A Investigação e a Sala de Aula: Para Lá da Transferência de Saber, Uma Nova Aliança
A imagem de uma torre de marfim, que separa a investigação académica em educação da prática diária dos professores, é uma perceção comum e persistente. Mas esta visão está a ser demolida por uma nova abordagem que defende uma relação mais integrada, colaborativa e sistémica entre a investigação, a prática e a formação. Esta revolução silenciosa, destacada na revista Formation et pratiques d’enseignement en question, sinaliza uma mudança fundamental na forma como o conhecimento é criado e aplicado no campo da educação.
Este artigo explora esta nova visão, baseando-se em exemplos concretos e testemunhos pessoais de investigadores e profissionais das Altas Escolas Pedagógicas (HEP) da Suíça. Analisaremos como esta aliança emergente está a redefinir os papéis de investigadores e professores, transformando a investigação num motor de desenvolvimento profissional e inovação pedagógica.
1. Repensar a Ligação: Do Modelo Linear a Uma Visão Sistémica
O modelo tradicional que rege a relação entre investigação e prática é frequentemente linear, unidirecional e hierárquico. Nesta perspetiva, descrita por Daniel Hofstetter como um modelo “tecnológico” ou “instrutivo”, a ciência produz conhecimento e diretrizes que a prática deve simplesmente implementar. Esta visão aplicacionista posiciona o investigador num papel de superioridade, transferindo saber para um profissional que o recebe passivamente.
Em contraste, Maud Lebreton Reinhard e François Gremion propõem uma abordagem sistémica que redefine fundamentalmente esta dinâmica. O seu modelo coloca o “ator em investigação” no centro de três polos interligados: Investigação, Formação e Prática. Nesta visão, o conhecimento não é simplesmente transferido, mas co-construído através de interações contínuas e retroativas entre os três domínios. A prática informa a investigação, a investigação enriquece a formação e a formação capacita a prática num ciclo virtuoso.
Os princípios desta abordagem sistémica, inspirados em Lugan (1993) e Morin (2013), revelam a sua profundidade:
• Relaciona os elementos de um conjunto. Em vez de tratar a investigação, a formação e a prática como silos, encara-os como partes de um todo interdependente.
• Insiste nas suas relações. O foco desloca-se dos elementos isolados para as interações e influências mútuas que os conectam.
• Integra a duração e a irreversibilidade. Reconhece que o desenvolvimento profissional e a produção de conhecimento são processos contínuos e evolutivos, não eventos pontuais.
• Adota modelos com ciclos de retroação. Isto significa que o que acontece na sala de aula não é apenas um resultado final, mas também um ponto de partida que informa e reorienta a investigação e a formação.
• Procede a partir de um conhecimento geral dos detalhes e preciso dos objetivos. Permite flexibilidade na ação e adaptação ao contexto, mantendo sempre metas claras.
2. A Investigação em Ação: Projetos que Unem Teoria e Prática
Este modelo sistémico não é apenas uma abstração teórica. Ganha vida em projetos colaborativos que demonstram o seu poder transformador. Vejamos dois exemplos que ilustram esta nova aliança em funcionamento.
Da “Chave na Mão” à Mão na Massa: A Co-construção de Ferramentas de Avaliação
Um projeto descrito por Francine Pellaud e colegas visava criar recursos “chave na mão” para ajudar os professores a desenvolver nos alunos competências cognitivas, socioemocionais e metacognitivas, essenciais para enfrentar os “múltiplos desafios do nosso século”. Inicialmente, o projeto seguia uma lógica mais tradicional. No entanto, o processo evoluiu para um modelo colaborativo. Ao trabalharem com professores numa “comunidade de prática”, os investigadores conseguiram refinar as ferramentas de avaliação com base no feedback direto da sala de aula. Esta interação demonstrou um processo dinâmico e não linear, onde a prática não apenas implementou, mas também moldou ativamente os resultados da investigação.
A Sala de Aula como Laboratório: O Testemunho de Uma Professora-Investigadora
O testemunho de Léna Rueflin oferece uma perspetiva pessoal sobre esta sinergia. Ela é a personificação do “ator em investigação” que o modelo sistémico coloca no seu centro. No seu duplo papel de professora e investigadora num projeto sobre o ensino de estratégias de aprendizagem, Rueflin utilizou a sua própria sala de aula como um laboratório vivo. Testou e refinou os materiais do projeto, o “KIT ESA”, criando um ciclo de retroação constante entre a realidade da sua prática e o desenvolvimento da investigação. Esta experiência, segundo ela, não só melhorou os materiais, mas também fortaleceu a sua legitimidade profissional, pois a investigação validou e deu estrutura às suas intuições e práticas pedagógicas.
3. A Voz da Experiência: A Transformação do Olhar do Profissional
Se os projetos demonstram a eficácia do modelo, são os testemunhos dos profissionais que revelam a sua profundidade humana. A passagem do modelo linear para o sistémico não é apenas uma mudança de organograma; é uma revolução na identidade profissional.
3.1. Perceções Iniciais: Um Mundo Distante e Intimidante
A visão inicial da investigação é frequentemente marcada por uma sensação de distância. Nos testemunhos, a investigação é descrita como abstrata e inacessível. Para Andréa Fuchs-Fateh, era “o domínio de investigadores isolados nos seus escritórios, a estabelecer hipóteses e a redigir artigos destinados a universitários”. Esta perceção é partilhada por Mathilde Schinz, que relata sentimentos de stress, insegurança e ilegitimidade, chegando a mencionar uma “sensação de impostura” ao assumir o papel de investigadora.
3.2. A Viragem: Da Co-construção ao Enriquecimento Mútuo
A experiência de colaboração direta atua como um catalisador para a mudança. Valérie Rytz destaca a importância da “co-construção”, onde a relação hierárquica percebida (a “superioridade” do investigador) dá lugar a uma relação horizontal de troca mútua. Andréa Fuchs-Fateh descreve a sua epifania ao perceber que a investigação pode fornecer ferramentas concretas e uma “linguagem comum” extremamente valiosa para a prática, desmistificando a sua natureza puramente teórica. A investigação deixa de ser vista como algo feito para os profissionais e passa a ser algo feito com eles.
3.3. Benefícios Concretos: Uma Nova Lente para a Prática Diária
Os benefícios tangíveis desta colaboração são múltiplos e impactam diretamente a prática diária dos profissionais:
1. Uma perspetiva reflexiva: Mathilde Schinz descreve o conceito de “câmara mental” que a investigação lhe proporcionou, uma ferramenta para autoanálise que lhe permite tomar distância da prática diária, observar as suas ações de forma crítica e compreender melhor as dinâmicas da sala de aula.
2. Validação e legitimidade: A colaboração valida as ideias e o trabalho dos profissionais, reforçando a sua legitimidade. Testemunhos de Sophie Kernen, Léna Rueflin e Valérie Rytz convergem neste ponto, explicando como a investigação forneceu uma estrutura e um reconhecimento que fortaleceram a sua confiança e identidade profissional.
3. Resolução de problemas práticos: O exemplo da ferramenta para os projetos pedagógicos individualizados (PPI), mencionado por Andréa Fuchs-Fateh, demonstra como a colaboração resolveu um problema institucional concreto de forma eficaz, criando um recurso prático e unificador que, de outra forma, não teria sido desenvolvido.
4. Um puzzle profissional completo: Sophie Kernen utiliza a metáfora de um puzzle para descrever como a investigação, a prática e a formação se encaixam, com cada peça a dar sentido ao todo. A investigação não é uma peça isolada, mas um elemento que completa e enriquece a sua identidade profissional global.
4. O Futuro da Educação: Uma Aliança Necessária
A relação entre a investigação e a prática está a evoluir de uma simples transferência de conhecimento para um ecossistema dinâmico e colaborativo. Esta nova aliança não é apenas benéfica; é necessária para o futuro da educação.
Este modelo beneficia todos os envolvidos: os investigadores obtêm conhecimentos valiosos de contextos reais, garantindo que o seu trabalho é relevante e aplicável, enquanto os profissionais ganham ferramentas, legitimidade e uma compreensão mais profunda e reflexiva do seu trabalho.
Como argumenta Samuel Grilli, esta integração é essencial para criar uma “linguagem comum” e promover uma cidadania educada, capaz de enfrentar os desafios complexos da sociedade. Uma comunidade que partilha uma base de conhecimento e uma abordagem científica está mais bem equipada para tomar decisões informadas.
Ao quebrar as barreiras entre a teoria e a prática, esta abordagem colaborativa tem o potencial de construir um sistema educativo mais reflexivo, eficaz e transformador, onde a investigação e a sala de aula avançam juntas, numa aliança para o progresso.



