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Desde que existem exames, que há quem os consiga contornar. As cábulas escritas na palma da mão, os olhares furtivos para o caderno do colega ou os apontamentos miniaturizados são tão antigos quanto a própria ideia de prova escrita. O que mudou, nas últimas semanas, é a escala e a sofisticação do problema — e a velocidade com que ultrapassa a capacidade de resposta das escolas e dos sistemas educativos.
Em junho de 2026, a CNN noticiou uma série de casos que colocaram os óculos inteligentes com inteligência artificial no centro do debate sobre integridade académica. Na Coreia do Sul, duas pessoas foram apanhadas a usar óculos com IA durante um exame de proficiência em inglês cujos resultados são frequentemente utilizados para decisões de contratação profissional. Em Taiwan, um candidato a uma das mais prestigiadas faculdades de Medicina foi descoberto com óculos inteligentes depois de os vigilantes notarem que fixava o enunciado de forma invulgar; uma inspeção revelou que as armações emitiam calor. Na China, o exame nacional de acesso à universidade — o temido gaokao, que mobiliza anualmente mais de dez milhões de candidatos — passou a exigir a verificação de todos os óculos à entrada das salas.
Estes casos não são episódios isolados de um fenómeno exótico. São sintomas de uma transformação tecnológica que está a chegar às escolas de todo o mundo, incluindo às portuguesas, e que obriga educadores, decisores políticos e famílias a confrontar-se com uma pergunta incómoda: continuamos a avaliar como no século passado, ou aceitamos que o mundo mudou e redesenhamos a avaliação à altura desse mundo?
Quando os óculos respondem pelo aluno
Para compreender a dimensão do desafio, vale a pena deter-mo-nos na experiência conduzida por Meng Zili, professor assistente na Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong (HKUST). Há cerca de um ano, durante a vigilância de um exame, Meng reparou num par de óculos particularmente estilizados usados por um estudante. Como investigador na área dos óculos com IA, as armações chamaram-lhe a atenção. Eram óculos comuns — mas o episódio serviu de catalisador para uma investigação que viria a confirmar os piores receios.
Meng decidiu testar óculos inteligentes comerciais num exame de nível universitário de engenharia eletrotécnica. O funcionamento era simples e devastadoramente eficaz: bastava olhar para o enunciado para que os óculos transmitissem as perguntas a um modelo de linguagem de grande escala, que gerava as respostas e as projetava nas lentes. O resultado obtido pelo dispositivo ficou entre os cinco melhores da turma, numa classe de mais de cem alunos, superando significativamente a média de 72 pontos.
A experiência levou Meng a formular publicamente uma questão que muitos professores reconhecerão: quanto conhecimento é que os alunos precisam efetivamente de memorizar para os exames, quando a IA é já capaz de fazer o que lhes pedimos que façam?
Zhang Jun, professor de engenharia eletrotécnica na mesma universidade e co-responsável pelo projeto, resumiu o dilema de forma direta: a tecnologia e a IA evoluem a uma velocidade que a educação no terreno tem dificuldade em acompanhar, e todos os professores o sentem. A questão real, argumentou, é a rapidez com que conseguimos repensar e adaptar o sistema educativo — a forma como ensinamos e a forma como avaliamos.
Sete milhões de pares vendidos num só ano
Parte do que torna este cenário urgente é a banalização dos dispositivos. Os óculos inteligentes deixaram de ser um gadget de nicho para se tornarem um produto de consumo em massa. A Meta lançou os primeiros óculos com IA em parceria com a Ray-Ban no final de 2023, e desde então multiplicou os modelos disponíveis. Segundo os dados financeiros da EssilorLuxottica, fabricante dos óculos em parceria com a Meta, foram vendidos mais de sete milhões de pares só em 2025 — mais do triplo do que nos dois anos anteriores combinados. Com a Apple, a Google e a Samsung a prepararem os seus próprios modelos, a tendência é de crescimento acelerado.
O que distingue a nova geração de óculos inteligentes é precisamente aquilo que os torna perigosos em contexto de exame: são cada vez mais finos, mais discretos, praticamente indistinguíveis de óculos convencionais. Integram modelos de IA capazes de funcionar de forma autónoma com conectividade, incorporam câmaras quase invisíveis, microfones e, em alguns modelos, ecrãs que projetam informação visível apenas para quem os usa.
Thomas Corbin, investigador na Deakin University, na Austrália, que tem estudado a utilização de óculos com IA e outros dispositivos inteligentes na avaliação académica, colocou a questão de forma contundente: a IA vestível representa para os exames um desafio tão profundo quanto o ChatGPT representou para os ensaios escritos em 2022. E duvida que seja possível manter práticas de exame fiáveis daqui em diante.
Corbin acrescentou ainda uma nota que deveria preocupar todos os responsáveis educativos: se estamos a ver alguns casos reportados, é porque há muitos mais que não estão a ser detetados.
Portugal: vigilância do século passado para tecnologia do século XXI
O problema não é exclusivamente asiático, nem sequer distante. Em Portugal, a preocupação com a utilização de tecnologia sofisticada durante os exames nacionais ganhou expressão pública precisamente durante a primeira fase de exames de 2026. Em entrevista ao podcast Lusa Extra, publicada a 19 de junho, Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), foi inequívoco na denúncia: a forma como se vigiam os alunos nas salas de exame é, nas suas palavras, igual à do século passado.
Filinto Lima recordou que, embora os telemóveis, relógios inteligentes e outros equipamentos de comunicação eletrónica estejam proibidos nas salas de exame, existem hoje dispositivos «quase impercetíveis» que escapam à vigilância humana. Enumerou brincos com sistemas de comunicação, canetas inteligentes com acesso a inteligência artificial e óculos inteligentes que permitem aos alunos ler respostas geradas em tempo real para as questões que estão a resolver. O presidente da ANDAEP não tinha, à data, conhecimento de casos concretos de fraude tecnológica nesta primeira fase de exames, mas sublinhou que alguns países europeus já tomaram medidas preventivas — em Espanha, por exemplo, são utilizados detetores eletrónicos à entrada das salas de exame.
A preocupação é particularmente aguda num sistema como o português, em que diferenças mínimas nas classificações podem determinar o acesso ao ensino superior. Num ano em que 166 339 alunos estão inscritos nos exames nacionais do secundário — dos quais 93 596 manifestaram intenção de prosseguir estudos no ensino superior — qualquer vantagem ilícita obtida por um aluno que recorra a estes dispositivos traduz-se numa injustiça direta para todos os outros.
O Reino Unido dá o alarme
Portugal e a Ásia não estão sozinhos nesta preocupação. No Reino Unido, Sir Ian Bauckham, responsável máximo da Ofqual — a entidade reguladora dos exames em Inglaterra — alertou, no início de junho de 2026, para a ameaça crescente que os óculos inteligentes e outros dispositivos conectados representam para a integridade dos exames. No primeiro episódio do podcast institucional da Ofqual, Can I Just Qualify That?, Bauckham foi direto: os reguladores precisam de se mover depressa, porque a tecnologia move-se depressa. E antecipou um cenário em que óculos inteligentes poderão projetar texto no interior das lentes, visível apenas para o aluno, tornando a deteção virtualmente impossível.
Os números corroboram o alerta. Segundo os dados da Ofqual, as infrações envolvendo telemóveis e dispositivos inteligentes representaram 2 225 casos de má conduta na série de exames do verão de 2025 — 44,3% do total. É a categoria de fraude mais comum em todas as séries de exames de verão desde 2018. E estamos ainda a falar de dispositivos relativamente fáceis de detetar. Quando os óculos inteligentes se tornarem indistinguíveis dos óculos graduados comuns, o problema adquirirá uma dimensão inteiramente nova.
Nos Estados Unidos, o College Board — responsável pelos exames SAT — proibiu o uso de óculos inteligentes nos testes a partir de março de 2026, numa medida preventiva que reconhece explicitamente a ameaça.
Não se trata de proibir a tecnologia, mas de repensar a avaliação
É neste ponto que o debate se torna verdadeiramente relevante para professores, escolas e decisores políticos. A resposta instintiva — proibir, rastrear, vigiar — é compreensível mas insuficiente, e talvez mesmo fútil a médio prazo. A história recente mostra que cada medida de restrição gera uma contra-resposta tecnológica: proíbem-se os telemóveis e surgem os relógios inteligentes; proíbem-se os relógios e surgem as canetas com IA; proíbem-se as canetas e surgem os óculos. A corrida armamentista entre vigilância e tecnologia é uma corrida que a escola não pode ganhar — pelo menos não sozinha, e não com as ferramentas de que dispõe.
Kong Siu Cheung, professor e diretor do Centro de Educação em IA e Competências Digitais da Universidade de Educação de Hong Kong, oferece uma perspetiva diferente e, porventura, mais construtiva. Na sua visão, o poder da IA não deve ser razão para desencorajar o seu uso. Em vez disso, os sistemas educativos devem concentrar-se no desenvolvimento das capacidades de pensamento e de metacognição dos alunos, precisamente para prevenir a dependência excessiva da inteligência artificial. A ideia central é clara: devemos usar a tecnologia, devemos usar a IA, mas não devemos externalizar a nossa capacidade de pensar.
Esta perspetiva abre caminho para uma reflexão mais profunda sobre o modelo de avaliação. Se um par de óculos inteligentes consegue ficar entre os cinco melhores alunos de uma turma de engenharia — respondendo a perguntas que testam sobretudo a memorização e a reprodução de conteúdos — então talvez o problema não esteja apenas nos óculos. Talvez esteja no tipo de perguntas que fazemos, no tipo de conhecimento que valorizamos e na forma como concebemos a própria ideia de exame.
A experiência da HKUST não prova que os exames são inúteis. Prova, isso sim, que um certo tipo de exame — aquele que privilegia a reprodução de informação sobre a sua compreensão, análise e aplicação crítica — está cada vez mais vulnerável à obsolescência tecnológica. Repensar a avaliação não significa abandonar o rigor; significa redirecionar esse rigor para competências que a inteligência artificial não consegue, pelo menos por agora, replicar: o pensamento crítico, a argumentação fundamentada, a resolução criativa de problemas, a capacidade de formular perguntas — e não apenas de responder a elas.
O que pode a escola portuguesa fazer agora?
A transição para novos modelos de avaliação é um processo complexo, que exige tempo, formação e investimento institucional. Mas há passos que podem ser dados desde já, sem esperar por grandes reformas sistémicas.
O primeiro é reconhecer o problema. Fingir que a IA vestível não chegará às escolas portuguesas é ignorar uma realidade que já está a bater à porta — os diretores escolares já o dizem publicamente. O segundo é abrir o debate dentro das escolas e dos departamentos disciplinares sobre o que realmente se pretende avaliar e se os instrumentos atuais medem o que dizem medir. O terceiro é experimentar formatos alternativos de avaliação: provas orais, projetos com defesa presencial, portefólios com reflexão metacognitiva, avaliações processuais que valorizem o percurso tanto quanto o produto.
Nenhuma destas soluções é perfeita. Todas exigem mais tempo, mais recursos e mais formação. Mas a alternativa — continuar a avaliar como no século passado e esperar que a tecnologia do século XXI não entre nas salas de exame — não é uma opção. É apenas uma questão de tempo até que deixe de funcionar de todo.
Para trabalhar em sala de aula
Uma atividade possível para o ensino secundário, transversal a várias disciplinas, consiste em organizar um debate estruturado em torno da seguinte questão: «Devem os exames ser redesenhados para um mundo com inteligência artificial?». O professor pode começar por apresentar à turma o caso da experiência realizada na HKUST — óculos inteligentes que obtiveram uma classificação entre as cinco melhores de uma turma de mais de cem alunos num exame universitário — e pedir aos alunos que, em pequenos grupos, investiguem e preparem argumentos para duas posições distintas: a de que os exames tradicionais continuam a ser a forma mais justa de avaliação, e a de que precisam de ser fundamentalmente repensados. Cada grupo deverá identificar pelo menos duas fontes credíveis para sustentar os seus argumentos, sintetizar as posições adversárias e preparar uma réplica. O debate pode ser seguido de uma reflexão escrita individual em que cada aluno explicite a sua posição pessoal fundamentada, distinguindo-a da posição que defendeu no debate. Esta atividade mobiliza competências de pesquisa, argumentação, pensamento crítico e metacognição — precisamente as competências que nenhum par de óculos inteligentes consegue substituir.
Nota de transparência: Este artigo foi elaborado a partir da reportagem publicada pela CNN a 26 de junho de 2026, da entrevista de Filinto Lima ao podcast Lusa Extra (publicada pelo Diário de Notícias a 19 de junho de 2026), do comunicado da Ofqual de junho de 2026, e de dados financeiros da EssilorLuxottica relativos a 2025. Todos os dados quantitativos são verificáveis nas fontes indicadas. A transposição para o contexto português baseia-se em declarações públicas de responsáveis educativos nacionais e em dados do sistema de exames nacionais. Nível de confiança: alto para os factos reportados; a análise editorial sobre o futuro da avaliação reflete a posição do autor, sustentada nas fontes citadas.
Referências
Liu, J. (2026, 26 de junho). AI glasses are aiding cheating in exams. Test-obsessed Asia is ground zero. CNN. https://www.cnn.com/2026/06/26/asia/ai-glasses-cheating-exams-intl-hnk
DN/Lusa. (2026, 19 de junho). Diretores escolares pedem novas técnicas de vigilância nos exames para detetar tecnologias usadas por alunos. Diário de Notícias. https://www.dn.pt/sociedade/diretores-escolares-pedem-novas-tcnicas-de-vigilncia-nos-exames-para-detetar-tecnologias-usadas-por-alunos
Ofqual. (2026, 4 de junho). Cheating in exams with high-tech smart devices poses growing threat, warns Ofqual chief in new podcast. GOV.UK. https://www.gov.uk/government/news/cheating-in-exams-with-high-tech-smart-devices-poses-growing-threat-warns-ofqual-chief-in-new-podcast
EssilorLuxottica. (2026, fevereiro). Q4 2025 financial results [Comunicado de resultados]. Conforme reportado por Lang, B. (2026, 12 de fevereiro). Meta sold over 7 million smart glasses last year, effectively tripling sales in 2025 alone. Road to VR. https://roadtovr.com/meta-ray-ban-smart-glasses-sales-tripled-2025/
Ekonomista. (2026, junho). Exames nacionais 2026: o guia completo com o que levar e com o que é proibido. e-konomista.pt. https://www.e-konomista.pt/exames-nacionais-guia/


