
Ler na fonte | por Daniel Sinopoli
Estamos a transitar de uma “economia do conhecimento” para uma “economia da aprendizagem, disfarçada nos eufemismos da ‘inovação’”, diz o autor.
Isto significa que a capacidade de adaptação e de aprendizagem contínua será fundamental.
Será possível um saber sem fim?
A economia do conhecimento, como bem sabemos, é a estrutura em que os saberes se tornam o principal motor da produtividade e da evolução. Neste modelo, o conhecimento não é apenas uma mercadoria, mas um recurso fundamental gerado pela investigação, inovação e desenvolvimento. As indústrias criativas, os meios de comunicação e as grandes empresas tecnológicas são exemplos perfeitos.
A Microsoft ou a Amazon, por exemplo, dependem em grande medida da acumulação e análise de dados para melhorar os seus produtos e serviços. O valor reside na criação e utilização da informação. Mas então surge uma questão crucial: será suficiente acumulá-la para prosperar no futuro?
A resposta está na economia da aprendizagem, um modelo radicalmente diferente em que a capacidade de adaptação e de aprendizagem contínua se torna a chave. Não se trata apenas de acumular conhecimento, mas de se adaptar constantemente às rápidas mudanças do mercado, da tecnologia e da sociedade. E é neste ponto que a educação, essa entidade que antes parecia imutável, se transforma no palco principal de uma nova era.
Pensemos, por um momento, numa cidade medieval onde o conhecimento estava limitado às altas muralhas das universidades. Este modelo, embora profundamente enraizado, é hoje visto como uma estrutura estática, uma torre a partir da qual podemos observar o mundo, mas que nos impede de intervir no seu dinamismo. O conhecimento já não está a salvo atrás dessas muralhas. Os impérios do futuro serão aqueles que apostarem na aprendizagem constante e no fluxo ininterrupto de informação.
É aqui que entra em cena uma das ferramentas mais poderosas do nosso tempo: a inteligência artificial. Outrora temida como o monstro que devoraria empregos e nos lançaria no abismo da obsolescência, hoje a IA apresenta-se como uma aliada.
Graças à sua capacidade de analisar dados em tempo real e de adaptar metodologias de ensino às necessidades de cada indivíduo, a IA optimiza os processos e abre caminhos para personalizar a experiência educativa. Um exemplo claro são as plataformas de aprendizagem online que utilizam algoritmos para adaptar os cursos às necessidades e preferências de cada estudante.
Avivar a chama do conhecimento e do desenvolvimento
O conceito de “sabedoria eterna” desfaz-se perante a rapidez com que os conhecimentos se actualizam. Vivemos um tempo acelerado de renovação que altera o ciclo de vida desses conhecimentos. O eterno tornou-se arcaico e o futuro para o qual educamos é incerto. Pensemos, por exemplo, na medicina e em como os avanços na genética e biotecnologia desafiam constantemente as práticas estabelecidas, obrigando os profissionais a manterem-se em constante actualização.
No contexto da economia do conhecimento, educar para a adaptação significa desenvolver competências que permitam aos indivíduos utilizar os seus saberes de forma inovadora e eficaz. Mas, na economia da aprendizagem, a educação deve ser vista como um processo contínuo, em que a aquisição de conhecimentos e competências não termina com um diploma ou grau académico.
A pergunta “O que sabemos?” torna-se ainda mais intrincada: “Como estamos a aprender?”
Numa conferência na UADE, Marco Serrato, vice-presidente da ASU’s Learning Enterprise (Universidade do Arizona), afirmava que a transição de uma economia baseada no conhecimento para uma economia centrada na aprendizagem não é apenas uma tendência, mas uma necessidade premente. “A inteligência artificial”, assegurava, “deve ser vista como um potenciador da capacidade humana para se adaptar às mudanças, não como um substituto do conhecimento”.
Este enfoque não é apenas uma recomendação filosófica, mas uma exigência prática.
Na travessia da adaptação, o maior desafio resume-se a uma questão simples, mas profundamente complexa: saber fazer as perguntas certas. Um regresso magnífico aos princípios lançados por Sócrates há mais de dois mil anos: o arte de duvidar e, sobretudo, de questionar-se a si próprio. A pergunta que antes marcava o rumo das nossas vidas académicas e profissionais – “o que sabemos?” – transforma-se numa pergunta ainda mais intrincada: “como estamos a aprender?”.
Ou, num tom mais pragmático: “A que horas começa o próximo curso?”.
O que realmente importa agora não é o que já sabemos, mas sim o quanto somos capazes de aprender, desaprender e reaprender à, muitas vezes inexplicável, velocidade dos tempos que vivemos.
