Mitos EdTech: Desmontando o solucionismo tecnológico em educação

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A tecnologia não salva ninguém — e está na hora de admitirmos isso

Há uma crença que circula nas escolas, nos documentos de política educativa e nas conversas de sala de professores com uma insistência quase religiosa: a de que a tecnologia vai resolver o que a educação tem de mais difícil. A ligação à internet vai reduzir as desigualdades. A inteligência artificial vai personalizar a aprendizagem. As plataformas digitais vão tornar o ensino mais justo, mais aberto, mais eficaz. Basta adotar, integrar, implementar.

Chama-se a isto solucionismo tecnológico — um termo cunhado pelo analista Evgeny Morozov para descrever a tendência de tratar a tecnologia como resposta automática a problemas que são, na sua essência, humanos, sociais e políticos. E é exatamente este solucionismo que um livro recente, Mitos EdTech: Desmontando el solucionismo tecnológico en educación (Editorial UOC, 2024), se propõe desmontar — com evidências, com rigor e, sobretudo, com aquela vontade incómoda de dizer o que muita gente preferia não ouvir.

Coordenado por Cristóbal Suárez-Guerrero, Juliana E. Raffaghelli e Pablo Rivera-Vargas, o livro reúne especialistas de universidades de Barcelona, Florença, Edimburgo, Salamanca e do próprio Banco Mundial para examinar, um a um, os grandes mitos que sustentam a narrativa tecnológica na educação. Não para recusar a tecnologia — essa seria a leitura preguiçosa — mas para perceber o que ela pode realmente fazer e, sobretudo, o que não pode.


O que é um mito EdTech?

Os mitos não são mentiras evidentes. São narrativas suficientemente verdadeiras para serem acreditadas, suficientemente vagas para não poderem ser refutadas, e suficientemente úteis — para alguém — para continuarem a circular. Os mitos EdTech funcionam exatamente assim: nascem da intersecção entre agendas de mercado, entusiasmo pedagógico bem-intencionado e pressão política para “modernizar” os sistemas de ensino.

O solucionismo tecnológico, como nota o livro, está “fortemente arraigado num determinismo tecnológico e nos interesses económicos e de marketing do capitalismo na sua versão mais atual: o capitalismo de vigilância”. Quando a pandemia transformou o digital na única resposta possível à escola fechada, esses mitos atingiram um pico de influência — e as suas fragilidades tornaram-se imediatamente visíveis.

O livro identifica e analisa nove mitos principais, agrupados em dois conjuntos: os que atribuem à tecnologia propriedades “inatas” (causalidade, homogeneidade digital, objetividade, imaterialidade e gratuidade) e os que se articulam com problemas socioeducativos específicos (inteligência, educação aberta, emancipação e justiça social).


Mito 1: A tecnologia causa aprendizagem

É talvez o mais persistente de todos. A ideia de que há uma relação causal direta entre o uso de tecnologia e a melhoria da aprendizagem — que basta colocar um dispositivo na mão de um aluno para que algo aconteça de melhor. María Ranieri, da Universidade de Florença, descortina aqui três aporias fundamentais que a inteligência artificial em educação torna ainda mais evidentes:

  • Automatização versus autonomia: os sistemas de IA são treinados para otimizar respostas predeterminadas, mas aprender é, por natureza, um processo aberto e imprevisível;
  • Opacidade versus compreensão: as decisões dos algoritmos são opacas, o que contradiz a necessidade de transparência que sustenta qualquer relação pedagógica;
  • Imitação versus confiança: a IA imita respostas humanas, mas a confiança — base da relação educativa — não se constrói por imitação.

A aprendizagem não é um fenómeno técnico. É um fenómeno humano que pode ou não ser apoiado pela tecnologia, dependendo de inúmeros fatores que nenhuma ferramenta controla sozinha.


Mito 2: O digital nivela as desigualdades

“Dar um tablet a cada aluno” tornou-se o emblema de uma política educativa que confunde acesso com equidade. Cristóbal Cobo e Pablo Rivera-Vargas mostram que a chamada homogeneidade digital — a suposição de que todos os utilizadores de tecnologia têm o mesmo ponto de partida e o mesmo potencial de benefício — ignora diferenças profundas e reais: de competência, de contexto familiar, de capital cultural, de condições materiais.

A equidade digital não se resolve com dispositivos. Implica oportunidades adaptadas, literacia real, autonomia de uso e condições socioeconómicas que nenhuma app substitui. E quando a política se concentra no objeto tecnológico, desvia a atenção das causas estruturais que deveria enfrentar.


Mito 3: A ciência prova que a tecnologia funciona

Há um mercado de “evidências” sobre eficácia educacional que merece leitura atenta. Manuel Area Moreira, Juliana Raffaghelli e Jordi Adell Segura analisam como a tríade evidência-métricas-tecnologia funciona muitas vezes ao serviço de interesses económicos: quem financia a investigação, quem define os indicadores, quem beneficia dos resultados. A objetividade proclamada é, frequentemente, uma objetividade fabricada — ou pelo menos filtrada por quem controla a agenda de investigação.

Não se trata de rejeitar a evidência. Trata-se de saber ler criticamente quem a produz e para quê.


Mito 4: O virtual é imaterial e está fora do mundo

“Está na cloud” tornou-se sinónimo de “está em todo o lado e não ocupa lugar”. Mas Cristóbal Suárez-Guerrero, Inés Dussel e Julio-César Mateus lembram-nos que a experiência virtual tem uma materialidade muito concreta: os servidores consomem energia, os corpos estão presentes mesmo quando a câmara está desligada, o contexto sociocultural não desaparece porque se ligou ao Zoom. A virtualidade não é o contrário do real — é uma forma particular de real, com as suas fricções, as suas exclusões e as suas condições.


Mito 5: As plataformas educativas são gratuitas

Ben Williamson, da Universidade de Edimburgo, é direto: nada é gratuito. As plataformas educativas que se apresentam como serviços sem custo sustentam-se em modelos de captura de dados, monopolização progressiva e orientação do comportamento — dos alunos, dos professores, das instituições. O “capitalismo de plataforma” chegou à educação com sorrisos e logótipos amigáveis, mas a lógica de negócio subjacente é a mesma que sustenta as grandes redes sociais: o utilizador não é o cliente, é o produto.


Mito 6: A IA vai substituir os professores (ou: a inteligência de silício chega a tudo)

Francisco José García-Peñalvo, da Universidade de Salamanca, dedica-se a desmontar o pânico — e o fascínio — em torno da inteligência artificial como substituta do professor. A IA é extraordinária em muitas tarefas. Mas educar não é apenas transmitir informação: é construir relação, provocar sentido, acompanhar o crescimento de outra pessoa. Nenhum modelo de linguagem, por mais sofisticado que seja, faz isso. E confundir simulação com inteligência — ou eficiência com pedagogia — é o erro que o mito da inteligência perpetua.


Mito 7: A educação aberta é naturalmente justa

“Open” tornou-se uma palavra poderosa: open access, open educational resources, MOOCs abertos ao mundo. Caroline Kuhn mostra que a abertura formal não garante abertura real. Acesso livre a conteúdos não equivale a participação equitativa na produção do conhecimento. Os recursos abertos continuam a ser maioritariamente produzidos por países do Norte global, em inglês, com pressupostos culturais específicos. A “educação aberta” pode ser mais um véu ideológico do que uma prática transformadora — a menos que se interrogue seriamente quem abre o quê, para quem e em que condições.


Mito 8: A tecnologia liberta

Marina Garcés Mascareñas e Gustavo Herrera Urízar abordam talvez o mito mais sedutor: o da emancipação. A tecnologia como dispositivo libertador do tempo e do espaço, que permite aprender em qualquer lugar, a qualquer hora, segundo o ritmo de cada um. O problema é que esta liberdade é frequentemente uma liberdade neoliberal — individual, descontextualizada, compatível com plataformas e incompatível com coletividade. Delegar a inteligência nas máquinas não liberta: fragiliza a autonomia, dissolve o pensamento crítico e substitui a responsabilidade coletiva pela personalização algorítmica.


Mito 9: A tecnologia digital produz justiça social

Judith Jacovkis e Aina Tarabini concluem com uma afirmação que parece simples mas tem muito peso: “a tecnologia digital é tão justa como a sociedade que a criou”. Não há tecnologia neutra. As ferramentas carregam os valores, as assimetrias e os interesses de quem as projeta, financia e distribui. Esperar que um instrumento mude as estruturas que o produziram é, no mínimo, ingénuo. A tecnologia pode ser aliada da justiça social — mas nunca a sua causa nem a sua garantia.


Então, o que fazemos com tudo isto?

A resposta fácil seria o pessimismo. Mas o livro — e esta reflexão — não está no campo do pessimismo. Está no campo da pedagogia digital crítica: aquela que usa a tecnologia com consciência, que interroga os discursos que a rodeiam, que recusa tanto o entusiasmo acrítico como o pânico performativo.

O que muda, na prática?

Muda a pergunta que fazemos antes de adotar uma ferramenta: não “isto funciona?” mas “funciona para quê, para quem, em que condições, com que custos?”. Muda a forma como lemos as notícias sobre “revolução educativa” — com curiosidade, mas também com desconfiança analítica. Muda o papel que assumimos enquanto educadores: não de utilizadores acríticos de plataformas, mas de mediadores entre as ferramentas e os seres humanos que as usam.

Albert Sangrà, que escreve o prólogo do livro e dirige a Cátedra UNESCO em Educação e Tecnologia para a Mudança Social, resume bem: “Nem é de recibo exigir à tecnologia que resolva tudo o que não somos capazes de resolver sem ela, nem pensar em ‘inimigos externos’, quando talvez os tenhamos dentro.”

A tecnologia não salva ninguém. Mas as pessoas — com as perguntas certas, com a formação adequada, com pensamento crítico — podem usar a tecnologia para fazer coisas que valem muito a pena. Essa distinção não é pequena. É, na verdade, tudo.


Referência: Suárez-Guerrero, C., Raffaghelli, J. E. & Rivera-Vargas, P. (coords.) (2024). Mitos EdTech: Desmontando el solucionismo tecnológico en educación. Editorial UOC. [Disponível em acesso aberto sob licença Creative Commons BY-NC-ND]

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