e alunos relatam o uso do Chat GPT na universidade”.

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