Nativos digitais ou ingénuos digitais? O que a escola ainda tem de aprender sobre literacia digital

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Há uma ideia que se instalou no discurso educativo com a força de uma evidência: a de que os jovens de hoje já sabem usar a tecnologia. Cresceram com ecrãs, navegam nas redes sociais com uma fluência que envergonha muitos adultos, e adaptam-se a novas aplicações em minutos. São, diz-se com alguma admiração, nativos digitais.

Só que esta ideia é, em larga medida, uma ilusão. E um relatório publicado em abril de 2026 pela AQA — uma das principais entidades avaliativas do sistema de ensino britânico — vem documentá-la com uma riqueza de dados que merece atenção muito além das fronteiras do Reino Unido.

O estudo chama-se “Digitally native or digitally naïve? Rethinking digital literacy in schools” e é assinado por Adam Steedman Thake, responsável de política e evidência na AQA. Para o produzir, a equipa de investigação ouviu mais de cinco mil pessoas — estudantes entre os 11 e os 18 anos, pais, professores e membros do público em geral —, conjugando inquéritos por questionário com grupos de discussão focada. O resultado é um retrato simultaneamente preocupante e estimulante: preocupante pelo que revela sobre o que os jovens não sabem fazer; estimulante porque mostra que todos os intervenientes querem mudar esta situação.

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O paradoxo que a sala de aula já conhece

Pergunte a um aluno de secundário se sabe usar o TikTok. A resposta será, quase certamente, um sorriso de quem acha a pergunta ingénua. Pergunte-lhe agora se sabe criar uma folha de cálculo, identificar uma notícia falsa ou proteger os seus dados pessoais num formulário online. O sorriso desaparece.

Esta é, em síntese, a contradição que o estudo da AQA documenta com uma clareza desconfortável. Entre os jovens inquiridos, 79% afirmaram usar o TikTok regularmente e 67% o Snapchat. Mas apenas 52% disseram ter alguma vez usado o Word, 47% o PowerPoint e 36% o Excel. São precisamente as ferramentas que qualquer empregador, estabelecimento de ensino superior ou serviço público espera que os jovens dominem quando saem da escola.

Mais revelador ainda é o dado sobre a confiança na deteção de desinformação. Apenas 59% dos jovens disseram sentir-se confiantes para reconhecer se uma notícia é verdadeira ou falsa — uma percentagem que os próprios pais (63%) e professores (72%) superam com folga. E 30% dos estudantes admitiram partilhar informação online com frequência sem verificar se é verdadeira. Um em cada três jovens, portanto, contribui ativamente para a circulação de conteúdos que podem não ser fiáveis — não por má-fé, mas por falta de ferramentas críticas.

O dado que talvez mais deva perturbar quem trabalha em contexto escolar é este: 34% dos jovens disseram já ter partilhado informação pessoal — nome completo, escola, localização — com pessoas que não conheciam online. Entre os mais novos, os que têm entre 11 e 13 anos, essa percentagem sobe para 38%. São crianças. E estão a fazê-lo sem que ninguém lhes tenha explicado, de forma estruturada, os riscos que isso comporta.


Usar não é o mesmo que compreender

Há uma distinção fundamental que o relatório da AQA ajuda a tornar clara e que os professores conhecem bem na prática: a diferença entre usar tecnologia e compreender tecnologia. Um jovem pode passar horas no YouTube sem saber nada sobre como os algoritmos selecionam o que lhe é mostrado. Pode usar o ChatGPT para fazer um trabalho sem ter a menor ideia de como funcionam os modelos de linguagem, quais as suas limitações ou que tipo de erros produzem. Pode navegar em dez aplicações por dia sem perceber o que acontece aos seus dados pessoais.

A expressão “nativo digital” foi cunhada por Marc Prensky em 2001 com uma intenção descritiva razoável para o momento em que vivemos. Mas acabou por criar uma expectativa perigosa: a de que a familiaridade com os dispositivos equivale a competência digital. O relatório da AQA desmonta esta ideia de forma sistemática. Um dos professores citados diz-o sem rodeios: “Infelizmente, muitos destes jovens são muito ingénuos do ponto de vista digital… a forma como partilham informação revela uma ingenuidade real sobre os riscos de estar tão presentes online.”

O que os jovens reconhecem como competência é, muitas vezes, a fluência de superfície. Sabem carregar em botões. Sabem navegar em interfaces. Mas não sabem avaliar criticamente a informação que encontram, não sabem produzir documentos organizados, não sabem identificar um esquema de phishing, não sabem questionar o que veem. Apenas 51% dos utilizadores de motores de busca conseguiram identificar resultados patrocinados numa pesquisa — algo que a maioria dos adultos também falha, mas que a escola poderia e deveria trabalhar.


O que os professores dizem — e o que precisam

Os professores inquiridos pelo estudo mostram-se, na sua grande maioria (84%), favoráveis à introdução de conteúdos de literacia digital mais estruturados no currículo. É um número expressivo, que diz muito sobre a consciência que existe dentro das escolas relativamente a este problema. Mas esse mesmo entusiasmo vem acompanhado de uma confissão que é, ela própria, um dado de política educativa: muitos professores sentem que não têm as ferramentas nem a formação necessárias para o fazer bem.

O ritmo a que a tecnologia evolui tornou-se um obstáculo real. Um professor que se sentisse razoavelmente confortável a falar sobre privacidade online há cinco anos pode hoje estar perdido perante as questões que os alunos trazem sobre inteligência artificial generativa, deepfakes ou algoritmos de recomendação. O relatório regista esta tensão com uma honestidade que merece apreço: “Enquanto educadores, não nos são dados os instrumentos nem a formação para compreender o impacto que a IA pode ter, de forma positiva ou negativa. Por isso sinto que não estou em condições de orientar totalmente os alunos sobre o que devem ou não devem fazer — e acho que muitas escolas estão a recuar um pouco nesta matéria.”

Esta fragilidade tem consequências que vão além da sala de aula. Se um professor não está seguro na sua própria literacia digital, a responsabilidade de preparar os jovens recai sobre as famílias. E as famílias, evidentemente, não estão todas em igualdade de condições para o fazer. O fosso digital não é apenas um fosso de acesso a dispositivos — é também um fosso de competência, e esse fosso reproduz desigualdades sociais que a escola deveria ajudar a esbater, não a aprofundar.

Os professores envolvidos nos grupos de discussão foram muito concretos sobre o que precisam: não tanto nova tecnologia nas escolas, mas recursos de qualidade que possam usar sem precisar de ser especialistas, orientações claras sobre o que ensinar em cada disciplina e em cada ano, e tempo no horário para o fazer. Alguém também sinalizou uma ideia que merece reflexão: um ponto focal dentro de cada escola — uma figura com responsabilidade explícita pela coordenação da literacia digital — poderia fazer uma diferença considerável na forma como este tema ganha consistência e continuidade.


A literacia digital não é uma disciplina. É uma postura.

Uma das conclusões mais interessantes do relatório é que a literacia digital não cabe dentro de uma única disciplina. Os professores de Informática ou Tecnologias têm, naturalmente, um papel central — e 77% dos jovens inquiridos indicaram esses docentes como os mais adequados para tratar estes temas. Mas o próprio estudo, e os professores que participaram nos grupos de discussão, reconhecem que isso não chega.

A razão é simples: se a literacia digital for ensinada apenas em Informática, os alunos que não escolhem essa via ficam sem acesso a competências que são fundamentais para todos. E mesmo os que a frequentam terão dificuldade em transferir o que aprendem para outros contextos se nunca virem esses conceitos aplicados noutras disciplinas.

O relatório propõe — e esta é talvez a sua contribuição mais prática — que a literacia digital seja integrada transversalmente no currículo. Em Português, os alunos podem analisar como as técnicas de retórica e persuasão funcionam nos textos digitais e nas redes sociais. Em Ciências, podem avaliar a fiabilidade de fontes online quando pesquisam informação para um trabalho. Em Cidadania, podem discutir o impacto dos algoritmos na formação de opinião pública e na participação democrática. Em Línguas Estrangeiras, podem comparar as traduções produzidas por sistemas de inteligência artificial com traduções humanas, desenvolvendo simultaneamente competência linguística e pensamento crítico sobre as limitações desses sistemas.

Esta abordagem transversal não exige que todos os professores se tornem especialistas em tecnologia. Exige, isso sim, que cada professor identifique os momentos em que a sua disciplina toca naturalmente nas questões da literacia digital — e as aproveite. É um convite à integração, não à substituição.


O que se passa noutros países — e o que Portugal pode aprender

O relatório dedica uma secção considerável a estudos de caso internacionais, e os exemplos que apresenta são instrutivos para quem pensa políticas educativas — em Portugal ou em qualquer outro país.

A Finlândia, que tem historicamente um dos sistemas de ensino com maior nível de literacia digital, começou a trabalhar estas competências desde a educação pré-escolar. Os exames nacionais são inteiramente digitais desde 2019. O país mantém uma biblioteca nacional de recursos educativos abertos, acessível gratuitamente a todos os professores e alunos. A chave do modelo finlandês não está apenas na tecnologia disponível — está na filosofia que a enquadra: o conceito de Bildung digital, que entende a literacia digital não como um conjunto de ferramentas, mas como um caminho de desenvolvimento pessoal e cívico.

A Irlanda, mais próxima do contexto lusófono em dimensão e em muitos traços do sistema de ensino, integrou a literacia digital como um pilar do currículo ao mesmo nível da leitura e da numeracia. A sua estratégia digital para as escolas, que vai até 2027, assenta numa abordagem que coloca a pedagogia antes da tecnologia: a tecnologia entra na sala de aula para enriquecer a aprendizagem, não para substituir o que já funciona. O país mantém ainda uma base de dados colaborativa de recursos multimédia — o Scoilnet — que qualquer professor pode consultar e utilizar livremente.

A Austrália optou por um modelo misto: tem uma disciplina central de Tecnologias Digitais, mas as competências digitais são integradas em todas as outras áreas do currículo. É um modelo que reconhece a especificidade técnica sem a confinar a um gueto disciplinar.

Portugal não parte do zero. O Plano de Ação para a Literacia Mediática e a revisão do currículo nacional iniciada nos últimos anos criaram condições para uma integração mais consistente da literacia digital no dia a dia das escolas. Mas os dados que o relatório da AQA apresenta para o contexto britânico encontram eco suficiente nas observações de muitos profissionais de educação portugueses para que valha a pena usá-los como espelho. As perguntas que o estudo coloca são universais: os nossos alunos sabem distinguir uma notícia verdadeira de uma falsa? Sabem o que acontece aos seus dados quando instalam uma aplicação? Sabem trabalhar com as ferramentas digitais que o mercado de trabalho e o ensino superior irão pedir?


O que as escolas podem começar a fazer agora

O relatório da AQA não é apenas um diagnóstico — é também um convite à ação. Para as escolas portuguesas, mesmo antes de qualquer reforma curricular de grande escala, há caminhos concretos que podem ser percorridos.

O primeiro é o mais imediato: criar espaço para que professores de diferentes disciplinas conversem entre si sobre onde a literacia digital já aparece naturalmente no que ensinam — e como podem torná-la mais explícita. Uma sessão de grupo de trabalho bem facilitada pode revelar oportunidades que ninguém tinha identificado formalmente.

O segundo é trabalhar com os alunos a partir dos seus próprios hábitos digitais, sem os julgar. Perguntar-lhes como escolhem as fontes que usam para um trabalho, o que fazem quando encontram algo que parece suspeito, como gerem a sua privacidade online — estas conversas têm um valor pedagógico imenso e partem de onde os alunos realmente estão.

O terceiro é levar a desinformação para dentro da sala de aula de forma estruturada. Há hoje recursos de qualidade — nacionais e internacionais — que ensinam alunos de diferentes faixas etárias a verificar factos, a identificar manipulações visuais, a ler além do título. Usá-los não requer que o professor seja um especialista em jornalismo ou em ciência de dados.

O quarto, e talvez o mais difícil, é reconhecer honestamente que os próprios professores precisam de atualização contínua nesta área — e reivindicar essa formação de forma organizada, não como um favor, mas como uma condição profissional legítima.


Porque isto importa para além da escola

Há um dado no relatório que é difícil de deixar passar sem comentário. A Casa dos Lordes britânica, numa comissão parlamentar dedicada aos meios de comunicação e ao ambiente digital, alertou para uma potencial ameaça à democracia caso a literacia mediática não seja melhorada de forma sistémica. A Fundação Nuffield, por sua vez, encontrou uma relação positiva sólida entre a literacia noticiosa e o envolvimento cívico em crianças e jovens: quem sabe ler criticamente as notícias tende a participar mais ativamente na vida democrática.

Isto significa que quando uma escola trabalha literacia digital — quando ensina um aluno a verificar uma fonte, a identificar um deepfake, a perceber como os algoritmos moldam o que vê — não está apenas a prepará-lo para o mercado de trabalho. Está a prepará-lo para ser cidadão. Está a contribuir para que a democracia tenha mais hipóteses de funcionar.

Num momento em que a desinformação circula a uma velocidade sem precedentes e em que a inteligência artificial generativa torna cada vez mais difícil distinguir o real do fabricado, esta dimensão cívica da literacia digital não é um ornamento — é uma necessidade. E a escola é o único espaço verdadeiramente universal onde esta formação pode acontecer de forma equitativa, para todos, independentemente do que se passa em casa.

Os nossos alunos merecem mais do que aprender a carregar em botões. Merecem aprender a pensar sobre o mundo digital que habitam. Isso é, no fundo, o que um bom professor sempre fez — apenas com novos instrumentos.


Referências bibliográficas

Steedman Thake, A. (2026). “Digitally native or digitally naïve?” Rethinking digital literacy in schools. AQA. https://www.aqa.org.uk

Coldwell-Neilson, J. (2020). Unlocking the code to digital literacy – Final Report 2020. Australian Department of Education, Skills and Employment. https://ltr.edu.au/resources/FS16-0269_Coldwell-Neilson_Report_2020.pdf

Ng, W. (2012). Can we teach digital natives digital literacy? Computers & Education, 59(3), 1065–1078. https://doi.org/10.1016/j.compedu.2012.04.016

Royal Society. (2025). System upgrade required. The Royal Society.

House of Commons Library. (2024, abril). Digital skills statistics. UK Parliament.

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