Nativos digitais ou ingénuos digitais? O que revela um novo relatório britânico sobre os jovens e a tecnologia

Download |

Os jovens de hoje cresceram rodeados de ecrãs. Sabem navegar no TikTok de olhos fechados, dominam o Snapchat e constroem mundos inteiros no Minecraft. Mas será que isso os torna digitalmente competentes? Um relatório publicado em abril de 2026 pela AQA — a maior entidade certificadora de exames em Inglaterra — responde com um título provocador: “Digitally native or digitally naïve?”. A resposta, sustentada por inquéritos a milhares de estudantes, pais e professores, é menos tranquilizadora do que gostaríamos.

A ilusão da competência

O estudo inquiriu mais de mil jovens entre os 11 e os 18 anos, um número equivalente de pais e de professores do ensino secundário, além de dois mil cidadãos britânicos. Os dados foram recolhidos pela empresa Savanta e complementados por grupos focais com estudantes e docentes.

O retrato que emerge é paradoxal. Por um lado, 74% dos jovens dizem-se confiantes a usar o TikTok e 61% sentem-se à vontade no Snapchat. Por outro, apenas 52% se sentem confiantes com o Word, 38% com o PowerPoint e 36% com o Excel. A confiança nas redes sociais mascara lacunas profundas em ferramentas que continuam a ser essenciais no mundo do trabalho.

Um estudante do 10.º–11.º ano resumiu a questão de forma eloquente nos grupos focais: sentia-se muito confiante nas redes sociais, mas quando passava para aplicações como o Word ou o Excel, as coisas complicavam-se. Não é um caso isolado — é um padrão.

A desinformação como ângulo morto

Se a lacuna nas ferramentas de produtividade é preocupante, o défice de pensamento crítico digital é alarmante. Apenas 59% dos jovens se sentem confiantes a distinguir uma notícia verdadeira de uma falsa — o valor mais baixo entre todos os grupos inquiridos. Só 57% dizem compreender o viés mediático. E 30% admitem partilhar informação online sem verificar se é verdadeira.

Mais inquietante ainda: 34% dos jovens revelaram ter partilhado dados pessoais — nome completo, escola, localização — com desconhecidos na internet. Nos mais novos (11–13 anos), essa percentagem sobe para 38%.

Estes números ganham uma gravidade adicional quando cruzados com o contexto atual: a proliferação de conteúdos gerados por inteligência artificial, de deepfakes cada vez mais convincentes e de esquemas de phishing sofisticados. Um professor de ciências, responsável por uma turma do 13.º ano, descreveu muitos dos seus alunos como “muito digitalmente ingénuos” na forma como partilham informação, apesar de se considerarem utilizadores avançados.

O que os jovens pedem (e os professores confirmam)

Há, contudo, uma nota de esperança: os próprios jovens reconhecem esta lacuna e querem aprender. 59% dos estudantes afirmam querer aprender sobre literacia digital na escola, e 87% querem saber mais sobre como identificar desinformação. Os temas que mais lhes interessam incluem o uso de inteligência artificial (50%), programação (48%), criatividade digital (48%) e segurança online (45%).

Do lado dos docentes, o apoio é ainda mais expressivo: 84% são favoráveis à introdução de novos conteúdos de literacia digital. Mas há um problema — muitos professores sentem-se pouco preparados para ensinar uma área que muda a uma velocidade vertiginosa. Nas palavras de um docente participante no estudo, os educadores não dispõem das ferramentas nem da formação necessárias para compreender o impacto positivo ou negativo da IA, e muitas escolas estão simplesmente a recuar perante o tema.

Ensinar literacia digital: onde e como?

O relatório é claro na sua principal recomendação: a literacia digital não pode ficar confinada à disciplina de Informática. Embora esta disciplina seja o veículo natural para os conteúdos mais técnicos, as competências de avaliação crítica, segurança online e uso ético da tecnologia atravessam todas as áreas disciplinares.

O estudo propõe quatro eixos de ação:

Primeiro, integrar a literacia digital em todo o currículo — não apenas na Informática, mas em disciplinas como Inglês (análise de retórica e propaganda), Geografia (sistemas de informação geográfica), Educação para a Cidadania (desinformação e deepfakes) ou Línguas Estrangeiras (avaliação crítica de traduções automáticas).

Segundo, criar um quadro de referência coerente e sistémico que defina conhecimentos, competências e progressão ao longo de todos os ciclos de ensino.

Terceiro, investir na formação de professores e em recursos de qualidade — materiais prontos a usar, adaptáveis por não-especialistas, que reduzam o tempo de preparação e aumentem a confiança dos docentes.

Quarto, mobilizar os organismos de avaliação e certificação para desenvolver modelos práticos e escaláveis de integração da literacia digital nos programas existentes.

Clicar na imagem para ver a apresentação…

O que nos ensinam outros países

O relatório analisa exemplos internacionais que merecem atenção. A Finlândia, que lidera os índices europeus de literacia digital, integra competências digitais em todas as disciplinas desde a educação pré-escolar e realiza todos os exames em formato digital desde 2019. Criou uma biblioteca nacional aberta de recursos educativos digitais, disponível gratuitamente para professores e alunos.

A Irlanda classificou a literacia digital como pilar curricular ao mesmo nível da literacia e da numeracia, e desenvolveu um portal de apoio às escolas — o Digital Learning Framework — para orientar a integração progressiva de competências digitais em todas as disciplinas.

A Austrália mantém uma disciplina nuclear de Tecnologias Digitais, mas desdobra as competências por todas as áreas curriculares, organizando-as em quatro dimensões: segurança e bem-estar digital, investigação, criação e troca, e gestão e operação.

Em todos estes casos, há dois denominadores comuns: a literacia digital é tratada como competência transversal (e não como exclusivo de uma disciplina) e os professores recebem apoio estruturado para a integrar na sua prática.

Porque é que isto nos diz respeito

Embora o relatório da AQA se centre no contexto inglês, as questões que levanta são universais. O fosso entre o uso recreativo da tecnologia e a competência digital real não respeita fronteiras. A desinformação não tem nacionalidade. A necessidade de formar jovens capazes de avaliar fontes, proteger a sua identidade digital e usar ferramentas de produtividade com confiança é tão urgente em Lisboa como em Londres.

O custo da inação é elevado. No Reino Unido, estima-se que a lacuna em competências digitais custe 63 mil milhões de libras por ano à economia. Cerca de 7,3 milhões de adultos empregados carecem de competências digitais básicas, e apenas 48% dos estudantes terminam a escolaridade com as competências digitais de que necessitam.

Estes dados interpelam-nos diretamente. Num momento em que a inteligência artificial redefine o que significa ser digitalmente competente, não basta que os jovens saibam que botões carregar. Precisam de compreender o que está por trás do ecrã — e a escola tem de os preparar para isso.


Fonte: Steedman Thake, A. (2026). “Digitally native or digitally naïve?” Rethinking digital literacy in schools. AQA. https://www.aqa.org.uk


    Leave a Reply