A Inteligência Artificial e as arte de contar histórias: o instrumento e o humano

Por James McSill (a partir da gravação áudio da comunicação apresentada no XII Encontro Para Além das Princesas e Dragões – Albergaria-A-Velha

Há 51 anos, no dia 11 de fevereiro, James McSill começou a trabalhar com histórias pela primeira vez. Desde então, percorreu dezenas de países, em todos os continentes, sempre a mergulhar naquilo que mais o apaixona: a arte de contar e de ouvir histórias. E pode dizer-se que, nos últimos dois anos e meio, algo mudou radicalmente. Surgiu um instrumento novo — a inteligência artificial — e ele tem transformado tudo aquilo que se faz nesta área. Mas McSill prefere chamar-lhe o que é: uma ferramenta. Uma faca que fala.

A faca de fazer Sushi

McSill explica com uma metáfora que usa muitas vezes. Na sua cozinha, tem um painel cheio de instrumentos que foi recolhendo pelo mundo inteiro. Facas de todos os tipos, incluindo uma faca japonesa muito afiada, aprendida no Japão, para fazer sushi. Essa faca não corta o peixe por si. É ele que faz o sushi. Precisa do instrumento, mas o instrumento não o substitui.

A inteligência artificial é, no fundo, isso mesmo: uma faca que fala. Muito avançada, sem dúvida. Mas quem degusta o sushi somos sempre nós. Numa conferência há pouco tempo, alguém tentou convencê-lo de que os robôs irão, um dia, sentir o gosto das coisas. Talvez. Mas será o gosto de um robô. O gosto humano — esse — continuará a ser nosso.

As Histórias são um fenómeno humano

McSill tem a convicção profunda de que as histórias são e sempre serão um fenómeno humano. No futuro, vão coexistir três tipos: as histórias humanas, as histórias híbridas e as histórias produzidas por inteligência artificial. E cada uma terá o seu lugar — desde que sejamos honestos sobre o que estamos a oferecer.

Se ligar a sua IA para contar uma história à neta antes de ela adormecer, não há problema nenhum. Mas tem que estar claro: foi uma máquina que criou. Se se sentar ao lado dela e for a IA a estruturar enquanto ele a anima com a sua presença, têm uma história híbrida. E se simplesmente lhe contar a experiência de vida da família, com todas as imperfeições da memória e do afeto — isso é uma história humana. Nenhuma é inferior à outra. São diferentes. E é preciso aprender a classificá-las.

A imperfeição que nos une

McSill esteve recentemente num espetáculo em Shenzhen, na China, em que os músicos eram todos robôs. Nos primeiros dez minutos, havia um efeito de espanto genuíno. Mas a partir daí, a audiência começou a ficar desconfortável. Porquê? O nosso cérebro não foi feito para guardar dados. Foi feito para guardar histórias. E as histórias são sempre imperfeitas.

O que nos liga ao outro ser humano é precisamente saber que ele falha. McSill reconhece que carrega 70 anos de traumas acumulados. Quando conversa com alguém que também carrega os seus, há uma ligação real. Com a perfeição da máquina, essa ligação desaparece. A audiência em Shenzhen não conseguia perdoar, porque não havia nada a perdoar. E sem perdão, não há humanidade.

Histórias básicas e histórias coletivas

Nas sociedades ocidentais — e McSill fala a partir da experiência de quem trabalha igualmente na China, no Japão, na Coreia —, há uma falta grave de histórias coletivas. Vivemos cada vez mais as narrativas individuais, sem uma base que as sustente.

A avó de McSill nasceu no interior de Portugal em 1896 e emigrou para o sul do Brasil em 1902. Viveu quase 100 anos. Ele voltou aos 16 anos para viver quatro anos e meio com ela, porque queria aprender a sua língua, o seu português. Ela tinha o dom de criar uma história básica — uma narrativa de família que o ancorava. Quando aterrava em Lisboa, sentia-se em casa precisamente por causa dessa história. Quando chegava à Escócia, pelo lado da mãe — de quem nunca soube a origem real —, aquela sensação de pertença não existia.

A inteligência artificial pode ajudar a estruturar essas histórias de família. É possível pedir ao ChatGPT que organize os fragmentos fornecidos. Mas se lhe pedir que crie uma história de família do nada, ela vai criar. Só que será falsa. E como bem sabemos, já na época georgiana na Escócia, os ricos contratavam pintores para pintar antepassados fictícios que lhes dessem uma linhagem. A tecnologia muda; a tentação humana de inventar uma identidade é velha.

O blog, o banho e a transparência

Perguntam muitas vezes a McSill como usa a IA no seu próprio blog. A resposta é completamente honesta: ele adora banhos de banheira longos. É nesses momentos que grava as suas reflexões — responde a perguntas que lhe foram feitas, conta histórias, divaga. Quando sai do banho, pega nessa gravação, coloca-a na IA e pede que a edite como artigo. Depois, lê tudo. Corrige o que está errado, porque a IA alucina e inventa coisas que nunca foram ditas. E só então publica — deixando sempre claro que foi um processo híbrido.

McSill prefere sempre assim. Porque aquilo que não é ele não o representa. Prefere conversar com todas as suas falhas do que apresentar uma perfeição que não é sua.

A Educação como antídoto às fake news

Uma última palavra sobre as fake news, que se propagam dezenas de vezes mais depressa do que a verdade. O nosso cérebro foi literalmente construído para acreditar em histórias bem contadas — como Humberto Eco nos lembrou, somos feitos de histórias. Se a narrativa for convincente, acreditamos nela, disse alguém do público.

A solução está na educação. A Finlândia é um exemplo que McSill cita sempre: os professores ensinam as crianças a diferenciar uma história verdadeira de uma falsa. É matéria curricular. Não é complexo — é simplesmente necessário. As pessoas que caem em fake news não foram educadas para as identificar. Enquanto isso não mudar, continuaremos a ser vulneráveis.

A inteligência artificial vai continuar a evoluir. As mentes virtuais desenvolvidas no seu estúdio passaram de 1 milhão para 69 milhões de palavras em dois anos. Mas por mais avançada que seja a ferramenta, quem conta as histórias que importam — as que tocam, as que identificam, as que ligam uns aos outros — somos nós.

E isso não vai mudar tão cedo.

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[O kintsugi é descrito nas fontes como uma prática tradicional do Japão que consiste em emendar os fragmentos de um objeto quebrado, como um vaso, utilizando ouro.

De acordo com o orador, um aspeto fundamental desta técnica é que o objeto passa a valer mais depois de ser recuperado e emendado do que valia antes de se ter partido originalmente. Na discussão, este conceito é utilizado como uma metáfora para ilustrar a importância de uma base coletiva na sociedade; essa base permite que, mesmo quando as histórias ou experiências se fragmentam, os pedaços possam ser recolhidos e unidos novamente, ao contrário do que acontece em sociedades puramente individualistas onde os fragmentos tendem a perder-se.

Note que, embora a descrição detalhada do processo (unir cacos com ouro no Japão) esteja presente na fonte, o nome específico “kintsugi” não é explicitamente mencionado no texto, sendo este o termo técnico exterior às fontes para a prática descrita] in NotebookLM


James McSill é especialista em storytelling, trabalhou em todos os continentes e fundou um estúdio de mentes virtuais dedicado à intersecção entre narrativa humana e inteligência artificial.

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