Teresa Calçada e a construção de um país de leitores

© Fotografia de Pedro Loureiro | Revista LER |

Conhecida como “a senhora dos livros”, Teresa Calçada é uma figura central na arquitetura das políticas de leitura em Portugal. O seu trabalho foi a força motriz por trás da criação de infraestruturas essenciais como a Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) e o Plano Nacional de Leitura (PNL). Mas a sua liderança não foi apenas teórica; foi construída no terreno, numa prática incansável de percorrer o país, conhecer as bibliotecas e ouvir os bibliotecários. A sua carreira é a história de uma missão: transformar um país com baixos índices de literacia num país onde a leitura é um pilar da cidadania e da liberdade pessoal.

1. A filosofia central: ninguém nasce leitor, os leitores fazem-se

No cerne do trabalho de Teresa Calçada está uma convicção fundamental: a capacidade de ler não é um dom inato, mas uma competência que se constrói. “Nenhum leitor nasce leitor”, afirma. “Os leitores fazem-se com trabalho, com produção, com prática continuada.” Na sua perspetiva, ler bem é uma habilidade que exige esforço, treino e fluência, semelhante a outras artes performativas. Para ela, um bom leitor é alguém que cumpre duas condições essenciais: “gosta de ler e sabe ler”. Esta dualidade entre o prazer e a competência técnica é a base sobre a qual se devem erguer todas as políticas de promoção da leitura.

2. A infraestrutura: as redes de bibliotecas como pilar

Para transformar esta filosofia em realidade, Calçada compreendeu que era preciso construir as fundações físicas e humanas: uma rede de bibliotecas que funcionasse como a espinha dorsal do acesso ao conhecimento. A sua abordagem foi estratégica e multifacetada:

• Bibliotecas Públicas: O seu trabalho começou com o desafio de semear bibliotecas por um “país deserto delas”. Esta missão deu continuidade ao legado da Fundação Calouste Gulbenkian que, durante décadas, se tinha substituído ao Estado, estabelecendo as fundações da rede de leitura pública que viria a transformar o acesso ao livro em Portugal.

• A Rede de Bibliotecas Escolares (RBE): O seu grande projeto foi a RBE, que ela considera a “infraestrutura” essencial para a formação de leitores. Para Calçada, a biblioteca escolar transcende a função de um mero armazém de livros para se tornar um espaço de “procura de saber”. A sua visão transforma a biblioteca num laboratório ativo de investigação, pensamento crítico e literacia da informação, equipado com recursos físicos e digitais, crucial para a inclusão social.

• O Professor Bibliotecário: Calçada sempre defendeu que uma infraestrutura, por melhor que seja, é ineficaz sem profissionais qualificados. “O que verdadeiramente faz a diferença é ter lá pessoas que governam as bibliotecas”, sublinha. Esta visão estratégica levou à criação da categoria profissional dos “professores bibliotecários”, especialistas formados para garantir que o investimento público nas bibliotecas não seria desperdiçado e que estes espaços não ficariam “subaproveitados”, transformando-os no coração pulsante da escola.

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3. A dinâmica: o Plano Nacional de Leitura (PNL)

Se a RBE é a infraestrutura, o Plano Nacional de Leitura (PNL) é a “supraestrutura” que lhe dá vida e propósito social. O PNL foi concebido para criar uma narrativa nacional que valorizasse a leitura, transformando-a num objetivo coletivo e numa marca de prestígio. A sua implementação revela uma evolução estratégica e coesa:

1. Valorização Social: Primeiro, o PNL procurou transformar a leitura numa “marca de qualidade”, combatendo a ideia, especialmente entre os jovens, de que ler é uma “coisa ‘cota'”. Ao integrar o ato de ler no quotidiano como uma prática socialmente desejada, o plano construiu a base cultural para as suas ambições futuras.

2. Alargamento de Públicos: O sucesso na valorização social da leitura criou o capital político e cultural para justificar a sua expansão para além dos muros da escola. Com a sua evolução para PNL2027, o plano alargou o seu foco para incluir adultos em percursos formativos (através do projeto LerQualifica) e chegou até à população analfabeta, reconhecendo a literacia como uma necessidade ao longo de toda a vida.

3. Promoção do Prazer de Ler: Consciente de que a “leitura obrigatória” pode afastar potenciais leitores, o PNL investiu em mecanismos informais para cultivar o gosto pela leitura. A iniciativa “Clubes de Leitura nas Escolas”, por exemplo, promove a partilha entre pares e a negociação de leituras, criando um espaço de liberdade e descoberta que complementa a abordagem mais formal da sala de aula.

4. A abordagem: a leitura como ato afetivo e emocional

Para Teresa Calçada, a criação de um leitor é, antes de tudo, um processo humano e relacional. “A aproximação à leitura tem de ser afetiva, emocional”, defende. Esta abordagem é a sua principal estratégia para combater os grandes desafios da era digital, como o “medo de textos longos” e a “competição do entretenimento”. A forma mais eficaz de cultivar o hábito da leitura é através do exemplo: crianças que veem os pais e os professores a ler com entusiasmo são mais propensas a replicar essa prática. Calçada lamenta que a leitura esteja muitas vezes ausente “da programação da vida das famílias” e sublinha a importância de transformar o livro num objeto do dia a dia.

5. O percurso pessoal: as sementes de uma vida dedicada aos livros

A sua missão pública está profundamente enraizada na sua história pessoal. A paixão pelas bibliotecas nasceu por acaso, quando, como jovem professora de filosofia em Leiria, lhe atribuíram a gestão da biblioteca escolar. Numa iniciativa que revelou precocemente a sua filosofia, organizou a venda de papel velho para comprar “livros menos politicamente corretos e mais atrativos” para os alunos, priorizando o envolvimento e o prazer sobre os cânones rígidos.

Esta relação com os livros começou na infância. Aprendeu a ler cedo porque queria partilhar com o pai a leitura do jornal diário. Mais tarde, a amiga de uma mãe deu-lhe acesso a “livros que supostamente não podíamos ler”, abrindo-lhe as portas para a literatura como um espaço de liberdade. Ela própria se descreve como uma leitora que valoriza a profundidade em detrimento da velocidade: “Leio lento, mastigo… mastigo bastante as frases”.

6. Os desafios contemporâneos: ler na era digital

Teresa Calçada encara a era digital com uma visão equilibrada, reconhecendo que esta é simultaneamente uma “coisa fantástica” e um potencial “inimigo” da leitura profunda. A sua perspetiva, no entanto, não é antitecnológica, mas sim uma defesa das capacidades humanas essenciais face a um progresso acrítico. Como ela própria adverte, “nem todas as evoluções são progresso”, e é crucial questionar o que a sociedade arrisca perder. Identifica vários desafios específicos:

• A fragmentação da leitura: Os jovens leem, mas muitas vezes “leem mal”. A leitura torna-se um processo “fragmentado” e “disperso”, sem o treino de resiliência e atenção que os textos complexos exigem.

• O medo de textos longos: A cultura do “tempo rápido” é, na sua opinião, “fatal para a leitura continuada”. Os jovens assustam-se com textos mais extensos, pois não estão habituados ao esforço e à concentração que estes requerem.

• A competição do entretenimento: Vivemos numa “sociedade do entretenimento” em que a leitura compete com inúmeros outros “devices” e atividades tribais que captam a atenção, especialmente dos mais novos.

• O domínio da imagem: A necessidade crescente de que a imagem acompanhe o texto pode diminuir algumas competências leitoras, habituando o cérebro a um tipo de estímulo que não favorece a abstração e a imaginação puramente textuais.

7. A missão final: ler para a liberdade e a cidadania

O trabalho de uma vida de Teresa Calçada converge para um objetivo maior: a literacia como condição fundamental para uma sociedade livre e justa. A sua convicção é de que a competência leitora é a principal ferramenta para o progresso individual e coletivo. Ela argumenta de forma contundente que “muita da nossa pobreza está associada à nossa falta de literacia”, vendo a leitura como o antídoto mais eficaz contra a exclusão social. O acesso ao conhecimento e à cultura, mediado pela leitura, é a base para o exercício de uma cidadania ativa e crítica. Em última análise, a sua missão tem sido garantir que cada cidadão possa ser “mais livre e mais poderoso na sociedade em que vivemos”, pois saber ler é o primeiro passo para poder escolher.

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