A Biblioteca Joanina | Coimbra

A Biblioteca Joanina: O Magnífico Templo da Sabedoria de Coimbra

1. Introdução: Um Tesouro da Humanidade no Coração de Coimbra

A Universidade de Coimbra, instituição com mais de 700 anos de história desde a sua fundação pelo rei Dom Dinis, permanece como o epicentro do saber em Portugal. Reconhecida como Património Mundial da UNESCO em 2013, a Universidade abriga no seu seio uma joia arquitetónica sem paralelo: a Biblioteca Joanina. Esta obra-prima do Barroco europeu, encomendada há três séculos por Dom João V, transcende a função de mero repositório do saber. É, em toda a sua essência, um “templo laico” da sabedoria, onde a magnificência artística convida o visitante a uma jornada de descoberta intelectual e estética num cenário de opulência absoluta.

2. Dom João V: O Monarca Magnânimo e a Sua Obra

A edificação da então designada “Casa da Livraria” foi fruto da visão de Dom João V, o “Magnânimo”. O financiamento para este projeto monumental foi assegurado pela extraordinária riqueza do império, vinda sobretudo do Brasil através do “quinto” do ouro. Contudo, a biblioteca não nasceu apenas da riqueza, mas da mente de um rei profundamente culto e influenciado pelo Iluminismo.

Dom João V era um amante fervoroso da leitura — dedicando horas ao estudo, por vezes em detrimento das próprias refeições — e das ciências. Fundou a Academia de História, estabeleceu um Observatório Real no Paço e realizava pessoalmente observações astronómicas com instrumentos científicos de vanguarda trazidos do estrangeiro. Esta efervescência cultural estendeu-se à música, com o monarca a atrair para a sua corte vultos como Domenico Scarlatti e a proteger o talento nacional de Carlos Seixas. A biblioteca é, assim, o reflexo de um monarca que desejava que a sua obra fosse o “espelho do Rei”, projetando o seu poder e sabedoria sobre um mundo vasto.

3. Arquitetura e Simbolismo: As Três Salas da Sabedoria

Concluída em 1728, a biblioteca apresenta-se como uma autêntica “cápsula do tempo”, onde quase tudo permanece fiel ao século XVIII. Embora o autor do desenho original permaneça um mistério historiográfico — especulando-se sobre uma mão francesa ou italiana — a execução esteve a cargo do Mestre de Obras Gaspar Ferreira. Uma das maiores evidências da genialidade da sua construção são as paredes exteriores com 2,10 metros de espessura, que garantem uma temperatura e humidade constantes, preservando os livros sem necessidade de climatização moderna. Antes da eletricidade, o saber era colhido apenas sob a luz natural que penetrava pelas amplas janelas.

A estrutura organiza-se em três salas consecutivas sob a égide da Sabedoria, representada no centro de cada teto:

  • Primeira Sala: A Sabedoria surge rodeada pelos quatro continentes (Europa, Ásia, África e América), simbolizando o alcance global do império e do conhecimento.
  • Segunda Sala: O teto ostenta figuras mitológicas que representam a Honra, a Virtude, a Fama e a Fortuna, pilares do caráter humano.
  • Terceira Sala: Dedicada ao aspeto enciclopédico, onde as musas das artes e disciplinas como a Teologia, a Justiça e a Música presidem ao estudo.

No local onde numa igreja se encontraria o altar, destaca-se o retrato de Dom João V, reforçando a ideia de que o conhecimento ali guardado está sob a proteção direta da Coroa.

4. Tesouros e Engenharia: Entre Livros e Madeiras Exóticas

O interior é um prodígio decorativo. As estantes são adornadas com as famosas “chinoiseries” — pinturas de inspiração oriental — da autoria do artista português Manoel da Silva. As mesas de leitura, ou bofetes, são peças de arte únicas feitas de madeiras tropicais sob a direção de mestres italianos, tendo levado dois anos a concluir. Outro detalhe técnico fascinante são as escadas dissimuladas dentro das estantes, um design funcional que permite o acesso aos níveis superiores e que ainda hoje é utilizado.

O acervo, de cerca de 55 mil volumes, inclui tesouros digitalizados para consulta global, destacando-se:

  • A Bíblia Hebraica da família Abravanel, um manuscrito onde as decorações são, na facto, “micrografias” (versículos do Génesis que formam os desenhos).
  • O terceiro volume dos Roteiros da Índia de Dom João de Castro, contendo mapas detalhados do Mar Vermelho e da costa indiana.
  • A primeira edição de 1614 da obra “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto.
  • O pedido de patente da “Passarola” (o primeiro balão), submetido pelo visionário Bartolomeu de Gusmão quando este tinha apenas 23 anos, concedido por um Rei de apenas 19 anos.

5. Os Guardiões Noturnos e o Ecossistema da Biblioteca

Um dos aspetos mais curiosos deste ecossistema é a colónia de morcegos que habita o edifício. Estes animais são os “guardiões silenciosos”, pois alimentam-se de insetos que, de outra forma, devorariam o papel secular. Para proteger o património desta convivência necessária, cumpre-se um ritual secular: todas as noites, os bofetes de madeira preciosa são cobertos com peles de couro. Este gesto meticuloso assegura que o guano não danifique quimicamente as superfícies artísticas, mantendo o contacto entre a natureza e a cultura em perfeito equilíbrio.

6. Conclusão: Um Legado que Resiste ao Tempo

A Biblioteca Joanina é muito mais do que um monumento ao passado; é um local vivo de estudo onde a mente medita. Numa era de constante mutação, estes livros permanecem como “candeias na escuridão“, preservando a memória da humanidade contra o obscurantismo. Visitar este espaço de Coimbra é, por isso, uma experiência de proximidade física e espiritual com a sabedoria, um legado de Dom João V que continua a iluminar o presente.

Leave a Reply