Ler na Fonte | por Jordi Pérez Colomé
Não telefonam. Não escrevem e-mails. E brincam com a ortografia como se as regras fossem apenas sugestões. A Geração Alfa — nascida entre 2010 e 2025 — está a reinventar a forma como nos comunicamos, e os seus hábitos dizem muito sobre o mundo digital em que cresceram.
Ortografia funcional, não formal
“Sempre uso acentos e vírgulas, mas não pontos. E só uso letras maiúsculas quando me vêm à mente automaticamente”, conta Valeria, de 15 anos. Para esta geração, a ortografia não está morta — está ao serviço da comunicação, não das convenções. O critério é simples: desde que a mensagem seja compreensível, está feita.
A lógica, explica Cristian, de 14 anos, passa por “pegar as letras-chave de uma palavra que podem ser ditas em voz alta para que seja compreendida”. Removem letras para ganhar velocidade, mas acrescentam vogais para suavizar o tom. O resultado? Mensagens como “fuaaaaaa noseeeee” — uma expressão de genuína dúvida cartesiana traduzida para 2026.
“A regra é a preguiça”, resume Iker, de 16 anos, de Madrid. Não como crítica, mas como princípio: menos esforço, mais naturalidade, máxima expressividade.
Os stickers como nova linguagem
Os stickers — fotomemes com frases e um toque de hieróglifos modernos — tornaram-se elementos centrais desta gramática visual. “Tenho um amigo que literalmente conversa comigo através de stickers. Em vez de dizer ‘Vamos sair’, manda-me um sticker aleatório com a foto de uma celebridade. E se eu entendo, ótimo”, conta Iker.
Nos grupos de amigos mais próximos, os adesivos são personalizados e únicos. Mas o uso tem riscos: pornografia e insultos circulam com facilidade, e vários adolescentes admitem já ter visto stickers de professores criados para fins inapropriados.
O e-mail é o novo fax
Para a Geração Alfa, o e-mail serve para criar contas em redes sociais, receber códigos de verificação ou enviar ficheiros para imprimir. “Uso para enviar as minhas anotações para imprimir”, diz María, de 17 anos. Carolina, da mesma idade, confessa: “Envio e-mails para mim mesma para transferir fotos do computador para o telemóvel.”
A comparação é inevitável: o e-mail é para eles o que o fax era para a geração anterior — funcional em casos extremos, mas essencialmente obsoleto no dia a dia.
Chamadas? Só em caso de urgência
As chamadas telefónicas seguem a mesma trajetória. “Normalmente mando mensagem porque posso esperar uma resposta. Uma chamada fica a tocar até desligares, e isso irrita-me”, explica Amets, de 15 anos. A preferência é universal: mensagem primeiro, chamada apenas se for urgente, e nunca para desconhecidos.
“Nunca atendo chamadas de números que não reconheço”, afirma Verónica, de 15 anos — uma postura que, curiosamente, já não surpreende ninguém.
O que isto nos diz sobre a comunicação do futuro
Esta geração não está a destruir a linguagem. Está a adaptá-la às suas necessidades: velocidade, expressividade e contexto. As regras existem — só que são outras. Quem trabalha com jovens, seja em sala de aula ou em biblioteca escolar, tem muito a aprender sobre estes novos códigos. Compreendê-los é o primeiro passo para comunicar com quem vai moldar o futuro.


