Por Ramón Armero · 14 de julho de 2025
Este artigo baseia-se numa conversa com Risa Morimoto, professora associada de Economia na Escola de Estudos Orientais e Africanos, da Universidade de Londres (SOAS University of London), no Reino Unido. A conversa foi editada para maior clareza e concisão.
Os estudantes tentam sempre copiar.
Sou professora há 18 anos e tenho lidado com situações de desonestidade académica desde o início da minha carreira. No entanto, com o advento das ferramentas de inteligência artificial nos últimos anos, notei uma mudança bastante significativa.
Sem dúvida, a IA tem aspetos positivos. É muito mais fácil aceder à informação e os estudantes podem utilizar estas ferramentas para melhorar a redação, a ortografia e a gramática, pelo que recebo menos trabalhos mal escritos.
Contudo, acredito que alguns estudantes têm recorrido à inteligência artificial para gerar conteúdos a partir de informações que encontram na internet, em vez de utilizarem o material das aulas para elaborarem os seus trabalhos.
A IA deveria ajudar-nos a trabalhar de forma mais eficiente, mas, na realidade, acabou por aumentar substancialmente a minha carga de trabalho. Tenho de dedicar muito mais tempo a tentar perceber se os trabalhos entregues foram, de facto, escritos pelos próprios alunos.
Por isso, decidi tomar medidas drásticas e alterar a forma como avalio os meus estudantes, incentivando-os a serem mais criativos e menos dependentes da tecnologia. O mundo está a mudar e as universidades não podem ficar para trás.
A fraude tornou-se mais difícil de detetar com a IA
Trabalho na SOAS desde 2012 e a minha área de especialização é a economia ecológica.
No início, baseava o ensino sobretudo em exames escritos, mas percebi que muitos alunos ficavam demasiado nervosos e que os seus resultados nem sempre refletiam verdadeiramente as suas capacidades.
Acabei por dar prioridade aos trabalhos escritos. Os estudantes escolhiam um tema e sintetizavam as teorias num ensaio. Este sistema funcionou bem, até à chegada da inteligência artificial.
Anteriormente, detectar plágios era mais simples. Ocasionalmente apanhava um ou outro aluno a copiar grandes partes de textos da internet, originando casos óbvios de plágio. Até há dois ou três anos, o uso indevido da IA era mais fácil de identificar, graças a estilos de escrita “robóticos”.
Agora, com modelos de IA cada vez mais avançados, tornou-se muito mais difícil distinguir e acredito que o número de fraudes aumentou consideravelmente.
Sou professora há 27 anos e, quando foi lançado o ChatGPT, fiquei apreensiva; hoje, deixo já que os meus alunos o utilizem para redigir ensaios.
Leio cerca de cem trabalhos e muitos deles são bastante semelhantes, com exemplos idênticos que nunca abordei em aula.
Normalmente, estes exemplos estão referenciados online, o que me leva a crer que os estudantes os obtiveram através de IA. Alguns trabalhos chegam a citar 20 obras literárias, mas nenhuma corresponde à lista de leituras sugeridas por mim nas aulas.
Embora seja legítimo recorrer a exemplos da internet nos trabalhos, preocupa-me que alguns alunos recorram exclusivamente à inteligência artificial para gerar o conteúdo, sem sequer ler ou interagir com a fonte original.
Comecei a utilizar ferramentas de deteção de IA na avaliação dos trabalhos, mas sei bem que esta tecnologia tem muitas limitações.
Estas ferramentas de IA estão ao alcance de qualquer estudante que se sinta pressionado com prazos e a quantidade de trabalhos. O aumento das propinas e a necessidade de trabalhar em part-time levam muitos a recorrer a estas soluções para poupar tempo.
Não existe uma forma clara de avaliar o uso indevido
Logo na primeira aula do meu módulo, transmito aos alunos que podem usar a IA para rever a gramática ou resumir argumentos e obras, para melhor compreensão, mas não para gerar respostas aos exercícios.
A SOAS tem um regulamento próprio sobre a utilização de inteligência artificial, com princípios muito semelhantes.
No último ano, fiz parte de um painel de análise de conduta académica, onde avaliei vários casos de uso indevido de IA em diferentes cursos.
Já vi estudantes justificarem-se com base nestas diretrizes, alegando que apenas usaram a IA para complementar a aprendizagem, não para fazer o trabalho por eles.
Pode ser difícil tomar decisões, pois só de ler o texto não é possível ter a certeza absoluta se foi ou não gerado por IA. Além disso, a fronteira entre o uso legítimo para aprendizagem e a batota é cada vez mais ténue.
No próximo ano, vou mudar radicalmente a forma como avalio os alunos
Os meus colegas e eu discutimos frequentemente os aspetos positivos e negativos da IA — sabemos que ainda temos muito para aprender sobre esta tecnologia.
A universidade encoraja os docentes a mudarem práticas de ensino e avaliação. A nível departamental, procuramos continuamente formas de inovar.
Os meus dois filhos frequentam uma escola com um modelo pedagógico alternativo e progressista e, ao observar o modo como aprendem, decidi experimentar dois métodos alternativos de avaliação no próximo ano letivo. Foi necessário submeter uma proposta formal para obter aprovação da universidade.
Pretendo pedir aos alunos que escolham um tema e elaborem um resumo do que aprenderam em aula sobre esse tema. Depois, terão de criar um blogue onde expliquem os conceitos técnicos numa linguagem mais acessível.
O meu objetivo é garantir que os trabalhos estejam verdadeiramente ligados ao que foi lecionado, tornando as avaliações mais pessoais e criativas.
O antigo modelo, que privilegiava a memorização e a repetição em exames, deixou de fazer sentido. O ChatGPT consegue gerar excelentes resumos de informação. Os professores devem, cada vez mais, ajudar os alunos a desenvolver competências sociais, comunicacionais e pensamento criativo.
Num comunicado ao Business Insider, um porta-voz da SOAS garantiu que a universidade orienta os estudantes no sentido de manterem a integridade académica quando recorrem à inteligência artificial. Explicou ainda que são incentivadas avaliações mais difíceis de replicar com IA e que existem mecanismos rigorosos para investigar possíveis abusos. “A utilização de inteligência artificial está em constante evolução”, afirmou o representante, acrescentando que as políticas são revistas e atualizadas regularmente para responder a estes desafios.

